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Amor de infância...

Anatomia do Desejo e Promessas de Prata

O sábado amanheceu com uma luz preguiçosa filtrando-se pelas cortinas de seda do quarto de Charlotte. O apartamento, que muitas vezes parecia um santuário isolado do resto do mundo, estava imerso em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som da respiração suave de Phalo, o coelho, dormindo em seu cercado de luxo.

Charlotte estava sentada no tapete felpudo, cercada por blocos de desenho, grafites de diferentes graduações e carvão. Ela tinha um projeto importante para o curso de Artes: um estudo detalhado de anatomia humana, focando em musculatura e expressão corporal. Seus olhos castanhos brilharam com uma ideia travessa enquanto observava as duas mulheres que eram seu mundo.

— P’Fa... P’Faye... — Charlotte chamou, sua voz doce carregada de uma intenção que as duas conheciam bem.

Engfa, que estava concentrada em limpar suas luvas de muay-thai, levantou os olhos escuros por trás dos óculos. Faye, jogada no sofá com Sunny no colo, parou de mexer no celular e arqueou uma sobrancelha ruiva.

— Lá vem — Faye brincou, sorrindo. — O que nossa pequena rainha deseja agora? Quer que a gente busque a lua ou apenas que eu vá comprar mais daqueles chocolates importados?

— Na verdade — Charlotte começou, mordendo o lábio inferior —, eu preciso de modelos. Modelos vivos. Para o meu trabalho de anatomia.

Engfa congelou por um segundo. A ideia de ficar imóvel, sendo observada milimetricamente pelos olhos atentos de Charlotte, enviou uma onda de calor incomum para suas bochechas.

— Modelos? — Engfa repetiu, a voz falhando levemente. — Char, você sabe que eu não sou boa em ficar parada. E... anatomia? Você quer dizer que temos que...

— Ficar sem camisa, sim — Charlotte completou com naturalidade, embora houvesse um brilho de diversão em seu olhar. — Preciso desenhar a definição dos músculos, a estrutura dos ombros, as linhas do pescoço. E ninguém tem uma estrutura melhor que a de vocês.

Faye não hesitou. Com um movimento fluido e uma risada audaciosa, ela se levantou e começou a desabotoar a camisa de seda preta que usava.

— Por mim, tudo bem. Eu adoro ser apreciada, especialmente por você, Char — Faye disse, deixando a camisa cair no chão e revelando a pele clara, os ombros definidos e as tatuagens sutis que adornavam seu corpo. Ela se posicionou de forma dramática, o corte na bochecha dando-lhe um ar ainda mais rebelde. — Pode começar por aqui.

Engfa, por outro lado, parecia querer se fundir ao sofá. A possessividade dela geralmente se manifestava em ação, em luta, em proteção física. Ser o objeto de um estudo artístico era uma vulnerabilidade que a deixava desarmada.

— P’Fa — Charlotte se aproximou, ajoelhando-se na frente de Engfa e segurando suas mãos bandadas. — Por favor? Eu prometo que serei rápida. Além disso, eu amo o modo como seus músculos se movem quando você treina. Quero capturar isso no papel.

Engfa suspirou, derrotada pela doçura da mais nova. Lentamente, ela tirou a regata cinza, revelando o tronco forte, marcado por anos de treino intenso e algumas cicatrizes de brigas de rua. O corte no canto de sua boca parecia mais vívido sob a luz do sol.

— Só porque é para o seu curso — Engfa murmurou, evitando o olhar divertido de Faye.

As horas seguintes foram preenchidas pelo som do grafite arranhando o papel e pelas provocações constantes de Faye.

— Olha só como a Fa está ficando vermelha, Char — Faye dizia, mudando de pose para mostrar as linhas das costas. — Ela está com vergonha de ser sua musa.

— Cala a boca, Faye — Engfa retrucou, tentando manter a postura rígida, embora seus olhos estivessem fixos em Charlotte com uma adoração óbvia.

Charlotte trabalhava com uma concentração admirável. Ela desenhou a força bruta de Engfa, a tensão nos braços e a seriedade nos olhos. Depois, capturou a fluidez de Faye, a arrogância charmosa e a elegância de seus movimentos. Para Charlotte, não era apenas um exercício acadêmico; era uma forma de mapear cada centímetro das pessoas que a mantinham segura.

A manhã de domingo chegou com uma energia diferente. Engfa, sempre a mais disciplinada, acordou cedo. O sol mal havia cruzado o horizonte quando ela já estava calçando seus tênis de corrida.

— Vamos, garotos — Engfa chamou em um sussurro, para não acordar as outras duas.

Kiew, seu vira-lata leal, levantou-se prontamente. Sunny, o cachorro de Faye, deu um pulo entusiasmado, latindo baixo. Sunny era a personificação de sua dona: imperativo, barulhento e sempre querendo ser o centro das atenções. Até Phalo, o coelho, parecia curioso, embora Engfa apenas o tenha colocado em um cercado seguro no jardim para que ele pudesse sentir a grama matinal.

A corrida foi revigorante. Engfa usava o exercício para processar seus pensamentos. A obsessão que sentia por Charlotte e a conexão intensa que tinha com Faye eram fios que se entrelaçavam de forma complexa em sua mente. Ela sabia que eram disfuncionais para os padrões do mundo, mas o mundo nunca tinha sido gentil com elas. A proteção era a única moeda que conheciam.

Sunny corria à frente, puxando a guia com uma força surpreendente para o seu tamanho, enquanto Kiew mantinha um trote constante ao lado de Engfa.

— Calma, Sunny! Você é igualzinha à sua mãe, não tem um pingo de paciência — Engfa resmungou, embora houvesse um sorriso em seu rosto.

No caminho de volta, ela parou na padaria favorita de Charlotte e comprou pães frescos, croissants e, claro, uma caixa generosa de morangos orgânicos.

Ao entrar em casa, o cenário que encontrou a fez parar por um momento. Charlotte e Faye ainda estavam dormindo no sofá da sala. Faye tinha o braço jogado protetoramente sobre a cintura de Charlotte, e a cabeça da mais nova estava aninhada no ombro da ruiva. Era uma imagem de paz que Engfa raramente via, desprovida da tensão e do cinismo que costumavam carregar.

Engfa deixou as sacolas na cozinha e aproximou-se em silêncio. Ela se inclinou e beijou a testa de Charlotte, e depois a bochecha de Faye.

— Acordem, dorminhocas — ela disse suavemente. — O café está na mesa.

Faye abriu um olho, resmungando algo sobre o sol estar forte demais, enquanto Charlotte espreguiçou-se como um gato, sorrindo ao sentir o cheiro de café fresco.

— Você demorou, Fa — murmurou Charlotte, sentando-se e esfregando os olhos.

— O Sunny decidiu que queria perseguir todos os esquilos do parque — Engfa respondeu, começando a servir a mesa. — Tenho um aviso para dar. Hoje à noite tenho um jantar de família. Meu pai insiste que eu apareça para discutir alguns negócios da família Waraha. Não vou poder dormir aqui.

O clima na mesa mudou instantaneamente. Charlotte parou com o croissant no meio do caminho, e Faye endureceu os ombros.

— Jantar de família? — Faye perguntou, o tom sarcástico voltando. — Aqueles jantares onde todos fingem que não se odeiam enquanto discutem quem vai herdar o quê?

— Exatamente — Engfa suspirou, limpando os óculos. — Eu odeio, mas é necessário para manter as aparências e garantir que o fluxo de dinheiro que sustenta nossos "luxos" continue sem interrupções.

— Não gosto disso — Charlotte disse, sua voz ficando pequena. — Você sempre volta desses jantares de mau humor e com vontade de socar alguém.

— Eu vou cuidar dela, Fa — Faye interveio, esticando a mão para apertar o ombro de Engfa. — Pode ir tranquila. Ninguém chega perto da nossa coelhinha enquanto eu estiver de guarda.

— Eu sei me cuidar, Faye! — Charlotte protestou, embora sem muita convicção. — Eu não sou uma criança.

— Nós sabemos que você é forte, Char — Engfa disse, contornando a mesa para ficar atrás dela e abraçá-la. — Mas o mundo lá fora não merece sua força. Deixe que a gente lide com a parte feia das coisas.

A tarde passou rápido demais entre risadas, Phalo correndo pela sala e Sunny tentando roubar os pedaços de morango de Charlotte. Quando a noite começou a cair, o clima de despedida tornou-se tangível. Engfa já estava vestida com um terno preto impecável, o cabelo castanho-escuro perfeitamente alinhado, parecendo a herdeira séria e intimidadora que sua família exigia que fosse.

— Espera, Fa! — Charlotte chamou quando Engfa estava prestes a pegar as chaves do carro.

Ela e Faye trocaram um olhar cúmplice e correram para o quarto, voltando momentos depois com algo escondido nas mãos.

— O que é isso? — Engfa perguntou, curiosa.

— Como você vai estar longe da gente hoje, decidimos que você precisa levar algo nosso — Faye explicou, perdendo um pouco da sua pose de durona.

Charlotte abriu a mão, revelando dois anéis de prata, feitos de forma artesanal. Eles tinham marcas rústicas, como se tivessem sido moldados com esforço e cuidado manual.

— Nós mesmas fizemos — Charlotte disse, orgulhosa. — Usamos um kit de ourivesaria que comprei para o meu projeto de escultura. Não são perfeitos como os das joalherias, mas...

— São únicos — Faye completou.

Charlotte pegou a mão direita de Engfa e deslizou um dos anéis no dedo anelar. O metal estava frio, mas o gesto era carregado de calor.

— Este é meu — Charlotte sussurrou. — Para você lembrar que tem um lugar seguro para voltar.

Faye pegou a mão esquerda de Engfa e colocou o outro anel.

— E este é meu — Faye disse, seus olhos vermelhos brilhando com uma intensidade possessiva. — Para você lembrar que, se alguém te irritar nesse jantar, você tem uma cúmplice esperando para queimar o mundo ao seu lado.

Engfa olhou para as mãos, sentindo o peso simbólico daquelas peças de prata. Ela sentiu um nó na garganta, algo que raramente acontecia. Aqueles anéis eram mais valiosos do que qualquer herança que seu pai pudesse oferecer.

— Eu... eu nem sei o que dizer — Engfa admitiu, puxando as duas para um abraço apertado. — Eu vou usar isso o tempo todo.

— É bom mesmo — Faye brincou, embora estivesse apertando a cintura de Engfa com força. — Se eu vir você sem ele, vou considerar uma traição de Estado.

— Prometo que volto logo de manhã — Engfa disse, beijando Charlotte demoradamente e depois dando um selinho rápido e intenso em Faye. — Tranquem as portas. Não abram para ninguém. Se o entregador de comida chegar, Faye, você vai buscar com o Sunny na coleira.

— Sim, senhora general — Faye saudou ironicamente, mas seus olhos mostravam que ela levaria a ordem a sério.

Engfa saiu do apartamento, o som de seus passos ecoando no corredor. Ao entrar no elevador, ela olhou para seus dedos. Os anéis de prata brilhavam sob a luz artificial, um lembrete constante de que ela não era apenas uma Waraha, uma lutadora de rua ou uma herdeira.

Ela era a propriedade de Charlotte e Faye, assim como elas eram dela. E, naquele mundo de obsessão e proteção, esse era o único título que realmente importava.

Enquanto o carro de Engfa se afastava, no apartamento, Faye abraçava Charlotte por trás, observando a cidade pela janela.

— Ela vai ficar bem, Char — Faye sussurrou.

— Eu sei — Charlotte respondeu, segurando os braços de Faye. — Mas a casa parece vazia sem ela, não parece?

— Parece. Mas amanhã ela volta. E até lá, você é toda minha.

Faye beijou o pescoço de Charlotte, e o silêncio do apartamento foi preenchido por uma promessa silenciosa de que, não importa o quão perigoso o mundo fosse, elas sempre teriam aquele refúgio de prata e obsessão.