Voltar ao resumo

Amor e ódio em moscou

O Peso do Fôlego e o Colo de Isabel

O quarto da UTI respiratória era um ambiente de contrastes brutais. O branco estéril das paredes e o brilho frio dos equipamentos médicos pareciam pequenos demais para conter a figura de Danye Petrov. O gigante russo, agora desperto mas terrivelmente debilitado, tentava se sentar com a ajuda dos travesseiros. Cada movimento era uma batalha contra a gravidade e contra o próprio corpo, que parecia ter esquecido como carregar seus 1,90m de altura.

Isabel estava sentada em uma poltrona no canto do quarto. Seus olhos não saíam dele, mas ela mantinha uma distância respeitosa para que a equipe de fisioterapia pudesse trabalhar. Ela apertava as mãos no colo, sentindo o coração disparar a cada vez que via o marido franzir a testa de dor. Ele parecia tão diferente sem a farda, sem a postura ereta de patrulheiro; ali, apenas de avental hospitalar, ele era apenas o seu Danye, vulnerável e assustado.

— *Voda... pozhaluysta*... — sussurrou Danye, a voz saindo como um arranhão seco.

Isabel fez menção de se levantar, mas a fisioterapeuta, uma mulher russa de feições severas chamada Dra. Elena, fez um sinal com a mão para que ela esperasse.

— Só um pouco, Sr. Petrov. Precisamos limpar seus pulmões primeiro — disse a médica em russo, com uma frieza profissional.

Danye olhou para Isabel, os olhos azuis suplicantes. Ele estendeu a mão grande e trêmula em direção a ela, mas Isabel apenas sorriu com tristeza e soprou um beijo, permanecendo onde estava. Ela sabia que, se chegasse perto, ele se agarraria a ela e não deixaria os médicos fazerem o que era necessário. E o que vinha a seguir era o que ela mais temia.

— Vamos começar a aspiração aberta — anunciou Elena.

Danye tencionou os músculos do pescoço assim que viu o tubo fino e transparente de sucção. Isabel sentiu o estômago revirar. Ela já tinha visto aquilo nos dias anteriores, e a reação de Danye era sempre a mesma: puro pânico instintivo.

— Não... — Danye murmurou em inglês, balançando a cabeça. — Isabel... *nyet*...

— É rápido, Danye. Respire fundo — encorajou Isabel do seu canto, a voz embargada.

Quando o tubo foi inserido pela traqueia, o corpo de Danye reagiu violentamente. Ele teve um espasmo, os olhos se arregalando enquanto o reflexo de tosse o dominava. O som era angustiante, um ruído de sucção misturado a um engasgo profundo. As mãos dele se fecharam em punhos sobre os lençóis, e as veias de sua testa saltaram.

— *Tishche, tishche*... (Calma, calma...) — dizia a enfermeira auxiliar, segurando os ombros dele.

Danye começou a tossir sem parar, um som úmido e desesperado. Lágrimas involuntárias escorreram pelo seu rosto pálido. Ele tentou novamente esticar o braço para Isabel, os dedos tateando o ar como se procurassem uma âncora no meio da tempestade.

— Eu estou aqui, meu amor! — gritou Isabel, as lágrimas também correndo por seu rosto de boneca. — Aguenta firme, falta pouco!

Assim que o tubo foi removido, Danye desabou contra os travesseiros, ofegante. Mas o procedimento não tinha acabado. O médico de plantão entrou no quarto para realizar a drenagem do líquido pleural que ainda comprimia a base do pulmão esquerdo.

— Vamos precisar puncionar novamente — disse o médico, preparando o anestésico local.

Danye, exausto e com os nervos à flor da pele, começou a chorar. Não era o choro de um homem com dor física, mas o choro de alguém que estava emocionalmente quebrado pela exaustão e pelo medo. Ele soluçava como uma criança, os ombros largos sacudindo sob o avental fino.

— *Moya Isabel... moya zhena...* (Minha Isabel... minha esposa...) — ele chamava, a voz quebrada pelos soluços. — Dói... dói muito.

Isabel sentiu o coração se despedaçar. Ver aquele homem, que era sua fortaleza, chorar daquela forma, pedindo por ela, era quase insuportável. Ela deu um passo à frente, mas o médico a impediu com o olhar.

— Mantenha a distância por mais dez minutos, Sra. Petrov. Precisamos de um campo estéril para a drenagem.

— Por favor, sejam gentis com ele — implorou Isabel em russo, as mãos cobrindo a boca.

Danye olhava para ela através da névoa de lágrimas. Ele parecia um bebezão, totalmente desarmado, implorando por colo, por um toque que o fizesse sentir seguro novamente. Quando a agulha da drenagem penetrou entre suas costelas, ele soltou um grito abafado e escondeu o rosto no ombro da enfermeira, soluçando alto.

— Acabou, Sr. Petrov. Acabou — disse Elena, retirando o equipamento minutos depois, que pareceram horas para Isabel.

Assim que a equipe médica começou a recolher os aparelhos e a liberar o espaço, Isabel voou para o lado da cama. Ela não se importou com os fios ou com o cheiro de antisséptico. Ela envolveu o pescoço de Danye com os braços, puxando a cabeça dele para o seu peito.

Danye imediatamente afundou o rosto no pescoço dela, soluçando tão forte que seu corpo inteiro tremia. Suas mãos grandes agarraram a cintura de Isabel com uma força surpreendente, puxando-a para o mais perto possível, como se tivesse medo de que ela desaparecesse se ele soltasse.

— *Shhh...* Eu estou aqui. Acabou, meu urso. Eu estou aqui — Isabel sussurrava em português, passando a mão pelos cabelos loiros e curtos dele, sentindo a umidade das lágrimas dele em sua pele.

— Eles... eles me machucaram, Isabel — ele murmurou em inglês, a voz infantilizada pela vulnerabilidade. — Eu não conseguia respirar... eu queria você. Por que você ficou longe?

— Eu tive que ficar, meu amor. Era para o seu bem — ela explicou, beijando o topo da cabeça dele. — Mas eu nunca saí do quarto. Eu nunca vou te deixar.

Danye se afastou apenas o suficiente para olhar para ela. O rosto sério de patrulheiro estava vermelho, os olhos inchados e o nariz escorrendo. Ele não se importava com a dignidade naquele momento. Ele só queria ser cuidado.

— Me dá água? — pediu ele, fungando.

Isabel pegou o copo com o canudo e o segurou enquanto ele bebia avidamente. A cada gole, ele soltava um suspiro trêmulo, como uma criança que acaba de ter uma crise de choro prolongada.

— Mais devagar, Danye. Você vai se engasgar.

Ele obedeceu, mas não soltou a mão dela nem por um segundo.

— Eu odeio este lugar — ele disse, voltando ao tom ranzinza que Isabel conhecia bem. — Eu odeio essas máquinas. Eu odeio não conseguir levantar.

— Eu sei, meu amor. Mas você está melhorando. A Dra. Elena disse que seus pulmões estão muito mais limpos agora.

Danye olhou para a porta por onde os médicos haviam saído e fez uma careta.

— Aquela mulher é o diabo. Ela não tem coração.

Isabel riu baixinho, limpando o rosto dele com um lenço de papel.

— Ela salvou sua vida, Danye. Deixe de ser ingrato.

— Ela me fez chorar na frente de estranhos — ele resmungou, escondendo o rosto novamente no colo dela. — Eu sou um Petrov. Eu patrulho as ruas com criminosos armados. E agora... agora eu sou isso.

Isabel segurou o rosto dele entre as mãos, forçando-o a olhar para ela.

— Para mim, você é o homem mais forte do mundo. Porque você lutou contra essa doença para voltar para mim. Chorar não te faz menos homem, Danye. Faz de você humano. E eu amo esse seu lado humano.

Ele a olhou com adoração, os dentes de coelho aparecendo levemente quando ele tentou sorrir apesar do cansaço.

— Você diz isso agora — ele murmurou. — Mas quando voltarmos para casa, você vai rir de mim. Vai dizer que o grande patrulheiro russo chorou por causa de um tubinho.

— Talvez eu diga — ela piscou para ele, sentindo um alívio imenso ao vê-lo recuperar um pouco do humor. — Mas só depois que você estiver cem por cento recuperado. E talvez eu use isso como chantagem para você me levar para jantar naquele restaurante caro perto da Praça Vermelha.

Danye soltou um suspiro longo e relaxou o corpo contra o colchão, mantendo Isabel presa em seu abraço.

— Eu te levo a qualquer lugar. Só não me deixe sozinho com aquela médica de novo.

— Prometo que vou estar bem aqui — ela disse, deitando a cabeça no ombro dele.

O silêncio voltou ao quarto, mas agora era um silêncio confortável. Danye fechou os olhos, a respiração finalmente mais calma e profunda, o peito subindo e descendo sem o esforço agonizante de antes. Ele ainda era o gigante de 1,90m, mas ali, nos braços da sua pequena brasileira, ele tinha encontrado o único refúgio onde podia ser, sem medo, o bebezão carinhoso que o mundo nunca veria.

Isabel continuou ali, fazendo carinho em seu braço, sentindo o calor da pele dele e agradecendo a cada batida do coração que sentia contra o seu próprio corpo. O inverno russo ainda rugia do lado de fora, mas dentro daquele quarto, entre o choro e o colo, a vida tinha vencido mais uma vez.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.