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amor entre escolhas

Prescrição para um Evento de Gala

O Hospital Central de Seul estava mergulhado em sua rotina frenética de bipes de monitores e passos apressados nos corredores de mármore. No topo da hierarquia, Hillary mantinha sua postura inabalável. Três dias haviam se passado desde o incidente no hotel, e o "Paciente Zero" não havia saído de sua cabeça, apesar de seus esforços hercúleos para focar em transplantes de fígado e gestão de crises.

Hillary estava revisando o prontuário de um paciente pós-operatório quando uma notificação em seu celular pessoal — aquele que agora vivia estrategicamente posicionado sobre a mesa — a fez parar.

— "Preciso de uma consulta de emergência. Não é médico. É social." — A mensagem de Chan brilhava na tela, acompanhada por um emoji de rosto preocupado que não combinava em nada com a imagem de líder inabalável do Stray Kids.

Hillary franziu o cenho, os dedos pairando sobre o teclado.

— "Christopher, estou no meio de um turno. Se não for uma parada cardíaca ou uma reação alérgica, pode esperar" — ela digitou, tentando manter a barreira profissional que estava se tornando cada vez mais porosa.

A resposta veio em segundos.

— "É pior. É o Baile de Gala da Fundação Cultural de Seul. Amanhã à noite. E meu acompanhante oficial teve um imprevisto diplomático. Hillary... eu preciso de alguém que não desmaie com flashes e que saiba distinguir um investidor de um abutre. Alguém como você."

Hillary soltou um suspiro longo, recostando-se na cadeira de couro. Ela conhecia aquele evento. Era o ápice da alta sociedade coreana, um ninho de cobras em vestidos de alta costura. Como CEO do hospital, ela já tinha um convite, mas planejava enviar o diretor financeiro em seu lugar para poder desfrutar de uma noite rara de silêncio e leitura.

— Pensando no Bang Chan de novo, Doutora? — A voz de Aurora ecoou da porta, acompanhada pelo barulho característico de seus saltos agulha.

— Eu estou trabalhando, Aurora — Hillary respondeu prontamente, fechando a aba de mensagens, embora soubesse que era inútil esconder qualquer coisa da sócia.

— Trabalhando no quê? No seu batimento cardíaco? — Aurora caminhou até a mesa e inclinou-se para ler a tela, mesmo que Hillary tivesse sido rápida. — Um convite para o Baile de Gala? Pelo próprio Bang Chan? Hillary, se você disser não, eu peço sua interdição médica por insanidade mental.

— É inadequado — argumentou Hillary, embora sua mente já estivesse calculando qual vestido no seu closet estava devidamente higienizado. — Eu sou a médica dele. Ir a um evento de gala como acompanhante dele envia a mensagem errada para a diretoria do hospital e para a JYP.

— Ou envia a mensagem de que a CEO mais poderosa de Seul e o artista mais influente da Coreia são uma força imbatível — Aurora rebateu, pegando uma caneta da mesa e girando-a entre os dedos. — Pense estrategicamente, Hillary. Você quer os fundos para a nova ala oncológica? Metade dos doadores estará lá. E quem melhor para te introduzir aos círculos que você ainda não domina do que o homem que é o rosto da cultura coreana? Além disso... você deve isso a ele.

Hillary arqueou uma sobrancelha.

— Eu devo a ele? Eu o salvei de um escândalo!

— E ele salvou você de algo muito pior naquele quarto, antes de eu e o Felix chegarmos — Aurora suavizou o tom, seus olhos castanhos perdendo o brilho travesso por um momento. — Vocês dois passaram por algo traumático juntos. Às vezes, a melhor maneira de superar o susto é reescrever a memória com algo glamoroso e... sob controle.

Hillary olhou para o celular. O cursor piscava na caixa de texto. Ela pensou na sensação da mão de Chan em seu pulso na sala de exames, na clareza do olhar dele e na forma como ele parecia entendê-la sem que ela precisasse citar estatísticas.

— "Vou como sua acompanhante, Christopher. Mas sob duas condições" — ela escreveu. — "Primeiro: você segue minha dieta de desintoxicação até amanhã. Segundo: se alguém me perguntar, estamos discutindo parcerias filantrópicas entre o hospital e sua agência."

A resposta de Chan veio acompanhada de um áudio. Hillary colocou o telefone contra o ouvido, sentindo a voz rouca e vibrante dele arrepiar os pelos de sua nuca.

— "Negócio fechado, Doutora. Passo para te buscar às sete. E Hillary... tente não levar seu estetoscópio. Eu pretendo te deixar sem fôlego de um jeito que a medicina não explica."

Hillary sentiu o rosto queimar. Aurora, que observava cada microexpressão da amiga, soltou um grito de comemoração que provavelmente foi ouvido na ala de pediatria.

A noite seguinte chegou com a precisão de um cronômetro suíço. Hillary estava diante do espelho de seu apartamento, ajustando os detalhes finais. Ela havia escolhido um vestido de seda preta que abraçava suas curvas de forma sofisticada, com um decote em "V" profundo, mas elegante, e as costas parcialmente descobertas. Seus cabelos pretos e ondulados estavam soltos, caindo em cascatas perfeitas sobre os ombros. Ela parecia exatamente o que era: uma mulher no comando total de seu destino. Ou, pelo menos, era o que ela queria projetar.

O interfone tocou exatamente às 19:00.

Ao descer para o saguão, ela viu um sedã preto de vidros escuros estacionado. A porta se abriu e Bang Chan saiu. Se Hillary achava que ele era atraente em roupas de ensaio ou nos figurinos de palco, o Chan de smoking era uma ofensa à saúde pública. O corte impecável do traje realçava seus ombros largos, e o cabelo estava estilizado para trás, revelando a testa e o olhar intenso que parecia devorá-la à distância.

Ele parou diante dela, e por um momento, o barulho da cidade de Seul desapareceu.

— Você está... — Chan começou, mas pareceu perder as palavras, o que era raro para alguém tão acostumado com palcos. — Hillary, eu deveria ter trazido um desfibrilador. Meu coração acabou de parar.

Hillary sentiu um sorriso genuíno, não o seu sorriso de negócios, curvar seus lábios.

— Deixe os termos médicos comigo, Christopher. Você está aceitável.

— Aceitável? — Ele riu, estendendo o braço para ela. — Você é uma crítica difícil, Doutora.

O trajeto até o local do evento foi preenchido por uma conversa leve, surpreendentemente confortável. Eles evitaram falar sobre a noite do incidente, focando em interesses comuns que descobriram ter: música clássica, arquitetura e a pressão constante de liderar grandes equipes. Hillary percebeu que, por trás da fachada de idol, Chan carregava um peso de responsabilidade muito semelhante ao dela.

Quando o carro parou em frente ao tapete vermelho, o clarão dos flashes foi imediato.

— Pronta? — Chan perguntou, sua mão cobrindo a dela por um segundo. — Se ficar pesado demais, me dê um sinal e eu nos tiro daqui em cinco minutos.

— Eu administro um dos maiores hospitais da Ásia, Chan — Hillary respondeu, endireitando a postura. — Flashes de câmeras não me assustam.

Eles saíram do carro juntos. O impacto foi instantâneo. O burburinho entre os fotógrafos e jornalistas cresceu como uma onda. "Quem é ela?", "É a CEO do Hospital Central?", "Eles estão juntos?". Hillary manteve o olhar fixo à frente, um leve sorriso enigmático nos lábios, enquanto a mão de Chan em sua cintura era um ponto de calor constante e firme.

Dentro do salão de gala, o luxo era opulento. Lustres de cristal, o som de uma orquestra de câmara e o aroma de perfumes caros preenchiam o ar.

— Doutora Hillary! Que surpresa agradável — disse um dos conselheiros da prefeitura, aproximando-se com uma taça na mão. — Não sabia que a senhora tinha interesses na indústria do entretenimento.

— A saúde e a cultura caminham juntas, Conselheiro — Hillary respondeu com sua voz de seda e aço. — O senhor Bang e eu estamos explorando como a música pode auxiliar na recuperação de pacientes em cuidados paliativos. É uma iniciativa pioneira.

Chan olhou para ela com admiração evidente. Ela não apenas lidava com a situação, ela a dominava.

— A Doutora é uma visionária — acrescentou Chan, aproximando-se um pouco mais de Hillary, de modo que seus ombros se encostassem. — Estou aprendendo muito com a perspectiva dela. Em todos os sentidos.

Após uma hora de cumprimentos e conversas diplomáticas, Chan conduziu Hillary para um terraço mais reservado, longe da multidão e do barulho. O ar da noite estava fresco, e as luzes de Seul brilhavam como diamantes lá embaixo.

— Você foi incrível lá dentro — disse ele, afrouxando levemente a gravata borboleta. — Eu quase acreditei na história dos cuidados paliativos.

— Não era totalmente mentira — Hillary disse, encostando-se na balaustrada de pedra. — É algo que eu realmente quero implementar. Mas obrigada por me tirar de lá. Meus pés já estavam começando a protestar em termos médicos.

Chan riu e se posicionou ao lado dela. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era carregado daquela mesma eletricidade que sentiram no quarto do hotel, mas desta vez, não havia nenhuma substância química turvando seus sentidos. Era puramente eles.

— Hillary — ele chamou, sua voz baixa e séria. — Sobre o que aconteceu no hotel... eu sei que você disse que foi apenas a droga. E eu respeito seu profissionalismo. Mas eu não consigo parar de pensar que, se as circunstâncias fossem diferentes... se nos conhecêssemos como duas pessoas comuns...

Hillary olhou para as luzes da cidade, sentindo o vento balançar seus cabelos.

— Nós não somos pessoas comuns, Chan. Eu sou uma mulher que gosta de ordem, de diagnósticos precisos e de resultados previsíveis. Você é o caos criativo, a exposição pública e a imprevisibilidade.

Chan deu um passo em direção a ela, forçando-a a olhar para ele.

— Às vezes, o diagnóstico mais preciso é aquele que a gente tenta ignorar porque tem medo do tratamento — ele disse, sua mão subindo para tocar uma mecha do cabelo dela. — Eu não sou um caos, Hillary. Eu sou um homem que viu algo em você que ninguém mais parece notar. Você não é feita de ferro. Você é feita de uma força que protege todo mundo, mas quem protege você?

Hillary sentiu sua barreira de defesa oscilar. Ninguém nunca havia feito aquela pergunta. Todos viam a CEO, a médica, a mulher que resolvia problemas. Ninguém via a exaustão que vinha com o peso daquela armadura.

— Eu me protejo sozinha — ela sussurrou, embora sua voz tenha falhado levemente.

— Você não precisa fazer isso o tempo todo — Chan murmurou, aproximando o rosto do dela. — Deixe-me ser seu acompanhante não apenas por uma noite de gala, mas para os momentos em que o hospital fica silencioso demais.

Ele não a beijou imediatamente. Ele esperou. Deu a ela a chance de recuar, de citar a ética médica, de falar sobre escândalos ou sobre como aquilo era estatisticamente improvável de dar certo.

Hillary, no entanto, fechou os olhos e reduziu o espaço entre eles.

O beijo foi diferente daquele no hotel. Não havia o desespero febril da intoxicação, mas sim uma intensidade consciente e profunda. Era o encontro de duas solidões que haviam encontrado um porto seguro um no outro. A mão de Chan em sua nuca era possessiva e gentil ao mesmo tempo, e Hillary se permitiu, pela primeira vez em anos, soltar o controle.

Quando se afastaram, ambos estavam levemente ofegantes.

— Isso... — Hillary começou, tentando recuperar sua compostura de CEO. — Isso definitivamente não estava na agenda.

— Considere um efeito colateral inesperado — Chan sorriu, o brilho em seus olhos mais radiante do que qualquer lustre do salão. — O que fazemos agora, Doutora? Qual o tratamento?

Hillary olhou para ele, e pela primeira vez, a incerteza não a assustou.

— Agora — ela disse, segurando a mão dele e entrelaçando seus dedos —, nós voltamos lá para dentro, terminamos esse evento como os profissionais que somos, e depois... depois você me leva para comer tteokbokki em algum lugar onde ninguém nos conheça.

Chan soltou uma gargalhada vibrante, beijando a mão dela com devoção.

— Tteokbokki? A CEO de Ferro come comida de rua?

— Só quando o acompanhante vale o risco de uma indigestão — ela brincou, sentindo-se mais leve do que nunca.

Eles voltaram para o salão de braços dados. A festa continuava a mesma, os investidores continuavam os mesmos, e o mundo lá fora ainda exigia muito de ambos. Mas, enquanto caminhavam entre a multidão, Hillary percebeu que a ordem absoluta era superestimada. Algumas das melhores histórias da vida começavam com um quarto errado, uma bebida batizada e um homem que se recusava a deixá-la carregar o mundo nas costas sozinha.

Naquela noite, Hillary não era apenas a CEO ou a médica. Ela era uma mulher que havia descoberto que, às vezes, a cura mais eficaz não vinha em um frasco de remédio, mas no sorriso de um australiano atrevido que sabia exatamente como quebrar suas defesas.

E, para Hillary, aquele era o diagnóstico mais perfeito que ela já havia feito.