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Amor improvável

O Sangue na Neve e o Despertar do Predador

A pequena cabana nos arredores de uma vila costeira no Maine era o oposto da mansão Payne. O assoalho rangia, o vento uivava pelas frestas das janelas de madeira e o cheiro constante era de mar e pinheiro, não de cera de móveis cara e perfumes franceses. Clara Payne, agora vivendo sob o nome de Elena, sentou-se na poltrona velha, tentando encontrar uma posição que não fizesse suas costas latejarem.

Aos seis meses e meio de gravidez, sua barriga estava proeminente, uma esfera perfeita que abrigava seu único motivo para continuar respirando. Ela olhou para a pequena lareira, onde o fogo lutava para permanecer aceso. A solidão era sua companheira constante, mas era uma solidão pacífica, longe dos olhos críticos de Gertrude e do desdém gélido de Hayden.

— Está tudo bem, minha pequena — sussurrou Clara, sentindo um movimento súbito e desconfortável no baixo ventre. — Logo a mamãe vai preparar um chá e nós vamos descansar.

Ao tentar se levantar, no entanto, uma dor aguda, como uma facada elétrica, atravessou seu corpo. Clara arqueou as costas, soltando um gemido abafado. Ela se segurou na mesa de madeira rústica, esperando que fosse apenas uma contração de treinamento, algo comum naquela fase. Mas a dor não passou; ela se intensificou, tornando-se uma pressão insuportável que parecia puxar suas entranhas para baixo.

Ela olhou para baixo e o seu coração parou.

Uma mancha vermelha, viva e aterrorizante, começou a se espalhar pelo tecido cinza de sua calça de moletom, gotejando no chão de madeira clara. Sangue.

— Não... não agora. Por favor, Deus, agora não — ela soluçou, o pânico subindo pela garganta como bile.

Ela sabia que estava em perigo. A vila mais próxima ficava a quilômetros de distância, a neve lá fora começava a cair com força e ela não tinha ninguém. O hospital local era pequeno demais para uma emergência de parto prematuro. Ela precisava de recursos, precisava de especialistas, precisava de algo que apenas o dinheiro e o poder que ela tanto odiava poderiam comprar.

Com as mãos trêmulas e a visão começando a embaçar pela perda de sangue e pelo terror, ela alcançou o telefone pré-pago que mantinha escondido para emergências extremas. Ela tinha apenas um número gravado na memória, o número privado de Gertrude Payne. Gertrude a ajudara a fugir, Gertrude queria o bebê longe da loucura de Hayden para "limpar o tabuleiro". Ela era a única que poderia enviar um helicóptero médico sem fazer perguntas à polícia.

Na mansão Payne, o ambiente era de um velório prolongado. Hayden estava no escritório, cercado por garrafas vazias e mapas que não levavam a lugar nenhum. A barba estava por fazer e a obsessão por Rachel havia sido substituída por uma fúria silenciosa e autodestrutiva direcionada a Clara.

O telefone fixo da linha privada de Gertrude, que ficava no corredor entre o escritório e a biblioteca, começou a tocar. Hayden, que estava saindo para buscar mais uísque, parou. Gertrude estava no andar de cima, em uma conferência de vídeo com os advogados da família.

O toque era insistente. Estranho. Aquela linha era usada apenas para assuntos de extrema confidencialidade. Um instinto sombrio e puramente possessivo fez Hayden esticar a mão e atender.

— Alô? — a voz dele saiu como um trovão baixo, carregada de hostilidade.

Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio quebrado apenas por uma respiração curta, superficial e sofrida.

— Gertrude... — a voz do outro lado era um sussurro trêmulo, quase inaudível, mas Hayden a reconheceria em meio a um furacão. — Gertrude, por favor... está sangrando. Tem muito sangue... eu não consigo parar. A bebê... ajude a minha bebê...

O mundo de Hayden Payne parou. O copo que ele segurava escorregou de sua mão, estraçalhando-se no chão, mas ele nem sequer piscou.

— Clara? — ele perguntou, e sua voz não era mais de fúria, mas de um terror puro e primitivo. — Clara, é você?

Houve um arquejo do outro lado da linha. O som de um soluço quebrado.

— Hayden? — o nome dele saiu como um lamento, uma mistura de medo e agonia. — Não... eu queria a Gertrude... por favor, Hayden... a bebê... eu estou morrendo...

— Escute a minha voz! — Hayden gritou, o comando voltando ao seu tom, mas agora misturado com um desespero que ele nunca sentira. — Clara, onde você está? Onde você está, droga! Me diga agora!

— Maine... — ela sussurrou, a voz ficando cada vez mais fraca. — Perto de... Blackwood Cove... a cabana azul... Hayden, dói tanto... salve ela... por favor...

O som do telefone caindo no chão do outro lado da linha foi o barulho mais aterrorizante que Hayden já ouvira.

— Clara! Clara, não desligue! Fale comigo! — ele berrava para o aparelho, mas só havia o som do vento uivando através do fone.

Ele jogou o telefone no gancho e saiu correndo pelo corredor como um animal enjaulado que finalmente encontrara a saída. Ele subiu as escadas aos saltos, invadindo o quarto de Gertrude sem bater.

— Onde ela está?! — ele rugiu, avançando para a mãe, que se levantou assustada da escrivaninha.

— Hayden, do que você está falando? Ficou louco?

— Blackwood Cove, Maine! — ele a segurou pelos ombros, sacudindo-a com uma força que a fez empalidecer. — Você a mandou para lá! Ela ligou agora, Gertrude! Ela está sangrando! Se a minha filha morrer, se a Clara morrer, eu juro por Deus que eu acabo com você!

Gertrude viu o brilho nos olhos do filho e percebeu que a máscara de controle dele havia sido pulverizada. Não havia mais manipulação, não havia mais Rachel, não havia mais o "filho" Matthew. Havia apenas um homem vendo seu mundo inteiro desmoronar.

— O helicóptero está no hangar do norte — disse Gertrude, a voz tremendo pela primeira vez. — Eu vou ligar para a equipe médica de emergência. Vá, Hayden!

Ele não esperou. Ele desceu as escadas, pegou as chaves do carro e saiu em disparada para o heliporto privado da família. Durante o voo de pouco mais de uma hora, Hayden sentiu cada minuto como se fosse uma eternidade no inferno. Ele olhava para as nuvens escuras e para a neve que cobria a paisagem abaixo, sentindo uma culpa que o sufocava.

Ele se lembrou de cada palavra cruel, de cada vez que a chamara de insignificante, de cada momento em que a deixara chorando sozinha enquanto ele perseguia Rachel. O teste de gravidez, os sapatinhos brancos, o "ruído de fundo". Tudo voltava para torturá-lo.

— Aguenta firme, Clara — ele sussurrava, as mãos apertadas em punhos tão fortes que as juntas estavam brancas. — Não se atreva a morrer. Eu não te dei permissão para morrer.

Quando o helicóptero finalmente pousou em uma clareira perto da cabana, Hayden foi o primeiro a pular, mesmo antes de as hélices pararem. Ele correu pela neve profunda, tropeçando, o frio cortando seu rosto, até chegar à porta da cabana azul.

Ele a arrombou com um ombro só.

O cenário lá dentro era um pesadelo. A cabana estava gelada, o fogo na lareira reduzido a cinzas. E no chão, perto da mesa, Clara estava caída de lado, pálida como o mármore, cercada por uma poça de sangue que parecia vasta demais para um corpo tão frágil.

— Clara! — Hayden caiu de joelhos ao lado dela, puxando-a para o seu colo.

A pele dela estava gélida. Ele afastou o cabelo molhado de suor de sua testa, o coração dele batendo tão forte que ele achou que fosse explodir.

— Clara, meu amor, olhe para mim. Por favor, abra os olhos.

Ela moveu as pálpebras devagar, os olhos desfocados encontrando os dele. Um pequeno sorriso triste e delirante surgiu em seus lábios.

— Hayden... você veio... — ela sussurrou, a voz quase um suspiro. — A bebê... ela parou de mexer...

— Não, não, ela está bem. Nós vamos salvar as duas — ele disse, a voz embargada, enquanto os paramédicos da família entravam na cabana com macas e equipamentos. — Eu estou aqui agora. Eu nunca mais vou deixar você.

— Você... você me odeia... — ela murmurou, fechando os olhos novamente enquanto os médicos começavam a trabalhar freneticamente ao redor deles.

— Eu sou um idiota, Clara! — Hayden gritou, lágrimas genuínas escorrendo pelo seu rosto, caindo sobre a face dela. — Eu não te odeio. Eu nunca te odiei. Eu só não sabia como merecer você. Por favor, lute. Lute por mim. Lute pela nossa filha.

Ele a acompanhou no helicóptero, segurando a mão dela com uma força desesperada, observando os médicos aplicarem oxigênio e fluidos intravenosos. O voo de volta para o hospital privado em Nova York foi um borrão de bipes de monitores e ordens médicas gritadas.

Horas depois, Hayden estava sentado na sala de espera da ala cirúrgica. Suas roupas estavam manchadas com o sangue de Clara. Gertrude estava sentada a alguns metros de distância, em silêncio, observando o filho que ela mal reconhecia. O homem arrogante e calculista fora substituído por um destroço humano que não parava de tremer.

O cirurgião saiu, retirando a máscara. Hayden se levantou de um salto, o fôlego preso.

— Como elas estão?

O médico suspirou, limpando o suor da testa.

— Foi por pouco, Sr. Payne. Muito pouco. Ela teve um descolamento prematuro de placenta. Tivemos que fazer uma cesariana de emergência.

— E a bebê? — Hayden perguntou, o medo o paralisando.

— É uma menina. Pequena, muito pequena, mas é uma lutadora. Ela está na UTI neonatal, em uma incubadora. As próximas quarenta e oito horas serão críticas, mas os pulmões dela estão respondendo bem.

— E a Clara?

— Ela perdeu muito sangue e o útero sofreu um trauma severo. Ela está em coma induzido para que o corpo possa se recuperar. Mas ela sobreviveu, Hayden. Ela é uma mulher muito forte.

Hayden desabou na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, soltando um soluço de alívio que parecia arrancar sua alma.

Dias se passaram. Hayden não saiu do hospital. Ele dormia em uma poltrona desconfortável ao lado da cama de Clara, saindo apenas para observar a filha através do vidro da UTI. A pequena menina, cheia de tubos e fios, tinha os traços de Clara — o mesmo nariz delicado, a mesma promessa de doçura. Ele a chamou de Hope, o único nome que parecia fazer sentido agora.

Na terceira noite, Clara finalmente abriu os olhos. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes dos monitores. Ela sentiu uma pressão em sua mão direita. Olhou para o lado e viu Hayden. Ele estava dormindo, a cabeça apoiada no colchão, segurando a mão dela como se sua própria vida dependesse disso.

Ela tentou puxar a mão, mas o movimento o acordou instantaneamente.

— Clara? — ele se levantou, os olhos brilhando de esperança. — Você acordou. Graças a Deus.

Ela olhou para ele com uma confusão dolorosa. A lembrança da dor, do sangue e do terror na cabana voltou em uma onda.

— A bebê... — ela tentou falar, mas a voz saiu seca.

— Ela está viva, Clara — ele disse rapidamente, inclinando-se sobre ela, mas mantendo uma distância respeitosa. — Ela é linda. Ela é igualzinha a você. Está na UTI, mas os médicos dizem que ela vai ficar bem. Ela é uma Payne. Ela é forte.

Clara fechou os olhos, uma lágrima solitária escorrendo.

— Por que você está aqui, Hayden? Vá atrás da Rachel. Vá resolver seus problemas com o David. Me deixe em paz.

Hayden sentiu a pontada de dor, mas ele sabia que merecia cada grama daquele desprezo.

— Rachel não existe mais para mim, Clara. David, Matthew... nada disso importa se eu não tiver você e a nossa filha. Eu passei três anos sendo um monstro para a única pessoa que me deu um amor puro. Eu não espero que você me perdoe agora. Eu não mereço o seu perdão. Mas eu não vou a lugar nenhum.

— Você só quer a bebê — ela acusou, a voz fraca mas cheia de mágoa. — Você quer um herdeiro.

— Eu quero a mulher que me salvou de mim mesmo e que eu fui estúpido demais para valorizar — ele disse, a voz falhando. — Eu vi você morrendo nos meus braços, Clara. Naquele momento, eu percebi que se você partisse, não sobraria nada de mim. Eu não sou nada sem o seu "ruído de fundo".

Clara olhou para ele, vendo a devastação em seu rosto, a sinceridade crua que ele nunca permitira que ninguém visse.

— Eu não posso voltar para aquela casa, Hayden. Eu não posso voltar a ser a esposa gordinha que você tem vergonha de mostrar aos amigos.

Hayden pegou a mão dela e a beijou com uma reverência que parecia um pacto sagrado.

— Você nunca mais vai se esconder. Nós não vamos voltar para aquela casa se você não quiser. Eu compro uma casa nova, em outro país, em outro continente. Eu mudo o meu nome, eu mudo a minha vida. Mas não me peça para viver sem você. Eu vi o abismo, Clara. E o abismo tem o seu nome escrito nele.

O silêncio no quarto de hospital era denso, carregado de três anos de mágoas e de uma pequena semente de algo novo. Clara não disse que o amava. Ela não disse que voltaria. Mas ela não puxou a mão.

— Eu quero ver a minha filha — ela pediu baixinho.

— Assim que os médicos permitirem, eu mesmo te levo até lá — ele prometeu. — E Clara... obrigado por não desistir dela. E por não desistir de mim, mesmo quando eu te dei todos os motivos do mundo para fazer isso.

Hayden ficou ali, sentado na penumbra, observando a respiração de Clara. Ele sabia que o caminho para a redenção seria longo e tortuoso. David ainda estava à solta, Rachel ainda tentaria manipulá-lo e Gertrude ainda tinha seus próprios planos. Mas enquanto ele olhava para Clara, ele percebeu que a caçada havia terminado. Ele não estava mais procurando por algo lá fora. Ele finalmente tinha encontrado o que procurava, no lugar mais improvável: no coração da mulher que ele quase destruiu, mas que agora era a sua única chance de salvação.

O sangue na neve havia sido o fim de Clara Payne, a esposa submissa. Mas, no calor daquele quarto de hospital, sob o olhar atento de um homem que finalmente aprendera a temer a perda, algo muito mais forte estava começando a pulsar. A guerra dos Payne estava longe de acabar, mas, pela primeira vez, Hayden estava lutando do lado certo. E ele não pararia até que o "ruído de fundo" se tornasse a única canção que o mundo pudesse ouvir.