Amor louco
O Som do Caos e o Silêncio das Sapatilhas
A rotina de Karen era uma coreografia de contrastes. Pela manhã, o rigor do balé clássico exigia que cada fibra de seu corpo estivesse sob controle absoluto; à noite, o caos de Jared exigia que ela estivesse pronta para o imprevisível. Desde a descoberta da gravidez, o equilíbrio entre esses dois mundos tornara-se uma corda bamba perigosa. Jared, em sua persona pública de herdeiro esnobe, havia se tornado ainda mais possessivo, cercando-a de seguranças disfarçados de motoristas e assistentes. Mas Karen sabia que, sob os ternos de três peças, o Coringa estava em alerta máximo.
Naquela tarde de terça-feira, o ensaio no Lincoln Center havia sido exaustivo. O coreógrafo, um homem austero que não aceitava nada menos que a perfeição, havia repetido a sequência de *grand jetés* até que as pernas de Karen queimassem. Ela se sentia pesada, não pelo bebê, que ainda era apenas uma promessa silenciosa em seu ventre, mas pela responsabilidade de carregar o segredo mais perigoso de Nova York.
— Você está distraída, Karen — criticou o mestre, batendo a bengala no chão de madeira. — Uma bailarina do seu calibre não tropeça no próprio eixo. O que está acontecendo?
— Sinto muito, Monsieur — respondeu ela, limpando o suor da testa com as costas da mão. — É apenas o cansaço. A temporada de inverno está sendo rigorosa.
— Pois que seja a última vez. Vá para casa. Descanse. Se não estiver cem por cento amanhã, darei seu solo para a reserva.
Karen assentiu, sentindo uma pontada de irritação que certamente herdara do temperamento volátil de Jared. Ela trocou as sapatilhas de ponta pelos sapatos de rua, enrolou um cachecol de lã no pescoço para se proteger do vento cortante de Manhattan e saiu pela porta dos fundos do teatro. O motorista de Jared, um homem chamado Frost que falava pouco e olhava muito, deveria estar esperando por ela no estacionamento privativo.
Mas Frost não estava lá. Em seu lugar, uma van escura com vidros fumê estava estacionada de forma irregular, bloqueando a saída.
Karen parou, o instinto de sobrevivência que desenvolvera ao lado do Rei de Gotham disparando como um alarme. Ela levou a mão à bolsa, onde guardava um pequeno canivete de prata — um presente de Jared para "emergências sociais" — mas, antes que pudesse alcançá-lo, dois homens saltaram da van.
— Karen Mitchell? — perguntou um deles, com o rosto coberto por uma máscara de esqui.
— Quem quer saber? — Karen tentou manter a voz firme, adotando a postura altiva que seu pai lhe ensinara. — Se vocês querem dinheiro, meu pai pode...
— Não queremos o dinheiro do seu pai, bonequinha — interrompeu o segundo homem, avançando com uma agilidade que indicava treinamento militar. — Queremos a influência dele. E você é a moeda de troca perfeita.
— Vocês não têm ideia do erro que estão cometendo — sibilou Karen, recuando um passo. — Há pessoas que cuidam de mim. Pessoas que vocês não gostariam de conhecer.
Os homens riram, um som seco e sem alma.
— O playboyzinho do seu namorado? Jared Letto? — O primeiro homem debochou. — Aquele riquinho não sabe nem limpar a própria bunda sem um empregado. Agora, chega de conversa.
O ataque foi rápido. Karen tentou usar sua agilidade de bailarina para esquivar, mas o espaço era apertado. Um deles a agarrou pelo braço, e o outro pressionou um lenço embebido em clorofórmio contra o seu rosto. Ela lutou, chutando com a força de pernas treinadas para saltos impossíveis, mas o mundo começou a girar. A última imagem que teve foi a do asfalto cinzento subindo para encontrá-la, enquanto o cheiro químico roubava sua consciência.
***
Enquanto isso, no topo de um arranha-céu que servia como sede das Indústrias Letto, Jared estava em uma reunião de diretoria. Ele usava um terno cinza-chumbo e brincava com uma caneta-tinteiro de ouro, girando-a entre os dedos com uma destreza hipnótica. Para os executivos à mesa, ele parecia entediado, o típico herdeiro que preferia estar em um iate do que discutindo margens de lucro.
Por dentro, o Coringa estava rosnando.
Ele sentia uma inquietação que não conseguia explicar. Desde que soubera da gravidez, seus sentidos pareciam ter se aguçado ao ponto da dor. Cada ruído era mais alto, cada cheiro mais forte. Ele estava protegendo algo. Ele tinha um ponto fraco, e isso o tornava o predador mais perigoso da cidade.
O celular de Jared, um aparelho criptografado que nunca saía de seu bolso, vibrou. Ele o atendeu sem pedir licença aos diretores.
— Sim? — Sua voz era um sussurro gélido.
— Senhor... — Era Frost, e o tom de pânico na voz do capanga fez o sangue de Jared gelar. — Eu fui emboscado. Três homens. Eles me apagaram por dez minutos. Quando acordei... ela tinha ido. Karen sumiu.
O silêncio que se seguiu na sala de reuniões foi absoluto. Jared não gritou. Ele não quebrou nada. Ele simplesmente se levantou, os olhos azuis tornando-se duas fendas de gelo. A caneta de ouro em sua mão foi dobrada ao meio com uma força sobre-humana e jogada sobre a mesa de carvalho.
— A reunião acabou — disse ele, com uma calma que era infinitamente mais aterrorizante do que um surto de raiva.
Ele saiu da sala sem olhar para trás, deixando os executivos em um estado de choque mudo. Assim que entrou no elevador privativo, Jared arrancou a gravata e desabotoou os primeiros botões da camisa. Ele pegou o rádio de frequência fechada.
— Jonny V. — chamou ele.
— Sim, mestre?
— Quero todos os olhos em Gotham virados para as ruas. Karen foi levada. Quero o nome, o endereço e o tipo sanguíneo de cada verme que estava naquele estacionamento. E Jonny...
— Sim?
— Prepare a "cozinha". Vou querer brincar com eles pessoalmente.
***
Karen acordou com uma dor de cabeça lancinante. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas com cordas de náilon que cortavam seus pulsos finos. Ela estava sentada em uma cadeira de metal, em um galpão abandonado que cheirava a óleo de motor e maresia.
À sua frente, três homens discutiam em volta de uma mesa improvisada. Eles não pareciam criminosos comuns de Gotham; não usavam as cores de nenhuma gangue conhecida. Eram profissionais, provavelmente mercenários contratados por algum rival de seu pai no mercado automobilístico.
— Ela acordou — disse um deles, aproximando-se. Ele tirou a máscara, revelando um rosto comum, marcado por uma cicatriz na sobrancelha. — Olhe para mim, princesa. Seu pai vai receber um vídeo em breve. Se ele cooperar com a fusão das empresas, você volta para casa inteira. Se não... bem, você é bonita. Podemos encontrar outros usos para você.
Karen cuspiu no chão, bem aos pés do homem.
— Você é um homem morto — disse ela, a voz rouca, mas carregada de uma convicção que o fez hesitar por um segundo.
— É mesmo? E quem vai me matar? O seu pai de meia-idade ou o seu namorado modelo de revista?
Karen sorriu. Foi um sorriso pequeno, sombrio, que de alguma forma não combinava com o rosto delicado de uma bailarina.
— Vocês acham que conhecem o Jared — começou ela, sentindo o bebê chutar levemente em seu ventre, como se compartilhasse de sua fúria. — Vocês veem os ternos, os carros e o dinheiro. Mas o Jared que eu conheço... ele não é um homem. Ele é uma força da natureza. E vocês acabaram de cutucar a jaula dele com uma vara curta.
— Cala a boca! — O homem deu um passo à frente, levantando a mão para atingi-la.
Antes que o golpe pudesse cair, um som ecoou pelo galpão. Não foi um tiro, nem uma explosão. Foi uma risada.
Era uma risada que começava baixa, como o borbulhar de um ácido, e subia até se tornar um som maníaco, agudo, que parecia vir de todos os cantos ao mesmo tempo. Os sequestradores congelaram, pegando suas armas e olhando para as vigas do teto.
— Quem está aí? — gritou o líder.
As luzes do galpão começaram a piscar. Uma a uma, as lâmpadas de sódio explodiram em uma chuva de faíscas, mergulhando o local em uma penumbra avermelhada. Do fundo do galpão, uma figura emergiu das sombras.
Não era o Jared Letto das revistas de fofoca.
Ele estava sem camisa, revelando as tatuagens que contavam a história de sua loucura. O rosto estava pintado de branco, os lábios de um vermelho sangrento desenhando um sorriso eterno, e os olhos cercados por sombras negras. O cabelo verde brilhava sob as luzes de emergência. Ele segurava uma bengala de prata em uma mão e uma faca de combate na outra.
— J-Jared? — gaguejou um dos mercenários, a voz falhando.
— Jared não está em casa no momento — disse o Coringa, inclinando a cabeça de forma rítmica. — Mas o dono da festa chegou. E eu ouvi dizer que vocês esqueceram de me mandar o convite. Que falta de educação...
— Atirem nele! — ordenou o líder.
O galpão se transformou em um inferno de pólvora. Mas o Coringa não se movia como um homem comum. Ele era um borrão de movimento, uma dança de morte que faria qualquer coreógrafo de Karen sentir inveja. Ele usava o ambiente a seu favor, desaparecendo entre as pilhas de caixotes e surgindo atrás dos homens com uma velocidade aterradora.
Karen assistia a tudo, o coração batendo forte. Ela não sentia medo dele. Ela sentia uma conexão visceral. Aquele era o pai do seu filho. Aquele era o homem que o mundo temia, mas que a abraçava com uma ternura desesperada nas madrugadas de insônia.
O primeiro mercenário caiu com a garganta cortada antes mesmo de conseguir disparar o segundo tiro. O segundo tentou correr para a saída, mas o Coringa arremessou a faca com precisão cirúrgica, atingindo o tendão de Aquiles do homem. O grito de dor foi abafado pela risada do palhaço.
— Shhh... — o Coringa se aproximou do homem caído, colocando o dedo sobre os lábios pintados. — Não estrague a música. Minha rainha está assistindo.
Ele se virou para o líder, que agora estava sozinho, segurando uma pistola com as mãos trêmulas. O homem apontou a arma para a cabeça de Karen.
— Pare! — gritou o sequestrador. — Dê um passo e eu estouro os miolos dela!
O Coringa parou. Ele ficou imóvel, os ombros relaxados, observando a cena como se fosse uma peça de teatro particularmente interessante.
— Sabe... — disse ele, a voz voltando a um tom baixo e perigoso. — Eu estava tendo um dia difícil. Reuniões, papéis, pessoas de terno me dizendo o que fazer com o meu dinheiro. Eu estava realmente precisando de um alívio. E então, você leva a única coisa no mundo que eu considero minha.
Ele deu um passo à frente, ignorando a arma apontada para Karen.
— Eu disse para parar! — o homem gritou, o suor escorrendo pelo rosto.
— Você não vai atirar — disse o Coringa, com uma confiança absoluta. — Porque você sabe que, se o dedo dela sofrer um arranhão, eu vou garantir que você fique vivo por semanas. Eu vou te desmontar peça por peça, como um dos carros esportivos do pai dela. E eu sou um mecânico muito, muito paciente.
O homem olhou para os olhos do Coringa e viu o abismo. Ele viu que não havia lógica, não havia misericórdia, não havia nada além de uma vontade indomável. A vontade de um homem que não tinha nada a perder, exceto a mulher à sua frente.
A arma tremeu. Foi o suficiente.
O Coringa saltou. Em um movimento fluido, ele desarmou o líder e o derrubou no chão. O som de ossos quebrando ecoou pelo galpão enquanto o palhaço trabalhava com uma eficiência cruel. Ele não o matou imediatamente. Ele queria que o homem sentisse cada grama do erro que cometera.
Depois de alguns minutos, o Coringa se levantou, limpando o sangue das mãos na calça de couro. Ele caminhou até Karen, que o observava com uma calma sobrenatural.
Com um movimento rápido da faca, ele cortou as cordas que prendiam os pulsos dela. Assim que ficou livre, Karen não recuou. Ela se levantou e envolveu o pescoço dele em um abraço apertado.
— Você demorou — sussurrou ela no ouvido dele.
O Coringa relaxou nos braços dela, o corpo tenso cedendo ao toque. Ele enterrou o rosto nos cachos dela, inspirando o cheiro de lavanda que ainda permanecia, apesar do caos.
— O trânsito de Gotham é um horror, querida — respondeu ele, a voz voltando a ter aquele tom de deboche elegante de Jared, mas com o peso sombrio do palhaço.
Ele a afastou um pouco, segurando seu rosto com as mãos manchadas de vermelho. Seus olhos percorreram o corpo dela, parando no ventre.
— Ele está bem? — perguntou ele, e pela primeira vez, Karen ouviu uma nota de vulnerabilidade real em sua voz.
— Ele está bem, Jared. Nós estamos bem.
Ele sorriu, e desta vez, não era para o público ou para os inimigos. Era para ela.
— Ótimo. Porque eu já mandei o Frost preparar o jantar. E eu queimei o escritório daquele rival do seu pai no caminho para cá. Achei que seria um bom presente de desculpas pelo atraso.
Karen riu, uma risada clara que cortou a tensão do galpão cheio de corpos.
— Você é impossível.
— Eu sou o Rei, Karen. E ninguém toca na minha Rainha. Nem no meu herdeiro.
Ele a pegou no colo, carregando-a para fora do galpão enquanto as sirenes da polícia começavam a soar ao longe. Mas os policiais não entrariam ali tão cedo. Eles sabiam que, quando o Coringa estava "trabalhando", era melhor deixá-lo terminar.
Enquanto entravam no carro blindado que os esperava, Jared voltou a ser, externamente, o playboy esnobe. Ele limpou o rosto com um lenço úmido, mas o brilho nos olhos permanecia.
— Amanhã você tem ensaio? — perguntou ele, servindo uma taça de água para ela.
— Monsieur disse que se eu não estiver cem por cento, perco o solo.
Jared soltou uma risada curta.
— Diga ao Monsieur que, se ele tirar o seu solo, eu vou comprar o teatro e transformá-lo em um clube de luta.
Karen encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o peso do dia finalmente desaparecer. Ela sabia que o mundo lá fora jamais entenderia o amor deles. Veriam apenas a bailarina e o louco, a bela e a fera de Gotham. Mas, enquanto o carro cruzava a ponte em direção às luzes brilhantes da cidade, ela sabia que estava no único lugar seguro do mundo: nos braços do homem que queimaria o planeta inteiro para mantê-la aquecida.
O segredo deles continuava a crescer, e agora, com uma nova vida a caminho, o jogo de Jared e Karen estava apenas começando. E Gotham, sem saber, estava prestes a conhecer uma nova dinastia. Uma dinastia construída sobre seda, sangue e uma loucura compartilhada que ninguém poderia destruir.