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amor entre escolhas

Efeito Rebote e Outras Complicações

A luz da manhã em Seul sempre parecia mais implacável através das janelas de vidro do Hospital Central. Para Hillary, o brilho do sol era como um bisturi cortando a névoa de sua enxaqueca. Ela já estava em seu escritório às sete da manhã, duas horas antes do seu horário habitual, vestindo um jaleco branco impecavelmente passado que servia como sua armadura. Seus cabelos pretos estavam presos em um coque baixo e firme; nem um único fio ondulado ousava desafiar a ordem que ela tentava restabelecer em sua vida.

Ela encarava os resultados preliminares de seu próprio exame de sangue na tela do computador. A substância era um derivado sintético de escopolamina com traços de um estimulante não identificado. Um coquetel perigoso projetado para anular a vontade e aumentar a suscetibilidade sensorial.

— Se eu pegar o infeliz que colocou isso na minha taça, ele vai descobrir que minha perícia em anatomia não serve apenas para salvar vidas — murmurou Hillary para si mesma, fechando os olhos por um segundo enquanto a imagem de Bang Chan, sem gravata e com o olhar nublado, invadia sua mente.

Uma batida rítmica e excessivamente animada na porta interrompeu seus pensamentos.

— Pode entrar, Aurora — disse Hillary, sem abrir os olhos.

A porta se abriu com um estrondo. Aurora entrou segurando dois copos de café extraforte e uma sacola de papel que cheirava a croissants amanteigados. Ela parecia radiante, o que era um insulto ao estado deplorável em que Hillary se sentia.

— Bom dia, raio de sol! — Aurora depositou o café na mesa, bem em cima de um relatório de orçamento. — Você está com aquela cara de "vou realizar uma cirurgia sem anestesia em alguém". Bebe isso.

Hillary aceitou o café, sentindo o calor aquecer suas mãos levemente trêmulas.

— Eu estou bem. Só estou processando os dados. A segurança do Grand Hyatt vai me enviar as imagens do circuito interno em uma hora. Eu quero nomes, Aurora.

— E o australiano? — Aurora sentou-se na poltrona à frente da mesa, cruzando as pernas e exibindo um sorriso malicioso. — O "paciente zero" deve chegar em dez minutos. Felix me mandou uma mensagem dizendo que o Chan acordou com uma dor de cabeça que faria um baterista de heavy metal pedir arrego.

— Ele é um paciente, Aurora. Nada mais — afirmou Hillary, embora o formigamento em seus lábios quando mencionava o nome dele a traísse. — Vou conduzir o check-up pessoalmente para garantir que não haja vazamentos para a imprensa. O Stray Kids tem uma turnê mundial começando em breve. Um escândalo de drogas, mesmo que eles sejam as vítimas, seria catastrófico.

— Sei, sei... profissionalismo acima de tudo — Aurora deu de ombros, mordendo um croissant. — Mas aquele momento no quarto... Hillary, eu te conheço desde a faculdade de medicina. Você nunca deixa um fio de cabelo fora do lugar. Ontem à noite, você parecia uma heroína de romance trágico. E o jeito que ele olhou para você quando eu e o Felix entramos? Aquilo não foi a droga, amiga. Aquilo foi reconhecimento.

Hillary abriu a boca para retrucar, mas o interfone em sua mesa tocou.

— Doutora Hillary? Os senhores Bang e Lee chegaram para a consulta privada no setor VIP — anunciou a secretária.

— Mande-os entrar pelos fundos, como combinado — instruiu Hillary, levantando-se e ajeitando o jaleco. — Aurora, você fica aqui. E, por favor, tente não ser... você.

— Vou ser uma tumba de silêncio e discrição — prometeu a loira, embora seus olhos castanhos brilhassem com a promessa de diversão.

Hillary caminhou até a sala de exames anexa ao seu escritório. O ambiente era estéril, funcional e seguro. Quando a porta lateral se abriu, Bang Chan entrou, seguido por um Felix que parecia ter passado a noite em claro. Chan usava um boné preto e uma máscara, mas seus olhos, agora claros e focados, encontraram os de Hillary imediatamente.

Houve um silêncio pesado. A tensão do que quase aconteceu no quarto 1004 pairava entre eles como eletricidade estática.

— Bom dia, Doutora — disse Chan. A voz dele ainda estava um pouco rouca, enviando um calafrio involuntário pela espinha de Hillary.

— Bom dia. Podem se sentar — ela indicou as macas de exame. — Felix, você parece bem, mas vou pedir que a enfermeira colha seu sangue também, apenas por precaução. Chan, você vem comigo para a sala de triagem.

Felix assentiu, sentando-se obedientemente, enquanto Chan seguiu Hillary para a pequena sala envidraçada. Assim que a porta se fechou, a fachada profissional dela oscilou por um milímetro.

— Como você está se sentindo? — perguntou ela, preparando o kit de coleta de sangue.

— Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim e depois dado ré — Chan tirou a máscara e o boné, revelando o rosto pálido. — Mas minha mente está clara agora. Eu me lembro de tudo, Hillary.

A mão dela parou por um segundo sobre o algodão com álcool.

— O efeito de desinibição é comum com esse tipo de substância — explicou ela, focando-se na tarefa técnica para evitar olhar nos olhos dele. — Não leve a sério nada do que foi dito ou... sentido. Foi uma reação química.

Chan estendeu o braço para ela, mas antes que ela pudesse aplicar a agulha, ele segurou suavemente o pulso dela.

— A química explicaria eu querer beijar qualquer pessoa, Doutora. Mas eu não queria qualquer pessoa. Eu sabia exatamente quem estava na minha frente.

Hillary sentiu o rosto esquentar. Ela puxou o braço delicadamente e apontou para a veia dele.

— Punção venosa, Christopher. Agora.

Ele soltou um suspiro curto, mas obedeceu. Hillary trabalhou com a eficiência de anos de prática, mas o silêncio entre eles não era mais clínico; era carregado.

— Eu verifiquei a segurança — disse ela, enquanto o tubo de ensaio se enchia de sangue escuro. — A mulher que te deu a água foi identificada. Era uma funcionária temporária contratada por uma agência externa. Já acionamos o departamento jurídico da JYP e o meu. Quanto ao homem que me abordou... ele é um investidor minoritário. Ele vai perder as ações e, provavelmente, a licença profissional.

— Você é rápida — comentou Chan, observando-a colocar um curativo no local da picada. — Tudo no lugar, como sempre.

— É assim que eu sobrevivo — respondeu ela, finalmente olhando para ele. — Eu sou a CEO deste hospital. Minha reputação é a espinha dorsal desta instituição. E você é o líder do grupo mais importante da sua geração. Nós não temos o luxo de sermos "vulneráveis".

Chan levantou-se da cadeira de exames, diminuindo a distância entre eles. Ele era apenas alguns centímetros mais alto que ela, mas sua presença parecia preencher toda a sala.

— E se eu não quiser ser apenas um líder agora? E se eu quiser ser apenas o cara que quase cometeu o erro mais incrível da vida dele com a médica mais teimosa de Seul?

Hillary soltou uma risada seca, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.

— Você está sob o efeito do rebote adrenérgico. É uma fase de euforia pós-intoxicação. Vá para casa, durma, beba muita água e, em quarenta e oito horas, você vai perceber que eu sou apenas a mulher que te dá receitas de antibióticos.

— Veremos — disse ele, com um meio sorriso que era perigosamente charmoso. — Mas os meus exames... você vai me entregar pessoalmente?

— Eu enviarei para o seu agente — cortou ela, abrindo a porta da sala de triagem.

Ao saírem, encontraram Aurora e Felix conversando animadamente sobre marcas de fones de ouvido. Aurora olhou para os dois e arqueou uma sobrancelha.

— Tudo certo, Doutora? Ou precisamos de uma segunda opinião?

— Eles estão liberados, Aurora — Hillary disse, sua voz recuperando o tom de autoridade. — Felix, garanta que ele descanse. Chan, nada de cafeína por hoje.

— Sim, senhora — Felix fez uma pequena reverência, puxando Chan pelo braço. — Obrigado, Doutora Hillary. E desculpe pelo transtorno de ontem. O Hyung às vezes é um pouco... intenso.

— Eu percebi — murmurou Hillary.

Assim que os dois saíram e a porta principal do escritório se fechou, Aurora pulou da cadeira.

— "Punção venosa, Christopher"? Sério, Hillary? Você quase chamou o cara de meu amor no meio daquela tensão toda.

— Eu não chamei nada! — Hillary voltou para sua mesa, enterrando o rosto nas mãos. — Aurora, isso é um desastre. Eu sou médica deles há três anos. Eu conheço o histórico de saúde de todos, eu sei as alergias deles, eu sei até quando o Han precisa de vitaminas extras. Eu não posso ter... sentimentos por um paciente. É éticamente questionável.

— É éticamente questionável se você usar o cargo para seduzi-lo — Aurora pontuou, sentando na beirada da mesa. — Mas se dois adultos, que foram vítimas de um crime, se encontram em uma situação absurda e percebem que existe uma faísca... isso é apenas o roteiro de um k-drama muito bom.

— Minha vida não é um k-drama — Hillary rebateu. — É um hospital de alta complexidade.

— Pois o seu hospital de alta complexidade vai ter que lidar com um "efeito colateral" — Aurora apontou para o celular de Hillary, que havia acabado de vibrar.

Hillary pegou o aparelho. Havia uma nova mensagem de um número desconhecido, mas ela sabia exatamente de quem era.

"O rebote adrenérgico não explica por que eu ainda consigo sentir o cheiro do seu perfume no meu casaco. Obrigado por me salvar ontem, Hillary. De verdade. Vejo você no check-up de acompanhamento (se você não fugir)."

Hillary encarou a tela por um longo tempo. Seus dedos hesitaram sobre o teclado. Ela deveria bloquear o número. Deveria ser profissional. Deveria colocar tudo de volta no lugar.

Mas, em vez disso, ela apenas salvou o contato como "Paciente Zero" e guardou o celular na gaveta.

— Você está sorrindo? — Aurora perguntou, chocada. — Hillary, você está sorrindo!

— Eu não estou sorrindo. É apenas uma contração involuntária do músculo zigomático maior — respondeu ela, voltando a olhar para os relatórios de orçamento. — Agora, saia daqui. Eu tenho um hospital para dirigir.

Aurora saiu rindo, deixando Hillary sozinha com o silêncio de seu escritório. Pela primeira vez em anos, a CEO de Ferro percebeu que, talvez, um pouco de desordem fosse exatamente o que o médico recomendaria.

As horas seguintes foram um borrão de reuniões e decisões administrativas. No entanto, a mente de Hillary continuava voltando para o momento em que a porta do quarto 1004 se abriu. Ela se lembrou da sensação de segurança que sentiu, mesmo no meio do caos, quando Chan a segurou para que ela não caísse.

No final da tarde, a segurança do hotel enviou os arquivos de vídeo. Hillary assistiu, com o coração apertado, ao momento em que o investidor colocou o pó em sua taça. Viu a si mesma cambaleando e, depois, viu Chan. No vídeo, era claro que ele estava lutando contra a própria consciência para chegar ao elevador.

Houve um momento, nas imagens do corredor, em que eles se encontraram. O vídeo não tinha som, mas Hillary viu como Chan parou ao vê-la sofrer. Mesmo drogado, seu primeiro instinto foi tentar ajudar. Ele não era apenas um ídolo ou um paciente; ele era o homem que, mesmo no seu pior momento, tentou ser o protetor.

Hillary fechou o notebook e olhou pela janela. O sol estava se pondo, pintando o céu de Seul com tons de laranja e violeta. Ela pegou o celular da gaveta e digitou uma resposta rápida.

"Não beba água de estranhos, Christopher. E eu nunca fujo de um diagnóstico."

Ela enviou a mensagem antes que sua lógica pudesse impedi-la. Segundos depois, o celular vibrou.

"É uma promessa, Doutora?"

Hillary respirou fundo, sentindo uma leveza estranha no peito.

— É uma promessa — sussurrou ela para o escritório vazio.

Naquela noite, Hillary não organizou sua agenda para o dia seguinte milimetricamente como de costume. Ela deixou uma pequena margem para o inesperado. Afinal, como médica, ela sabia que às vezes as melhores curas vinham de tratamentos não convencionais. E Bang Chan era, sem dúvida, o tratamento mais imprevisível que ela já encontrara.