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Amor e rodas

O Batismo de Fogo e o Pacto de Sangue

A manhã em Los Angeles nasceu com uma névoa densa, como se o próprio asfalto estivesse tentando esconder os segredos da noite anterior. Na casa dos Toretto, o cheiro de café fresco lutava contra o odor persistente de óleo de motor e pólvora que parecia ter se entranhado nas paredes da garagem. Karen estava sentada na varanda, observando o sol lutar para atravessar as nuvens, sentindo o peso de uma nova realidade. O racha, a perseguição, o Sr. Nobody e a ameaça de Braga... tudo parecia um borrão de alta octanagem, mas o chute suave em seu ventre a trazia de volta para o presente.

— Você não deveria estar aqui fora sem um casaco — a voz de Brian soou suave, mas carregada daquela preocupação que agora era sua sombra constante.

Ele apareceu atrás dela, envolvendo seus ombros com uma jaqueta de couro gasta — a favorita dele. Karen sorriu, encostando a cabeça no peito do marido.

— Eu estou bem, Brian. Só estou processando. Ontem à noite... eu senti que o mundo tinha voltado ao normal por alguns minutos. Mesmo com o perigo.

Brian suspirou, virando-a para que ficasse de frente para ele. Seus olhos azuis, geralmente tão brilhantes e cheios de vida, mostravam as olheiras de uma noite mal dormida.

— Karen, o que aconteceu ontem não foi normal. Você quase foi cercada por mercenários. Se aquele Skyline tivesse falhado, ou se você tivesse pego o caminho errado... — ele parou, incapaz de completar a frase.

— Mas não falhou. E eu não peguei o caminho errado — ela colocou as mãos no rosto dele, sentindo a barba por fazer. — Brian, eu sei que você quer me proteger. Eu sei que o Dom quer me proteger. Mas eu não sou apenas a mãe do seu filho. Eu sou a mulher que te ajudou a derrubar impérios. Não me peça para ser menos do que isso agora.

Antes que Brian pudesse responder, o som de um motor potente subindo a ladeira interrompeu o momento. Não era o Charger de Dom, nem o carro de luxo do Sr. Nobody. Era um jipe militar modificado, pintado de preto fosco, que parou bruscamente em frente ao portão. Hobbs saiu do veículo, parecendo uma montanha de músculos vestida de Kevlar.

— Espero que tenham guardado um pouco de café para o Serviço de Segurança Diplomática — trovejou Hobbs, caminhando em direção à varanda.

Dom apareceu na porta da cozinha, limpando as mãos em um pano de prato, com a expressão fechada de sempre.

— O que você está fazendo aqui, Hobbs? O Sr. Nobody já veio fazer o recrutamento dele ontem.

— Aquele sujeito gosta de jogos de palavras e mistérios — Hobbs subiu os degraus, cumprimentando Karen com um aceno respeitoso. — Eu prefiro fatos. E o fato é que Braga não está apenas mandando mercenários. Ele contratou alguém que conhece vocês. Alguém que sabe como vocês pensam.

Um silêncio tenso caiu sobre o grupo. Mia e Letty saíram para a varanda, atraídas pela voz de Hobbs.

— De quem você está falando? — perguntou Letty, cruzando os braços.

— Fenix Calderon tem um irmão — respondeu Hobbs, entregando uma pasta de arquivos para Dom. — Dante Calderon. Ele não se importa com o império de Braga. Ele só quer as cabeças de quem matou o irmão dele. E ele sabe que a Karen é o elo mais fraco da corrente agora.

Brian sentiu uma onda de fúria percorrer seu corpo. Ele deu um passo à frente, os punhos cerrados.

— Ninguém toca na Karen. Eu já disse isso.

— O problema, O'Conner, é que o Dante não vai vir de frente como o Braga — Hobbs olhou para Karen. — Ele é um especialista em sabotagem. Ele gosta de ver as coisas desmoronarem de dentro para fora.

Karen sentiu um frio na espinha. Ela olhou para a garagem, onde os carros estavam alinhados como sentinelas de metal. A ideia de que alguém estava mirando especificamente nela, usando sua gravidez como uma vulnerabilidade, fazia seu sangue ferver.

— Se ele quer sabotagem, ele vai ter — disse Karen, a voz fria e cortante. — Hobbs, onde ele está?

— Karen, não — Brian interveio imediatamente. — Você vai ficar aqui. Hobbs, nós cuidamos disso.

— Não, Brian — Karen se afastou dele, os olhos fixos em Hobbs. — Se esse cara está atrás de mim por causa do que aconteceu com o Fenix, ele não vai parar. Ele vai esperar até o bebê nascer, ou até estarmos em um momento de fraqueza. Eu não vou viver com esse alvo nas costas.

Dom abriu a pasta e analisou as fotos. Eram imagens de vigilância da casa, tiradas de ângulos que eles nem sabiam que eram possíveis. Havia fotos de Karen no médico, de Karen no racha, de Karen dormindo no Skyline.

— Ele já está aqui — rosnou Dom, entregando a pasta para Brian. — Ele está nos vigiando há semanas.

Brian empalideceu ao ver as fotos. A invasão de privacidade era um ataque direto. Ele olhou para Karen e viu a mesma determinação que vira em Dom tantas vezes.

— Tudo bem — disse Brian, a voz trêmula de raiva contida. — Qual é o plano?

— O plano é o seguinte — explicou Hobbs. — Temos informações de que Dante vai tentar um ataque hoje à noite, durante o festival de rua em Little Tokyo. Ele acha que vocês vão estar distraídos com a multidão. Vamos usar isso a nosso favor.

— Vamos armar uma ratoeira — completou Dom. — Mas Karen não será a isca. Ela será o martelo.

— Dom, você enlouqueceu? — Mia exclamou. — Ela está grávida!

— Exatamente — disse Dom, olhando para a irmã. — Todo mundo espera que ela se esconda. Dante espera que ela esteja protegida em algum porão. Mas Karen vai estar no volante. Letty e Brian vão estar na cobertura, mas Karen vai ser quem vai atraí-lo para o corredor que preparamos.

Brian olhou para Karen, procurando qualquer sinal de dúvida. Ele encontrou apenas uma resolução inabalável.

— Eu dirijo o Skyline — disse Karen. — Brian, você fica no rádio e na cobertura com o Hobbs. Se o Dante aparecer, eu o levo para o setor industrial. Lá, não haverá civis. Apenas nós e o asfalto.

— Eu não gosto disso — murmurou Brian, puxando-a para um canto. — Karen, se algo acontecer...

— Nada vai acontecer, Brian. Eu conheço esse carro melhor do que minha própria mão. E eu conheço essas ruas. Dante pode ser um sabotador, mas ele não é um Toretto. Ele não tem o que nós temos.

— E o que nós temos? — perguntou ele, beijando sua testa.

— Família — ela respondeu com um meio sorriso. — E um motor de seis cilindros em linha que não sabe o que é derrota.

A preparação para a noite foi meticulosa. Tej e Roman chegaram com reforços tecnológicos. O Skyline de Brian foi equipado com sensores de proximidade e um sistema de interferência de sinal, para evitar qualquer sabotagem remota por parte de Dante.

— Escuta aqui, garota — disse Tej, ajustando o monitor no painel do carro. — Se você sentir qualquer vibração estranha no volante, ou se o sistema acusar uma invasão, você aperta este botão vermelho. Ele vai isolar a eletrônica do carro e deixar tudo no manual. Vai ser você e a mecânica pura.

— Do jeito que eu gosto — respondeu Karen, testando o engate das marchas.

A noite caiu e Little Tokyo estava vibrando com luzes de neon e música. Karen estava estacionada em uma rua lateral, o Skyline camuflado pelas sombras. Ela usava um fone de ouvido discreto.

— Alvos identificados — a voz de Hobbs soou no canal. — Três motocicletas e um utilitário preto. Eles estão se movendo para a sua posição, Karen.

— Recebido — ela respondeu, sentindo a adrenalina subir. — Brian, você está aí?

— Sempre, Karen. Estou no telhado do restaurante à sua esquerda. Eu tenho o utilitário na mira. Ao seu sinal.

Karen viu as motocicletas dobrarem a esquina. Eram rápidas e agressivas. No centro, o utilitário preto avançava como um predador. Ela viu o motorista — um homem com uma cicatriz no rosto que lembrava muito Fenix Calderon. Dante.

Ela ligou o motor. O ronco do Skyline ecoou pelo beco, um desafio claro.

— Ele me viu — disse Karen, engatando a primeira marcha e saindo do esconderijo com uma explosão de velocidade.

A perseguição foi instantânea. Dante não perdeu tempo com sutilezas; seus motociclistas começaram a disparar contra o Skyline.

— Brian! — gritou Karen, desviando de uma saraivada de balas que estilhaçou o retrovisor.

— Eu cuido deles! — Brian disparou seu rifle de precisão.

Um dos motociclistas perdeu o controle quando o pneu dianteiro explodiu, derrapando e colidindo com uma banca de jornais. O segundo foi neutralizado por Hobbs, que surgiu em seu jipe por uma rua transversal, jogando a moto para fora da pista.

— Agora é só você e o Dante, Karen! — gritou Dom pelo rádio. — Leve-o para o ponto Gamma!

Karen acelerou, entrando na via expressa. O utilitário de Dante era surpreendentemente rápido, equipado com um motor modificado que cuspia chamas pelo escapamento. Ele tentou dar um "PIT maneuver" no Skyline, mas Karen antecipou o movimento, freando bruscamente e deixando o utilitário passar direto, para depois atingir a lateral dele com força.

— Você matou o meu irmão! — a voz de Dante ecoou pelo rádio de Karen, invadindo a frequência. — Eu vou enterrar você e essa semente que você carrega!

— Você não vai enterrar ninguém, Calderon! — Karen rebateu, trocando para a quinta marcha e atingindo 180 km/h. — Meu irmão matou o seu porque ele era um covarde. E você está prestes a ter o mesmo destino!

Ela entrou na zona industrial, onde as ruas eram largas e desertas. Dom e Letty já estavam lá, posicionados com seus carros para fechar as saídas.

— Agora, Karen! — gritou Tej. — Ative o pulso eletromagnético!

Karen apertou o botão no painel. Uma onda invisível emanou do Skyline. O utilitário de Dante tossiu e começou a perder potência, as luzes do painel piscando freneticamente. Karen fez um drift perfeito, parando o Skyline de frente para o veículo inimigo, que agora deslizava até parar.

Dom e Brian cercaram o utilitário em segundos. Brian foi o primeiro a chegar, arrancando a porta do motorista e puxando Dante para fora com uma fúria que Karen raramente via nele.

— Você nunca mais vai chegar perto da minha família! — Brian gritou, desferindo um soco que nocauteou Dante instantaneamente.

Hobbs chegou logo atrás, algemando o criminoso e jogando-o na parte de trás do seu jipe.

— Belo trabalho, Sra. O'Conner — disse Hobbs, limpando o suor da testa. — Você tem o toque dos Toretto, sem dúvida nenhuma.

Karen saiu do Skyline, sentindo as pernas tremerem um pouco agora que a adrenalina estava baixando. Brian correu para ela, abraçando-a com tanta força que ela pensou que ele nunca a soltaria.

— Acabou? — perguntou ela, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Acabou — respondeu Brian. — Hobbs vai levá-lo para uma prisão de segurança máxima de onde ele nunca vai sair.

Dom aproximou-se, olhando para o Skyline danificado e depois para a irmã. Ele colocou a mão no ombro dela, um gesto de aprovação silenciosa que valia mais do que mil palavras.

— Você protegeu o que é seu, Karen. Hoje, você provou que não importa o quanto a vida mude, o sangue sempre fala mais alto.

Naquela noite, a família se reuniu no quintal para um churrasco. O clima era de celebração e alívio. Roman estava contando uma história exagerada sobre como ele "quase" derrubou o terceiro motociclista sozinho, enquanto Tej o corrigia a cada frase.

Karen estava sentada na cadeira de balanço, observando Brian e Dom conversarem perto da churrasqueira. Mia sentou-se ao lado dela, entregando-lhe um copo de suco.

— Você foi incrível hoje — disse Mia. — Mas espero que essa tenha sido a última perseguição por um bom tempo.

— Eu também, Mia — Karen sorriu, passando a mão na barriga. — Acho que o pequeno O'Conner já teve adrenalina suficiente para os próximos dez anos.

Brian aproximou-se e sentou-se nos degraus aos pés de Karen. Ele olhou para o horizonte, onde as luzes de Los Angeles brilhavam como estrelas caídas.

— Sabe — disse Brian, pegando a mão de Karen —, eu estava com tanto medo de que a gravidez mudasse quem você é. Mas hoje eu percebi que ela só te tornou mais forte.

— Eu ainda sou a Karen que ama as ruas, Brian. Só que agora, minhas ruas têm um propósito maior.

— Eu mudei de ideia sobre o carro do bebê — Brian sorriu, olhando para ela. — Nada de Skyline ou Charger. Vamos comprar algo seguro. Um Volvo, talvez?

Karen soltou uma gargalhada, atraindo a atenção de todos na mesa.

— Um Volvo, Brian? Você quer que um Toretto cresça dentro de um Volvo?

— É o carro mais seguro do mundo! — ele defendeu-se, rindo também.

— Nem pensar — Dom interveio, aproximando-se com um prato de comida. — O garoto vai sair da maternidade em um Chevelle 70. Segurança é importante, mas o estilo é inegociável.

A discussão sobre o primeiro carro do bebê continuou pela noite adentro, cheia de risadas e provocações. Karen olhou para o céu estrelado, sentindo uma paz profunda. O perigo sempre estaria por perto, as sombras do passado nunca desapareceriam completamente, mas enquanto eles estivessem juntos, nenhuma tempestade poderia derrubá-los.

Ela sentiu um chute forte em seu ventre, como se o bebê estivesse concordando com a escolha do Chevelle. Karen sorriu para Brian, que a beijou com ternura.

— Bem-vinda à família, pequeno — sussurrou Karen para si mesma. — Você não faz ideia da aventura que te espera.

E ali, sob a luz da lua da Califórnia, entre o cheiro de churrasco e o som das risadas de sua família, Karen Toretto O'Conner finalmente entendeu que a maior corrida não era sobre velocidade ou fugir da polícia. Era sobre manter por perto aqueles que amamos, não importa o quão rápido o mundo gire ao nosso redor. O asfalto seria sempre sua casa, mas o amor de Brian e a força de Dom eram seu verdadeiro combustível. E com esse tanque cheio, ela estava pronta para qualquer quilômetro que a vida decidisse colocar em seu caminho.