Amor de infância...
Sinfonia de Prata, Pimenta e Cetim
— Se eu soubesse que você ficava tão perigosamente atraente nesse terno, teria ateado fogo na cozinha muito antes, só para te forçar a voltar para casa mais cedo — comentou Faye, encostada no batente da porta da cozinha, observando cada movimento de Engfa.
Engfa soltou um riso rouco, sem desviar os olhos da panela onde finalizava um risoto de aspargos com um aroma que parecia flutuar pelo apartamento. Ela já havia retirado o paletó, jogando-o em qualquer canto, e agora estava apenas com a camisa social branca com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando as veias saltadas e as bandagens rústicas que protegiam suas mãos de lutadora. Os óculos de grau escorregavam levemente pelo nariz, dando-lhe um ar intelectual que contrastava com o corte ainda visível no canto da boca.
— Deixe de ser exagerada, Faye — disse Engfa, mexendo o arroz com uma precisão quase cirúrgica. — E tire o Sunny de perto do lixo, ele ainda está com cheiro de extintor de incêndio.
Charlotte, que estava sentada na bancada balançando as pernas e saboreando um dos morangos que Engfa trouxera, soltou um suspiro de admiração. Seus olhos castanhos brilhavam enquanto seguiam a silhueta da namorada mais velha.
— A Faye tem razão, Fa — Charlotte murmurou, a voz doce e carregada de uma malícia inocente. — Você tem essa aparência de nerd tímida e idiota, mas... é uma nerd muito sexy. Especialmente quando está mandona e cozinhando como se fosse uma chef de hotel cinco estrelas.
Engfa parou por um segundo, sentindo o rosto esquentar. Ela olhou para as duas — Faye com seu sorriso ladino e cabelos vermelhos bagunçados, e Charlotte, a personificação da doçura provocante.
— Uma nerd sexy, é? — Engfa arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo voltando à voz. — Acho que o pó químico do extintor afetou o cérebro de vocês.
— Não afetou nada — Faye se aproximou, deslizando as mãos pela cintura de Engfa por trás, ignorando o fato de que ela estava ocupada. — É a verdade. Você é a nossa nerd possessiva favorita. Agora, termine logo esse banquete, porque a minha fome não é apenas de comida.
O jantar foi um evento à parte. Engfa, apesar da impulsividade e das brigas de rua, possuía um talento nato para o cuidado doméstico quando se tratava de Charlotte e Faye. Elas comeram entre risadas e fofocas sobre o desastre na mansão Waraha, celebrando a pequena vitória de Engfa sobre a futilidade de sua família.
Quando terminaram, o cansaço do dia começou a pesar sobre os ombros de Engfa. O estresse do jantar familiar e a adrenalina de quase ver sua casa em chamas a deixaram exausta.
— Eu só quero um banho e doze horas de sono — Engfa anunciou, levantando-se e começando a recolher os pratos.
— Ah, nem pensar! — Charlotte pulou da cadeira, agarrando o braço de Engfa. — Nós sobrevivemos a um incêndio e você sobreviveu aos Waraha. Isso pede uma comemoração de verdade.
— Char, eu estou morta — Engfa protestou, mas já sabia que estava perdendo a batalha.
— Festa do pijama! — Faye exclamou, batendo palmas e fazendo Sunny latir em aprovação. — Comida, brincadeiras, fofocas e... talvez algo mais. Vamos, Fa! Não seja uma velha rabugenta aos vinte e dois anos.
— Eu não sou velha — Engfa resmungou, mas o sorriso de Charlotte, aquele biquinho irresistível que ela sempre fazia quando queria algo, foi o golpe final. — Tudo bem. Mas se eu dormir no meio da brincadeira, não reclamem.
Em menos de vinte minutos, a sala estava transformada. Colchões e mantas de cetim foram espalhados pelo chão, Phalo foi colocado em um cercado próximo para "participar" da festa, e as três trocaram de roupa. Engfa usava apenas uma calça de moletom larga e uma camiseta preta gasta; Charlotte estava adorável em um pijama de seda rosa claro; e Faye, fiel ao seu estilo, usava uma camisa de botão curta e larga que deixava suas pernas longas à mostra.
— Primeira regra da festa do pijama: fofoca pesada — Faye iniciou, sentando-se de pernas cruzadas e abrindo um pote de sorvete. — Fa, conte mais sobre a cara daquela lambisgoia da Chompu quando o vinho atingiu o vestido dela.
Engfa se acomodou entre as duas, sentindo o calor dos corpos de suas namoradas. Ela narrou os detalhes com um sarcasmo ácido que arrancou gargalhadas de Charlotte. A noite fluía leve, o trauma do início da noite sendo substituído pelo conforto daquela bolha de exclusividade. Elas eram obcecadas umas pelas outras, e momentos como aquele eram o que mantinha a sanidade de Engfa e Faye em meio ao caos que elas mesmas criavam lá fora.
— Chega de fofoca — disse Charlotte, pegando uma garrafa vazia de vinho que estava sobre a mesa de centro. — Vamos jogar Verdade ou Desafio.
— Isso sempre termina em confusão — Engfa alertou, ajustando os óculos.
— Ou em diversão — Faye piscou, girando a garrafa antes que Engfa pudesse protestar.
A garrafa girou no tapete, parando com a ponta apontada para Faye e a base para Charlotte.
— Verdade ou desafio, P’Faye? — Charlotte perguntou, um brilho travesso nos olhos.
— Desafio, é claro. Eu não tenho medo de nada que venha de você, bonequinha.
— Eu desafio você a... passar o resto da noite sem usar as mãos para tocar em mim ou na P’Fa. Apenas beijos e palavras — Charlotte propôs, sabendo o quanto Faye era tátil e possessiva.
Faye bufou, fingindo indignação.
— Isso é tortura! Fa, olha o que ela está fazendo comigo!
— Eu achei brilhante — Engfa riu, recostando-se nas almofadas. — Finalmente um pouco de paz dos seus beliscões.
A garrafa girou novamente. Desta vez, Faye perguntava para Engfa.
— Verdade ou desafio, minha nerd sexy?
Engfa hesitou. Ela conhecia o olhar de Faye.
— Verdade.
— É verdade que, quando você estava lá naquele jantar chique, você imaginou o que faria se alguém realmente tentasse levar a Charlotte embora de nós? O que passou pela sua cabeça de verdade?
O clima na sala mudou instantaneamente. A brincadeira deu lugar àquela intensidade sombria que as três compartilhavam. Engfa olhou para Charlotte, que aguardava a resposta com os lábios entreabertos.
— Eu não imaginei — Engfa disse, a voz baixando um tom, ficando rouca e perigosa. — Eu senti. O meu primeiro instinto foi pensar em onde eu esconderia o corpo e como eu garantiria que ninguém nunca encontrasse nem um fio de cabelo de quem ousasse tocar na Char. A verdade é que eu não vejo um mundo onde ela não esteja trancada com a gente.
Charlotte estremeceu, mas não de medo. Era um arrepio de pertencimento. Ela adorava a forma como as duas a cercavam, como se ela fosse uma joia preciosa que o mundo não era digno de ver.
— Minha vez — Charlotte disse, girando a garrafa rapidamente para quebrar a tensão, mas o destino foi irônico: a garrafa parou entre Engfa e ela. — P’Fa... verdade ou desafio?
Engfa olhou para Charlotte, vendo a vulnerabilidade e o desejo misturados em seu rosto.
— Desafio.
Charlotte se aproximou, engatinhando pelo colchão até ficar cara a cara com Engfa. O cheiro de baunilha de Charlotte envolveu os sentidos de Engfa.
— Eu desafio você a mostrar para a Faye o que você queria fazer comigo no jardim hoje cedo, antes de ela nos interromper.
Faye soltou um assobio baixo, recostando-se e cruzando os braços atrás da cabeça, observando com um sorriso predatório.
— Oh, isso eu quero ver. Sem mãos, lembram? Eu só assisto.
Engfa não precisou de um segundo convite. Ela segurou o rosto de Charlotte com as mãos enfaixadas, os dedos traçando a linha da mandíbula da mais nova com uma possessividade latente. Ela se inclinou, mas não beijou os lábios de Charlotte de imediato. Em vez disso, começou pelo pescoço, depositando beijos lentos e quentes, sentindo o pulso de Charlotte acelerar sob sua pele.
— Eu queria marcar você — Engfa sussurrou contra a pele de Charlotte, sua voz vibrando. — Queria que todos vissem que você tem dona antes mesmo de você abrir a boca.
Charlotte soltou um gemido baixo, inclinando a cabeça para trás. Engfa subiu para o lóbulo da orelha, mordendo-o levemente, enquanto suas mãos desciam para a cintura de Charlotte, puxando-a para mais perto, até que não houvesse espaço entre elas.
Faye observava tudo, a respiração ficando pesada. Ela estava proibida de usar as mãos, mas seus olhos devoravam cada movimento.
— Você é tão lenta, Fa — Faye provocou, a voz carregada de desejo. — Vai deixá-la esperando para sempre?
Engfa finalmente capturou os lábios de Charlotte em um beijo profundo, carregado de toda a frustração e proteção do dia. Era um beijo que falava de propriedade, de amor obsessivo e de uma necessidade que beirava oentimento selvagem. Charlotte se entregou totalmente, suas mãos emaranhando-se no cabelo castanho-escuro de Engfa, puxando-a para mais perto.
Quando se separaram, ambas estavam ofegantes. Engfa olhou para Faye, que parecia estar prestes a explodir de frustração por causa do desafio de "não tocar".
— Satisfeita, Faye? — Engfa perguntou, um sorriso vitorioso nos lábios.
— Nem um pouco — Faye respondeu, os olhos brilhando. — Charlotte, eu retiro o que disse sobre você ser doce. Você é um pequeno demônio por me fazer apenas olhar.
Charlotte riu, voltando para o colo de Faye, provocando-a ao roçar o corpo contra o dela, sabendo que a ruiva não podia retribuir o toque.
— É uma festa do pijama, Faye. Temos a noite toda.
O jogo continuou, e a cada rodada, o clima no apartamento ficava mais denso. O que começou como uma brincadeira de infância transformou-se em uma exploração dos desejos mais profundos das três. Engfa perdeu o cansaço, substituído por uma energia elétrica que só Charlotte e Faye conseguiam despertar nela.
— Minha vez de novo — Faye disse, sua voz agora um sussurro rouco. — Fa, verdade ou desafio?
— Desafio — Engfa respondeu prontamente. Ela estava gostando do controle que o jogo lhe dava.
— Eu desafio você a tirar os óculos, apagar as luzes principais e nos levar para o quarto. Mas... você tem que nos carregar. Uma de cada vez.
Engfa sorriu, retirando os óculos e deixando-os sobre a mesa. Sem o acessório, seu olhar parecia ainda mais intenso, mais cru. Ela se levantou, a musculatura dos braços e costas se contraindo sob a camiseta preta.
— Com prazer.
Ela pegou Charlotte primeiro, levantando-a como se ela não pesasse nada. Charlotte enlaçou as pernas na cintura de Engfa, escondendo o rosto em seu pescoço. Engfa a levou para o quarto principal, depositando-a com delicadeza sobre os lençóis de cetim escuro.
Depois, voltou para a sala. Faye estava esperando, de pé, com um olhar de desafio.
— Você acha que aguenta o caos, Fa? — Faye perguntou, arqueando a sobrancelha.
Engfa não respondeu com palavras. Ela envolveu Faye e a ergueu nos braços com uma força bruta que fez a ruiva soltar uma exclamação de surpresa.
— Eu aguento qualquer coisa que venha de você, Faye Peraya.
No quarto, a luz era apenas a da lua filtrada pelas cortinas. As três se acomodaram na cama king-size, um emaranhado de pernas, braços e respirações curtas. A possessividade que as definia durante o dia transformava-se, à noite, em um vínculo inquebrável de entrega.
— Prometam — Charlotte sussurrou, deitada entre as duas, sentindo a mão de Engfa em seu cabelo e a de Faye em sua cintura (o desafio das mãos já havia sido esquecido há muito tempo). — Prometam que nunca vão deixar ninguém entrar no nosso mundo.
Engfa se inclinou, beijando a testa de Charlotte com uma solenidade quase religiosa.
— Eu quebraria cada osso de quem tentasse, coelhinha. Você sabe disso.
— E eu ajudaria a esconder as evidências — Faye completou, beijando a bochecha de Charlotte. — Nós somos o início e o fim uma da outra. O resto é apenas ruído.
O silêncio caiu sobre o quarto, mas não era um silêncio vazio. Era preenchido pelo som dos corações batendo em uníssono e pela certeza de que, naquele ninho de obsessão, elas estavam seguras. Engfa sentiu o peso dos anéis de prata em seus dedos enquanto abraçava suas duas metades.
Ela havia começado o dia enfrentando os fantasmas de seu passado e a frieza de sua família, mas terminava da melhor forma possível: sendo a âncora de Charlotte e o porto seguro de Faye.
— Eu amo vocês — Engfa murmurou, quase pegando no sono.
— Nós também, nossa nerd sexy — Faye respondeu com um sorriso sonolento.
Charlotte não disse nada, apenas apertou as mãos das duas contra o peito, fechando os olhos com a certeza de que, enquanto Engfa e Faye estivessem ali, o mundo lá fora nunca poderia alcançá-la. E, para Charlotte Austin, esse era o único paraíso que ela algum dia desejaria habitar.
A noite avançou, e sob o brilho prateado da lua, as três guardiãs do próprio caos finalmente descansaram, prontas para enfrentar qualquer um que ousasse desafiar a exclusividade daquele amor sombrio e absoluto.