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amor e sexo

O Eco do Silêncio e a Marca da Redenção

O ar no apartamento de luxo estava tão espesso que Jihyo sentia dificuldade em respirar. Não era o calor do verão de Seul desta vez, mas algo gélido e cortante que se instalara entre as duas. Luiza estava em pé junto à janela da sala, os braços cruzados, observando as luzes da cidade com uma postura que exalava uma rebeldia silenciosa.

Jihyo, sentada no sofá, apertava o próprio celular com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. O estopim da discussão fora o de sempre, mas com uma nova camada de veneno: Luiza aceitara um convite para uma festa de encerramento de semestre na casa de um colega, e Jihyo, consumida pela ansiedade do comeback e pela paranoia de ser deixada para trás, tentara proibi-la.

— Você não entende, Jihyo! — Luiza virou-se bruscamente, seus olhos castanhos brilhando com uma fúria que Jihyo raramente via. — Não é sobre a festa. É sobre o fato de que você me olha como se eu fosse uma posse, um objeto que você precisa trancar no cofre toda vez que o mundo lá fora brilha um pouco mais.

— Eu só quero te proteger, Luiza! — Jihyo levantou-se, a voz subindo uma oitava. — Você é jovem, você é ingênua sobre como as pessoas podem ser maliciosas. Aquele cara, o tal do Minho... eu vi como ele te olha nas fotos. Você acha que eu sou cega?

— Eu acho que você é doente! — Luiza gritou, dando um passo à frente. — Você está projetando as suas inseguranças em cima de mim. Eu tenho vinte e dois anos, Jihyo! Eu quero ter amigos, quero rir sem ter que olhar para o relógio com medo de você ter um ataque de pânico porque eu demorei dez minutos a mais no café.

— Eu faço tudo por você! — Jihyo avançou, o rosto vermelho, a respiração descompassada. — Eu sustento essa casa, eu te dou tudo o que você quer, eu me esgoto no estúdio e ainda volto para ser a esposa perfeita que você exige. E você me retribui querendo ir para festas com garotos que não têm nada a te oferecer a não ser problemas?

— Você me dá tudo, menos espaço para respirar! — Luiza rebateu, a voz embargada. — Às vezes eu sinto que esse casamento é uma gaiola de ouro. E quer saber? Eu vou à festa. Eu já sou adulta e não preciso da sua permissão.

Luiza deu as costas para ir em direção ao quarto, provavelmente para se trocar. O pânico de Jihyo atingiu o ápice. A ideia de Luiza saindo por aquela porta, livre, sob os olhares de outros, enquanto ela ficava ali, definhando em sua própria dependência, foi demais.

Jihyo agarrou o braço de Luiza com força, girando-a.

— Você não vai a lugar nenhum! — Jihyo sibilou, os olhos fixos nos de Luiza com uma intensidade assustadora. — Você é minha esposa. Você fica aqui comigo.

— Me solta, Jihyo! Você está me machucando! — Luiza tentou se desvencilhar, seu rosto contorcido em uma mistura de susto e indignação.

— Eu não vou te soltar até você entender que eu sou a única pessoa que realmente se importa com você! Aqueles seus amigos... eles só querem um pedaço de você. Eu sou a única que te ama de verdade!

— Isso não é amor, é obsessão! — Luiza gritou, conseguindo soltar o braço com um solavanco. — Eu te odeio quando você fica assim! Eu odeio o que você se tornou!

A palavra "ódio" atingiu Jihyo como uma descarga elétrica. O medo da perda, a exaustão acumulada de semanas de ensaios e a dependência emocional doentia colidiram em um microssegundo de descontrole. Antes que pudesse processar o movimento, a mão de Jihyo voou.

O som do estalo ecoou pelo apartamento como um tiro.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado e sufocante.

Luiza cambaleou para o lado, o rosto virado pelo impacto. Sua mão subiu lentamente até a bochecha esquerda, onde a pele branca começava a ganhar uma tonalidade vermelha intensa. Ela não chorou imediatamente. Ela apenas ficou ali, estática, com os olhos arregalados e fixos no chão.

Jihyo recuou dois passos, olhando para a própria mão como se fosse um membro estranho, um objeto de horror ligado ao seu corpo. Seu coração, que antes martelava, pareceu parar.

— Lu... — O nome saiu como um sopro, uma súplica desesperada.

Luiza virou o rosto devagar. Não havia fúria em seus olhos agora. Havia algo muito pior: uma decepção profunda e um vazio que Jihyo nunca tinha visto. Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha atingida, traçando um caminho sobre a marca vermelha dos dedos de Jihyo.

— Você... você me bateu — sussurrou Luiza, a voz trêmula, carregada de uma incredulidade que cortou a alma de Jihyo.

— Luiza, meu amor, eu não... eu não queria... — Jihyo tentou se aproximar, as mãos estendidas, tremendo violentamente. — Me desculpa, por favor, eu perdi o controle, eu...

— Não encosta em mim! — O grito de Luiza foi agudo, carregado de um pavor genuíno que fez Jihyo estacar no lugar.

Luiza recuou até bater as costas na parede. Ela respirava de forma curta e rápida, como se estivesse tendo um ataque de asma. O olhar de medo que ela direcionava a Jihyo era a coisa mais dolorosa que a líder do TWICE já experimentara em toda a sua vida.

— Luiza, por favor, me escuta — implorou Jihyo, caindo de joelhos no tapete da sala, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu estou exausta, eu estou com medo, eu sinto que estou te perdendo e eu não soube lidar... eu nunca faria isso de novo, eu juro pela minha vida!

— Você cruzou uma linha, Jihyo — disse Luiza, a voz agora fria, uma calma mortal substituindo o pânico. — Você sempre disse que me protegia de tudo. Mas quem vai me proteger de você?

— Eu te amo! — Jihyo soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Eu sou dependente de você, Luiza. Sem você eu não sou nada, eu não sei quem eu sou. Por favor, não me deixa por causa de um erro, um momento de loucura...

— Esse é o problema — Luiza caminhou lentamente em direção à porta do quarto, mantendo uma distância segura de Jihyo. — O seu amor é uma doença. E hoje, essa doença deixou uma marca no meu rosto.

Luiza entrou no quarto e trancou a porta. Jihyo ficou caída no chão da sala, o corpo sacudido por soluços violentos. Ela olhava para a palma da mão direita, a mão que usava para segurar a de Luiza, a mão que usava para acariciá-la durante as noites de amor, a mão que agora carregava o peso de uma agressão imperdoável.

As horas passaram. Jihyo não se moveu do chão. O apartamento, antes um ninho de paixão e intensidade, agora parecia uma tumba. Ela ouvia o som de gavetas abrindo e fechando dentro do quarto. O pânico voltou, mas desta vez era um pânico paralisante. Ela sabia o que estava acontecendo.

Quando a porta do quarto finalmente abriu, Luiza saiu carregando uma mochila pequena. Ela havia trocado de roupa; usava um moletom largo e um boné, tentando esconder o rosto.

Jihyo levantou-se num salto, as pernas bambas.

— Onde você vai? Luiza, por favor, são três da manhã. Não faz isso.

— Eu vou para a casa da minha prima — respondeu Luiza, sem olhar para ela. — Eu preciso de espaço. Eu preciso pensar se ainda existe um "nós" depois disso.

— Não vai... eu imploro — Jihyo bloqueou o caminho até a porta principal, os olhos inchados, a aparência devastada. — Eu faço qualquer coisa. Eu vou para terapia, eu me afasto do trabalho, eu te dou a senha de tudo, eu nunca mais questiono onde você vai... só não atravessa essa porta. Se você sair, eu sinto que vou morrer.

Luiza finalmente levantou o olhar. A marca no rosto ainda estava lá, um lembrete físico da violência.

— Você não entende, não é? — Luiza disse suavemente. — Você me dar a sua vida não é um presente, Jihyo. É um fardo. Eu não quero ser o seu único motivo para respirar. Isso me sufoca. E hoje, isso me machucou.

— Foi um acidente, Luiza! Eu perdi a cabeça!

— Um tapa nunca é um acidente, Jihyo. É uma escolha de poder. E você escolheu usar a força porque não conseguiu me controlar com palavras.

Luiza deu um passo à frente, e Jihyo, num instinto de desespero, tentou abraçá-la. Luiza se encolheu, um movimento reflexo de defesa que quebrou o que restava do coração de Jihyo.

— Você tem medo de mim — constatou Jihyo, a voz saindo num fio de som. — Minha esposa tem medo de mim.

— Sim — admitiu Luiza, as lágrimas voltando a cair. — E isso é a coisa mais triste que eu já senti.

Jihyo deu um passo para o lado, liberando o caminho para a porta. Ela percebeu que, se forçasse Luiza a ficar agora, estaria apenas confirmando o monstro que Luiza via nela. Sua dependência gritava para ela se jogar aos pés da outra, para trancá-la ali, para implorar até que a voz sumisse, mas o choque de ver Luiza se encolher diante do seu toque foi um despertar brutal.

Luiza abriu a porta. O corredor do prédio estava silencioso e iluminado por luzes frias.

— Luiza? — chamou Jihyo.

Luiza parou, mas não se virou.

— Eu te amo. Mais do que a mim mesma. E é por isso que eu sou tão quebrada.

— Talvez seja por isso que você precise se consertar sozinha, Jihyo — disse Luiza, antes de sair e fechar a porta atrás de si.

O som da fechadura batendo foi como o ponto final de um capítulo que Jihyo nunca quis escrever. Ela encostou a testa na madeira fria da porta e escorregou até o chão novamente. O silêncio voltou a reinar, mas desta vez, não havia o tique-taque rítmico do relógio para fazer companhia. Havia apenas o eco daquele tapa, repetindo-se infinitamente em sua mente.

Jihyo olhou para o apartamento vazio. As fotos das duas nas paredes pareciam zombar dela. A dependência que ela sentia por Luiza, aquela necessidade visceral de tê-la por perto para se sentir viva, agora se transformara em uma agonia física. Ela sentia náuseas, sentia o peito apertado, sentia que o ar no apartamento estava acabando.

Ela pegou o celular e viu a foto de papel de parede: Luiza rindo em uma praia, o sol iluminando seu rosto jovem e radiante. Jihyo acariciou a tela com o polegar.

— O que eu fiz? — sussurrou para as paredes vazias.

Ela sabia que o amor delas era complicado. Sabia que a diferença de idade, a fama, a sua própria insegurança e a vitalidade de Luiza criavam um coquetel explosivo. Mas ela sempre acreditara que a intensidade do sentimento as salvaria de tudo. Agora, ela percebia que a intensidade fora justamente o que as incendiara.

A noite passou arrastada. Jihyo não dormiu. Ela mandou dezenas de mensagens para Luiza, pedindo perdão, implorando por uma chance, prometendo mudar. Todas ficaram com apenas um tique cinza. Luiza desligara o aparelho.

Pela manhã, o sol começou a entrar pelas grandes vidraças, o mesmo sol que Luiza tanto amava. Jihyo olhou para o próprio reflexo no espelho do corredor. Ela parecia um fantasma. A líder impecável do TWICE, a mulher que milhões admiravam, estava ali, reduzida a uma carcaça de culpa e saudade.

Ela lembrou-se do toque de Luiza na noite anterior, antes da briga. Lembrou-se da pele macia, do perfume de baunilha, da forma como Luiza se entregava a ela. E então, a imagem da marca vermelha no rosto de Luiza sobrepôs-se a tudo.

Jihyo caminhou até a cozinha e viu a xícara de café que Luiza usara naquela manhã. Ela a pegou e a segurou contra o peito, fechando os olhos.

— Eu vou te trazer de volta — prometeu Jihyo para o vazio. — Nem que eu tenha que aprender a te deixar ir primeiro.

Mas, no fundo de sua alma doente e dependente, Jihyo sabia que a batalha contra si mesma seria a mais difícil de sua vida. O tapa não fora apenas uma agressão física; fora o rompimento de um pacto sagrado de confiança. E enquanto Jihyo não conseguisse viver sem Luiza, ela nunca seria capaz de amá-la de forma saudável.

O telefone de Jihyo tocou. Era o seu manager, lembrando-a do ensaio que começaria em uma hora. Jihyo limpou o rosto, ajeitou o cabelo e colocou uma máscara. Ela tinha que ser a Park Jihyo para o mundo, enquanto por dentro, a Jihyo esposa estava em pedaços no chão daquela sala.

Ao sair do apartamento, ela olhou uma última vez para a marca no tapete onde Luiza estivera parada. O eco do tapa ainda vibrava no ar, um lembrete sombrio de que, às vezes, o amor mais profundo é também o mais perigoso. E que, em um labirinto de obsessão, a saída pode ser o lugar mais doloroso de se encontrar.