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Amor louco

O Batismo de Sangue e Veludo

O silêncio na cobertura da Quinta Avenida era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico de uma lixa de unha. Karen estava sentada em uma poltrona de veludo azul, observando Jared através do reflexo do espelho. Ele estava sentado à mesa de jantar, desmontando e limpando uma pistola personalizada com a mesma paciência com que um relojoeiro cuidaria de uma peça rara. A maquiagem branca havia sido removida, mas os resquícios do batom vermelho nos cantos da boca e o cabelo verde desgrenhado ainda denunciavam que o Coringa não tinha ido dormir totalmente.

— Você está muito quieta, minha nêga — disse Jared, sem levantar os olhos da arma. — O silêncio fica bem em você, mas hoje ele tem um gosto diferente. Um gosto de... planos.

Karen deixou a lixa de lado e acariciou o ventre. O episódio no galpão havia mudado algo dentro dela. O medo, que antes era uma sombra constante, havia se transformado em uma aceitação gélida. Ela era a mulher do homem mais perigoso de Gotham, e agora carregava o herdeiro de um império construído sobre o caos.

— Eu estava pensando no Monsieur — respondeu ela, a voz suave mas firme. — No teatro. No que você disse sobre comprar o lugar.

Jared soltou uma risada curta e metálica, o som de uma mola se encaixando no lugar.

— Ah, o pequeno ditador das sapatilhas. Ele foi rude com você. Eu não gosto de indelicadeza com a minha realeza.

— Não o mate, Jared — disse ela, levantando-se e caminhando até ele. Ela parou atrás da cadeira e começou a massagear os ombros tensos dele. — Eu preciso do palco. O balé é a minha máscara, assim como o terno de playboy é a sua. Se você destruir o teatro, você destrói a única coisa que me mantém... normal aos olhos deles.

Jared inclinou a cabeça para trás, encarando-a com aqueles olhos azuis que pareciam enxergar através da alma dela. Ele pegou uma das mãos de Karen e beijou os nós dos dedos, onde ainda havia uma pequena mancha de sangue que não era dela.

— Normalidade é uma ilusão para pessoas sem imaginação, Karen. Mas... se o palco é o seu brinquedo favorito, eu vou garantir que ninguém tire ele de você.

O momento de quietude foi interrompido pelo som de passos rápidos. Jonny V. entrou na sala, segurando um tablet. Ele parecia pálido, mesmo para os padrões dos capangas do Coringa.

— Chefe... temos um problema. Ou uma oportunidade. Depende de como o senhor acordou hoje.

Jared soltou a mão de Karen e voltou a montar a arma com uma velocidade impressionante. O clique final do carregador ecoou como um veredito.

— Fale, Jonny. Antes que eu decida que a sua língua é um acessório desnecessário.

— Os homens que sequestraram a sra. Karen... eles não eram apenas mercenários avulsos. O rastreamento dos pagamentos levou a uma conta fantasma ligada ao Sindicato de Falcone. Eles acham que o senhor está ficando "mole" por causa da sua fachada de Jared Letto. Estão chamando você de "o palhaço domesticado".

O rosto de Jared não mudou, mas a aura ao redor dele escureceu instantaneamente. Ele se levantou devagar, a pistola girando casualmente em seu dedo indicador.

— Domesticado? — Ele repetiu a palavra como se fosse um veneno. — Eles acham que colocar um terno e frequentar óperas me tirou os dentes?

Ele caminhou até a janela imensa, olhando para as luzes de Nova York que tentavam, em vão, esconder a podridão de Gotham logo ali ao lado.

— Eles tocaram na Karen para testar a minha reação — continuou Jared, sua voz agora um sussurro rouco que fazia os pelos do braço de Jonny se arrepiarem. — Eles queriam ver se o Jared Letto pediria ajuda à polícia ou se o Coringa apareceria para queimar o parquinho.

Karen aproximou-se, cruzando os braços. Ela não era mais a jovem bailarina assustada. O sangue que vira no galpão havia despertado algo em sua linhagem, algo que vinha do poder de seu pai empresário misturado à convivência com o rei do crime.

— Eles não sabem sobre o bebê — disse ela. — E não podem saber. Se Falcone descobrir que você tem um herdeiro, ele não vai apenas me sequestrar. Ele vai tentar erradicar qualquer rastro da sua linhagem.

Jared virou-se para ela, um brilho de orgulho insano nos olhos.

— Exatamente. Por isso, não haverá uma retaliação comum. Não vamos apenas mandar uma mensagem. Vamos apagar o mensageiro, a mensagem e a família de quem a escreveu.

— O que você vai fazer? — perguntou ela.

— Amanhã à noite é o baile de gala da Fundação Wayne — disse Jared, abrindo um sorriso largo e perverso. — Todos os "pilares da sociedade" estarão lá. Falcone estará lá, fingindo ser um filantropo. E Jared Letto também estará lá, com sua deslumbrante e grávida bailarina.

Karen franziu a testa.

— Você quer ir ao covil dos lobos?

— Não, minha nêga. Nós somos os lobos. Eles são apenas o gado em roupas caras. Vamos mostrar a eles que o Coringa não foi domesticado. Ele apenas aprendeu a usar os talheres certos para comer o coração de seus inimigos.

***

A noite seguinte chegou com a promessa de tempestade. Karen estava magnífica em um vestido de veludo negro, com um decote profundo que realçava seu colo e as joias de esmeralda que Jared insistira que ela usasse. O corte do vestido era estratégico, escondendo a leve saliência de sua barriga, mas permitindo que ela se movesse com a graça de uma rainha.

Ao seu lado, Jared era a personificação da elegância perigosa. O terno era de um corte impecável, o cabelo perfeitamente penteado para trás, mas havia algo em seu olhar — uma centelha de deboche — que dizia que ele estava segurando uma piada que ninguém mais entenderia.

Ao entrarem no salão principal, o murmúrio da elite de Gotham cessou por um instante. Karen Mitchell e Jared Letto eram o casal mais falado da temporada. O desmaio dela no Plaza ainda era o assunto predileto das fofocas, e vê-la ali, radiante e firme, sob o braço do herdeiro excêntrico, era um espetáculo à parte.

— Sorria, querida — sussurrou Jared, apertando levemente a cintura dela. — Estamos prestes a ver um truque de mágica.

Eles caminharam em direção ao círculo onde Carmine Falcone, um homem de cabelos grisalhos e olhos frios, conversava com políticos influentes. Quando Falcone viu Jared, um sorriso condescendente cruzou seu rosto.

— Jared, meu rapaz! — exclamou Falcone, estendendo a mão. — Soube do susto com sua bela namorada no estacionamento do teatro. Nova York está ficando perigosa para flores tão delicadas.

Jared apertou a mão de Falcone, mas não soltou. Ele manteve o aperto um segundo a mais do que o socialmente aceitável, seus olhos fixos nos do mafioso.

— É verdade, Carmine. O mundo está cheio de pessoas que não sabem onde termina o seu território e onde começa o meu. Mas Karen não é uma flor delicada. Ela é uma orquídea negra. Linda de se ver, mas letal se você tentar arrancá-la do jardim errado.

A tensão no grupo subiu como o mercúrio em um termômetro quebrado. Falcone tentou puxar a mão, mas Jared a segurou com uma força que fez os nós dos dedos do velho mafioso ficarem brancos.

— Espero que os responsáveis por esse... mal-entendido... tenham sido punidos — disse Falcone, a voz perdendo a amabilidade.

— Oh, eles foram — respondeu Jared, soltando a mão dele e pegando uma taça de champanhe de um garçom que passava. — Mas eu sou um homem que acredita em causas raízes, Carmine. Se você encontra uma barata na sua cozinha, você não mata apenas a barata. Você queima o ninho.

Karen interveio, sua voz como seda sobre navalhas.

— O que o Jared quer dizer, Sr. Falcone, é que valorizamos muito a nossa privacidade. E a nossa segurança. Especialmente agora que nossa família está... crescendo.

O olhar de Falcone caiu por um microssegundo para o ventre de Karen. Ele era um homem de negócios; ele entendeu a implicação. Um herdeiro. Um ponto fraco. Ou uma nova dinastia.

— Meus parabéns — disse Falcone, embora seus olhos dissessem o contrário. — Uma criança é uma grande responsabilidade. Pode ser difícil protegê-la em tempos de guerra.

— Guerra? — Jared riu, um som que fez algumas pessoas nas mesas próximas se encolherem. — Carmine, você está confundindo as coisas. Isso não é uma guerra. É uma dedetização.

Jared fez um sinal discreto para Jonny V., que estava disfarçado entre os seguranças do evento. De repente, os celulares de metade das pessoas no salão começaram a tocar simultaneamente. Eram notificações de notícias, alertas de emergência, vídeos sendo carregados.

O rosto de Falcone empalideceu enquanto ele olhava para o próprio telefone. Imagens em tempo real mostravam seus principais armazéns no porto de Gotham explodindo em colunas de fogo verde. Documentos confidenciais de suas transações ilegais estavam sendo despejados na rede mundial, expondo décadas de corrupção em questão de segundos.

— O que você fez? — rosnou Falcone, perdendo a compostura.

— Eu? — Jared fez uma expressão de falsa inocência. — Eu estou aqui, bebendo champanhe e admirando a minha mulher. Mas parece que o Coringa não gostou de saber que alguém estava mexendo com as coisas dele. Ele é muito ciumento, sabe?

A segurança de Falcone tentou se aproximar, mas foram interceptados por homens em ternos pretos que não pertenciam à fundação Wayne. Eram os cães de Jared, infiltrados no coração da alta sociedade.

— Vamos embora, Karen — disse Jared, oferecendo o braço a ela. — O cheiro de desespero está começando a estragar o buquê deste champanhe.

Eles caminharam em direção à saída, deixando para trás um rastro de caos digital e destruição financeira. Falcone estava arruinado antes mesmo do prato principal ser servido. Quando chegaram aos degraus de mármore da entrada, a chuva começou a cair, lavando a poeira da cidade.

Jared parou e olhou para Karen. A luz dos postes refletia na água, criando um halo sombrio ao redor deles.

— Você foi perfeita lá dentro — disse ele, a voz carregada de uma admiração genuína. — A Rainha de Gotham em cada gesto.

— Eu protegi o que é meu, Jared. Assim como você.

Ele a puxou para perto, ignorando os fotógrafos que tentavam capturar o momento.

— Eles achavam que você era o meu ponto fraco — sussurrou ele contra os lábios dela. — Mas eles não entendem. Você não é a minha fraqueza, Karen. Você é a razão pela qual eu vou queimar cada pessoa que ousar olhar para nós da maneira errada. Você é o meu caos e a minha ordem.

Ele a beijou com uma paixão feroz, um beijo que provava que, sob a pele do herdeiro, o palhaço estava rindo mais alto do que nunca.

— Jared — disse ela, quando eles se separaram —, o bebê... ele chutou. Pela primeira vez.

O Coringa congelou. Ele colocou a mão sobre o ventre de Karen, sentindo a pequena e sutil vibração da vida que crescia ali. Por um instante, a loucura em seus olhos deu lugar a algo profundo, antigo e aterrorizante em sua intensidade.

— Ele já está querendo sair para brincar — murmurou Jared, um sorriso genuíno e assustadoramente calmo surgindo em seu rosto. — Gotham não faz ideia do que está por vir. Um príncipe herdeiro do medo, nascido da sapatilha e do canivete.

Ele abriu a porta do carro para ela, mas antes que ela entrasse, ele se inclinou e sussurrou:

— Amanhã, Karen, eu vou comprar aquele teatro. E o Monsieur vai aprender a dançar conforme a minha música.

Karen sorriu, entrando no carro. Ela sabia que a vida dela nunca seria comum, que o balé seria apenas o palco para uma dança muito mais perigosa. Mas, enquanto o motor roncava e eles partiam para a noite, ela se sentia em casa. No coração da loucura, no centro do império, sendo amada pelo homem que o mundo chamava de monstro, mas que ela chamava de seu.

O segredo não era mais apenas deles. O mundo agora sabia que mexer com Karen Mitchell era convidar o próprio inferno para jantar. E o jantar, como Jared sempre dizia, estava apenas começando.