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Amor e odio

O Eco da Ressaca e o Gosto do Perigo

O vapor do chuveiro ainda embaçava o espelho do banheiro quando Chuuya saiu, enrolado em uma toalha preta que contrastava violentamente com a brancura de sua pele e o ruivo vívido de seus cabelos úmidos. Ele sentia cada músculo do corpo reclamar — uma mistura da surra que dera nos subordinados no dia anterior e da intensidade avassaladora de Dazai naquela manhã.

Ao entrar na cozinha, deparou-se com uma cena que beirava o surreal: Dazai Osamu, o homem mais perigoso e imprevisível que já cruzara os caminhos da Máfia e da Agência, estava usando um avental que Chuuya nem lembrava de ter, cantarolando uma melodia fúnebre enquanto despejava café em duas xícaras de porcelana fina.

— Você parece um pouco menos tenso, Chuuya — comentou Dazai, sem se virar. — Ou talvez seja apenas a gravidade finalmente pesando sobre seus ombros pequenos.

— Cala a boca antes que eu use a sua cara para limpar o chão — rebateu Chuuya, sentando-se à bancada. Ele pegou a xícara, o calor do café aquecendo suas palmas. — E tira esse avental. Você parece um idiota.

— Oh, mas eu sou um idiota. Sou o seu idiota favorito, não sou? — Dazai virou-se, apoiando os cotovelos na bancada e inclinando o corpo para a frente, o olhar fixo no ruivo.

Havia uma marca de dentes bem visível no ombro de Dazai, um presente que Chuuya deixara no auge do prazer e da frustração. Dazai não fez questão de cobri-la, exibindo-a como um troféu de guerra. Chuuya desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar.

— Você é um parasita — murmurou Chuuya, soprando o café. — Por que você ainda está aqui? O Kunikida já deve ter ligado umas cinquenta vezes.

— Eu desliguei o celular. E o seu também — Dazai deu de ombros, com uma naturalidade irritante. — Achei que precisávamos de um momento de paz pós-coital. Ou, no seu caso, um momento para você processar o fato de que eu sou o único que consegue te deixar sem fôlego sem usar uma habilidade especial.

Chuuya bateu a xícara na bancada, o líquido escuro oscilando perigosamente.

— Você se acha demais, Dazai. Foi só... um alívio de estresse. Nada mudou.

Dazai soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Chuuya. Ele se aproximou, estendendo a mão para tocar uma mecha molhada do cabelo ruivo, enrolando-a no dedo.

— Mentiroso. Você sempre foi um péssimo mentiroso para mim, Chuuya. Suas pupilas ainda estão dilatadas, e o seu batimento cardíaco acelerou no momento em que eu mencionei o que aconteceu entre esses lençóis.

Chuuya segurou o pulso de Dazai, apertando-o com força suficiente para deixar marcas, mas não para quebrar o osso.

— O que você quer, Dazai? Você não aparece aqui só para transar e fazer café. Você sempre tem um ângulo, uma jogada. O que é desta vez?

O olhar de Dazai mudou. A máscara de deboche não caiu totalmente, mas as sombras nos seus olhos castanhos tornaram-se mais densas, mais reais. Ele puxou a mão suavemente, livrando-se do aperto de Chuuya, e caminhou até a janela que dava para o porto de Yokohama.

— O Porto está inquieto, Chuuya. Há rumores de um novo grupo tentando se infiltrar nas rotas de contrabando que a Máfia controla. Eles se chamam "Os Filhos da Névoa".

Chuuya franziu o cenho, o instinto de executivo assumindo o controle.

— Eu ouvi os relatórios. Ratos insignificantes. Nós vamos esmagá-los antes do final da semana.

— Não são apenas ratos — disse Dazai, observando os navios ao longe. — Eles têm um usuário de habilidade que pode anular a percepção sensorial. É por isso que seus homens estão voltando feridos e sem memórias claras do ataque. Mori sabe disso. E ele sabe que, para pegá-los, ele precisa de algo que eles não consigam prever.

Chuuya levantou-se, a toalha ameaçando escorregar, mas ele a segurou com firmeza. Ele caminhou até parar atrás de Dazai.

— E o que isso tem a ver com você estar na minha cama às oito da manhã?

Dazai virou-se, um sorriso enigmático brincando em seus lábios.

— Mori me contatou ontem à noite. Ele quer uma colaboração temporária. A Agência e a Máfia. Mais especificamente... ele quer o Soukoku.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Chuuya sentiu uma pontada de raiva misturada com uma familiaridade cansada. O Soukoku. A Dupla Negra. A combinação mais destrutiva de Yokohama, e a mais emocionalmente desgastante.

— Aquele velho desgraçado — rosnou Chuuya. — Ele não desiste de tentar te trazer de volta, não é? Ou de nos usar como peças de um tabuleiro que só ele enxerga.

— Ele sabe que somos eficientes — disse Dazai, dando um passo em direção a Chuuya, invadindo seu espaço novamente. — E ele sabe que, apesar de todo o seu ódio por mim, você luta melhor quando eu estou por perto. Você se permite ser o monstro, porque sabe que eu sou o único que pode te trazer de volta.

Chuuya bufou, mas não recuou. Ele olhou nos olhos de Dazai, procurando a mentira, mas encontrou apenas aquela verdade desconfortável que ambos compartilhavam.

— Eu não preciso de você para me controlar, Dazai. Eu evoluí.

— Ah, é? — Dazai deslizou a mão pela cintura de Chuuya, puxando-o para mais perto, a pele nua do ruivo reagindo instantaneamente ao toque. — Então por que você não me expulsou ontem à noite? Por que você me deixou te comandar hoje cedo?

— Porque você é irritante e eu estava cansado demais para lutar — mentiu Chuuya, a voz falhando levemente.

— Você é um cachorrinho tão teimoso — murmurou Dazai, inclinando-se para sussurrar no ouvido de Chuuya. — Mas a missão começa hoje à noite. Encontro no armazém 4, às 22h. Não se atrase, Chuu-ya. Eu odiaria ter que ir buscar você e te ver usando aquele chapéu ridículo na frente dos inimigos.

— Eu vou te chutar para fora deste apartamento agora mesmo! — gritou Chuuya, a aura vermelha de sua habilidade brilhando fracamente ao redor de seu corpo.

Dazai riu, afastando-se com a agilidade de um gato. Ele pegou seu casaco bege, que estava jogado sobre uma cadeira, e caminhou em direção à porta. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro.

— A propósito, Chuuya... o risoto estava um pouco salgado. Mas a sobremesa desta manhã foi perfeita.

Antes que Chuuya pudesse arremessar a xícara de café na cabeça dele, Dazai desapareceu pelo corredor, o som de sua risada ecoando pelo apartamento luxuoso.

Chuuya ficou parado no meio da cozinha, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada. Ele olhou para a xícara em sua mão, depois para a porta fechada. A raiva estava lá, fervendo como sempre, mas por baixo dela havia algo que ele odiava admitir: uma antecipação eletrizante.

Lutar ao lado de Dazai era como dançar na beira de um abismo. Era perigoso, era exaustivo e era a única coisa que o fazia se sentir verdadeiramente completo.

Ele caminhou até o quarto, jogando a toalha de lado e começando a se vestir. Ele escolheu seu melhor terno, ajustou o coldre e, finalmente, pegou o chapéu. Ele o posicionou na cabeça com um toque de desafio, olhando-se no espelho.

— Soukoku, hein? — murmurou para o próprio reflexo. — Prepare-se, Dazai. Se você cometer um erro hoje à noite, eu não vou apenas te anular. Eu vou te enterrar sob dez toneladas de concreto.

Ele sabia que Dazai provavelmente contava com isso.

O dia passou em um borrão de reuniões burocráticas na sede da Máfia. Chuuya estava mais impaciente do que o normal, o que fazia seus subordinados tremerem cada vez que ele entrava em uma sala. Mori, sentado em seu trono de sombras, observava o ruivo com um sorriso de satisfação que Chuuya teve vontade de apagar com um soco.

— Você parece pronto para a ação, Chuuya-kun — comentou Mori, enquanto acariciava o cabelo de Elise. — Espero que a sua... reunião matinal com Dazai-dono tenha sido produtiva.

Chuuya cerrou os dentes.

— Não sei do que você está falando, chefe. Apenas cumpra a sua parte do plano e mantenha os reforços prontos.

— Oh, eu cumprirei. Só não se esqueça: Dazai é um mestre em muitas coisas, mas a lealdade dele é uma flor que só desabrocha sob pressão. Não se deixe enganar pelo que acontece entre vocês quatro paredes.

— Eu sei exatamente quem ele é — rebateu Chuuya, virando as costas e saindo da sala.

Às 21h50, Chuuya chegou ao Armazém 4. O vento do porto soprava frio, trazendo o cheiro de sal e óleo diesel. Ele estava parado no topo de um contêiner, os braços cruzados, a capa de seu casaco flutuando ao vento.

— Você está três minutos adiantado, Chuuya. Que ansiedade é essa? — A voz de Dazai veio das sombras abaixo dele.

Dazai saiu da escuridão, as mãos nos bolsos do casaco, o rosto iluminado pela luz pálida da lua. Ele parecia calmo, quase entediado, mas Chuuya conhecia aquele brilho nos olhos dele. Era o brilho da caça.

— Eu só queria garantir que você não tentasse se suicidar pulando no mar antes da missão começar — disse Chuuya, saltando do contêiner e aterrissando suavemente diante de Dazai.

— E perder a chance de ver você esmagar crânios? Jamais — Dazai sorriu, aproximando-se até que seus ombros se tocassem. — O plano é simples. Eu entro como isca, eles tentam usar a habilidade de anulação sensorial em mim, o que obviamente não vai funcionar, e você cai do céu como o deus da destruição baixinho que você é.

— Eu já disse para parar de me chamar de baixinho — Chuuya ajustou suas luvas, a aura vermelha começando a emanar de seus punhos. — E se o plano falhar?

Dazai olhou para ele, e por um breve momento, a conexão entre eles foi tão tangível quanto o chão sob seus pés.

— O Soukoku nunca falha, Chuuya. Você sabe disso.

— É — Chuuya deu um sorriso feroz, a adrenalina começando a correr. — Vamos acabar com isso.

Eles avançaram para o interior do armazém, movendo-se em perfeita sincronia, uma coreografia de violência e estratégia que fora aperfeiçoada em anos de sangue e sombras. Naquela noite, Yokohama lembraria por que a Dupla Negra era temida. E Chuuya, entre um golpe e outro, sentiria o peso da mão de Dazai em seu ombro, um lembrete silencioso de que, não importa o quanto tentassem se afastar, a gravidade deles sempre os puxaria de volta um para o outro.