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Amor e ciumes

O Contra-Ataque do Desejo

O sol da Toscana filtrava-se pelas frestas da persiana, desenhando listras douradas sobre a pele de Julia. O despertador ainda não havia tocado, mas o corpo de atleta, acostumado à rotina espartana, já despertava. Ela sentiu o peso reconfortante do braço de Kate sobre sua cintura e o calor da respiração da russa em sua nuca. A paz daquela manhã contrastava violentamente com a tempestade de ciúmes e a reconciliação explosiva da noite anterior. Julia sorriu, sentindo uma leve ardência nos ombros — uma lembrança física da intensidade de Kate.

Ela tentou se mover devagar, mas Kate, mesmo dormindo, parecia ter um radar para a ausência de Julia. O braço loiro se apertou mais contra seu abdômen.

— Nem pense nisso — resmungou a voz rouca de Antropova, enterrando o rosto nos cabelos ruivos de Julia. — O treino é só às dez. Temos tempo.

— Kate, se não levantarmos agora, vamos chegar em cima da hora e o Barbolini vai nos dar um sermão na frente de todo mundo — Julia riu, virando-se no aperto para encarar os olhos azuis ainda nublados pelo sono.

— Deixe que ele fale. Eu fiz vinte e cinco pontos ontem. Tenho crédito — Kate abriu um sorriso convencido, aquele que sempre fazia o sangue de Julia ferver, ora de raiva, ora de desejo.

Julia revirou os olhos e selou os lábios de Kate com um beijo rápido, tentando escapar da cama. No entanto, a russa foi mais rápida. Com um movimento ágil, Kate inverteu as posições, prendendo Julia contra o colchão e pairando sobre ela. O pijama de seda de Kate escorregava pelo ombro, revelando a clavícula marcada.

— Você está muito apressada, Bergmann. Onde está aquela urgência de ontem à noite? — Kate sussurrou, a mão descendo pela lateral do corpo de Julia, parando na curva do quadril.

— A urgência de ontem era para não te matar, Antropova — Julia rebateu, embora sua respiração já estivesse começando a falhar. — Agora, a urgência é profissional.

— Profissionalismo é importante — concordou Kate, descendo o rosto para beijar o vale entre os seios de Julia —, mas a manutenção do nosso... acordo de paz... é vital.

Julia sentiu o corpo reagir instantaneamente. A provocação de Kate não era apenas verbal; era uma dominação física silenciosa. As mãos da russa eram grandes, firmes, as mãos de uma jogadora que controlava a bola com precisão milimétrica, e agora controlavam a reação de Julia com a mesma maestria.

— Kate... — Julia arqueou as costas quando sentiu os dentes da loira morderem levemente a pele sensível de seu pescoço.

— Diga que você é minha de novo — pediu Kate, a voz vibrando contra a pele de Julia. — Quero ouvir antes de irmos para aquele ginásio.

— Você sabe que eu sou — Julia arfou, enroscando os dedos nos fios loiros e bagunçados de Kate, puxando-a para um beijo profundo.

A manhã, que deveria ser de descanso, transformou-se em uma segunda rodada de entrega. Não havia mais a raiva do ciúme, mas havia uma possessividade residual que tornava cada toque mais faminto. Julia explorava o corpo de Kate com a ponta dos dedos, traçando os músculos definidos das costas, enquanto Kate se perdia na maciez da ruiva. Quando finalmente se separaram, ambas estavam ofegantes e com o tempo perigosamente curto.

O trajeto para o ginásio foi o oposto do dia anterior. Julia colocou uma música brasileira animada, e Kate, embora não entendesse todas as letras, batucava no painel do carro, trocando olhares cúmplices com a namorada a cada semáforo vermelho. A tensão havia sido drenada, substituída por uma eletricidade vibrante.

Ao entrarem no vestiário, o clima mudou. O ambiente do vôlei profissional italiano era implacável. Martina, a ponteira reserva que fora o pivô da briga, estava sentada em um dos bancos, ajustando suas joelheiras. Ao ver Kate entrar, ela abriu um sorriso largo.

— Ei, Kate! Que partida ontem, hein? Aquele último ace foi incrível.

Julia sentiu uma pontada no estômago, mas antes que pudesse reagir, sentiu a mão de Kate tocar discretamente a sua nas costas, um sinal de "eu cuido disso".

— Obrigada, Martina — disse Kate, a voz educada, mas distante, sem parar para conversar. — Julia e eu estávamos analisando os vídeos agora de manhã. Temos muito o que ajustar para o próximo jogo.

Julia segurou o sorriso. Kate estava cumprindo a promessa. Elas se trocaram rapidamente, o uniforme de treino azul e branco ajustando-se aos corpos atléticos. No campo, o técnico Massimo Barbolini já as aguardava com o semblante sério.

— Bergmann, Antropova! Atrasadas dois minutos. Dez voltas na quadra, agora! — gritou ele, apontando para o perímetro.

Elas começaram a correr lado a lado. O ritmo era constante, sincronizado.

— Valeu a pena os dois minutos? — Julia perguntou, a voz baixa enquanto corriam.

— Valeu cada segundo — Kate piscou para ela, acelerando o passo.

O treino foi intenso. Barbolini parecia decidido a testar os limites de suas jogadoras. Em um exercício de defesa e contra-ataque, Julia e Kate foram colocadas em times opostos. Era o cenário perfeito para a competitividade natural das duas aflorar.

Julia estava na rede, esperando o levantamento. Quando a bola subiu, ela saltou com toda a força de suas pernas, o braço direito chicoteando o ar. Do outro lado, Kate subiu como uma parede de mármore. O bloqueio da russa foi seco, a bola batendo nas palmas de suas mãos e caindo direto no chão do lado de Julia.

— Eu disse que ia te dar um bloqueio que você não esqueceria — Kate provocou, do outro lado da rede, um sorriso desafiador no rosto.

Julia limpou o suor da testa e sorriu de volta.

— O treino ainda não acabou, Antropova.

Na jogada seguinte, Julia fingiu um ataque potente, mas no último segundo, amorteceu o toque, uma largada perfeita que caiu bem no meio da defesa desprevinida de Kate. Julia apontou para a loira, piscando.

— Ponto meu.

A energia entre elas era palpável, uma dança de rivalidade que alimentava o desempenho de ambas. O restante do time observava a intensidade das duas com uma mistura de admiração e confusão. Elas pareciam estar jogando uma final olímpica em um treino de terça-feira.

Quando o treino finalmente terminou, as jogadoras estavam exaustas. Julia sentou-se no chão, encostada nos colchões de proteção, bebendo água desesperadamente. Kate aproximou-se, jogando-se ao lado dela, o peito subindo e descendo com força.

— Você é irritante na rede, sabia? — Kate disse, encostando o ombro no de Julia.

— E você é uma muralha. Meus braços estão doendo só de tentar passar por você — Julia riu, passando a garrafa de água para a outra.

Martina passou por elas, indo em direção ao vestiário, e apenas acenou de longe. Julia percebeu que a insegurança que sentira no dia anterior não tinha mais espaço. Ela confiava em Kate, e mais do que isso, ela sabia que a conexão que tinham era inalcançável para qualquer outra pessoa.

— Vamos para casa? — perguntou Kate, levantando-se e estendendo a mão para Julia.

— Vamos. Mas hoje eu dirijo e você não encosta no celular — Julia aceitou a mão, sendo puxada para cima com facilidade.

— Justo. Mas tenho um plano melhor para quando chegarmos.

— Ah, é? E qual seria? — Julia arqueou a sobrancelha.

Kate inclinou-se, sussurrando no ouvido de Julia de forma que apenas ela pudesse ouvir:

— Banheira. Água quente. E eu vou te mostrar exatamente o quanto eu senti sua falta durante aquele treino, quando você estava me provocando do outro lado da rede.

Julia sentiu um calafrio percorrer seu corpo, a exaustão física sendo substituída por uma nova onda de antecipação.

— Acho que posso concordar com esse plano.

Ao chegarem no apartamento, o clima de urgência voltou, mas dessa vez temperado com uma sensualidade mais lenta. Kate começou a encher a banheira, o vapor subindo e embaçando os espelhos do banheiro espaçoso. Julia entrou logo depois, retirando o uniforme de treino com movimentos lentos, sentindo o olhar de Kate sobre cada centímetro de seu corpo.

— Você é linda, Julia — Kate disse, a voz suave, desprovida de qualquer provocação agora. Era pura admiração.

— Você também, Kate. Às vezes eu esqueço o quanto tenho sorte — Julia aproximou-se, envolvendo os braços no pescoço da loira.

Elas entraram na água quente, os corpos se entrelaçando sob a espuma. O calor da água relaxava os músculos fadigados, mas o contato da pele de Julia com a de Kate mantinha os sentidos em alerta máximo. Kate puxou Julia para sentar-se entre suas pernas, as costas da ruiva apoiadas no peito da russa.

As mãos de Kate começaram a massagear os ombros de Julia, os dedos fortes encontrando os nós de tensão e desfazendo-os com paciência. Julia soltou um suspiro longo, fechando os olhos e deixando a cabeça pender para trás, descansando no ombro de Kate.

— Melhor? — perguntou a russa.

— Muito melhor. Você deveria largar o vôlei e abrir um spa — brincou Julia.

— Só se você for a minha única cliente. Não divido esse serviço com ninguém.

O ciúme, que antes fora uma faca afiada entre elas, agora era apenas um tempero para a possessividade mútua e saudável que compartilhavam. Julia virou-se na banheira, ficando de frente para Kate. A água transbordava levemente pelas laterais conforme elas se moviam.

O beijo que se seguiu foi calmo no início, um gosto de conforto e pertencimento. Mas, conforme as mãos de Julia exploravam o corpo de Kate debaixo da água, a temperatura parecia subir além do que o aquecedor permitia. A russa soltou um gemido baixo quando os dedos de Julia encontraram sua intimidade, movendo-se com uma precisão que a deixou trêmula.

— Julia... aqui não... vamos para a cama — Kate pediu, a voz falhando.

— Não — Julia sussurrou, os olhos brilhando com uma determinação travessa. — Eu quero você aqui. Agora.

Julia dominou a situação, guiando Kate com uma confiança que raramente mostrava fora das quadras. O ambiente úmido e o som da água batendo contra a porcelana criavam uma sinfonia particular. Kate segurou-se nas bordas da banheira, a cabeça jogada para trás, enquanto Julia a levava ao limite com toques calculados e beijos vorazes.

Quando Kate atingiu o ápice, seu grito foi abafado pelo ombro de Julia. Ela tremia nos braços da ruiva, o coração batendo como o de um pássaro assustado. Pouco depois, foi a vez de Kate retribuir, usando a mesma intensidade para fazer Julia perder o chão, mesmo dentro da água.

Exaustas, mas finalmente em completa sintonia, elas saíram da banheira e se secaram mutuamente, um gesto de carinho que selava a paz definitiva. Deitadas na cama, envoltas em lençóis de algodão egípcio, o silêncio era preenchido apenas pela respiração pesada de ambas.

— Julia? — Kate chamou, quase pegando no sono.

— Oi, loira.

— Amanhã... eu vou deixar você marcar alguns pontos no treino. Só por hoje.

Julia soltou uma risada cansada e beijou a testa de Kate.

— Não ouse, Antropova. Eu quero ganhar de você honestamente.

— Eu sei que quer. É por isso que eu te amo.

O sono finalmente as alcançou. Em Florença, as luzes da cidade brilhavam lá fora, mas dentro daquele quarto, o único brilho que importava era o da chama que Julia Bergmann e Ekaterina Antropova haviam aprendido a manter acesa, entre ataques, bloqueios e o desejo incontrolável de pertencerem, para sempre, uma à outra.

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