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Amor e gelo

Cicatrizes Sob o Uniforme

A luz da manhã seguinte não trouxe clareza, apenas uma exaustão que pesava nos ossos de Karen. O travesseiro ainda guardava o cheiro de Nick, um resquício amadeirado que parecia zombar do vazio em seu quarto. Ela se levantou mecanicamente, vestindo o agasalho da equipe de patinação. Seus olhos estavam inchados, mas a maquiagem pesada que usava para as competições teria que servir para esconder o desastre emocional que fora sua noite.

Na cozinha, o silêncio era cortante. Seu pai lia o jornal com uma rigidez que ela não via há anos, e sua mãe evitava olhar em sua direção enquanto servia o café. Lucas não estava lá; o som abafado de um saco de pancadas vindo da garagem indicava onde o irmão descontava sua fúria.

— Você vai para o treino? — perguntou a mãe, a voz baixa, quase um sussurro temeroso.

— O regional é em duas semanas, mãe. Eu não posso parar — Karen respondeu, pegando uma maçã e sua bolsa de patins.

— Karen — o pai finalmente falou, sem tirar os olhos do jornal —, nós conversaremos seriamente quando você voltar. O que aconteceu ontem... a falta de respeito com esta casa e com seu irmão...

— Eu não faltei com o respeito com ninguém, pai — Karen o interrompeu, a voz trêmula mas firme. — Eu só me apaixonei. Se o Nick não fosse o melhor amigo do Lucas, vocês estariam comemorando.

Ela não esperou a resposta. Saiu de casa sentindo o ar gélido da manhã bater em seu rosto, caminhando em direção ao ginásio municipal. O trajeto, que antes era preenchido por mensagens de texto trocadas às pressas com Nick, agora parecia infinito. O celular em seu bolso permanecia em silêncio. Nick provavelmente estava enfrentando seu próprio inferno.

Ao chegar ao ginásio, o ambiente estava carregado. O time de hóquei, os *Wolves*, já ocupava metade do gelo. Karen viu Nick imediatamente. Ele estava sem o capacete, os cabelos pretos grudados na testa pelo suor, patinando com uma agressividade que assustava até os veteranos do time. Do outro lado da zona neutra, Lucas o perseguia com o olhar, o taco de hóquei apertado com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

Karen sentou-se no banco para amarrar seus patins, tentando ignorar os sussurros das outras patinadoras. No mundo fechado do ginásio, as notícias voavam mais rápido que um disco de borracha.

— Ei, Ka. Você está bem? — perguntou Beatriz, sua colega de treino e melhor amiga. — O clima ali no gelo está... explosivo.

— Eu estou inteira, Bia. Só preciso treinar.

Karen entrou no gelo, deslizando para a área reservada à patinação artística. Ela tentou se concentrar na música que ecoava pelos alto-falantes, mas seus olhos teimavam em vagar para o outro lado da divisória.

O desastre aconteceu dez minutos depois. Durante um exercício de passes, Lucas não mirou no disco. Ele avançou contra Nick com o ombro, um *body check* desnecessário e violento que lançou Nick contra a mureta de proteção. O som do impacto foi como um tiro.

— Qual é o seu problema, Lucas?! — gritou Nick, levantando-se rapidamente, as tatuagens no pescoço pulsando com a adrenalina.

— O meu problema é você, seu traidor! — Lucas jogou o taco no chão e avançou, agarrando Nick pela grade do protetor facial. — Você entra na minha casa, come na minha mesa e depois vai para o quarto da minha irmã?

— Eu a amo! — Nick gritou de volta, tentando empurrar Lucas para longe sem começar uma briga generalizada. — Isso não tem nada a ver com o hóquei, para com essa cena!

O treinador dos *Wolves* apitou freneticamente, correndo para o centro do gelo, mas Karen foi mais rápida. Ela deslizou sobre as lâminas finas, atravessando a divisória e parando entre os dois rapazes. O gelo voou sob seus pés quando ela freou bruscamente.

— Parem com isso agora! — Karen gritou, a voz ecoando por todo o ginásio. — Lucas, você está agindo como um animal! E Nick, não piore as coisas!

— Sai daqui, Karen! — Lucas esbravejou, o rosto vermelho de raiva. — Isso é entre eu e esse desgraçado.

— Não, não é! — ela rebateu, aproximando-se do irmão, ignorando o risco de levar uma tacada acidental. — É sobre mim também. Você diz que quer me proteger, mas está me humilhando na frente de todo mundo. Você acha que eu sou o quê? Um troféu que o Nick roubou de você? Eu tenho voz, Lucas. E eu escolhi estar com ele.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Os outros jogadores de hóquei observavam a cena, divididos entre a lealdade ao capitão, Lucas, e a amizade com Nick.

— Se ele colocar os pés na nossa casa de novo, eu não respondo por mim — Lucas sibilou, pegando seu taco e saindo do gelo em direção ao vestiário, ignorando as ordens do treinador para voltar.

Nick deu um passo em direção a Karen, mas ela recuou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Nick, agora não — ela sussurrou.

— Karen, eu não vou deixar ele fazer isso com a gente.

— Ele já fez, Nick. Olha ao redor.

Ela se virou e voltou para sua área, mas o treino estava arruinado. Ela não conseguia acertar um salto simples, sua mente voltando repetidamente para a imagem de seu irmão e seu namorado quase se matando no gelo que ela tanto amava.

As aulas na escola não foram melhores. Nick era o típico "bad boy" charmoso, o jogador de hóquei que todas queriam, e Karen era a patinadora perfeita, a "princesinha" do gelo. O relacionamento secreto deles era o assunto proibido que agora todos comentavam nos corredores.

Karen estava guardando seus livros no armário quando sentiu uma mão em seu ombro. Ela se virou, esperando ver Nick, mas era Lucas. Ele parecia mais calmo, mas seus olhos ainda guardavam uma mágoa profunda.

— Podemos conversar? — ele perguntou, a voz rouca.

Eles caminharam até a arquibancada vazia do campo de futebol americano. O vento de outono soprava forte, balançando os cabelos escuros de Karen.

— Por que com ele, Ka? — Lucas começou, chutando uma pedrinha. — De todos os caras do mundo... por que o meu melhor amigo? Você sabe o que ele faz. Você sabe quantas garotas ele já deixou para trás.

— O Nick não é quem você pensa que é, Lucas — Karen respondeu, sentando-se no degrau de metal frio. — Com você, ele é o companheiro de time, o cara que faz piadas e sai para beber. Comigo... ele é sensível. Ele me ouve. Ele esteve lá em cada queda minha nos treinos quando você estava ocupado demais sendo o astro do hóquei.

— Eu estava treinando para dar um futuro para essa família! — Lucas exclamou. — E ele estava nas suas costas, me fazendo de idiota.

— Não foi para te fazer de idiota. Foi por medo de te perder. Ele te ama como um irmão, Lucas. Ele tinha pavor de que, se contássemos, você faria exatamente o que está fazendo agora: destruiria tudo.

— Ele já destruiu a nossa amizade no momento em que encostou em você.

— Então a culpa é minha? — Karen levantou-se, a fúria brilhando em seus olhos. — Eu não sou uma propriedade, Lucas Silva. Eu sou sua irmã. E se você não consegue ficar feliz porque eu encontrei alguém que me trata como se eu fosse a única pessoa no mundo, então talvez você não seja o irmão que eu pensava que era.

Ela o deixou sozinho na arquibancada. O peso do segredo fora substituído pelo peso da ruptura, e ela não sabia qual era pior.

Ao chegar em casa naquela tarde, Karen encontrou Nick sentado nos degraus da varanda. Ele estava com um hematoma começando a se formar na mandíbula, cortesia do empurrão de Lucas no gelo.

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, correndo até ele. — Meu pai pode chegar a qualquer momento.

— Eu não me importo mais, Karen — Nick disse, levantando-se. Ele pegou as mãos dela nas suas, a pele clara dele contrastando com as tatuagens negras que desciam pelos pulsos. — Eu passei o dia pensando. Nós não podemos continuar vivendo assim, nas sombras ou em guerra.

— E qual é o plano? — ela perguntou, com um sorriso triste. — Fugir?

— Não. Provar para eles que isso é real.

— Como? O Lucas te odeia agora. Meu pai acha que você traiu a confiança dele.

— Sexta-feira é o grande jogo — Nick disse, seus olhos escuros brilhando com uma determinação nova. — Os olheiros estarão lá. O Lucas quer ser o centro das atenções, quer mostrar que é o melhor. Mas o hóquei é um esporte de equipe. Se ele não jogar comigo, o time perde. E se o time perder, os olheiros vão embora.

— Você vai chantagear o meu irmão?

— Não. Eu vou salvar o jogo dele. Vou mostrar para ele que, mesmo com tudo isso, eu ainda protejo as costas dele. No gelo e fora dele. E depois... depois da partida, eu vou falar com seu pai. Homem para homem. Sem esconder nada.

Karen sentiu um aperto no peito. Nick estava arriscando tudo — sua carreira, sua posição no time e sua segurança física.

— E se ele não aceitar?

Nick a puxou para perto, selando seus lábios em um beijo calmo, mas cheio de promessas.

— Então eu vou continuar lutando por você. Até que não reste mais gelo para patinar.

Naquela noite, o drama doméstico atingiu um novo ápice. O jantar foi servido em silêncio absoluto. Lucas se recusava a passar o sal para Karen, e o pai deles parecia ter envelhecido dez anos em um dia.

— Nick ligou para cá — disse o Sr. Silva, de repente, pousando o garfo.

Karen e Lucas congelaram.

— Ele queria falar comigo — continuou o pai, olhando para o filho. — Eu desliguei na cara dele. Mas ele mandou uma mensagem. Disse que não importa o que eu pense dele, ele não vai desistir da Karen. E que, no jogo de sexta, ele vai jogar por você, Lucas.

Lucas soltou uma risada sarcástica.

— Ele vai jogar por ele mesmo, pai. Ele quer limpar a barra.

— Talvez — disse o pai, voltando-se para Karen. — Ou talvez ele seja mais homem do que eu imaginei. Mas não se engane, Karen. Se ele falhar com você, ou se isso afetar o futuro do seu irmão, eu mesmo o tirarei da sua vida.

— Ele não vai falhar, pai — Karen disse, com uma convicção que surpreendeu a si mesma.

Os dias seguintes foram uma tortura de antecipação. No ginásio, Karen treinava sua rotina para o regional com uma ferocidade nova. Cada salto, cada giro, era carregado com a frustração e o amor que ela sentia. Nick e Lucas não se falavam no vestiário, e no gelo, a comunicação era puramente técnica, desprovida da camaradagem que os tornara a dupla mais temida da liga juvenil.

Sexta-feira chegou com uma nevasca leve que cobria a cidade com um manto branco. O ginásio estava lotado. As arquibancadas tremiam com os gritos da torcida dos *Wolves*. Karen estava na primeira fila, o coração batendo na garganta. Ela usava a jaqueta do time, mas por baixo, carregava o colar que Nick lhe dera no primeiro aniversário de namoro secreto.

O jogo começou tenso. O time adversário era físico e agressivo. Lucas estava jogando como um possesso, marcando o primeiro gol em cinco minutos, mas sua arrogância o fazia ignorar Nick no gelo. Ele tentava fazer tudo sozinho, perdendo discos e se expondo a contra-ataques perigosos.

No segundo período, o desastre quase se repetiu. Lucas foi cercado por dois defensores adversários contra a mureta. Ele estava prestes a perder o disco e sofrer uma carga violenta quando Nick surgiu do nada. Com uma manobra arriscada, Nick se jogou entre Lucas e os adversários, recebendo o impacto total para que Lucas pudesse sair com o disco limpo.

O baque foi surdo. Nick caiu no gelo, e por um segundo, ele não se mexeu. Karen ficou de pé, as mãos cobrindo a boca.

Lucas parou, o disco nos pés, olhando para o melhor amigo caído. A fúria em seus olhos foi substituída por um choque de realidade. Ele viu Nick se esforçando para levantar, a respiração pesada, mas ainda assim apontando para o gol, incitando Lucas a continuar.

Naquele momento, algo mudou. Lucas não marcou o gol. Ele esperou Nick se recompor, patinou até ele e estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. Não houve palavras, apenas um aceno de cabeça.

O restante do jogo foi uma exibição de sintonia perfeita. Eles jogaram como se fossem um só organismo. Passes precisos, coberturas mútuas. O *Wolves* venceu por 4 a 1.

Ao final da partida, enquanto os olheiros faziam anotações frenéticas, Lucas e Nick caminharam juntos para fora do gelo. Karen correu para o túnel dos vestiários, o coração disparado.

Lucas foi o primeiro a sair. Ele estava suado, exausto, mas seu rosto estava limpo de raiva. Ele olhou para Karen e depois para Nick, que vinha logo atrás, tirando as luvas.

— Você é um idiota, Nick — disse Lucas, a voz cansada. — Um idiota suicida.

— Eu te disse que protegia suas costas — Nick respondeu, limpando um filete de sangue no lábio.

Lucas suspirou, olhando para a irmã.

— Eu ainda odeio a ideia de vocês dois. Odeio o fato de terem mentido para mim. Mas... eu vi como você olhou para ele quando ele caiu, Ka. E vi o que ele fez por mim hoje, mesmo depois de tudo o que eu disse.

Lucas deu um passo à frente e, para a surpresa de todos, deu um soco leve no ombro de Nick.

— Se você partir o coração dela, eu não vou apenas te empurrar contra a mureta. Eu vou acabar com você. Entendeu?

Nick sorriu, um sorriso real e aliviado.

— Entendido, capitão.

Lucas passou por eles, dando espaço. Nick não perdeu tempo. Ele puxou Karen para seus braços, ali mesmo, no corredor movimentado, sob o olhar de treinadores, colegas e pais. Ele a beijou com toda a intensidade que o segredo antes impedia.

— Acabou o esconderijo? — ela perguntou entre beijos, rindo com lágrimas nos olhos.

— Acabou — Nick afirmou, abraçando-a com força. — Agora, só falta o seu pai.

Karen olhou para o final do corredor, onde o Sr. Silva os observava com os braços cruzados. Ele não estava sorrindo, mas também não estava gritando. Ele apenas acenou com a cabeça, um gesto silencioso de que o caminho seria longo para reconstruir a confiança, mas que o gelo, finalmente, tinha parado de quebrar.

Naquela noite, Karen voltou para o gelo às cinco da manhã. Mas desta vez, ela não estava sozinha na penumbra azulada. Nick estava lá, sentado no banco, apenas observando-a patinar. Não havia mais medo, não havia mais mentiras. Apenas o som das lâminas cortando o gelo e a promessa de que, não importa o quão difícil fosse a coreografia da vida, eles aprenderiam a dançar juntos.