Amor improvável
O Eco do que Nunca Foi Dito
O silêncio na mansão Payne, após a partida de Clara, não era de paz, mas de uma estática carregada, como o ar antes de um grande desastre natural. Hayden caminhava pelos corredores com uma energia inquieta, uma irritação que ele tentava, sem sucesso, atribuir apenas ao fato de ter sido "abandonado" por alguém que ele considerava inferior. O fato de Clara ter tido a audácia de sair sem sua permissão era um insulto à sua autoridade, um pequeno desvio de rota que ele não previra em seu plano mestre de controle.
— Ela vai voltar rastejando em dois dias — murmurou ele para si mesmo, entrando no quarto principal. — Quando o dinheiro acabar e ela perceber que não é ninguém sem o meu sobrenome, ela baterá naquela porta pedindo perdão.
Ele começou a abrir as gavetas da cômoda de Clara, não por saudade, mas por uma necessidade possessiva de revistar o que ela havia deixado para trás. Ele queria ver se ela havia levado algo de valor, algo que pertencesse à família Payne. Ele jogou peças de roupa de seda para o lado, sentindo o perfume suave de lavanda que ela sempre usava — um cheiro que, por um breve momento, apertou seu estômago de uma forma que ele não soube explicar.
Lá no fundo, escondida sob uma pilha de lenços que ela raramente usava, seus dedos tocaram algo rígido. Uma caixa de veludo azul-marinho, pequena e elegantemente laçada com uma fita de cetim branca.
Hayden franziu o cenho.
— O que é isso? Mais uma joia que ela escondeu? — rosnou, puxando a fita com impaciência.
Ao abrir a tampa, ele não encontrou diamantes ou pérolas. Seus olhos pousaram sobre um objeto de plástico branco e fino, repousando sobre um berço de algodão. Ao lado, havia um par de sapatinhos de lã branca, tão minúsculos que pareciam irreais.
O coração de Hayden deu um solavanco violento contra as costelas. Ele pegou o objeto de plástico. As duas linhas cor-de-rosa eram nítidas, gritantes sob a luz do lustre de cristal.
— Não... — a voz dele falhou, um sussurro rouco que mal saiu da garganta.
Ele vasculhou a caixa e encontrou um pequeno cartão dobrado. Ao abri-lo, a caligrafia redonda e cuidadosa de Clara saltou aos olhos: "Para o papai. Nosso milagre está a caminho. Mal posso esperar para ver seu rosto quando souber que seremos três."
No verso do cartão, um pequeno comprovante da farmácia estava colado com fita adesiva. Hayden aproximou o papel dos olhos, sentindo a visão turvar. A data. A data da compra era de três meses atrás.
Três meses.
Ele caiu sentado na beirada da cama, o teste de gravidez ainda firme em sua mão. Flashbacks dos últimos noventa dias começaram a açoitar sua mente como chicotadas. Ele se lembrou de Clara tentando falar com ele durante o jantar, e de como ele a cortara rudemente para atender uma ligação sobre o paradeiro de Rachel. Lembrou-se dela pedindo cinco minutos no escritório para falar sobre sua "saúde", e de como ele a chamara de hipocondríaca e dissera que não tinha tempo para "bobagens".
Ela sabia. Ela sabia há meses. E durante todo esse tempo, enquanto ele a humilhava, enquanto ele suspirava por Rachel, enquanto ele manipulava o sequestro de Matthew e tratava Clara como um móvel indesejado, ela carregava um filho dele.
— Três meses... — ele repetiu, a voz subindo de tom, beirando a histeria. — Ela estava grávida esse tempo todo.
A porta do quarto se abriu. Gertrude entrou, sua expressão de indiferença calculada vacilando apenas por um segundo ao ver o objeto na mão do filho.
— Hayden? O que aconteceu?
Ele levantou o teste, o braço tremendo de pura fúria e choque.
— Você sabia disso? — ele rugiu, levantando-se e caminhando até a mãe. — Você sabia que ela estava grávida?
Gertrude manteve o rosto impassível, embora seus olhos brilhassem com uma ponta de cautela.
— Eu soube ontem, Hayden. Ela me contou no jardim.
— E por que você não me disse nada?! — Ele golpeou o ar com o teste. — Minha esposa foge, grávida de um filho meu, e você me deixa acreditar que ela era apenas uma mulher ingrata indo embora por capricho?
— E o que você teria feito, Hayden? — perguntou Gertrude, sua voz fria e cortante como gelo. — Você teria parado de perseguir a Rachel? Teria parado de esconder o Matthew? Ou teria apenas usado essa criança como mais uma ferramenta de manipulação? Clara estava infeliz. Ela estava definhando nesta casa sob o seu desprezo.
— Ela é minha esposa! Aquele bebê é meu herdeiro! — Hayden gritou, a veia em seu pescoço saltando. — Ninguém tira o que é meu, Gertrude. Ninguém!
— Você a expulsou com sua indiferença, Hayden — disse a mãe, aproximando-se e colocando a mão no peito dele, tentando conter a explosão. — Agora ela se foi. E, honestamente, talvez seja melhor assim. Você não tem espaço no seu coração para um filho agora. Você está ocupado demais tentando recuperar uma mulher que nunca te amou.
Hayden empurrou a mão da mãe, o rosto transformado em uma máscara de possessividade doentia.
— Você não entende. Eu não me importo com o que ela sente. Eu quero o que é meu. Se ela está carregando um Payne, ela pertence a esta casa.
Ele saiu do quarto aos tropeços, gritando pelos seguranças.
— Marcus! Jonathan! Todos vocês, no escritório agora!
Em poucos minutos, os homens estavam perfilados diante da mesa de Hayden. Ele jogou o teste de gravidez sobre a madeira escura, como se fosse uma prova de um crime.
— Clara Payne. Eu quero que vocês a encontrem. Não me importa quanto custe, não me importa quem vocês tenham que subornar. Rastreiem os cartões dela... não, ela não usaria os cartões. Rastreiem as câmeras das estações, dos aeroportos.
— Senhor — interrompeu Marcus, o chefe da segurança —, a Dona Gertrude disse que ela saiu por conta própria e que não era para iniciarmos uma busca ativa para não chamar a atenção da polícia, dado o caso do Matthew...
— Eu não quero saber o que a minha mãe disse! — Hayden esmurrou a mesa, fazendo os objetos saltarem. — Ela está grávida! Ela tem três meses de gestação, ou mais. Ela é lenta, ela é frágil. Ela não pode ter ido longe.
— Vamos começar pelas imagens das redondezas, senhor — respondeu Marcus, fazendo um sinal para os outros saírem.
Sozinho no escritório, Hayden sentiu o silêncio da casa se fechar sobre ele. Pela primeira vez em anos, a imagem de Rachel não era a primeira em sua mente. Ele olhou para os sapatinhos brancos que trouxera do quarto. Eram tão pequenos. Um filho. Um sucessor. Ou talvez uma menina, como Clara sempre pareceu desejar em seus olhares para as vitrines de roupas infantis que ele fingia não ver.
A percepção de que ele fora enganado pela mulher que ele considerava a mais previsível de todas era o que mais o queimava. Clara, a "gordinha" silenciosa, a esposa "conveniente", tivera a coragem de esconder dele a notícia mais importante de suas vidas e fugir com o seu legado nos braços.
— Você acha que venceu, Clara? — sussurrou ele para as sombras do escritório. — Você acha que pode se esconder de mim?
Ele pegou o celular e discou um número que raramente usava. Era um contato do submundo, alguém que não fazia perguntas e não deixava rastros.
— Preciso de um localizador. Não para um homem, mas para uma mulher. Clara Payne. Ela está grávida. Quero que monitorem todas as clínicas pré-natais clandestinas, todos os abrigos, todas as pequenas cidades num raio de quinhentos quilômetros.
Ao desligar, Hayden sentiu uma estranha mistura de ódio e uma adrenalina que ele nunca sentira antes. Rachel era sua obsessão, seu troféu inalcançável. Mas Clara... Clara agora era um desafio. Ela tinha algo que pertencia a ele, e Hayden Payne nunca perdia uma posse.
Enquanto isso, no andar de baixo, Gertrude observava o filho através da porta entreaberta. Ela viu a loucura brilhando nos olhos dele e soube que seu plano de "limpar o tabuleiro" havia acabado de se tornar muito mais perigoso. Ela esperava que Clara fosse esperta o suficiente para desaparecer completamente, porque se Hayden a encontrasse agora, não seria por amor. Seria para reclamar o que ele considerava sua propriedade, e o destino de Clara seria muito pior do que a solidão em que ela vivia.
O telefone de Hayden tocou. Era uma atualização sobre Matthew.
— Sim? — atendeu ele, a voz ríspida.
— Senhor, David foi visto perto do cais. Ele parece estar procurando por informações sobre o paradeiro do menino.
Hayden hesitou. Por um segundo, o mundo de Rachel e o mundo de Clara colidiram em sua mente.
— Mantenham David ocupado. Não o deixem chegar perto do Matthew. Mas minha prioridade mudou. Quero metade da equipe focada na busca por Clara.
— Mas senhor, e a Rachel? Ela está em pânico com a fuga do David...
— Rachel sabe se cuidar — disse Hayden, surpreendendo a si mesmo. — Clara está com o meu filho. Encontrem-na.
Ele desligou e olhou para o teste de gravidez mais uma vez. O "ruído de fundo" acabara de se tornar a sinfonia principal de sua vida, e Hayden Payne estava disposto a queimar o mundo para reger cada nota novamente.
Longe dali, em um ônibus que cortava a escuridão da estrada, Clara Payne sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela apertou a bolsa contra o corpo, sentindo o volume do dinheiro que Gertrude lhe dera. Ela não sabia que Hayden havia encontrado a caixa. Ela não sabia que a guerra apenas começara.
— Vamos ficar bem — sussurrou ela para a escuridão da janela, vendo as luzes da cidade ficarem para trás.
Mas, pela primeira vez em meses, a bebê não chutou. O silêncio no ventre de Clara era como o silêncio na mansão Payne: uma calmaria enganosa antes da tempestade que estava prestes a varrer tudo o que eles conheciam.
Hayden, no escritório, abriu uma garrafa de uísque e serviu-se de uma dose generosa. Ele olhou para a caixa de presente azul.
— Você esqueceu o presente, Clara — disse ele, um sorriso distorcido surgindo em seus lábios. — Mas não se preocupe. Eu vou buscá-lo pessoalmente.
A caçada havia começado, e na mente de Hayden, não havia lugar para Matthew, David ou até mesmo Rachel. Havia apenas o rastro de uma mulher que ousou ser mais do que uma sombra e a promessa de uma vida que ele já reivindicava como sua, antes mesmo de ela respirar pela primeira vez.