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Amor e ódio em moscou

O Som do Silêncio e o Calor da Promessa

O monitor cardíaco emitia um bipe rítmico e suave, agora muito mais lento do que o galope desesperado das horas anteriores. Danye finalmente havia sucumbido ao cansaço avassalador que a pneumonia e os procedimentos médicos deixaram em seu rastro. Ele dormia profundamente, mas seus dedos grandes e calejados permaneciam firmemente entrelaçados aos de Isabel, como se, mesmo no inconsciente, ele temesse que ela pudesse evaporar se ele relaxasse o aperto.

Isabel o observava com uma mistura de ternura e exaustão. O rosto de Danye, geralmente uma máscara de seriedade militar e mandíbula travada, estava agora suavizado pelo sono. Ele parecia mais jovem, quase vulnerável demais para um homem que passava as noites enfrentando o perigo nas ruas de Moscou. O corte buzz cut loiro estava bagunçado, e a palidez de sua pele começava a dar lugar a um tom mais saudável, embora as olheiras ainda estivessem lá, profundas e escuras.

De repente, Danye se mexeu, soltando um resmungo baixo e descontente. Seus olhos azuis se abriram devagar, nublados pela sedação e pelo desconforto. Ele olhou ao redor, o teto branco do hospital parecendo ofendê-lo pessoalmente.

— Isabel... — a voz dele saiu como um sussurro rouco, quase inaudível.

— Estou aqui, meu amor. Não saí do seu lado — ela respondeu prontamente, inclinando-se para beijar a mão dele.

— Leva... leva para casa — ele murmurou, a voz carregada de um dengo que ele jamais admitiria na frente de seus colegas da patrulha. — Não gosto daqui. Cheiro ruim. Cama pequena.

Isabel soltou uma risadinha baixa, tentando aliviar o peso no peito.

— Danye, você tem quase dois metros de altura, qualquer cama de hospital vai parecer pequena para você — ela brincou, passando a mão livre pelos cabelos dele. — E nós só vamos para casa quando os seus pulmões decidirem que conseguem trabalhar sozinhos, sem drama.

— Eu não faço drama — ele protestou, fechando os olhos e fazendo um biquinho involuntário que a fez querer apertar suas bochechas. — Sou um russo. Russos são fortes. Mas este lugar... é para gente velha. Eu quero a minha cama. Quero o seu cheiro, não esse álcool.

— Eu sei, meu urso ranzinza. Mas pense pelo lado positivo: aqui você tem enfermeiras que trazem gelatina para você e um botão que chama ajuda se você espirrar.

Danye abriu um olho só, olhando para ela com ceticismo.

— Eu odeio gelatina. É comida que treme. Comida não deve tremer, Isabel. Comida deve ser carne, batata... vodca.

— Nada de vodca para você por um bom tempo, Petrov — ela o repreendeu suavemente, embora seus olhos brilhassem de diversão. — Você vai ser o homem mais saudável de Moscou. Vou te obrigar a tomar suco verde e comer salada todos os dias.

— Isso é tortura — ele resmungou, apertando a mão dela com um pouco mais de força. — Prefiro as algemas.

Isabel riu, uma risada clara que pareceu iluminar o quarto estéril. Ela sabia que ele estava agoniado, o corpo grande confinado em um espaço tão limitado, mas ver aquele lado "bebezão" dele era o que a mantinha sã.

— Sabe o que eu estava pensando hoje cedo? — ela começou, mudando propositalmente de assunto para distraí-lo. — Estava lembrando daquela vez que você tentou cozinhar feijoada para me fazer uma surpresa.

Danye soltou um gemido de vergonha, escondendo o rosto parcialmente no travesseiro.

— Não fale disso. Foi um desastre tático.

— Um desastre? Danye, você colocou beterraba no feijão porque achou que ia ficar da mesma cor! — Ela deu uma gargalhada, lembrando-se da cozinha manchada de roxo. — E você ainda tentou me convencer de que era uma "versão russa" do prato.

— A cor estava parecida — ele se defendeu, um pequeno sorriso finalmente surgindo no canto de sua boca. — E eu queria te agradar. Você estava com saudades do Brasil.

— Você me agradou, meu amor. O esforço foi a coisa mais fofa do mundo. Mesmo que a gente tenha tido que pedir pizza depois porque o feijão estava duro como pedra.

Danye relaxou um pouco, a tensão em seus ombros diminuindo enquanto ele se perdia nas memórias que ela evocava.

— Quando sairmos daqui... — ele começou, a voz agora mais séria, mas ainda suave — ...eu quero ir para o sol. Quero ver você na areia, Isabel. Quero ver você feliz, sem precisar de casacos pesados.

— Nós vamos, Danye. Eu prometo. Vamos para a casa da minha avó, comer coxinha e beber água de coco. E você vai ficar reclamando do calor e da areia que entra em todo lugar, e eu vou rir de você o tempo todo.

— Eu não vou reclamar — ele disse, com uma convicção quase infantil. — Se você estiver lá, eu posso aguentar até o sol do deserto.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, observando o perfil de Isabel. O rosto de boneca dela estava cansado, mas a determinação em seus olhos era algo que sempre o assombrava e o encantava.

— Você é muito forte, *malyshka* — ele sussurrou em russo. — Mais forte que eu.

— Não diga bobagens. Eu só não tenho outra escolha — ela respondeu, beijando a ponta do nariz dele. — Alguém tem que cuidar desse gigante que se assusta com agulhas.

— Eu não me assusto! — ele protestou, a voz subindo um tom antes de ser interrompida por uma tosse curta. — Eu apenas... questiono a necessidade de perfurar a pele humana com metal. É primitivo.

— Claro, claro. O patrulheiro noturno mais temido de Moscou é apenas um crítico de métodos médicos primitivos — ela zombou, ajeitando o lençol sobre o peito largo dele. — Agora, tente descansar mais um pouco. O médico disse que, se você dormir bem, talvez eles tirem o acesso do seu braço amanhã.

— Sério? — Os olhos dele brilharam com uma esperança renovada.

— Sério. Mas só se você for um bom menino e parar de tentar fugir do quarto toda vez que a enfermeira vira as costas.

Danye suspirou, fechando os olhos e se aninhando no travesseiro. O aperto em sua mão não diminuiu, e Isabel sabia que passaria a noite ali, sentada na poltrona, sendo o porto seguro dele.

— Isabel? — ele chamou, já com a voz pesada pelo sono que voltava.

— Sim, Danye?

— Canta aquela música... a do sol.

Isabel sorriu e começou a cantarolar baixinho uma melodia brasileira, a voz doce preenchendo o espaço entre os bipes das máquinas. Danye soltou um suspiro longo e satisfeito. A agonia de estar no hospital ainda estava lá, a fraqueza em seus pulmões ainda o incomodava, mas com a mão de Isabel na sua e o som de sua voz, o gigante russo finalmente encontrou a paz necessária para curar.

Lá fora, a neve continuava a cair sobre Moscou, mas dentro daquele quarto, o calor era tropical, alimentado por uma promessa de sol e pelo amor inabalável de uma menina que era o mundo inteiro para o seu urso ferido.

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