Amor entre reinos
O Voo dos Renegados e o Despertar da Fúria
O vento nas Terras da Tempestade não era apenas frio; ele carregava o gosto de sal e o presságio de morte. Enquanto Karen e Aemond se abrigavam naquela enseada isolada, o silêncio entre eles só era quebrado pelo som da respiração pesada dos dragões e pelo estalar de uma pequena fogueira que Aemond conseguira acender com um sopro contido de Vhagar.
Karen observava as chamas, sentindo o peso da traição em seus ombros. Ela havia abandonado sua mãe no momento de sua maior dor. Lucerys estava morto, e o homem que o matara estava sentado à sua frente, limpando obsessivamente a fuligem de sua armadura.
— Por que você não me contou que ele estava lá? — perguntou Karen, a voz rouca, rompendo o silêncio que parecia durar horas.
Aemond parou o movimento das mãos. O brilho da fogueira refletia na safira em seu olho, dando-lhe uma aparência sobrenatural.
— Eu não sabia que ele seria enviado para Ponta Tempestade — respondeu ele, a voz desprovida de emoção, embora seus dedos tremessem levemente. — Eu fui lá para garantir o apoio de Borros Baratheon. Quando vi aquele garoto... toda a dor de anos, o escárnio, a perda do meu olho... tudo voltou como um incêndio. Eu só queria assustá-lo, Karen. Queria que ele sentisse o que eu senti.
— Mas ele era apenas um menino, Aemond! — Karen levantou-se, a fúria sobrepujando o cansaço. — Ele era meu irmão! Você não assusta um dragão jovem com a maior besta do mundo sem esperar um desastre. Vhagar não é um brinquedo, é uma arma de guerra antiga.
Aemond levantou-se também, diminuindo a distância entre eles num passo rápido. Ele segurou os ombros dela, não com violência, mas com uma urgência desesperada.
— Você acha que eu não sei disso? — sibilou ele. — Eu vi os olhos dele antes de Vhagar fechar as mandíbulas. Eu senti o vínculo se romper. Mas agora não há como voltar atrás. O sangue foi derramado. Se eu voltar para Porto Real, meu avô me usará como o carrasco oficial da família. Se você voltar para Pedra do Dragão, Daemon a trancará em uma cela até que o bebê nasça, e então ele o matará por ser meu sangue.
Karen desviou o olhar, as lágrimas queimando. A verdade era um veneno amargo. Ela levou a mão ao ventre, sentindo o calor que parecia emanar daquela pequena vida.
— Para onde podemos ir? — sussurrou ela. — Não há lugar em Westeros que Otto Hightower ou Daemon Targaryen não alcancem.
— Além do Mar Estreito — disse Aemond, a resolução endurecendo suas feições. — Em Essos, mercenários e príncipes mercadores não se importam com quem senta no Trono de Ferro. Eles respeitam apenas o poder. E nós temos os dois dragões mais formidáveis que o mundo já viu em séculos.
— Araxes é jovem, Aemond. Ele não aguentará uma travessia longa sem descanso.
— Ele aguentará — afirmou Aemond. — Ele tem o sangue de Caraxes. Ele é mais forte do que você imagina.
Enquanto planejavam a fuga, o som de asas cortando o ar fez ambos congelarem. Não era o bater de asas pesado de Vhagar, nem o ritmo ágil de Araxes. Eram dois.
— Eles nos encontraram — murmurou Karen, o coração disparando.
Aemond desembainhou sua espada em um movimento fluido, colocando-se à frente de Karen. Nas sombras da madrugada, duas silhuetas desceram das nuvens. Syrax, com suas escamas douradas brilhando fracamente sob a luz da lua, e Caraxes, a serpente de sangue, cujo pescoço longo e rugido estridente eram inconfundíveis.
Rhaenyra e Daemon haviam chegado.
O pouso de Caraxes foi violento, levantando areia e pedras. Daemon saltou da sela antes mesmo que o dragão parasse de se mover. Ele trazia a Irmã Sombria na mão, e sua expressão era a de um demônio vindo cobrar uma dívida. Rhaenyra desceu logo atrás, o rosto inchado pelo choro, mas os olhos fixos na filha com uma mistura de decepção e agonia.
— Afaste-se dela, seu bastardo caolho! — rugiu Daemon, avançando com a espada em riste.
— Pai, pare! — gritou Karen, correndo para o lado de Aemond, tentando servir de escudo.
Aemond não recuou. Ele ergueu sua própria lâmina, os músculos tensos como cordas de harpa prestes a romper.
— Você não vai levá-la — disse Aemond, a voz fria como gelo. — Ela não pertence mais a você ou à sua causa perdida.
Daemon soltou uma risada gutural, um som que fez até os dragões se inquietarem.
— Causa perdida? Você matou meu enteado. Você sequestrou minha filha. Eu vou abrir seu peito e ver se o sangue que corre aí é realmente de dragão ou apenas a lama dos Hightower.
— Karen... — Rhaenyra deu um passo à frente, ignorando a tensão entre os homens. — Por favor, saia de perto dele. Ele é o assassino do seu irmão. Como você pode estar aqui, com as mãos dele ainda sujas com o sangue de Lucerys?
Karen sentiu o mundo girar. Ela olhou para a mãe, vendo a dor de uma mulher que perdera um filho e agora sentia que estava perdendo outro.
— Mãe, eu não posso — soluçou Karen. — Há coisas que vocês não sabem. Coisas que mudam tudo.
Daemon estreitou os olhos, observando a postura protetora de Karen e a forma como a mão dela repousava, quase inconscientemente, sobre o ventre. O entendimento brilhou nos olhos do Príncipe Renegado, e a fúria que emanava dele pareceu triplicar.
— Não... — murmurou Daemon, a voz subitamente baixa e carregada de veneno. — Não me diga que você se deixou contaminar por esse verme.
— Eu não fui contaminada! — retrucou Karen, recuperando a firmeza. — Eu o amo. E ele me ama. O que aconteceu com Luke foi uma tragédia, um erro terrível, mas eu não vou deixar que vocês matem o pai do meu filho!
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som das ondas. Rhaenyra levou a mão à boca, sufocando um grito. Daemon, por outro lado, pareceu perder toda a humanidade. Ele olhou para Aemond com um ódio tão puro que até Vhagar, a metros de distância, soltou um rosnado baixo de advertência.
— Um herdeiro — disse Daemon, a palavra soando como uma maldição. — Você plantou um herdeiro na minha filha para tentar legitimar sua traição?
— Eu não plantei nada por política, Daemon — respondeu Aemond, dando um passo à frente, protegendo Karen com o próprio corpo. — Eu a amo desde que éramos crianças na Fortaleza Vermelha. Enquanto vocês estavam em Pedra do Dragão tramando sua ascensão, nós estávamos nos céus, criando nosso próprio destino.
— Chega! — gritou Rhaenyra, a voz carregada de autoridade real. — Karen, você voltará comigo agora. O meistre cuidará de você. Quanto a essa criança... decidiremos o que fazer quando a guerra terminar.
— Não haverá "decisão", mãe — disse Karen, as lágrimas agora secas, substituídas por uma determinação valiriana. — Se você tocar nele, ou se o pai tentar matar Aemond, eu juro que montarei Araxes e lutarei contra vocês. Eu prefiro queimar com eles do que viver em um mundo onde vocês decidem quem tem o direito de existir.
Daemon avançou novamente, mas Aemond foi mais rápido, bloqueando o caminho. O metal das espadas se chocou com um som estridente que ecoou pelas falésias.
— Saia da frente, garoto! — rosnou Daemon, a experiência de combate evidente em cada movimento.
— Venha buscar — desafiou Aemond.
A luta começou como uma dança mortal. Daemon era mais ágil, um mestre da Irmã Sombria, mas Aemond era movido por um desespero que o tornava imprevisível. Karen assistia, paralisada, enquanto os dois homens mais importantes de sua vida tentavam se matar.
— Parem! — gritava Rhaenyra, mas seus gritos eram ignorados.
Lá em cima, os dragões sentiam o conflito. Caraxes esticou o pescoço, as chamas começando a brilhar em sua garganta. Vhagar levantou sua cabeça colossal, abrindo as mandíbulas em um rugido que abafou o som do trovão. Araxes, pequeno mas feroz, posicionou-se entre os dois gigantes, tentando proteger sua montadora.
Daemon desferiu um golpe que quase desarmou Aemond, mas o príncipe caolho rolou pela areia e chutou as pernas do tio, derrubando-o. Antes que pudesse cravar sua espada, porém, Daemon usou o punho da Irmã Sombria para atingir o rosto de Aemond, jogando-o para trás.
— Você é um erro da natureza — disse Daemon, levantando-se e limpando o sangue do lábio. — E eu vou corrigir esse erro agora.
Ele ergueu a espada para o golpe final, mas Karen se atirou entre eles, ajoelhando-se sobre Aemond.
— Se você o matar, terá que me matar também! — gritou ela, olhando nos olhos do pai. — E matará seu próprio neto! É esse o legado que você quer, Daemon? O matador de parentes? O homem que extinguiu o próprio sangue por orgulho?
Daemon hesitou. A ponta da Irmã Sombria tremia a centímetros do pescoço de Karen. Ele olhou para a filha, vendo nela a mesma teimosia que ele próprio possuía. Viu a jovem que ele ensinara a voar, a filha que ele secretamente mais admirava por seu espírito indomável.
Atrás dele, Rhaenyra se aproximou, colocando a mão no ombro do marido.
— Daemon... basta. Não aqui. Não assim.
Daemon soltou um suspiro pesado, a fúria recuando para dar lugar a uma amargura profunda. Ele abaixou a espada e olhou para Aemond, que ainda estava no chão, respirando com dificuldade.
— Você tem sorte de ela ter o meu sangue — disse Daemon, a voz carregada de desprezo. — Mas ouça bem, Aemond Targaryen. Se você algum dia causar dor a ela, se essa criança sofrer por causa de suas ambições, não haverá mar ou montanha que o proteja de mim. Eu vou caçar você até os confins do inferno.
Ele se virou para Karen, o olhar suavizando-se por apenas um segundo.
— Você fez sua escolha, Karen. Mas saiba que, ao segui-lo, você está declarando guerra contra sua própria casa. Quando o fogo começar a cair, não espere misericórdia dos Pretos.
— Eu não espero misericórdia de ninguém, pai — respondeu ela, ajudando Aemond a se levantar. — Eu só espero liberdade.
Rhaenyra olhou para a filha uma última vez. Não havia ódio em seus olhos, apenas uma tristeza infinita.
— Adeus, Karen. Que os Deuses a protejam, pois você acaba de se tornar uma estranha para mim.
Os dois montaram seus dragões. Syrax e Caraxes levantaram voo, desaparecendo rapidamente na névoa da manhã, deixando para trás o rastro de uma família despedaçada.
Aemond limpou o sangue do rosto e olhou para Karen. Ele estava ferido, exausto, mas seus olhos brilhavam com uma gratidão que ele nunca expressaria em palavras.
— Você nos salvou — sussurrou ele.
— Eu salvei nossa família, Aemond. Mas agora somos realmente apenas nós. Não temos mais para onde voltar.
— Então vamos para frente — disse ele, segurando a mão dela. — O sol está nascendo. Vamos atravessar o mar antes que Porto Real perceba que eu parti.
Eles montaram seus dragões. Vhagar e Araxes, o gigante e o aprendiz, levantaram voo em direção ao leste. Enquanto as costas de Westeros desapareciam no horizonte, Karen sentiu uma estranha paz. A guerra civil continuaria, o sangue continuaria a ser derramado pelo trono de ferro, mas ela e seu filho estavam livres das correntes do destino.
Ao meio-dia, enquanto sobrevoavam as águas abertas do Mar Estreito, Aemond aproximou Vhagar de Araxes.
— Para onde primeiro? — gritou ele sobre o som do vento.
— Pentos! — respondeu Karen. — Ouvi dizer que as cidades livres são belas nesta época do ano.
Aemond sorriu, um sorriso verdadeiro que poucas pessoas no mundo haviam visto.
— Então Pentos será.
Mas a paz era um sonho frágil. No ventre de Karen, o pequeno dragão se agitava, um lembrete constante de que o sangue de Valíria nunca permaneceria em silêncio por muito tempo. E em Porto Real, a notícia do desaparecimento de Aemond e da fuga de Karen chegaria aos ouvidos de Otto Hightower, que não aceitaria a perda de sua arma mais poderosa tão facilmente.
A Dança dos Dragões havia mudado de ritmo. Onde antes havia apenas dois lados, agora havia um terceiro: um príncipe renegado, uma princesa fugitiva e um herdeiro que carregava em si o potencial para unir ou destruir o que restava do império Targaryen.
Enquanto voavam para o desconhecido, Karen olhou para baixo, para o reflexo dos dragões nas águas azuis. Ela sabia que os desafios estavam apenas começando. Haveria mercenários, traições e a constante sombra de seus pais em seu encalço. Mas, ao olhar para Aemond, ela viu o homem que queimaria o mundo por ela. E isso era o suficiente.
— Fogo e Sangue — sussurrou ela para si mesma.
— E amor — completou a voz de Aemond em sua mente, através daquele vínculo que só os cavaleiros de dragão entendiam.
E assim, sob o céu infinito, os renegados de Westeros iniciaram sua jornada, carregando consigo a esperança de um novo começo em meio às cinzas de um passado que nunca os deixaria esquecer quem realmente eram. O herdeiro das sombras estava a caminho, e o mundo, embora ainda não soubesse, tremia diante de seu despertar.