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Amor de infância

Entre o Deserto e o Destino

A mansão parecia respirar junto conosco, um gigante de pedra e luxo que, naquela noite, servia apenas como moldura para o que fervia entre nós. O Júnior me carregava com uma facilidade que sempre me lembrava da sua força física, mas o jeito como ele me segurava era diferente de tudo o que já havíamos vivido. Não era mais o abraço de proteção do melhor amigo de infância; era o toque de um homem que finalmente reivindicava o que seu coração sempre soube que lhe pertencia.

Meus pés deixaram de tocar o mármore frio e eu envolvi minhas pernas na cintura dele, sentindo o tecido fino da sua camisa contra a minha pele. Ele me levou em direção às escadas, mas parou no primeiro degrau, pressionando-me contra a parede de pedra clara. O beijo não cessou por um segundo sequer. Era urgente, profundo, uma conversa sem palavras que dizia tudo o que havíamos calado desde que eu aterrissara na Arábia Saudita.

— Clara... — ele murmurou contra minha pele, descendo os beijos pelo meu pescoço, encontrando aquele ponto sensível perto da orelha que sempre me fazia perder o fôlego. — Eu não sei como aguentei tanto tempo vendo você circular por essa casa como se fôssemos apenas "vizinhos".

— Eu também não sei — confessei, minha voz saindo em um fio de suspiro enquanto minhas mãos puxavam os fios de cabelo na nuca dele. — Cada vez que você me chamava de "Dengosa" na frente dos outros, eu sentia que ia explodir.

Ele soltou uma risada abafada, um som vibrante que senti contra meu peito.

— Você sempre foi minha, mesmo quando a gente estava a um oceano de distância. Mas ter você aqui, ao alcance da minha mão... é um tipo de tortura que eu não desejo para ninguém.

Ele voltou a subir as escadas, desta vez sem pressa, saboreando o fato de que estávamos sozinhos. Entramos no meu quarto, onde o perfume das flores que a Gio havia colocado na mesa de cabeceira se misturava ao cheiro cítrico e másculo do Júnior. Ele me colocou suavemente sobre os lençóis de seda, mas não se afastou. Ficou pairando sobre mim, os braços apoiados de cada lado do meu corpo, observando-me com uma intensidade que me fazia sentir a mulher mais desejada do mundo.

— Você está tão linda — disse ele, a voz carregada de uma admiração genuína. — Às vezes eu olho para você e não consigo acreditar que aquela garotinha que chorava quando perdia no videogame se tornou essa mulher que para o trânsito em Riade.

— E você — respondi, esticando a mão para traçar a linha do seu maxilar — se tornou o homem que eu sempre soube que seria. O meu porto seguro, mesmo quando é você quem causa a tempestade dentro de mim.

O Júnior inclinou-se, selando nossos lábios novamente, mas desta vez o ritmo mudou. Era lento, exploratório, uma promessa de que tínhamos todo o tempo do mundo. Suas mãos, grandes e quentes, deslizaram pela minha cintura, subindo pela seda da minha saída de praia até encontrar o fecho do biquíni. Ele parou por um segundo, seus olhos buscando os meus, pedindo uma confirmação que ele já tinha.

— Tem certeza? — perguntou ele em voz baixa. — Porque depois disso, Clara... não tem mais volta. Eu não vou deixar você escapar nunca mais.

— Eu não quero ter para onde voltar, Júnior — respondi, puxando-o para baixo, para o meu mundo. — Eu quero estar exatamente aqui.

A noite avançou entre carícias e confissões sussurradas no escuro. Descobrimos que a nossa conexão física era apenas uma extensão da nossa amizade de décadas; havia uma confiança que não precisava ser construída, pois já estava lá, sólida como rocha. Cada toque era carregado de história, de memórias de Madrid, de Lisboa e do Brasil, agora fundidas em um presente que brilhava mais do que o ouro dos troféus do seu pai.

Quando o sol começou a dar os primeiros sinais no horizonte, tingindo o céu do deserto com tons de rosa e laranja, estávamos deitados um nos braços do outro, cobertos apenas pelo lençol e pela exaustão feliz.

— No que você está pensando? — perguntou ele, fazendo círculos preguiçosos no meu braço.

— No meu pai e no tio Cris — confessei, rindo baixinho. — Se eles souberem que a gente passou a noite acordados...

— Ah, eles sabem — Júnior interrompeu, rindo também. — Meu pai pode ser o melhor do mundo no campo, mas ele não é cego. Ele viu o jeito que eu te olhei ontem. E o seu pai... bem, o seu pai me deu um aperto de mão antes de sair que quase quebrou meus dedos. Acho que foi um aviso.

— Eles vão ter que se acostumar — eu disse, aninhando-me mais perto dele. — Porque eu não pretendo ir a lugar nenhum.

— Nem eu — ele concordou, beijando o topo da minha cabeça. — Mas agora que você é oficialmente a namorada do "sucessor", como seu pai diz, as coisas vão ficar ainda mais loucas. Você está pronta para os tabloides amanhã?

— Com você ao meu lado? — Olhei para ele, sentindo uma paz que nunca imaginei encontrar em meio a tanto luxo e pressão. — Eu enfrento qualquer flash.

O Júnior sorriu e se esticou para pegar o celular na mesa de cabeceira. Ele abriu a câmera e me puxou para um abraço, tirando uma foto nossa: eu, com o cabelo bagunçado e os olhos brilhando de sono e amor; ele, com o sorriso mais relaxado que eu já vira em seu rosto.

— O que você vai fazer com isso? — perguntei.

— Vou guardar — disse ele, guardando o aparelho. — Essa não é para o Instagram. Essa é só nossa. O mundo já tem muito de nós, Dengosa. Algumas coisas precisam ficar só entre essas quatro paredes.

Dormimos por algumas horas, e quando acordei, o quarto estava inundado pela luz forte de Riade. O lugar ao meu lado na cama estava vazio, mas o cheiro dele ainda estava no travesseiro. Levantei-me, vestindo um robe de seda, e segui o som de vozes que vinha do andar de baixo.

Para minha surpresa, a casa já não estava vazia. A Gio e as crianças haviam voltado mais cedo, e o barulho de risadas e talheres ecoava pela sala de jantar.

— Bom dia, dorminhoca! — exclamou a Alana, correndo para me abraçar assim que me viu na escada.

— Bom dia, pequena — respondi, sentindo meu rosto esquentar ao ver a Gio me observar com um sorriso conhecedor atrás de sua xícara de chá.

O Júnior estava sentado à mesa, devorando uma tigela de frutas. Quando me viu, seus olhos brilharam, e ele se levantou para puxar uma cadeira para mim ao seu lado.

— Dormiu bem, Clara? — perguntou a Gio, o tom de voz carregado de uma ironia carinhosa.

— Muito bem, Gio. O silêncio da casa ajudou — respondi, tentando manter a compostura.

— Sei... o silêncio — ela brincou, piscando para o Júnior, que apenas riu e colocou uma mão sobre a minha por cima da mesa.

No meio do café da manhã, o celular do Júnior começou a apitar incessantemente. Ele franziu a testa e abriu as notificações.

— O que foi? — perguntei, sentindo uma pontada de ansiedade.

— Parece que alguém tirou uma foto nossa saindo da festa ontem à noite — disse ele, virando a tela para mim.

Lá estávamos nós, na capa de um dos maiores sites de fofoca da Europa. A foto mostrava o momento em que ele me cobria com a saída de praia, protegendo-me dos outros rapazes. A legenda dizia: "O herdeiro do trono protege sua rainha: Júnior e Clara confirmam romance em Riade".

— "Rainha", é? — brinquei, tentando aliviar a tensão. — Gostei do título.

— Você sempre foi — disse ele, sério. — Mas olha os comentários.

Eu li alguns. Para minha surpresa, a maioria era positiva. As pessoas amavam a história dos amigos de infância que se apaixonaram. "Eles cresceram juntos!", dizia um comentário. "É o casal mais real que já vimos", dizia outro.

— Parece que o mundo aprovou — comentei, sentindo um peso sair dos meus ombros.

— O mundo não importa, Clara — o Júnior disse, aproximando-se para que apenas eu ouvisse. — O que importa é que hoje eu não preciso mais fingir. Hoje eu posso te levar para o treino, posso te beijar na frente de quem eu quiser e posso dizer para o mundo inteiro que a garota das fotos da Dior é a mesma que ganha de mim no videogame quando eu deixo.

— Quando você deixa? — retruquei, fingindo indignação. — Eu ganho de você porque sou melhor, Júnior!

— Veremos isso hoje à tarde — desafiou ele. — Mas antes, temos um compromisso.

— Compromisso?

— Meu pai quer que a gente almoce com ele no clube. Ele disse que tem um "assunto de família" para tratar.

Eu sabia o que aquilo significava. Cristiano Ronaldo não fazia nada sem um propósito. Se ele queria um almoço de família, era para selar de vez a minha entrada oficial não apenas na vida do filho, mas na marca e no legado da família Aveiro.

O resto do dia passou como um sonho. Fomos ao clube, onde o tio Cris nos recebeu com um abraço apertado e um olhar de aprovação que valia mais do que qualquer contrato de publicidade. Almoçamos rindo de histórias antigas, e pela primeira vez, eu não me senti como a "filha do amigo", mas como parte integrante daquela estrutura poderosa.

No final da tarde, Júnior me levou para o campo de treinamento do Al-Nassr. O estádio estava vazio, as luzes começando a se acender sob o céu escuro.

— Por que viemos aqui? — perguntei, enquanto caminhávamos pelo gramado impecável.

— Porque este é o meu mundo — disse ele, parando no círculo central. — E eu queria que você estivesse aqui, sem câmeras, sem ninguém. Só nós dois.

Ele tirou uma bola de futebol de algum lugar e a chutou para mim.

— Vamos ver se essa ginga brasileira de que você tanto fala serve para alguma coisa no campo.

Passamos a hora seguinte jogando, correndo e rindo como se ainda tivéssemos dez anos de idade. Em um certo momento, ele me driblou e marcou um gol imaginário, comemorando como o pai, o que me fez rolar de rir na grama.

— Você é ridículo! — gritei, tentando recuperar o fôlego.

Ele veio até mim e se deitou ao meu lado no gramado, ambos olhando para as estrelas que começavam a surgir sobre Riade.

— Sabe, Clara — ele disse, a voz suave —, eu passei a vida inteira tentando ser o melhor em tudo. O melhor filho, o melhor jogador, o melhor sucessor. Mas com você... eu sinto que posso ser apenas o Júnior.

— E esse é o Júnior que eu amo — respondi, virando a cabeça para olhá-lo. — O garoto que se atrapalha no passinho do Jamal e que me protege de idiotas em festas.

Ele se inclinou e me deu um beijo calmo, um selo de tudo o que havíamos construído.

— O futuro vai ser difícil — continuou ele. — Eu vou ter que viajar muito nesta temporada. Você tem a campanha em Paris no próximo mês. A distância vai tentar nos pegar de novo.

— Deixa ela tentar — eu disse, confiante. — Nós já vencemos o oceano, Júnior. O que são alguns voos de primeira classe comparados a tudo o que a gente já passou?

— Você tem razão.

Ele se levantou e me estendeu a mão, ajudando-me a levantar. Caminhamos em direção à saída do estádio, as luzes se apagando atrás de nós. Eu sabia que a vida no Brasil agora era uma lembrança querida, mas que meu lugar era ali, entre as dunas e o asfalto quente de Riade, construindo meu próprio nome enquanto segurava a mão do homem que era o meu destino.

Ao chegarmos em casa, o Lucas, meu irmão, estava na sala nos esperando com um sorriso malicioso e o notebook aberto.

— Vocês já viram o que o pessoal do TikTok está fazendo? — perguntou ele.

— O que agora, Lucas? — Júnior suspirou, mas com um sorriso no rosto.

— Eles pegaram aquele vídeo que o Júnior tentou estragar ontem e fizeram um "edit" com a música da nossa infância. Já tem cinco milhões de visualizações em duas horas. Eles estão chamando vocês de "O Casal da Nação".

Olhei para o Júnior, que apenas balançou a cabeça, rindo.

— Acho que não dá mais para esconder nada, Dengosa.

— E quem disse que eu quero esconder? — respondi, pegando o celular dele e abrindo o Instagram. — Vamos dar a eles o que eles querem.

Postei a foto que tiramos de manhã, aquela que ele disse que era "só nossa". A legenda foi simples: "Sempre foi você. De Madrid a Riade, em cada passo do caminho."

Em segundos, o mundo virtual explodiu. Mas ali, no silêncio da nossa sala, cercados pela nossa família e pelo amor que sobreviveu ao tempo e à distância, o barulho da internet não passava de um sussurro. O que era real estava bem ali, na palma da minha mão, entrelaçado aos dedos do garoto que se tornou o meu mundo.

A noite terminou conosco na varanda, observando o deserto ao longe. O vento soprava suave, trazendo o cheiro de areia e liberdade. Eu sabia que haveria desafios, que a pressão seria enorme e que o mundo estaria sempre observando cada passo nosso. Mas, enquanto tivéssemos um ao outro, e enquanto o Júnior continuasse tentando aprender o passinho do Jamal apenas para me ver sorrir, eu sabia que seríamos invencíveis.

— Te amo, Dengosa — sussurrou ele, antes de entrarmos.

— Te amo, Júnior — respondi, fechando a porta para o mundo e abrindo-a para a nossa vida.