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Amor de infância

Entre Sacolas e Segredos

O sol de Riade brilhava intensamente do lado de fora, refletindo nos arranha-céus espelhados que pareciam tocar o céu, mas dentro do shopping, o clima era de puro luxo e frescor. Eu e o Júnior caminhávamos lado a lado, um contraste engraçado entre o meu entusiasmo por cada vitrine e a paciência quase heróica que ele demonstrava. Depois de meses longe, aquele tempo a sós era tudo o que eu precisava.

— Clara, se você entrar em mais uma loja de sapatos, eu vou começar a cobrar por hora de carregador de sacolas — brincou ele, ajeitando as três sacolas de marcas famosas que já segurava em uma das mãos.

— Ah, deixa de ser reclamão, Júnior! — eu disse, rindo e passando o braço pelo dele, puxando-o para mais perto. — Você sabe que eu moro no Brasil agora, lá é calor o tempo todo. Eu preciso de botas novas para quando eu for visitar meus pais na Europa ou para quando você me convidar para esquiar.

— "Quando" eu te convidar? — Ele arqueou uma sobrancelha, aquele sorrisinho convencido que ele herdou do pai surgindo no rosto. — Você já deu como certo que o convite vem?

— Eu sou sua melhor amiga, Júnior. Quem mais você levaria para passar vergonha na neve com você? — Dei um tapinha leve no ombro dele e entrei em uma loja de botas de couro italiano.

O Júnior já conhecia o ritual. Ele se sentou em um puff de veludo no centro da loja, colocando as sacolas no chão e cruzando os braços, observando cada movimento meu. Eu experimentava um modelo, desfilava na frente do espelho e depois parava diante dele, esperando o veredito.

— Essa é muito alta, você vai tropeçar em cinco minutos — comentou ele sobre a primeira.

— E essa? — perguntei, calçando uma de cano curto com detalhes em prata.

— Essa combina com você. É decidida, mas não tenta aparecer mais do que a dona — ele disse, e eu percebi que ele realmente estava prestando atenção.

Acabei saindo de lá com dois pares, exatamente como ele previu. O Júnior pegou as sacolas novas sem reclamar, embora estivessem ficando pesadas. Eu sabia que ele não gostava de multidões ou de ficar parado esperando alguém fazer compras, mas comigo era diferente. Ele sempre dizia que eu era a única pessoa que conseguia fazer o tempo passar rápido, mesmo em um shopping lotado.

— Minha vez agora — anunciou ele, me puxando em direção a uma loja de roupas masculinas de grife. — Preciso de algo novo. Tem uma festa hoje à noite, os caras da academia e uns amigos do condomínio organizaram.

Enquanto ele escolhia algumas camisetas básicas e uma jaqueta de linho, eu fazia o papel de consultora. Ajustava a gola das camisas que ele provava, passava a mão pelo tecido para sentir a qualidade e dava minha opinião sincera.

— Essa cor realça o seu tom de pele, Júnior. Fica bem melhor que a preta — comentei, aproximando-me para ajeitar a manga da camisa que ele vestia.

Aproveitei o momento de proximidade para fazer o que eu mais gostava. Enquanto ele se olhava no espelho, comecei a fazer uma massagem rápida nos ombros dele, sentindo os músculos tensos por conta dos treinos pesados de futebol. O Júnior, que geralmente era reservado e não gostava que estranhos o tocassem, relaxou instantaneamente sob o meu toque.

— Você está muito tenso — sussurrei. — O tio Cris está pegando pesado nos treinos de novo?

— Sempre — ele suspirou, fechando os olhos por um segundo e aproveitando o carinho. — Mas vale a pena. Só que essa sua mão de fada ajuda bastante, Dengosa.

Senti um frio na barriga quando ele usou o apelido. "Dengosa" era o nosso segredo. Ele só me chamava assim quando estávamos sozinhos, ou quando o barulho ao redor era alto o suficiente para ninguém mais ouvir. Era a prova de que, apesar de ele estar crescendo e se tornando um homem sob os holofotes do mundo, para mim, ele ainda era o meu Júnior.

— Pronto, agora você está apresentável — eu disse, dando um último aperto nos ombros dele antes de me afastar. — Vamos pegar um sorvete? Minhas pernas estão pedindo trégua.

Caminhamos até uma sorveteria artesanal no último andar. Sentamos em uma mesa mais reservada, longe do fluxo principal de pessoas. O Júnior deixou as sacolas de lado e deu um longo suspiro de alívio.

— Então... sobre a festa de hoje — começou ele, mexendo no seu sorvete de pistache. — Eu quero que você vá comigo.

Eu o olhei por cima da minha colher de sorvete de chocolate belga, hesitante.

— Ah, Júnior, não sei... Eu acabei de chegar, seus amigos são todos daqui, jogam com você. Você não acha que eu vou ser muito introsa? Tipo a "amiga brasileira que caiu de paraquedas"?

Ele largou a colher e me encarou com seriedade, mas havia uma doçura no olhar que ele reservava apenas para mim.

— Clara, primeiro: você não é "introsa", você é minha convidada de honra. Segundo: metade daqueles caras já perguntou de você desde que viram que você postou uma foto aqui em Riade. E terceiro... — Ele estendeu a mão sobre a mesa, e eu prontamente coloquei a minha sobre a dele, sentindo o calor da sua pele. — Eu quero que você esteja lá. A festa só vai ser legal se você estiver por perto para a gente rir das piadas sem graça do pessoal.

Eu comecei a traçar círculos com o polegar nas costas da mão dele, um gesto que sempre o acalmava.

— Tudo bem, você venceu — cedi, abrindo um sorriso. — Mas se eu me sentir deslocada, você vai ter que me pagar outro sorvete amanhã.

— Fechado — ele riu, apertando minha mão levemente antes de voltarmos a comer. — Mas duvido que você se sinta assim. Você tem esse jeito brasileiro de conquistar todo mundo em cinco minutos. Até meu pai, que é a pessoa mais disciplinada do mundo, perde a postura de "robô" quando você começa a contar as histórias dos seus avós no Brasil.

— É o charme da família — brinquei, sentindo uma felicidade genuína transbordar.

Saímos do shopping carregados de sacolas, mas o peso parecia nada diante da leveza que eu sentia no coração. No carro, a caminho de casa, encostei minha cabeça no ombro dele. O Júnior não se afastou; pelo contrário, inclinou a cabeça sobre a minha, deixando que o silêncio confortável nos envolvesse enquanto o motorista dirigia pelas ruas iluminadas de Riade.

Eu sabia que aquela festa seria um desafio. Estar no mundo dele significava lidar com olhares, com a pressão de ser quem ele era, e agora, talvez, com as perguntas sobre quem eu era na vida dele. Mas enquanto ele me chamasse de Dengosa e deixasse que eu massageasse seus ombros cansados, o resto do mundo era apenas ruído de fundo.

— Clara? — ele chamou baixinho, quando já estávamos quase chegando na mansão.

— Oi?

— Obrigado por ter vindo de verdade. Eu sei que a viagem é cansativa e que sua vida no Brasil está incrível, mas... eu sinto que as peças só se encaixam quando você está aqui.

Eu me levantei um pouco para olhar nos olhos dele. A luz dos postes de rua passava rapidamente pelo rosto dele, criando sombras que destacavam o quanto ele havia amadurecido.

— As minhas peças também, Júnior — respondi sinceramente. — Sempre foi assim, não é? Desde Lisboa.

— Desde sempre — ele confirmou.

Ao chegarmos, subimos para guardar as compras. Eu tinha algumas horas para me preparar para a tal festa. Enquanto eu espalhava minhas roupas novas sobre a cama, Lucas entrou no quarto, já pronto e cheiroso.

— O Júnior me disse que você vai para a festa — comentou meu irmão, sentando-se na ponta da cama. — Está animada? Ou está com medo de os amigos dele descobrirem que você é a única pessoa no mundo que ele deixa ganhar no videogame?

— Ele deixa nada! Eu ganho por mérito — retruquei, jogando um travesseiro nele. — E não estou com medo. Só... você sabe, é o mundo dele.

— Clara, você cresceu nesse mundo tanto quanto ele — Lucas disse, ficando sério por um momento. — E todo mundo vê o jeito que ele olha para você. Não precisa ter medo de nada. Só seja a Clara que ele ama desde os cinco anos de idade.

Aquelas palavras ficaram ecoando na minha mente enquanto eu tomava banho e me arrumava. Escolhi um vestido que comprei no Brasil, um modelo que valorizava minhas curvas sem ser exagerado, com um toque de elegância que a minha mãe sempre dizia ser essencial. Quando terminei de me maquiar, ouvi duas batidas leves na porta.

Era o Júnior. Ele estava usando uma das camisas que escolhemos no shopping e o cabelo estava perfeitamente arrumado. Ele parou na porta e me analisou de cima a baixo, e por um segundo, vi o ar escapar dos pulmões dele.

— Uau — foi tudo o que ele conseguiu dizer.

— "Uau" bom ou "uau" você-vai-me-fazer-trocar-de-roupa? — perguntei, dando uma voltinha.

— "Uau" do tipo que eu vou ter que ficar de olho em todos os meus amigos a noite inteira — ele disse, aproximando-se e oferecendo o braço. — Você está maravilhosa, Dengosa.

— Você também não está nada mal, Júnior — brinquei, entrelaçando meu braço no dele.

Descemos as escadas juntos. No hall, encontramos o tio Cris e a Gio. Georgina me deu um piscadinha cúmplice, enquanto o Cristiano apenas sorriu, observando o filho com um olhar de aprovação que dizia mais do que mil palavras.

— Juízo, vocês dois — disse o tio Cris, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos. — E Júnior, cuida da Clara. Se ela chegar com um arranhão, seu pai me liga reclamando e eu não quero ouvir sermão do meu melhor amigo.

— Pode deixar, pai. Ela é o meu tesouro mais bem guardado — Júnior respondeu, e embora parecesse uma brincadeira para os outros, eu senti a profundidade daquelas palavras na forma como ele apertou levemente minha mão contra o seu corpo.

Seguimos para o carro que nos levaria à festa. O trajeto foi curto, mas a expectativa era alta. Eu sabia que aquela noite não seria apenas sobre uma festa de aniversário atrasada ou sobre reencontrar amigos. Seria sobre nós dois, testando as águas desse novo sentimento que florescia agora que não éramos mais apenas crianças correndo pelos campos de treino.

Quando o carro parou em frente a uma mansão vizinha, de onde vinha o som de música vibrante e luzes coloridas, o Júnior se virou para mim uma última vez antes de descermos.

— Pronta? — perguntou ele.

— Com você? Sempre — respondi.

Ele sorriu, aquele sorriso que sempre foi meu porto seguro, e abriu a porta. A noite estava apenas começando, e eu mal podia esperar para ver o que o destino — e o Júnior — tinham reservado para mim.