Amor e odio
O Peso do Comando e o Brilho do Azul
A luz da manhã em Yokohama era impiedosa, atravessando as cortinas de seda do quarto de Chuuya como lâminas douradas. O apartamento, geralmente um santuário de ordem e luxo, exalava o caos da noite anterior: roupas espalhadas pelo tapete persa, uma garrafa de vinho vazia tombada e o silêncio denso que precede uma tempestade emocional.
Chuuya Nakahara acordou com o peso de um braço enfaixado sobre seu peito. Ele tentou se mexer, mas um rosnado baixo escapou de sua garganta quando sentiu a rigidez em seus músculos. Antes que pudesse processar a ressaca ou a dor, uma voz arrastada e perigosamente próxima ao seu ouvido o fez congelar.
— Já acordou, Chuuya? — Dazai Osamu não parecia ter acabado de despertar. Sua voz estava limpa, carregada daquela autoconfiança irritante que sugeria que ele estava observando Chuuya dormir há horas. — Você ronca como um motor estragado quando está exausto. É quase adorável.
— Cala a boca, Dazai — resmungou Chuuya, tentando empurrar o braço do outro, apenas para ser puxado de volta contra o peito magro, mas firme, do moreno. — Sai de cima de mim. Eu tenho uma reunião no Porto em uma hora.
Dazai soltou uma risada curta, um som seco que vibrou contra as costas de Chuuya.
— Você não vai a lugar nenhum. Hoje, as leis da gravidade não respondem a você, pequeno executivo. Elas respondem a mim.
Chuuya girou o corpo com uma agilidade surpreendente, ficando de frente para Dazai. Seus olhos azuis brilhavam com uma mistura de fúria e algo mais profundo, algo que ele odiava admitir.
— Você está no meu apartamento, na minha cama, e acha que pode me dar ordens? — Chuuya sibilou, as mãos subindo para o pescoço de Dazai, não para estrangular, mas para prendê-lo. — Você esquece quem eu sou?
— Eu nunca esqueço quem você é, Chuuya — Dazai sorriu, aquele sorriso que nunca chegava aos olhos, exceto em momentos como este. Ele segurou os pulsos de Chuuya com uma força que o ruivo raramente permitia que alguém exercesse sobre ele. — Você é o meu parceiro. O meu cão. E hoje, eu decidi que quero ver o quanto você pode ser obediente.
O ar no quarto pareceu ficar mais pesado. Chuuya sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia uma diferença fundamental entre eles: Chuuya era o poder bruto, a destruição encarnada; Dazai era o vazio, o mestre da manipulação que sabia exatamente quais cordas puxar para fazer Chuuya dançar.
— Você está brincando com o fogo, Dazai — avisou Chuuya, embora sua voz tivesse perdido um pouco da agressividade, tornando-se mais rouca.
— Eu sou imune ao fogo, lembra? — Dazai inclinou-se, roçando o nariz no de Chuuya. — Agora... fique de joelhos.
Chuuya parou. O pedido era um golpe direto em seu orgulho, uma afronta a tudo o que ele representava na Máfia do Porto. Ele deveria usar sua habilidade, deveria esmagar Dazai contra a parede e rir de sua audácia. Mas, em vez disso, ele olhou para os olhos escuros de Dazai e viu o desafio silencioso.
— Você quer que eu me humilhe? — perguntou Chuuya, a voz falhando.
— Eu quero que você se entregue — corrigiu Dazai, soltando os pulsos dele e apontando para o centro da cama. — Sem gravidade. Sem resistência. Apenas você e a minha vontade.
Lentamente, como se cada centímetro de seu corpo protestasse, Chuuya se moveu. Ele se ajoelhou sobre o colchão macio, os cabelos ruivos bagunçados caindo sobre os olhos. Ele se sentia exposto, nu em mais de um sentido, sob o olhar analítico de Dazai.
Dazai sentou-se à sua frente, observando a cena com uma satisfação predatória. Ele estendeu a mão e tocou a bochecha de Chuuya, descendo os dedos até o queixo, forçando o ruivo a olhar para cima.
— Bom garoto — murmurou Dazai, e o elogio queimou Chuuya mais do que qualquer insulto.
— Eu vou te matar por isso — disse Chuuya, embora suas mãos estivessem espalmadas sobre as coxas, tremendo levemente.
— Talvez — Dazai aproximou-se, sua mão descendo pelo pescoço de Chuuya até encontrar a coleira de couro que o ruivo raramente tirava. Ele puxou levemente, trazendo o rosto de Chuuya para mais perto do seu. — Mas não agora. Agora, você vai me mostrar o quanto você me odeia, Chuuya. Use esse ódio para me satisfazer.
O beijo que se seguiu não foi gentil. Foi uma colisão de dentes e línguas, uma luta por dominância que Dazai venceu no momento em que Chuuya soltou um gemido baixo e se inclinou para o toque dele. Dazai comandava o ritmo, suas mãos explorando o corpo de Chuuya com uma familiaridade cruel, encontrando cada cicatriz, cada ponto sensível que ele mesmo ajudara a criar ao longo dos anos.
— Dazai... — Chuuya arqueou as costas quando sentiu os dentes do outro em seu ombro. — Pare de brincar...
— Eu não estou brincando — disse Dazai, sua voz agora um sussurro sombrio contra a pele de Chuuya. Ele empurrou o ruivo de volta para os lençóis, mantendo-se por cima dele, as mãos prendendo os braços de Chuuya acima da cabeça. — Você queria saber como é perder o controle, não é? Sem a sua habilidade para te salvar. Sem a sua força para te proteger.
Chuuya olhou para cima, encontrando o olhar de Dazai. Ele viu o monstro que o mundo temia, o homem que não tinha alma. Mas ele também viu a única pessoa que realmente o enxergava.
— Faça logo — desafiou Chuuya, as pernas envolvendo a cintura de Dazai, puxando-o para mais perto. — Me mostre o que você tem, seu maníaco suicida.
Dazai não precisou de outro convite. Ele se moveu com uma urgência controlada, cada toque sendo uma ordem silenciosa, cada movimento sendo uma prova de que, naquele momento, Chuuya pertencia a ele. O ruivo tentava retomar o controle, tentava morder e arranhar, mas Dazai o subjugava com uma calma enervante, usando seu peso e suas palavras para manter Chuuya exatamente onde ele queria.
— Olhe para mim, Chuuya — ordenou Dazai, enquanto aumentava o ritmo. — Não feche os olhos. Eu quero que você veja exatamente quem está fazendo isso com você.
Chuuya obedeceu, as lágrimas de prazer e frustração embaçando sua visão. Ele viu o rosto de Dazai, geralmente uma máscara de tédio, agora transformado por uma intensidade crua. O prazer era avassalador, uma onda de gravidade que Chuuya não conseguia manipular.
— Eu... eu odeio você... — arquejou Chuuya, as unhas cravando-se nos ombros de Dazai, marcando a pele pálida sob as bandagens.
— Eu sei — respondeu Dazai, um sorriso genuíno e terrível surgindo em seus lábios. — E é por isso que isso é tão perfeito.
O ápice veio como uma explosão, uma perda total de sentido que deixou ambos ofegantes e exaustos. Chuuya desabou contra o colchão, seu coração batendo tão forte que ele sentia o pulso em seus ouvidos. Dazai permaneceu sobre ele por um momento, o rosto escondido na curva do pescoço de Chuuya, antes de se afastar lentamente.
O silêncio retornou ao quarto, mas não era mais o silêncio tenso de antes. Era algo mais pesado, carregado de uma cumplicidade que nenhum dos dois jamais admitiria em voz alta.
Dazai sentou-se na beira da cama, começando a recolher suas bandagens espalhadas. Ele parecia ter voltado ao seu estado normal, o estrategista frio que não se abalava por nada.
— A reunião no Porto começa em trinta minutos, Chuuya — disse Dazai, sem olhar para trás. — Se você se atrasar, o Mori vai suspeitar que você se divertiu demais.
Chuuya jogou um travesseiro na nuca de Dazai, que o moreno desviou com uma risada leve.
— Some daqui, Dazai. Antes que eu decida que a sua morte é mais importante que o meu trabalho.
Dazai levantou-se, vestindo sua camisa e o casaco bege. Ele parou na porta, olhando para Chuuya, que ainda estava envolto nos lençóis, parecendo mais jovem e menos perigoso do que o habitual.
— Você foi um bom garoto hoje, Chuuya — disse Dazai, piscando um olho. — Talvez eu venha te visitar na próxima semana para ver se você ainda se lembra de como obedecer.
— Se você aparecer aqui de novo, eu vou explodir a porta! — gritou Chuuya, mas não havia veneno real em suas palavras.
Dazai saiu, o som de seus passos ecoando pelo corredor até desaparecer. Chuuya suspirou, enterrando o rosto no travesseiro que ainda cheirava ao perfume barato e ao cheiro de hospital de Dazai.
Ele odiava Dazai Osamu. Odiava a forma como ele entrava em sua vida, bagunçava sua ordem e o fazia questionar sua própria força. Mas, enquanto se levantava para se preparar para o dia, Chuuya sentiu o peso da coleira em seu pescoço e um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu em seus lábios.
Afinal, em um mundo de traições e sombras, ser o "cão" de Dazai era a única coisa que parecia real. E Chuuya sabia que, não importa o quanto lutasse, ele sempre responderia ao comando daquele homem. Porque a gravidade podia controlar o mundo, mas Dazai Osamu controlava o coração do deus da destruição.