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Amor e gelo

Equilíbrio Precário

O silêncio do ginásio às cinco da manhã tinha um tom diferente agora. Não era mais o silêncio pesado da clandestinidade, mas uma calmaria vigilante. Karen deslizava pelo centro do rinque, executando uma sequência de *power pulls* que faziam suas coxas queimarem. A liberdade de não ter que olhar por cima do ombro a cada cinco minutos era inebriante, mas o peso das consequências ainda estava lá, ancorado em cada olhar atravessado que recebia em casa.

Nick estava sentado no banco dos reservas, com os patins de hóquei desamarrados e um copo térmico de café fumegante entre as mãos tatuadas. Ele não tirava os olhos dela. Cada salto que ela aterrissava fazia os músculos do seu maxilar contraírem, uma mistura de admiração e o medo constante de vê-la se machucar.

— Você está pensando demais na entrada do *Lutz* — Nick disse, sua voz ecoando nas vigas de aço do teto. — Consigo ver a engrenagem girando daqui, morena. Relaxa os ombros.

Karen parou, as lâminas rangendo no gelo enquanto ela girava para encará-lo. Ela soltou uma lufada de ar frio e sorriu, embora houvesse cansaço em seus olhos.

— É fácil falar para relaxar quando você não tem uma juíza russa avaliando cada milímetro da sua inclinação daqui a dez dias — ela rebateu, patinando até a mureta. — Como está o seu ombro? Vi você fazendo careta no treino de ontem.

Nick deu de ombros, o que claramente lhe causou uma pontada de dor que ele tentou esconder.

— É apenas o preço de ser o escudo humano do seu irmão. Valeu a pena para ver o Lucas parar de me olhar como se eu tivesse matado o cachorro dele. Agora ele só me olha como se eu tivesse roubado o videogame dele. É um progresso.

Karen estendeu a mão por cima da mureta, acariciando o rosto de Nick. A pele dele estava gelada, mas o contato enviou uma onda de calor por seu corpo.

— Meu pai ainda não falou com você desde o jogo, não é?

— Não — Nick suspirou, fechando os olhos por um momento sob o toque dela. — Ele me deixa entrar na casa, mas sou como um fantasma. Ele fala com o Lucas, fala com você, e eu sou apenas a mobília tatuada no canto da sala. Dói, Karen. Ele era o cara que eu mais respeitava depois que meu pai foi embora.

— Vai levar tempo, Nick. Para ele, você não era só o melhor amigo do filho dele. Você era o exemplo de integridade que ele usava para o Lucas. Quando ele descobriu sobre nós, sentiu que a base de tudo o que ele acreditava sobre lealdade estava rachada.

— Eu sei — Nick murmurou, segurando a mão dela e beijando a palma enluvada. — Mas eu não trocaria um segundo do que temos pela aprovação dele. Só queria que as duas coisas pudessem existir ao mesmo tempo.

O som das portas duplas se abrindo interrompeu o momento. Lucas entrou, arrastando sua bolsa de equipamentos com um humor que parecia melhor do que o dos dias anteriores. Ele parou ao ver os dois, hesitou por um segundo e depois caminhou até o banco.

— O treino dos *Wolves* só começa em meia hora, Nick. O que está fazendo aqui tão cedo? — Lucas perguntou, embora o tom não fosse mais de confronto, apenas de uma curiosidade seca.

— Só garantindo que a sua irmã não quebre o pescoço tentando impressionar os fantasmas do ginásio — Nick respondeu com um meio sorriso.

Lucas olhou para Karen, que ainda estava encostada na mureta.

— Mamãe está fazendo aquele café da manhã reforçado. Ela disse que se você não chegar em vinte minutos, vai dar a sua parte para o cachorro.

— Ela disse isso ou você quer a minha panqueca, Lucas? — Karen arqueou uma sobrancelha.

— Um pouco de cada — Lucas admitiu, sentando-se ao lado de Nick para começar a colocar o equipamento. O silêncio entre os dois rapazes era denso, mas não mais hostil. Era o silêncio de dois soldados que haviam declarado um armistício, mas ainda se lembravam de onde as minas terrestres estavam enterradas.

Karen saiu do gelo, trocando os patins pelos tênis com agilidade. Ela sabia que precisava deixá-los sozinhos. A reconstrução daquela amizade era o único caminho para a paz na família Silva.

— Vejo vocês na escola? — ela perguntou, colocando a bolsa no ombro.

— Eu te levo — Nick começou a dizer, mas Lucas o interrompeu.

— Hoje ela vai comigo, Nick. Precisamos conversar sobre... coisas de irmãos. E você precisa de gelo nesse ombro antes que o treinador perceba que você está jogando com um braço só.

Nick olhou para Karen, buscando uma confirmação. Ela assentiu levemente. Era um passo. Um pequeno passo, mas importante.

— Tudo bem — Nick cedeu. — Mas se ele dirigir como um louco, me avisa.

— Eu sou o capitão do time, idiota. Eu dirijo melhor do que você joga na defesa — Lucas retrucou, mas havia um brilho de diversão em seus olhos que não aparecia há semanas.

No carro, o trajeto para a escola foi silencioso até que Lucas desligou o rádio.

— Você realmente gosta dele, não é? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada. — Não é só uma rebeldia contra o papai ou algo assim.

— Lucas, eu amo o Nick desde que eu tinha doze anos e ele me ajudou a esconder aquele vaso quebrado na sala. Você sabe disso. Eu só não sabia como te contar sem que você se sentisse substituído.

— Substituído? — Lucas riu, uma risada amarga. — Ka, eu sou seu irmão. Ninguém substitui isso. Mas o Nick... ele era o meu porto seguro. O cara com quem eu falava sobre tudo. Quando eu descobri, senti que vocês dois tinham um mundo inteiro onde eu não era bem-vindo.

— Nunca foi isso. Nós só queríamos proteger o que tínhamos. O mundo do hóquei e da patinação é tão pequeno, as pessoas julgam tanto... a gente só queria ser a Karen e o Nick por um tempo, antes de sermos "a irmã do Lucas" e "o melhor amigo do Lucas".

Lucas apertou o volante.

— Ele me protegeu no jogo. Ele poderia ter deixado eu levar aquela carga e os olheiros teriam me visto cair. Mas ele se jogou na frente.

— Ele morreria por você, Lucas. E ele sabe que, se me fizer sofrer, ele perde você também. Ele nunca arriscaria isso.

Ao chegarem no estacionamento da escola, a realidade social do ensino médio os atingiu. Grupos de alunos paravam para olhar enquanto os irmãos Silva desciam do carro. A fofoca sobre a briga no ginásio e o namoro secreto ainda era o prato principal do refeitório.

Karen caminhou de cabeça erguida. Ela não era mais a menina escondida atrás das cortinas do palco. No corredor principal, ela encontrou Nick perto dos armários. Ele já estava cercado por alguns colegas de time, mas assim que a viu, ele ignorou os comentários e caminhou até ela.

— Ei — ele disse, a voz baixa e íntima, ignorando os olhares ao redor.

— Ei — ela respondeu, sentindo o coração acelerar.

Nick hesitou por um segundo, olhando para Lucas, que vinha logo atrás. Lucas apenas revirou os olhos e seguiu para sua sala, um sinal silencioso de permissão. Nick então passou o braço pelos ombros de Karen e a beijou na têmpora.

— Quer almoçar na arquibancada hoje? — ele sugeriu. — Longe de todo mundo?

— Eu adoraria.

As aulas passaram como um borrão. Karen mal conseguia se concentrar em biologia, sua mente vagando entre as sequências de saltos e o jantar que teria que enfrentar naquela noite. Seu pai havia convocado uma "reunião de família", e Nick não fora convidado.

O almoço na arquibancada foi o único momento de paz. O vento soprava frio, mas o calor do corpo de Nick contra o dela era o suficiente. Eles dividiram um sanduíche e falaram sobre o futuro, algo que antes parecia proibido.

— Se eu conseguir a bolsa para a universidade em Michigan... — Nick começou, mas parou, olhando para o horizonte.

— Michigan tem um dos melhores programas de patinação artística do país — Karen completou, o coração apertado. — Nós poderíamos...

— Nós vamos, Karen. Eu não vou para lugar nenhum sem você. Se eu tiver que jogar em uma liga menor só para ficar na mesma cidade que o seu centro de treinamento, eu vou.

— Nick, você não pode sacrificar sua carreira por mim.

— Não é sacrifício se é onde eu quero estar — ele disse, virando-se para encará-la. — Eu passei anos sendo o "galinha" porque nenhuma garota fazia sentido. Nenhuma delas tinha a sua força, a sua disciplina, ou aquele jeito que você morde o lábio quando está tentando acertar um *Axel*. Eu já escolhi, Karen. Há muito tempo.

O momento foi interrompido pelo sinal, mas a promessa ficou pairando no ar.

À noite, a atmosfera na casa dos Silva estava carregada. O Sr. Silva estava sentado à cabeceira da mesa, com uma expressão que Karen conhecia bem: era a expressão de quando ele estava prestes a tomar uma decisão técnica difícil.

— Karen, Lucas — ele começou, limpando a garganta. — Eu refleti muito sobre os últimos acontecimentos. A lealdade é o pilar desta família. E ambos falharam comigo nesse quesito.

Karen abriu a boca para protestar, mas um olhar do pai a silenciou.

— No entanto — ele continuou —, eu também vi algo no jogo de sexta que me fez pensar. Vi um time que quase se destruiu por segredos, mas que se salvou pela verdade. Nick agiu com honra no gelo. E você, Karen, mostrou uma maturidade que eu não esperava ao defender suas escolhas.

— O que o senhor está querendo dizer, pai? — Lucas perguntou, mexendo nervosamente no guardanapo.

— Estou querendo dizer que não vou mais proibir o relacionamento de vocês. Mas haverá regras. Regras rígidas. O foco continua sendo o esporte. Se as notas caírem, ou se eu vir qualquer sinal de que isso está distraindo vocês das competições, acabou. E Nick... bem, ele terá que reconquistar seu lugar nesta mesa. Um jantar por semana. Começando no próximo domingo.

Karen sentiu um alívio tão grande que seus olhos se encheram de lágrimas. Não era um perdão total, mas era uma chance. Uma fresta de luz em uma porta que estava trancada.

— Obrigada, pai — ela sussurrou.

— Não me agradeça ainda. Vou cobrar o dobro de vocês no gelo. Se vocês querem ser adultos para namorar, serão tratados como adultos na arena.

Após o jantar, Karen correu para o jardim. Ela sabia que Nick estaria esperando em algum lugar por perto. Ela não precisou procurar muito; a silhueta dele estava encostada no carvalho antigo.

— E então? — ele perguntou, a ansiedade clara em sua voz.

Karen não disse nada. Ela apenas correu e pulou em seu colo, envolvendo as pernas em sua cintura. Nick a segurou firme, rindo de alívio antes mesmo de ouvir a notícia.

— Ele deixou, Nick! Um jantar por semana. É um começo.

Nick a girou no ar, o som de suas risadas abafado pela noite.

— Eu vou trazer as melhores flores para a sua mãe e o vinho mais caro que meu salário de monitor de gelo puder comprar para o seu pai — ele prometeu, descendo-a lentamente.

— Só não tente ser perfeito demais — Karen riu, limpando uma lágrima. — Ele prefere a verdade, lembra?

— A verdade é que eu sou louco pela filha dele. Acho que ele já percebeu isso.

Eles ficaram ali, sob as estrelas, dois jovens cujas vidas eram definidas por lâminas e discos, mas cujos corações tinham encontrado um ritmo próprio. O drama escolar continuaria, as pressões em casa não desapareceriam da noite para o dia, e o gelo continuaria sendo um mestre cruel e frio.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, Karen sentiu que seu equilíbrio era real. Não era mais uma ilusão mantida por mentiras, mas uma força construída sobre a coragem de ser quem realmente era.

— Sabe de uma coisa? — Nick sussurrou, encostando a testa na dela. — Eu acho que o Lucas vai acabar sendo o nosso maior aliado.

— Por que você acha isso?

— Porque ele acabou de mandar uma mensagem dizendo que, se eu não soltar você e for para casa agora, ele vai contar para o seu pai que eu estou no jardim.

Karen riu, olhando para a janela do quarto de Lucas, onde uma fresta da cortina se fechava rapidamente.

— É — ela concordou —, parece que a vida voltou ao normal.

— Nada em nós é normal, Karen — Nick a beijou uma última vez, um beijo que prometia um futuro inteiro. — E é exatamente por isso que vai funcionar.

Enquanto Nick desaparecia na escuridão em direção à sua casa, Karen olhou para suas próprias mãos. Elas estavam firmes. O regional estava chegando, a pressão era imensa, mas ela não tinha mais medo de cair. Porque agora, ela sabia que havia alguém para ajudá-la a levantar, alguém para aplaudir nas sombras e alguém para segurar sua mão quando as luzes do ginásio finalmente se apagassem.

O gelo poderia ser frio, mas o fogo entre eles era capaz de derreter qualquer barreira. E no final das contas, entre piruetas e gols, o que importava era que eles não precisavam mais patinar sozinhos.