Amor entre reinos
O Eco do Rugido e o Peso da Coroa
O amanhecer em Porto Real não trouxe a luz da esperança, mas sim o brilho metálico de armaduras e o som agourento de asas batendo contra o ar úmido. Karen sentia cada batida de seu coração como se fosse um tambor de guerra. Seus aposentos, antes um refúgio, agora pareciam uma cela de luxo. A ordem de partida estava dada, e as malas, carregadas com as cores da Casa Targaryen — o vermelho e o preto de sua mãe —, jaziam ao pé da cama como sentinelas silenciosas de seu destino.
Ela levou a mão ao ventre mais uma vez, um gesto que se tornara seu único consolo. Ali, sob as camadas de seda e veludo, pulsava o segredo que mudaria o curso da história. Não era apenas um bebê; era a união proibida de duas linhagens que estavam prestes a se estraçalhar. Se Rhaenyra descobrisse, veria a gravidez como uma mancha ou, pior, como uma fraqueza que os Verdes usariam contra ela. Se Daemon descobrisse... Karen estremeceu ao pensar na fúria de seu pai. Ele amava a filha, mas sua lealdade à causa da esposa e seu ódio pelos Hightower eram chamas que consumiam qualquer outra consideração.
— Lady Karen, os guardas esperam no pátio inferior — anunciou uma serva, mantendo a cabeça baixa.
Karen não respondeu de imediato. Ela caminhou até a janela e olhou para o fosso. Lá embaixo, Vhagar não estava à vista, mas ela podia sentir a presença de Aemond. Era uma conexão que transcendia o físico; ela sentia a inquietação dele, a raiva contida que vibrava no ar como eletricidade antes de uma tempestade.
— Diga a eles que descerei em breve — ordenou Karen, sua voz saindo mais firme do que ela se sentia. — Quero um momento a sós com meus pensamentos.
Assim que a serva saiu, Karen pegou uma pequena adaga de osso de dragão, um presente que Aemond lhe dera meses atrás, e a escondeu nas dobras de sua capa. Ela não sabia se precisaria usá-la contra um inimigo ou contra si mesma, mas o toque do cabo frio lhe dava uma estranha sensação de segurança.
Ao descer para o pátio, o cenário era de uma tensão insuportável. Sor Criston Cole estava lá, vigiando cada movimento com seus olhos de falcão, representando a Rainha Alicent. Do outro lado, cavaleiros leais a Rhaenyra aguardavam para escoltá-la. E, no centro de tudo, estava Aemond.
Ele montava um cavalo negro, sua postura era rígida, a mão enluvada apertando as rédeas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O tapa-olho de safira parecia brilhar sob a luz pálida da manhã. Quando seus olhos se encontraram, o mundo ao redor deles pareceu desaparecer. Não havia rainhas, reis ou tronos — apenas o fogo que compartilhavam.
— Uma partida apressada, sobrinha — disse Aemond, sua voz ecoando pelo pátio, carregada de um sarcasmo que Karen sabia ser uma máscara para a dor.
— As ordens de minha mãe não admitem atrasos, tio — respondeu ela, aproximando-se dele sob o olhar atento de Sor Criston.
Aemond inclinou-se ligeiramente sobre a sela, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de couro e incenso que sempre o acompanhava envolveu Karen, trazendo uma onda de náusea e saudade.
— Lembre-se do que conversamos — sussurrou ele, tão baixo que apenas ela podia ouvir. — O céu é vasto, e Vhagar é rápida. Se o ninho de Pedra do Dragão se tornar perigoso demais, olhe para as nuvens. Eu estarei lá.
— Eu não posso fugir, Aemond — devolveu ela no mesmo tom, os olhos suplicantes. — Não agora. O que carrego... ele precisa de mais do que apenas voar. Ele precisa de um futuro.
— Ele terá o mundo — afirmou Aemond, a promessa soando como um juramento sagrado.
Ele estendeu a mão para ajudá-la a subir em seu próprio cavalo, que a levaria até o Fosso dos Dragões, onde Araxes esperava. Por um breve segundo, os dedos dele apertaram os dela, um aperto que dizia tudo o que as palavras não podiam expressar: *Eu te amo. Eu não vou deixar você. Eu matarei qualquer um que toque em você.*
A jornada até o Fosso foi silenciosa. Karen sentia o peso dos olhares de Sor Criston em suas costas. Ela sabia que o Lorde Comandante da Guarda Real desconfiava de algo. Ele passara tempo demais observando as dinâmicas daquela família para não notar a forma como os olhos de Aemond seguiam Karen, ou como ela parecia florescer apenas na presença do príncipe caolho.
Quando chegaram ao Fosso, o rugido de Araxes saudou sua montadora. O dragão jovem, com suas escamas negras e reflexos violetas, estava inquieto. Ele batia as asas, criando rajadas de vento que levantavam a poeira do chão de pedra. Araxes era um reflexo de Karen; ele sentia o medo dela, a incerteza e, acima de tudo, a vida nova que crescia em seu ventre.
— Calma, Araxes — murmurou ela, aproximando-se da fera. — *Sōves* (Voe), meu amigo. Logo estaremos em casa.
Mas Pedra do Dragão não parecia mais um lar. Parecia um campo de batalha onde ela teria que esconder sua verdadeira identidade a cada segundo.
Aemond observava de longe, montado em Vhagar, que rugiu em resposta a Araxes. O som era ensurdecedor, um trovão que fez o chão tremer e os cavalos dos guardas recuarem em pânico. Era o aviso final.
Karen subiu na sela, sentindo a familiaridade do couro e o calor que emanava das costas do dragão. Ela olhou para trás uma última vez. Aemond já estava no ar, a silhueta colossal de Vhagar obscurecendo o sol. Ele não a seguiria abertamente, mas ela sabia que ele estaria nas sombras das nuvens, vigiando seu progresso até que as torres de Pedra do Dragão estivessem à vista.
O voo sobre a Baía da Água Negra foi solitário. O vento fustigava seu rosto, e o frio da altitude ajudava a aliviar as náuseas matinais que começavam a se tornar frequentes. Karen tentou se concentrar no horizonte, mas sua mente voltava constantemente para a noite em que tudo mudara. O calor dos aposentos de Aemond, as confissões sussurradas entre beijos desesperados, a sensação de que, naquele momento, eles eram os únicos Targaryen que realmente entendiam o significado de "Fogo e Sangue".
Quando as falésias de Pedra do Dragão surgiram, o coração de Karen apertou. Ela viu Syrax e Caraxes circulando o castelo, como sentinelas famintas. Seu pai e sua mãe estavam esperando.
Araxes pousou com um impacto pesado no pátio externo. Antes mesmo que Karen pudesse descer da sela, Daemon já estava lá. Ele não parecia o pai carinhoso que costumava ser; seus olhos eram fendas de suspeita, e a mão repousava no punho da Irmã Sombria.
— Você demorou, Karen — disse Daemon, ajudando-a a descer. — Sua mãe estava começando a achar que os Verdes tinham decidido mantê-la como refém. Ou talvez que você tivesse decidido ficar por vontade própria.
— O tempo estava instável, pai — mentiu ela, evitando o olhar dele. — Araxes teve dificuldades com as correntes de ar.
Daemon a segurou pelos ombros, forçando-a a encará-lo. Ele inclinou a cabeça, farejando o ar ao redor dela, um gesto quase animal que fez o sangue de Karen gelar.
— Você cheira a medo — observou ele, a voz baixa e perigosa. — E a algo mais. Algo que não consigo identificar, mas que me incomoda profundamente.
— É apenas o cansaço da viagem — respondeu ela, tentando se soltar. — Quero ver minha mãe.
— Rhaenyra está no Conselho Negro. Mas antes de ir até ela, diga-me uma coisa... — Daemon apertou um pouco mais os ombros dela. — O caolho. Ele se aproximou de você em Porto Real?
— Aemond é meu tio, pai. Cruzamos caminhos nos corredores, nada mais.
Daemon soltou uma risada seca, sem humor.
— Ele não é seu tio. Ele é um Hightower com sangue de dragão diluído. Se eu souber que ele tocou em um único fio de seu cabelo, eu mesmo arrancarei o outro olho dele e o darei de comer a Caraxes.
Karen engoliu em seco, sentindo o bebê chutar pela primeira vez. Foi um movimento leve, quase imperceptível, como o bater de asas de uma borboleta, mas para ela foi como uma explosão. Ela precisava sair dali. Precisava de privacidade antes que seu corpo a traísse.
— Vou para meus aposentos — disse ela, afastando-se de Daemon com uma pressa que ela sabia ser suspeita.
Enquanto caminhava pelos corredores úmidos e escuros de Pedra do Dragão, Karen sentia que as paredes estavam se fechando sobre ela. Cada serva que passava parecia um espião, cada guarda um carcereiro. Ela entrou em seu quarto e trancou a porta, desabando contra a madeira fria.
Ela se despiu diante do espelho de metal polido. Sua barriga ainda estava plana, mas seus seios estavam sensíveis e uma linha escura começava a aparecer em sua pele pálida. Ela era uma traidora. Aos olhos de sua família, ela carregava a semente do inimigo. Mas, em seu coração, ela carregava a única coisa que importava: um pedaço de Aemond.
— Nós vamos sobreviver — sussurrou ela para o reflexo. — Eu prometo a você, pequeno dragão. Seu pai virá por nós.
Naquela noite, a guerra bateu à porta de forma definitiva. Um mensageiro chegou com notícias de Ponta Tempestade. Lucerys, seu meio-irmão, fora enviado para negociar com Lorde Borros Baratheon. Karen sentiu um frio gélido percorrer sua espinha. Ela sabia que Aemond também fora enviado para lá. Ela conhecia a fúria dele, o desejo de vingança pelo olho perdido.
Ela correu para o Grande Salão, onde Rhaenyra estava debruçada sobre a Mesa Pintada. A expressão de sua mãe era de pura agonia.
— O que aconteceu? — perguntou Karen, a voz trêmula.
Rhaenyra olhou para ela, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Lucerys... ele caiu. Vhagar o alcançou sobre a baía.
O mundo de Karen desabou. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do crepitar das chamas nas tochas. Lucerys estava morto. E Aemond era o assassino.
— Não... — murmurou Karen, sentindo o chão fugir de seus pés. — Ele não faria isso.
— Ele fez! — rugiu Daemon, surgindo das sombras com os olhos injetados de sangue. — O bastardo caolho matou seu irmão! Ele reivindicou o primeiro sangue desta guerra. E eu juro, Karen, eu vou trazer a cabeça dele em uma bandeja para sua mãe!
Karen sentiu uma dor aguda no ventre. Ela se curvou, as mãos agarrando a borda da Mesa Pintada. O conflito que ela tanto temia não era mais uma possibilidade distante; era uma realidade sangrenta. O homem que ela amava, o pai de seu filho, acabara de matar o irmão que ela crescera protegendo.
— Karen? Você está pálida — disse Rhaenyra, aproximando-se da filha, a dor da perda momentaneamente substituída pela preocupação. — O que foi?
— Eu... eu preciso de ar — ofegou Karen.
Ela saiu tropeçando do salão, ignorando os chamados de sua mãe. Ela precisava chegar ao parapeito. Precisava olhar para o céu.
Lá fora, a tempestade rugia. Raios cortavam a escuridão, iluminando as ondas furiosas abaixo. Karen olhou para o horizonte, as lágrimas se misturando à chuva. Ela odiava Aemond por ter feito aquilo. Odiava a guerra. Mas, acima de tudo, odiava o fato de que, mesmo agora, ela ainda desejava o toque dele.
Um rugido familiar ecoou entre as nuvens. Não era o rugido agudo de Caraxes ou o grito de Syrax. Era um som profundo, antigo, que parecia vir das entranhas da terra.
Vhagar.
Karen apertou os olhos, tentando enxergar através da cortina de chuva. Por um breve instante, entre dois relâmpagos, ela viu a silhueta colossal. Aemond estava lá. Ele viera, exatamente como prometera. Ele estava circulando a ilha, um predador observando sua presa, ou talvez um amante vigiando sua amada.
Ela sabia que ele não podia pousar. Se o fizesse, seria morto no ato. Mas ele estava ali, enviando uma mensagem silenciosa. O ato em Ponta Tempestade mudara tudo. Não havia mais volta. Eles não eram mais apenas dois amantes escondidos; eram soldados em lados opostos de uma guerra que consumiria tudo.
— Por que você fez isso? — gritou ela contra o vento, sabendo que ele não podia ouvir. — Por que nos condenou?
Como se em resposta, um clarão iluminou o céu, revelando Aemond sobre a sela de Vhagar. Ele parecia uma estátua de gelo e fúria. Ele olhou para baixo, para as torres de Pedra do Dragão, e Karen teve a certeza de que ele a estava vendo.
Ele ergueu a mão, um gesto rápido que apenas ela entenderia. Era o sinal de que ele estaria esperando no lugar de sempre, na colina isolada onde o segredo deles fora selado.
Karen voltou para dentro, o corpo tremendo. Ela sabia o que tinha que fazer. Se ficasse em Pedra do Dragão, Daemon acabaria descobrindo a verdade, e o bebê nunca teria uma chance. Se fugisse para Aemond, ela estaria se juntando ao assassino de seu irmão.
Não havia escolha certa. Havia apenas o fogo.
Ela caminhou até seus aposentos e começou a trocar de roupa. Tirou as cores de Rhaenyra e vestiu um traje de voo de couro escuro, sem brasões, sem lealdades. Ela pegou a adaga de osso de dragão e a prendeu ao cinto.
— Perdoe-me, mãe — sussurrou ela para as paredes vazias. — Perdoe-me, Luke. Mas eu não posso deixar meu filho morrer antes mesmo de nascer.
Ela saiu furtivamente em direção ao Fosso dos Dragões. Os guardas estavam distraídos com a notícia da morte de Lucerys e os preparativos para a guerra. Ninguém notou a princesa deslizando pelas sombras.
Araxes estava pronto. O dragão sentia a urgência de sua montadora. Karen subiu na sela e sentiu a conexão se fortalecer.
— *Sōves*, Araxes! — comandou ela.
O dragão saltou para o céu tempestuoso. O voo foi caótico, as rajadas de vento tentando derrubá-los, mas Karen se manteve firme. Ela voou para longe das luzes de Pedra do Dragão, em direção à escuridão do mar.
Não demorou muito para que a sombra de Vhagar surgisse ao lado dela. O tamanho da dragão fêmea era aterrorizante de perto, uma montanha de carne e escamas que poderia esmagar Araxes com um único movimento. Mas Vhagar não atacou. Ela se posicionou ao lado do dragão menor, protegendo-o do vento mais forte com seu corpo imenso.
Eles voaram em silêncio até chegarem a uma pequena enseada protegida por falésias altas, longe de qualquer assentamento. Quando pousaram, a chuva havia diminuído para uma garoa fina.
Aemond desceu de Vhagar antes mesmo que ela terminasse de se acomodar. Ele correu em direção a Karen, que acabara de descer de Araxes. Ele parou a poucos metros dela, a expressão uma mistura de triunfo e desespero.
— Você veio — disse ele, a voz falhando.
Karen não respondeu com palavras. Ela caminhou até ele e desferiu um tapa forte em seu rosto. Aemond não se moveu. Ele aceitou o golpe, o olhar fixo nela.
— Você o matou — soluçou ela, golpeando o peito dele com os punhos. — Você matou o Luke! Como você pôde?
Ele a segurou pelos pulsos, forçando-a a parar.
— Foi um acidente, Karen! Vhagar não me obedeceu. Eu só queria assustá-lo, eu juro pelos Deuses Antigos e Novos!
— Não importa o que você queria! — gritou ela. — Agora há sangue entre nossas famílias. Sangue que nunca será limpo!
Aemond a puxou para um abraço apertado, ignorando seus protestos. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, respirando o cheiro de chuva e dragão.
— Eu sei. Eu sei que estraguei tudo. Mas eu não podia deixar você lá. Daemon vai descobrir sobre o bebê, Karen. Ele vai usá-lo como arma ou vai matá-lo por ser meu.
Karen parou de lutar. Ela encostou a testa no peito da armadura de Aemond, sentindo o frio do metal. Ele tinha razão. O mundo que eles conheciam acabara de queimar.
— O que vamos fazer? — perguntou ela, a voz fraca.
Aemond se afastou um pouco e olhou nos olhos dela. A safira em seu olho esquerdo parecia refletir a alma atormentada de um homem que sabia que estava condenado, mas que lutaria até o fim.
— Vamos para o Norte. Ou para Essos. Para algum lugar onde o nome Targaryen seja apenas uma lenda e onde nosso filho possa crescer sem o peso de uma coroa de ferro.
— Eles vão nos caçar, Aemond. Vhagar não é um dragão que se possa esconder.
— Deixe que venham — disse ele, um sorriso sombrio surgindo em seus lábios. — Se eles querem guerra, nós daremos a eles. Mas faremos isso nos nossos termos.
Ele levou a mão ao ventre dela, o toque agora suave e reverente.
— Como ele está? — perguntou Aemond.
— Ele chutou hoje — respondeu Karen, uma pequena centelha de sorriso aparecendo apesar da dor. — Acho que ele sentiu sua falta.
Aemond fechou o olho, uma lágrima solitária escapando e escorrendo pelo rosto marcado pela cicatriz.
— Eu nunca vou deixar vocês. Eu juro pela minha vida, pelo meu dragão e pelo meu sangue. Vocês são o meu único reino.
Naquela noite, sob a proteção das asas de Vhagar e Araxes, o príncipe e a princesa traidores traçaram seu destino. Eles sabiam que, aos olhos de Westeros, seriam monstros. Mas, para a criança que crescia no ventre de Karen, eles seriam apenas pai e mãe.
Enquanto o sol começava a nascer, pintando o céu de um vermelho que lembrava sangue, os dois dragões levantaram voo novamente. Eles não foram para o sul, nem para o leste. Eles voaram para onde as sombras eram mais profundas, desaparecendo na imensidão do mundo, deixando para trás o trono que estava prestes a destruir todos os que o desejavam.
A Dança dos Dragões havia começado, mas para Karen e Aemond, a verdadeira batalha era apenas uma: manter o fogo da vida aceso em meio às cinzas da guerra. E, enquanto estivessem juntos, nem mesmo o inferno poderia detê-los.