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Amor e odio

Sombras e Cicatrizes

A noite em Porto Real nunca era verdadeiramente silenciosa. Havia sempre o som do vento uivando pelas ameias, o estalar das tochas moribundas e o eco distante de passos de guardas cansados. Para Esther Targaryen, o ar da Fortaleza Vermelha tornara-se claustrofóbico após o jantar. O olhar gélido de Aemond sobre ela, a tensão silenciosa que vibrava entre os dois como uma corda de harpa prestes a romper, a fizera buscar o ar livre.

Ela se afastou das áreas centrais, buscando a tranquilidade dos jardins baixos, perto das passagens que levavam aos túneis menos vigiados. Seus cabelos pretos ondulados estavam soltos, uma mancha de escuridão contra a palidez de seu vestido de seda azul-profundo. Ela não esperava perigo dentro das muralhas, mas a Fortaleza Vermelha era um ninho de víboras, e às vezes as víboras vinham de fora.

O ataque foi súbito.

Três homens, vestidos com farrapos que cheiravam a esgoto e vinho barato, surgiram das sombras de uma arcada em ruínas. Eles não eram cavaleiros, nem espiões da corte; eram ratos da Baixada das Pulgas que haviam encontrado uma brecha na segurança, movidos pela fome e pela audácia desesperada.

— Vejam só... — sibilou o mais alto, com uma cicatriz que atravessava o lábio. — Uma princesinha perdida.

Esther não recuou. Seus olhos azuis brilharam com um desprezo que mascarava a descarga de adrenalina em suas veias.

— Saiam do meu caminho antes que eu mande queimar suas linhagens até as cinzas — disse ela, a voz firme, embora seu coração martelasse contra as costelas.

— O fogo não vai te salvar agora, lady — rosnou outro, avançando com uma faca enferrujada.

Esther tentou se esquivar, mas um deles agarrou seu braço com uma força bruta, rasgando a seda fina de sua manga. Ela soltou um grito de raiva, atingindo o rosto do agressor com as unhas, mas foi empurrada contra a parede de pedra. O impacto expulsou o ar de seus pulmões.

Antes que a lâmina pudesse tocar sua pele, um vulto escuro cortou o ar noturno.

O som do aço saindo da bainha foi como um trovão. Aemond Targaryen não gritou avisos; ele atacou com a precisão letal de um predador. A luz da lua refletiu-se em sua espada de aço valiriano enquanto ele atravessava o primeiro homem antes mesmo que este pudesse se virar.

O segundo bandido tentou investir, mas Aemond foi mais rápido. Com um movimento fluido e cruel, ele decepou a mão que segurava a faca e, com o retorno da lâmina, abriu a garganta do homem. O sangue espirrou quente contra as pedras frias, chegando a salpicar a barra do vestido de Esther.

O terceiro agressor, vendo seus companheiros caírem como trigo diante da foice, tentou fugir, mas Aemond o alcançou em três passadas largas. Ele o agarrou pelo colarinho e o jogou no chão, cravando a espada no peito do homem com uma força desnecessária, seus olhos fixos no bandido enquanto a vida se esvaía dele.

O silêncio retornou, pesado e metálico. Aemond permaneceu de pé sobre os corpos, a respiração apenas levemente alterada. Ele limpou a lâmina no manto de um dos mortos antes de guardá-la. Só então ele se virou para Esther.

Seu único olho lilás percorreu o corpo dela, procurando ferimentos. Quando viu o rasgo no vestido e o arranhão no ombro de porcelana, uma sombra de fúria genuína cruzou seu rosto, algo que ia além do ódio habitual que eles nutriam um pelo outro.

— Você é uma idiota — disse ele, a voz rouca, aproximando-se dela com passos pesados. — O que faz aqui fora sem proteção? Acha que sua linhagem é um escudo contra o aço de um camponês?

Esther, ainda trêmula pela descarga de energia, endireitou as costas e empinou o queixo, embora suas mãos estivessem geladas.

— Eu não pedi para ser salva, tio — cuspiu ela, tentando recuperar o deboche. — Eu teria dado um jeito.

Aemond parou a centímetros dela. O cheiro de sangue e adrenalina emanava dele, misturando-se ao aroma de couro que ela conhecia tão bem. Ele estendeu a mão, agarrando o queixo dela com uma firmeza que não era violenta, mas possessiva.

— Teria dado um jeito? — Ele riu, um som seco e sem humor. — Você estaria morta ou pior se eu não estivesse seguindo seus passos.

— Estava me seguindo? — Esther arqueou uma sobrancelha, o brilho azul de seus olhos desafiando-o. — A obsessão está ficando difícil de esconder, Aemond.

Ele não respondeu com um insulto. Em vez disso, seus dedos subiram pelo pescoço dela, parando sobre a pulsação acelerada em sua garganta. Ele sentiu o tremor que ela não conseguia ocultar. Aemond suavizou o toque, algo que ele nunca fizera. O polegar dele acariciou a linha da mandíbula de Esther, e o ódio que sempre ardia entre eles pareceu, por um momento, transformar-se em algo mais denso, mais sombrio e, estranhamente, mais terno.

— Você está tremendo — murmurou ele, a voz baixando para um tom que ela nunca ouvira antes. Não era um comando, nem um escárnio. Era uma observação quase vulnerável.

Esther sentiu as defesas desmoronarem. A violência do ataque, seguida pela violência da salvação de Aemond, a deixara exposta. Ela olhou para ele, vendo a cicatriz que marcava seu rosto, o tapa-olho que escondia o que ela sabia ser uma safira, e o olho lilás que agora a observava com uma intensidade que a queimava.

— Foi o susto — sussurrou ela, a voz falhando.

— Mentirosa — disse ele, mas não havia veneno em suas palavras.

Aemond aproximou o rosto do dela. Esther esperava o impacto brutal de seus beijos habituais, a luta por dominância, a dor que servia como anestesia para o desprezo que sentiam. Mas, desta vez, os lábios dele tocaram os dela com uma lentidão agonizante.

Foi um beijo suave, quase exploratório. Aemond provou os lábios vermelhos de Esther como se fossem um fruto proibido que ele finalmente tinha tempo para saborear, em vez de devorar. Ela soltou um suspiro trêmulo, suas mãos subindo para o peito dele, agarrando o couro de seu gibão, mas não para afastá-lo. Ela o puxou para mais perto.

Desta vez, não havia o atrito da raiva. O toque de Aemond em sua cintura era cuidadoso, as palmas das mãos grandes espalmadas contra suas curvas, sentindo o calor através da seda. Ele a pressionou contra a parede, mas não com a força bruta de antes; ele a envolveu, criando um casulo de calor e segurança em meio à carnificina que os cercava.

— Esther... — o nome dela saiu como um gemido baixo, abafado contra a curva de seu pescoço.

Ela inclinou a cabeça para trás, permitindo que ele beijasse a pele macia de seu ombro, logo abaixo do arranhão. Os lábios dele eram quentes, e a língua dele traçou o caminho da dor, transformando-a em um prazer formigante. Esther fechou os olhos, as unhas cravando-se levemente nos ombros dele, soltando gemidos suaves que ecoavam na alcova de pedra.

— Aemond — ela murmurou, a voz carregada de uma necessidade que a assustava. — O que você está fazendo?

Ele parou, a testa encostada no peito dela, a respiração pesada. Por um longo momento, o Príncipe Caolho pareceu lutar contra si mesmo. O ódio era fácil. O ódio era uma armadura. Aquilo, aquele momento de vulnerabilidade, era perigoso.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. A luz da lua tornava a pele de Esther ainda mais branca, como a mais fina porcelana, e seus olhos azuis pareciam oceanos profundos onde ele temia se afogar.

— Eu deveria deixar que eles a levassem — disse ele, mas sua mão ainda acariciava a bochecha dela com uma ternura que desmentia suas palavras.

— Mas não deixou — retrucou Esther, recuperando um pouco de sua força. Ela levou a mão ao rosto dele, os dedos traçando a borda do tapa-olho. — Por que, Aemond? Por que se importa se eu vivo ou morro, se você me odeia tanto?

Aemond fechou o olho, inclinando-se levemente para o toque dela, um gesto tão humano que partiu o coração de Esther de uma forma que a violência nunca conseguira.

— Porque o mundo seria um lugar insuportavelmente entediante sem você para me irritar, sobrinha — respondeu ele, embora a intensidade em sua voz dissesse que era muito mais do que isso.

Ele a beijou novamente, um beijo longo e profundo que selava um pacto silencioso. Ali, entre os corpos dos mortos e as sombras da Fortaleza, eles não eram o Príncipe Verde e a Princesa Negra. Eram apenas dois seres quebrados, unidos por um desejo que transcendia a política e o sangue.

Aemond se afastou por fim, a máscara de frieza começando a se reconstruir, tijolo por tijolo. Ele olhou para os corpos no chão e depois para o vestido rasgado de Esther.

— Vá para seus aposentos — ordenou ele, a voz voltando ao tom autoritário. — Eu cuidarei disso. Se alguém perguntar, você nunca saiu do seu quarto.

Esther ajeitou o cabelo, o coração ainda disparado. Ela olhou para ele uma última vez, vendo o homem que a protegera e o monstro que a desejava, ambos habitando o mesmo corpo.

— E as marcas no meu ombro, Aemond? — perguntou ela, com um traço do antigo deboche, embora seus olhos estivessem úmidos. — Também direi que foi um gato de rua?

Aemond deu um passo à frente, limpando uma gota de sangue da bochecha dela com o polegar.

— Desta vez, diga a si mesma a verdade — sussurrou ele, aproximando-se de seu ouvido. — Diga que foi o seu dragão.

Sem esperar resposta, ele se virou, começando a arrastar um dos corpos para as sombras mais profundas, o trabalho sujo de um protetor que preferia ser temido a ser amado.

Esther caminhou de volta para a segurança do castelo, cada passo pesando mais que o anterior. Ela sentia o frio da noite, mas onde Aemond a tocara, sua pele ainda ardia. Ao entrar em seus aposentos e se olhar no espelho, ela viu a princesa de sempre, mas seus lábios estavam inchados e seus olhos carregavam um segredo que não era feito apenas de ódio.

Ela sabia que, na manhã seguinte, eles voltariam a se ignorar. Ele a olharia com desprezo através da mesa de jantar, e ela lançaria insultos velados sobre sua lealdade. O ciclo de violência e desejo continuaria, alimentado pelo fogo de seus sangues rivais.

Mas, enquanto se deitava e fechava os olhos, Esther ainda podia sentir o toque cuidadoso de Aemond e o som de seu nome em seus lábios. O ódio era a base de tudo o que construíram, mas naquela noite, nas sombras da Fortaleza Vermelha, o fogo havia brilhado com uma cor diferente. E Esther sabia que, não importa o quanto tentassem se destruir, eles estavam irrevogavelmente ligados, dois dragões dançando à beira de um abismo que, cedo ou tarde, os consumiria por inteiro.