Amor de infância
Refúgio em Meio ao Caos
O motor da Mercedes-Benz roncou baixo, um som potente que parecia vibrar no asfalto liso de Riade. O interior do carro cheirava a couro novo e ao perfume marcante do Júnior, uma fragrância que eu já tinha começado a associar à segurança. Ele dirigia com uma confiança calma, uma mão no volante e a outra trocando as faixas de uma playlist que misturava reggaeton com algumas batidas de trap brasileiro que eu tinha mostrado para ele meses atrás.
— Gostou do carro? — perguntou ele, lançando um olhar rápido para mim enquanto acelerava. — Ganhei de aniversário. O meu pai diz que é para eu aprender a ter responsabilidade no trânsito antes de querer os hipercarros dele.
— É maravilhoso, Júnior — respondi, passando a mão pelo painel tecnológico. — Mas combina com você. Meio intimidador por fora, mas confortável por dentro.
Ele soltou uma risada curta, aquele som rouco que fazia meu estômago dar piruetas.
— Intimidador? Eu? Clara, você é a única pessoa no mundo que não tem medo de mim. Você me batia com o travesseiro quando eu tinha dez anos porque eu roubava seu chocolate.
— E bateria de novo! — brinquei, mas logo senti o frio na barriga retornar quando avistamos as luzes da festa.
Conforme nos aproximávamos da mansão onde a música pulsava, comecei a batucar os dedos nervosamente no joelho. O luxo de Riade era impressionante, mas a pressão social que vinha com ele às vezes me sufocava. Eu era apenas a Clara, a garota que amava os avós no Brasil e que sentia falta de pão de queijo, mas ali, eu seria vista como a acompanhante do filho do maior jogador da história.
— Júnior... — chamei, minha voz um pouco mais baixa. — Eu estou com um pouco de vergonha. Não conheço quase ninguém além do Lucas e de você.
Ele estacionou o carro com precisão e desligou o motor. O silêncio repentino dentro do veículo tornou o momento mais íntimo. Júnior se virou para mim, desfazendo o cinto de segurança e aproximando-se o suficiente para que eu pudesse ver as nuances castanhas nos olhos dele sob a luz do painel.
— Olha para mim, Clara — disse ele, com uma seriedade doce. — Fica perto de mim o tempo todo, ok? Eu não vou sair do seu lado. Se você se sentir desconfortável, a gente vai embora no mesmo segundo. Eu estou com você, sempre.
Antes que eu pudesse responder, ele se inclinou e depositou um beijo demorado no topo da minha cabeça. O gesto foi tão protetor que senti minha ansiedade derreter instantaneamente. Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para mim, estendendo a mão como um verdadeiro cavalheiro.
Ao entrarmos na festa, o impacto foi imediato. O cheiro de narguilé, perfumes caros e o som alto preenchiam o ambiente decorado com extremo bom gosto. Como eu previa, as conversas pararam por um breve segundo quando o Júnior entrou. Ele era o centro das atenções, mas a forma como ele segurava minha mão, firme e possessiva, deixava claro que eu era a prioridade dele.
— Olha só quem chegou! — exclamou um rapaz alto, cercado por outros jogadores da academia.
O clima parecia amigável, mas logo notei um par de olhos que não vacilava. No canto da sala, encostado em uma mesa de bebidas, estava Vinícius. Ele era o que todos chamavam de "rival" do Júnior, tanto dentro de campo quanto fora dele. Havia uma tensão competitiva entre os dois que vinha de anos. Vinícius me mediu de cima a baixo com um sorriso cínico que me fez estremecer.
— Então essa é a famosa princesinha brasileira do Júnior? — comentou Vinícius, aproximando-se com um copo na mão. — As fotos não fazem justiça, Júnior. Você realmente tem bom gosto para "amigas".
Senti os músculos do braço do Júnior ficarem rígidos como pedra ao meu lado.
— O nome dela é Clara, Vinícius — respondeu Júnior, a voz fria e cortante como gelo. — E eu recomendaria que você mantivesse a distância e o respeito.
— Calma, cara. Só estou sendo cordial — Vinícius deu de ombros, mas os olhos dele continuavam fixos em mim de uma forma predatória.
Passamos a primeira hora circulando. O Júnior foi impecável, me apresentando a todos, incluindo-me nas conversas sobre futebol e viagens, garantindo que eu nunca ficasse de fora. Mas, em um certo momento, o calor da sala ficou excessivo.
— Júnior, vou pegar um refrigerante rápido, está muito abafado aqui — sussurrei no ouvido dele.
— Quer que eu vá com você? — perguntou ele imediatamente, os olhos já procurando por Vinícius na multidão.
— Não precisa, bobo. A mesa é logo ali. Eu volto em dois minutos, prometo.
Eu queria provar para mim mesma que podia circular ali sozinha. Caminhei até a área das bebidas, que ficava um pouco mais afastada da pista de dança principal, perto de um corredor que levava aos andares superiores. Enquanto me servia, senti uma presença atrás de mim.
— O Júnior é muito protetor, não acha? — A voz de Vinícius soou perto demais.
Eu me virei bruscamente, encontrando-o a poucos centímetros de distância. Ele bloqueava minha saída.
— Ele é meu melhor amigo. É natural — respondi, tentando manter a voz firme. — Com licença, preciso voltar para lá.
— Ah, qual é, Clara? — Ele colocou a mão na parede, impedindo minha passagem. — Você é bonita demais para ficar presa a um cara que só pensa em treino e em superar o pai. Você merece alguém que saiba aproveitar a noite. Por que não subimos? Tem uma área VIP lá em cima, bem mais tranquila.
— Eu disse para sair da minha frente — falei, sentindo o coração disparar de medo.
Ele não ouviu. Pelo contrário, tentou segurar meu braço e se inclinou para tentar me beijar à força. Eu empurrei o peito dele, sentindo o pânico subir pela garganta, mas antes que eu pudesse gritar, uma sombra avançou como um raio.
O Júnior não gritou. Ele simplesmente segurou o ombro de Vinícius e o girou com uma força impressionante, empurrando-o contra a parede oposta.
— Eu avisei você, Vinícius — a voz do Júnior estava baixa, o que era muito mais assustador do que um grito. — Se você encostar nela de novo, eu juro que você não vai mais conseguir chutar uma bola na vida.
— Ela estava dando corda, cara! — mentiu Vinícius, tentando recuperar a postura.
— Sai daqui agora — ordenou Júnior, os punhos cerrados. — Antes que eu perca a pouca paciência que me resta.
Vinícius, percebendo que o clima tinha ficado perigoso de verdade, resmungou algo e desapareceu na multidão. Júnior se virou para mim no mesmo instante, a expressão de fúria se transformando em pura preocupação.
— Clara! Você está bem? Ele te machucou? — Ele segurou meu rosto com as duas mãos, examinando cada centímetro.
— Eu... eu estou bem — gaguejei, as lágrimas de susto começando a embaçar minha visão. — Só quero ir embora, Júnior. Por favor.
— Vamos agora — disse ele, sem hesitar.
Ele me guiou para fora da mansão, ignorando os chamados dos amigos. O caminho até o carro foi um borrão. Assim que entramos na Mercedes e ele fechou a porta, o silêncio do carro agiu como um bálsamo. Eu ainda tremia um pouco, as mãos inquietas no colo.
Júnior ligou o carro, mas antes de dar a partida, ele estendeu a mão e segurou a minha com força. Ele entrelaçou nossos dedos e levou minha mão até os lábios, dando um beijo suave nos meus nós dos dedos.
— Sinto muito, Clara. Eu não deveria ter deixado você ir sozinha — disse ele, a culpa evidente em sua voz.
— Não foi sua culpa — respondi, encostando a cabeça no banco. — Eu que fui teimosa.
Ele não soltou minha mão durante todo o trajeto de volta. Ele dirigia apenas com uma mão, mantendo a outra firmemente unida à minha, como se precisasse daquele contato para ter certeza de que eu estava segura. O movimento rítmico do carro e o calor da mão dele foram me acalmando aos poucos. O cansaço da viagem, da festa e do estresse emocional finalmente cobrou seu preço. Meus olhos foram pesando e, no meio do caminho, adormeci profundamente.
Acordei sentindo uma sensação de leveza, como se estivesse flutuando. Abri os olhos devagar e percebi que estava nos braços do Júnior. Ele me carregava no colo com uma facilidade impressionante, subindo as escadas da mansão em direção ao meu quarto. A luz da lua entrava pelas janelas grandes, iluminando o perfil dele.
— Júnior? — sussurrei, ainda meio grogue.
— Shh... dorme, Dengosa. Já chegamos em casa — disse ele baixinho, com um sorriso terno.
Ele me colocou com cuidado sobre a minha cama, mas eu não queria que ele fosse embora. O susto com o Vinícius ainda ecoava na minha mente, e a presença do Júnior era a única coisa que me trazia paz.
— Júnior, espera — eu disse, sentando-me na cama e esfregando os olhos. — Não vai agora. Eu perdi o sono. Vamos assistir a um filme?
Ele parou na porta e olhou para trás, sorrindo de um jeito que fez meu coração errar a batida.
— Um filme a essa hora? Você sabe que eu tenho treino cedo amanhã, não sabe?
— Por favor... — fiz um biquinho que eu sabia que ele não conseguia resistir.
— Tudo bem, você venceu. O que você quer ver?
— "A Dama e o Vagabundo" — respondi prontamente.
— De novo, Clara? Você já viu esse filme umas mil vezes — ele riu, mas já estava pegando o controle remoto e se acomodando na beira da cama.
— É o meu preferido e você sabe disso. É um clássico!
Ele ligou a TV e colocou no filme. Eu me ajeitei nas cobertas e fiz sinal para que ele se aproximasse. O Júnior hesitou por um segundo, mas depois se deitou ao meu lado, apoiando as costas na cabeceira da cama.
Enquanto o filme começava, eu peguei a mão dele. Comecei a fazer uma massagem suave na palma da mão e nos dedos dele, um hábito que eu tinha desde pequena. Eu sabia que ele gostava, pois ele fechava os olhos e soltava um suspiro longo, relaxando os ombros.
— Suas mãos estão sempre tão cansadas — comentei, focando nos movimentos circulares.
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, ele se virou para mim, observando-me com uma intensidade que me deixou sem fôlego. Eu me aproximei mais, sentindo o calor que emanava dele. Aos poucos, a barreira da amizade parecia estar se tornando cada vez mais fina.
Eu deitei minha cabeça no peitoral dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. Era um som reconfortante, o ritmo da minha vida. Senti o braço dele envolver minha cintura, puxando-me para mais perto, até que não houvesse mais espaço entre nós.
— Clara... — ele sussurrou, a voz vibrando contra o meu ouvido.
— Oi?
— No Brasil... você pensou em mim? — perguntou ele, a mão na minha cintura fazendo carinhos lentos que me davam arrepios.
— Todos os dias — confessei, fechando os olhos e aproveitando o momento. — Cada vez que eu via algo bonito, ou que eu ouvia uma música que a gente gostava, eu queria que você estivesse lá.
— Eu também — admitiu ele. — Parecia que faltava uma parte de mim. O meu pai diz que eu sou focado, mas a verdade é que meu foco sempre volta para você, não importa onde eu esteja.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, apenas assistindo à cena icônica do espaguete no filme, mas nenhum de nós estava realmente prestando atenção na tela. O mundo lá fora, com seus rivais, festas luxuosas e pressões de carreira, parecia não existir. Naquele quarto, éramos apenas o Júnior e a Clara, os melhores amigos que estavam descobrindo que o amor que sentiam um pelo outro tinha crescido tanto quanto eles.
— Promete que não vai embora tão cedo? — ele pediu, a voz carregada de sono.
— Eu acabei de chegar, Júnior. Não vou a lugar nenhum — respondi, aconchegando-me mais a ele.
Senti o beijo dele no topo da minha cabeça novamente, mas desta vez, ele deixou os lábios ali por mais tempo. Adormecemos assim, entrelaçados, enquanto o filme terminava na tela e o silêncio da noite saudita protegia o nosso segredo mais precioso. Eu sabia que, ao acordar, as coisas poderiam ser complicadas, mas ali, nos braços dele, eu tinha encontrado o meu verdadeiro lar.