Amor de infância...
Sombras de Prata e o Gosto do Vinho
A mansão da família Waraha era um monumento à frieza e à ostentação. Paredes de mármore branco, lustres de cristal que pareciam garras de gelo pendendo do teto e um silêncio opressor que só era quebrado pelo som metálico dos talheres de prata. Engfa caminhava pelos corredores com uma postura rígida, o terno preto ajustado ao seu corpo atlético, escondendo as bandagens que sempre levava sob os punhos da camisa. No entanto, algo brilhava com uma luz própria em suas mãos: os dois anéis de prata, rústicos e imperfeitos, que contrastavam violentamente com o relógio de luxo em seu pulso.
Ao entrar na sala de jantar, sentiu o olhar pesado de seu pai. O Sr. Waraha não era um homem de palavras afetuosas; ele era um estrategista que via a filha como uma extensão de seu poder.
— Você está atrasada, Engfa — disse ele, sem levantar os olhos da taça de vinho. — E o que é isso nos seus dedos? Joias de camelô?
Engfa sentou-se à mesa, ajustando os óculos com um movimento lento. Ela olhou para os anéis e sentiu um calor reconfortante percorrer seu peito, pensando no momento em que as mãos de Charlotte e Faye tocaram as suas.
— São presentes — respondeu Engfa, a voz fria e cortante. — Têm mais valor do que qualquer coisa nesta sala.
O pai bufou, mas antes que pudesse retrucar, a porta se abriu com um estrondo alegre que não combinava com o ambiente. Chompu, a filha de um dos sócios mais influentes do Sr. Waraha, entrou na sala exalando um perfume enjoativo de rosas. Ela era o tipo de pessoa que Engfa mais desprezava: fútil, invasiva e acostumada a ter tudo o que queria.
— P’Fa! — Chompu exclamou, correndo em direção a Engfa com os braços abertos para um abraço. — Senti tanto a sua falta! Você sumiu da cidade!
Engfa reagiu por instinto. Antes que a garota pudesse encostar nela, Engfa levantou a mão e deu um passo para trás, mantendo uma distância gélida. O movimento foi tão brusco que Chompu parou no meio do caminho, confusa.
— Não toque em mim, Chompu — disse Engfa, o tom de voz carregado de um aviso perigoso. — A Charlotte e a Faye não gostariam nada disso. E o que elas não gostam, eu não permito.
Chompu cruzou os braços, fazendo um biquinho de desdém que fez o corte no canto da boca de Engfa latejar de irritação.
— Ah, por favor, Engfa! — Chompu riu, um som estridente que ecoou pelo mármore. — Você ainda anda com aquelas duas idiotas? Aquela garota mimada e a ruiva que parece ter saído de uma briga de gangue? Você é uma Waraha, deveria estar cercada de pessoas do seu nível, não de...
Antes que Chompu pudesse terminar a frase, o braço de Engfa se moveu com a precisão de um golpe de muay-thai. Ela não usou os punhos, mas sim a taça de vinho tinto que estava à sua frente. Com um movimento seco e calculado, o líquido escuro voou pelo ar, atingindo em cheio o vestido de seda branca de Chompu, manchando-o do peito até a bainha.
O grito de Chompu foi agudo. O Sr. Waraha levantou-se, indignado.
— Engfa! O que você pensa que está fazendo? — rugiu o pai.
— Eu disse para ela não terminar a frase — Engfa disse, calmamente, enquanto observava o vinho escorrer pelo tecido caro. — Ninguém chama as minhas garotas de idiotas. Na próxima vez, não vai ser vinho, vai ser o seu nariz que vai mudar de cor.
Enquanto a mansão Waraha mergulhava no caos de empregados correndo com toalhas e Chompu choramingando sobre seu vestido de grife, a quilômetros dali, o cenário era drasticamente diferente.
No apartamento das três, o caos era de outra natureza.
— Faye, você tem certeza de que o fogo deve ser dessa cor? — perguntou Charlotte, segurando uma espátula como se fosse uma arma de defesa pessoal.
— É fogo, Char! Fogo é laranja! — Faye respondeu, tentando virar um bife na frigideira com uma mão enquanto segurava Sunny pela coleira com a outra, já que o cachorro tentava pular no fogão. — A Engfa faz parecer tão fácil. É só jogar a carne e esperar, não é?
— Eu acho que a receita dizia "fogo médio", e isso aí parece uma forja de ferreiro — comentou Charlotte, tossindo um pouco por causa da fumaça que começava a subir. — Talvez devêssemos ter pedido pizza de novo.
— Não! — Faye exclamou, obstinada. — A Engfa sempre cuida da gente. Eu queria que, quando ela chegasse, tivesse uma janta digna de uma rainha esperando por ela. Eu sou o caos, mas até o caos sabe cozinhar... eu acho.
De repente, uma labareda mais alta saltou da frigideira quando Faye tentou adicionar um molho que, claramente, continha álcool demais.
— Faye! — Charlotte gritou, pulando para trás enquanto Phalo, em seu cercado, batia as patas traseiras em sinal de alerta.
— Calma! Eu cuido disso! — Faye pegou um pano de prato e, em vez de abafar o fogo, acabou batendo na chama, o que só espalhou algumas faíscas para a cortina próxima.
— Ai meu Deus, a cortina! — Charlotte correu para pegar um copo de água, enquanto o alarme de fumaça do prédio começava a apitar de forma ensurdecedora.
Na mansão Waraha, o celular de Engfa vibrou intensamente no bolso de seu terno. Ela estava no meio de um sermão de seu pai sobre "comportamento social e parcerias estratégicas", enquanto Chompu ainda soluçava em um canto. Ao ver que era uma ligação do condomínio, o coração de Engfa deu um salto.
— Com licença — disse Engfa, interrompendo o pai sem o menor respeito.
— Alô? — ela atendeu, a voz já carregada de ansiedade.
— Boa noite, Srta. Waraha — disse o porteiro do prédio. — O sensor de fumaça do seu andar foi acionado. Houve um chamado automático. Gostaria de saber se a senhorita deixou algo ligado ou se houve algum incidente.
Engfa nem terminou de ouvir. Ela desligou e imediatamente ligou para o número de Faye. Foram três toques que pareceram horas.
— Faye! O que está acontecendo? Onde está a Charlotte? — Engfa disparou assim que a ligação foi atendida, o som do alarme de fumaça audível ao fundo.
— Oi, Fa! — a voz de Faye veio ofegante, acompanhada de uma risada nervosa. — Então... sabe aquela receita de carne ao molho de vinho que você faz? Digamos que o vinho decidiu que queria ser um lança-chamas.
— Faye Peraya, se houver um arranhão na Charlotte... — Engfa começou, os dedos apertando o celular com tanta força que os anéis de prata deixaram marcas em sua pele.
— P’Fa! — A voz de Charlotte surgiu ao fundo, parecendo levemente divertida apesar do susto. — Estamos bem! A Faye conseguiu apagar o fogo com o extintor, mas... a cozinha está um pouco branca agora. E a cortina tem um design novo, meio chamuscado.
Engfa fechou os olhos, soltando um suspiro de alívio que quase a fez vacilar nas pernas.
— Vocês estão vivas? Sem queimaduras? — Engfa perguntou, a voz suavizando.
— Vivas e com muita fome — Faye respondeu. — E o Sunny está coberto de pó químico, ele parece um fantasma.
— Fiquem onde estão. Não toquem em mais nada. Eu vou terminar isso aqui e chego em trinta minutos — Engfa ordenou.
Ao desligar, ela se deparou com o olhar furioso de seu pai e o olhar de ódio de Chompu.
— Você não vai a lugar nenhum, Engfa — disse o Sr. Waraha. — O jantar nem começou.
— O jantar acabou no momento em que ela abriu a boca para falar das minhas garotas — Engfa disse, guardando o celular. — Minha casa quase pegou fogo e as pessoas que eu amo precisam de mim. Vocês que fiquem com a sua comida fria e suas conversas vazias.
Ela começou a caminhar em direção à saída, mas Chompu, em um último ato de desespero e petulância, correu e agarrou o braço de Engfa.
— Você vai mesmo nos deixar por causa daquelas vadias? Engfa, olha para mim! Eu sou o seu futuro, meu pai e o seu...
Engfa parou. O ar ao redor dela pareceu esfriar dez graus. Ela olhou para a mão de Chompu em seu braço e depois para o rosto da garota. Por um segundo, a impulsividade que a levava às brigas de rua brilhou em seus olhos. Ela queria gritar, queria quebrar algo, queria garantir que Chompu nunca mais ousasse pronunciar o nome de Charlotte ou Faye.
Mas então, sentiu o toque frio do anel de prata em seu dedo anelar. O anel que Charlotte havia moldado com as próprias mãos. O anel que representava um lugar seguro.
Engfa respirou fundo, recompondo-se. Ela não daria a Chompu o prazer de vê-la perder o controle total.
— Solte-me — disse Engfa, em um sussurro que foi mais assustador do que qualquer grito. — Você não é o meu futuro, Chompu. Você não é nada. O meu futuro está em um apartamento cheio de pó de extintor, com uma coelha, dois cachorros e duas mulheres que possuem cada pedaço da minha alma. Se você tocar em mim de novo, eu juro que o vinho vai ser a menor das suas preocupações.
Chompu recuou, aterrorizada pela frieza absoluta nos olhos de Engfa. Sem olhar para trás, a Waraha saiu da mansão, arrancando a gravata e jogando-a no gramado enquanto entrava em seu carro.
O trajeto de volta foi feito em tempo recorde. Quando Engfa finalmente abriu a porta do apartamento, a cena era digna de um filme de comédia de erros. O cheiro de queimado ainda pairava no ar, misturado com o aroma químico do extintor. Faye estava sentada no chão, tentando limpar Sunny com um lenço umedecido, enquanto Charlotte tentava varrer o pó branco da cozinha, com o cabelo levemente bagunçado e uma mancha de fuligem na bochecha.
Ao verem Engfa, as duas pararam.
— P’Fa! — Charlotte correu até ela, abraçando-a com força. — Desculpa pela cozinha. A gente só queria fazer uma surpresa.
Engfa envolveu Charlotte em seus braços, apertando-a como se estivesse verificando se ela era real e estava inteira. Faye se levantou, caminhando até elas com um sorriso culpado, mas ainda sarcástico.
— É, a surpresa foi "explosiva", admito — Faye disse, aproximando-se e encostando a testa no ombro de Engfa. — Como foi o jantar com os monstros?
Engfa soltou um riso curto, a tensão finalmente deixando seu corpo. Ela pegou a mão de Charlotte e a de Faye, unindo as três no centro da sala bagunçada.
— Eu derramei vinho na Chompu porque ela falou mal de vocês — Engfa contou, fazendo Faye soltar uma gargalhada vibrante. — E depois eu disse ao meu pai que este apartamento é o único lugar onde eu realmente pertenço.
Charlotte sorriu, limpando a mancha de fuligem no rosto de Engfa com o polegar.
— Você está bem, Fa? Parece exausta.
— Agora eu estou — Engfa disse, beijando a palma da mão de Charlotte e depois puxando Faye para um beijo rápido. — Mas da próxima vez que quiserem cozinhar, esperem por mim. Eu prefiro enfrentar dez brigas de rua do que receber outra ligação do porteiro dizendo que vocês estão incendiando o prédio.
— Mas o bife estava quase bom, Fa! — Faye protestou, rindo enquanto Sunny latia, feliz por ter a família reunida.
— Sei... — Engfa olhou para a cozinha destruída e depois para os anéis em seus dedos. — Vamos limpar isso. E depois, eu vou cozinhar algo que não envolva o corpo de bombeiros.
— E os morangos? — Charlotte perguntou, com os olhos brilhando.
— Estão no carro — Engfa sorriu. — Eu nunca esqueceria.
Naquela noite, entre o cheiro de limpeza e o sabor dos morangos, a mansão Waraha e suas intrigas pareciam uma memória distante e irrelevante. Ali, naquele espaço caótico e imperfeito, Engfa Waraha estava exatamente onde precisava estar: protegida pela obsessão que as unia e amada pelas únicas pessoas que conheciam a verdadeira mulher por trás dos óculos e da armadura de ferro.
Ninguém entraria. E nenhuma delas jamais sairia. O pacto de prata estava mais forte do que nunca.