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Amor e rodas

Sombras no Retrovisor

O sol de Los Angeles começou a se pôr, tingindo o céu com tons de laranja e violeta que pareciam refletir o fogo sob o capô dos carros estacionados na garagem dos Toretto. O clima na casa havia mudado drasticamente. Onde antes reinava o choque da revelação de Karen, agora havia uma tensão tática, um silêncio vigilante que precedia as grandes missões.

Brian estava debruçado sobre o motor do Skyline, mas seus olhos azuis desviavam constantemente para a porta da cozinha, onde Karen ajudava Mia. Ele sentia uma mistura de euforia e pavor. Ser pai era algo que ele desejava, mas o tempo nas ruas o ensinara que a felicidade era um alvo fácil.

— Você está apertando essa braçadeira com força demais, Brian — comentou Dom, aproximando-se com uma chave inglesa na mão. — O carro não tem culpa das suas preocupações.

Brian soltou o ar pesadamente, largando a ferramenta.

— Eu não consigo evitar, Dom. Você viu o que aconteceu hoje. A polícia, o racha... e agora essa sensação de que estamos sendo vigiados. Se algo acontecer com ela, eu não vou me perdoar.

Dom encostou-se na lateral do Charger, cruzando os braços maciços.

— Karen é uma Toretto. Ela sobreviveu a coisas que fariam um homem comum chorar. Mas agora ela tem um motivo para ser cautelosa. O problema é que o perigo não se importa com estados civis ou gravidez.

— Eu sei — Brian passou a mão pelos cabelos loiros. — É por isso que eu vou reforçar a segurança de cada centímetro desta propriedade. Se alguém estiver nos observando, vai descobrir que entrar nesta casa é mais difícil do que invadir o Pentágono.

Enquanto isso, na cozinha, o ambiente era mais acolhedor, embora não menos sério. Mia cortava legumes com uma precisão cirúrgica, enquanto Karen secava a louça, perdida em pensamentos.

— Você está muito quieta — observou Mia, sem desviar os olhos do que fazia. — É o enjoo ou a culpa?

Karen suspirou, encostando a testa no armário frio.

— Um pouco dos dois. E o medo, Mia. Eu vi o olhar no rosto do Brian. Eu nunca o vi tão assustado. Nem quando estávamos sendo caçados por agentes federais.

— Ele ama você, Karen. E agora ele ama alguém que ele ainda nem conhece, mas que já é o mundo dele — Mia parou de cortar e olhou para a cunhada. — Mas você precisa parar de se sentir culpada por querer ser você mesma. Só precisa aprender que, de agora em diante, sua coragem tem que ser temperada com sabedoria.

— Eu só queria um momento de normalidade — Karen admitiu, a voz embargada. — Um momento onde eu não fosse a "irmã do Dom" ou a "esposa do ex-policial". Onde eu fosse apenas a Karen que vence qualquer um nos 400 metros.

— E você ainda é — Letty entrou na cozinha, jogando as chaves do carro sobre a mesa. — Só que agora você é a Karen que vai criar um piloto lendário. Mas o Dom está certo, tem algo estranho lá fora. Eu dei uma volta no quarteirão. Um SUV escuro deu a volta três vezes desde que chegamos.

Karen sentiu o estômago dar um nó que não tinha nada a ver com a gravidez.

— Você acha que são os federais? Ou alguém do passado do Dom?

— Não parecia a polícia — Letty estreitou os olhos. — Era profissional demais. Discreto demais.

A conversa foi interrompida pelo som de um motor se aproximando. Não era o rugido de um motor tunado, mas o som silencioso e caro de um carro europeu de luxo. Brian e Dom já estavam em alerta na garagem antes mesmo do veículo estacionar em frente à casa.

Um homem de terno cinza saiu do carro. Ele não carregava armas visíveis, mas sua postura exalava uma periculosidade que fez Brian levar a mão instintivamente à cintura, onde costumava carregar seu distintivo e sua arma.

— Quem é você e o que quer na minha casa? — a voz de Dom trovejou, ecoando pelo jardim.

O homem sorriu, um gesto frio que não chegava aos olhos.

— Dominic Toretto. Brian O'Conner. É um prazer finalmente conhecê-los em circunstâncias tão... domésticas. Meu nome é Sr. Nobody... ou pelo menos é como as pessoas me chamam.

Brian deu um passo à frente, protegendo a entrada da casa.

— Não estamos interessados em nada que você tenha a oferecer. Saia da nossa propriedade.

— Oh, eu acho que vocês vão querer ouvir o que eu tenho a dizer — o Sr. Nobody ajustou os óculos escuros. — Especialmente agora que a família está crescendo. Parabéns, Sra. O'Conner. Uma adição maravilhosa ao legado Toretto.

Karen, que tinha saído para a varanda seguida por Mia e Letty, sentiu o sangue congelar.

— Como você sabe disso? — ela perguntou, a voz firme apesar do tremor interno.

— Eu sei de muitas coisas — respondeu ele. — Sei sobre o incidente no racha hoje cedo. Sei que a polícia de Los Angeles está sob pressão para prender alguém de alto perfil. E sei que há pessoas muito menos amigáveis do que eu que descobriram sua... condição delicada.

Dom caminhou até o portão, ficando a poucos centímetros do homem.

— Se isso é uma ameaça, você escolheu o lugar errado e a hora errada.

— Não é uma ameaça, Toretto. É um aviso. E um convite — o Sr. Nobody entregou um cartão preto com um chip dourado no centro. — Há um grupo operando nas sombras, liderado por um homem chamado Arturo Braga. Ele não ficou feliz com o que vocês fizeram no México. Ele sabe sobre Karen. Ele sabe que ela é o ponto fraco de todos vocês agora.

O nome de Braga fez Brian trincar os dentes. As memórias das cavernas na fronteira e do perigo que correram voltaram com força total.

— Braga está na prisão — Brian disse, embora soubesse que as grades raramente seguravam homens como ele.

— Paredes de pedra são apenas sugestões para homens com dinheiro — o Sr. Nobody deu de ombros. — Ele quer vingança. E ele planeja usar o racha de hoje como pretexto para atrair vocês para uma armadilha. A polícia que apareceu lá? Não eram todos policiais reais, Brian. Eram mercenários de Braga disfarçados.

Karen sentiu um calafrio. Se ela não tivesse sido resgatada por Dom e Brian, ela teria caído direto nas mãos de um monstro, e seu bebê com ela.

— Por que você está nos contando isso? — Karen perguntou, descendo os degraus da varanda. — O que você ganha com isso?

O homem olhou para ela com uma ponta de admiração.

— Eu gosto de manter o equilíbrio, Sra. O'Conner. E Braga é um elemento caótico demais para os meus planos. Eu ofereço proteção e a chance de eliminar essa ameaça antes que ela chegue à sua porta. Em troca, vocês farão um serviço para mim no futuro.

— Não fazemos pactos com o diabo — Dom rosnou.

— O diabo geralmente oferece coisas que você não quer. Eu estou oferecendo a vida da sua irmã e do seu sobrinho — o Sr. Nobody voltou para o carro. — Pensem a respeito. O chip no cartão tem as coordenadas de onde Braga está escondendo seus homens. Vocês têm até o amanhecer antes que eles decidam que a visita de cortesia acabou.

Ele entrou no carro e partiu, deixando um rastro de incerteza e fúria para trás.

Brian virou-se para Karen imediatamente, segurando seus ombros.

— Você vai para a casa segura. Agora. Mia, vá com ela.

— Não! — Karen protestou. — Eu não vou fugir enquanto vocês se colocam na linha de frente por causa de um erro meu!

— Não foi um erro seu, Karen — Dom disse, sua voz agora mais suave, mas carregada de uma determinação mortal. — Foi um erro deles acharem que poderiam usar nossa família contra nós.

— Dom, eu posso ajudar — Karen insistiu. — Eu conheço as rotas de fuga daquele setor industrial melhor que ninguém. Se eles estão lá, eu sei como entrar sem ser vista.

— De jeito nenhum — Brian interveio, a voz subindo de tom. — Você está grávida, Karen! Você tem noção do que está pedindo?

— Eu tenho noção de que, se não acabarmos com isso agora, eu passarei os próximos nove meses e o resto da vida do meu filho olhando por cima do ombro! — Karen rebateu, os olhos faiscando com o mesmo fogo que Dom possuía. — Eu sou uma Toretto. E nós não fugimos de brigas. Nós as encerramos.

Brian olhou para Dom, buscando apoio, mas Dom estava observando a irmã. Ele via a força nela, a mesma força que vira em seu pai e em si mesmo.

— Ela tem razão, Brian — Dom disse finalmente. — Se tentarmos escondê-la, Braga vai caçá-la. Se atacarmos com tudo, nós ditamos as regras.

— Você está maluco? — Brian exclamou. — Dom, é a sua irmã! É o meu filho!

— Exatamente — Dom colocou a mão no ombro de Brian. — E ninguém protege um filho melhor do que uma mãe que sabe o que está em jogo. Karen não vai para o tiroteio. Ela vai ser os nossos olhos. Ela vai ficar no carro, no ponto de extração, coordenando a fuga. Ninguém dirige como ela quando a pressão aumenta.

Brian olhou de Dom para Karen. Ele viu a súplica nos olhos dela, mas também a necessidade de redenção. Ele sabia que, se a proibisse, ela nunca se perdoaria por ficar para trás enquanto eles arriscavam tudo.

— Tudo bem — Brian cedeu, embora cada fibra de seu ser estivesse gritando contra a decisão. — Mas você fica no Skyline. Com o motor ligado. Ao menor sinal de perigo, você sai de lá. Não importa se estivermos no meio da briga. Você corre. Entendeu?

— Entendi — Karen disse, sentindo um alívio imenso.

A noite foi de preparação intensa. Tej e Roman foram convocados e chegaram em tempo recorde, trazendo armas, tecnologia e a dose usual de sarcasmo de Roman para aliviar a tensão.

— Então, deixa eu ver se entendi — disse Roman, carregando um rifle. — Estamos indo para um ninho de mercenários, liderados por um fantasma do passado, porque a Karen decidiu que queria correr um racha? Eu já disse que essa família é doida?

— Várias vezes, Roman — respondeu Tej, digitando furiosamente em seu laptop. — Mas você ainda está aqui.

— É, eu estou aqui. Mas eu quero que fique registrado que eu vou cobrar muito caro para ser o babá desse bebê no futuro.

Karen sorriu fracamente, sentada na cadeira de balanço na garagem, observando Brian verificar o colete à prova de balas. Ele se aproximou dela e ajoelhou-se entre suas pernas.

— Eu te amo — ele sussurrou, colocando a mão sobre a barriga dela. — Prometa que, se as coisas ficarem feias, você não vai tentar ser heroína.

— Eu prometo, Brian. Minha única missão é levar vocês de volta para casa.

— É uma boa missão — ele beijou-a profundamente.

O plano era simples, mas perigoso. Eles usariam as coordenadas do Sr. Nobody para localizar o armazém de Braga. Dom e Letty entrariam pela frente, criando uma distração barulhenta. Brian e Roman entrariam por trás para neutralizar os líderes. Karen ficaria no perímetro, monitorando as comunicações e garantindo que ninguém escapasse ou entrasse para reforçar os inimigos.

Quando chegaram ao local, um complexo de docas abandonadas perto de Long Beach, o silêncio era sinistro. Karen estava ao volante do Skyline, o motor roncando baixo, quase um ronronar. Ela usava um fone de ouvido, ouvindo a respiração pesada de Brian e os comandos curtos de Dom.

— Em posição — a voz de Dom ecoou no rádio.

— Em posição — confirmou Brian.

— Karen, como está o visual? — perguntou Tej, que estava em uma van a dois quarteirões de distância.

— Limpo por enquanto — respondeu ela, seus olhos varrendo a área com a precisão de um falcão. — Mas vejo dois homens no telhado do armazém B. Eles têm rifles térmicos.

— Eu cuido deles — disse Letty.

Segundos depois, o som de silenciadores disparando foi ouvido, seguido pelo barulho de corpos caindo.

— Caminho livre. Entrando — anunciou Dom.

O que se seguiu foi uma sinfonia de caos controlado. Explosões, trocas de tiros e o som de metal colidindo. Karen mantinha as mãos firmes no volante, o coração batendo em sincronia com as batidas do motor. Ela sentia o bebê chutar, um pequeno movimento que parecia dizer que ele também estava pronto para a luta.

De repente, o rádio de Karen chiou.

— Karen! Temos um problema! — era a voz de Tej, soando alarmada. — Três SUVs pretos estão vindo na sua direção. Eles estavam escondidos em um contêiner refrigerado. Eles te viram!

Karen olhou pelo retrovisor. Luzes de faróis altos cortaram a escuridão. Eles não estavam indo para o armazém; eles estavam indo direto para ela.

— Dom, Brian, eu tenho companhia! — Karen gritou, engatando a primeira marcha.

— Karen, sai daí agora! — a voz de Brian estava carregada de pânico.

— Eu vou levá-los para longe de vocês! — ela acelerou, os pneus gritando no asfalto molhado das docas.

A perseguição começou. Karen não era apenas uma motorista; ela era uma Toretto no Skyline de Brian O'Conner. Ela conhecia cada marcha, cada curva do torque daquele carro. Os SUVs eram pesados e potentes, mas ela era ágil.

Ela deslizou entre guindastes gigantes e pilhas de contêineres, fazendo manobras que desafiavam a gravidade. Um dos SUVs tentou fechá-la, mas ela puxou o freio de mão, fazendo o Skyline girar 180 graus e passar raspando pela lateral do perseguidor.

— É só isso que vocês têm? — ela murmurou para si mesma, a adrenalina correndo em suas veias como fogo líquido.

Ela liderou os perseguidores para uma área estreita, onde os contêineres formavam um corredor apertado. Com uma precisão milimétrica, ela acelerou e depois freou bruscamente, fazendo o primeiro SUV bater na traseira do outro, bloqueando o caminho para o terceiro.

— Karen, você está bem? — a voz de Brian surgiu no rádio, ofegante.

— Eu estou ótima, Brian. Os convidados do Braga estão um pouco ocupados agora. Como estão as coisas aí dentro?

— Acabamos. Braga não estava aqui, era um tenente dele. Mas pegamos as informações que precisávamos. Estamos saindo. Encontre-nos no ponto de extração Gamma.

Karen sorriu, sentindo uma onda de triunfo. Ela tinha feito isso. Ela tinha protegido sua família.

Quando todos se reuniram no local seguro, a tensão finalmente quebrou. Brian correu para o Skyline assim que Karen estacionou. Ele praticamente a arrancou do carro e a envolveu em um abraço tão apertado que ela mal conseguia respirar.

— Nunca mais — ele disse, com a voz falha. — Nunca mais eu deixo você fazer algo assim.

— Brian, eu salvei a pele de vocês — ela riu, retribuindo o abraço.

Dom aproximou-se, olhando para o Skyline e depois para a irmã. Ele não disse nada, apenas colocou a mão no pescoço dela e encostou sua testa na dela, um gesto de respeito supremo entre os Toretto.

— Você dirigiu bem, pequena — Dom disse baixinho. — Nosso pai estaria orgulhoso.

Naquela noite, de volta para casa, o silêncio finalmente era de paz. Eles sabiam que a guerra com Braga ainda não tinha acabado totalmente, mas tinham dado um golpe decisivo. E, mais importante, tinham provado que a família era inquebrável.

Karen deitou-se na cama, exausta mas realizada. Brian deitou-se ao seu lado, colocando a mão sobre sua barriga. O bebê estava quieto agora, talvez descansando depois da sua primeira perseguição em alta velocidade.

— Sabe — sussurrou Brian na escuridão —, eu estava pensando. Se for um menino, ele vai precisar de um carro de verdade. Nada de miniaturas de plástico.

Karen sorriu, fechando os olhos.

— E se for uma menina?

— Então ela vai ser a piloto mais rápida que este mundo já viu — Brian beijou a bochecha dela. — Porque ela vai ter você como professora.

Karen adormeceu com o som da respiração de Brian e a certeza de que, não importa o quão perigosa fosse a estrada à frente, ela nunca estaria correndo sozinha. A monotonia tinha ido embora, substituída por algo muito mais potente: o amor de uma família que vivia, lutava e vencia, um quarto de milha de cada vez. E no asfalto de Los Angeles, um novo legado estava sendo escrito, movido a nitro, coragem e o sangue dos Toretto.