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Amor louco

O Peso do Silêncio e das Sombras

A enfermaria do Setor 45 nunca pareceu tão opressiva quanto naquelas últimas semanas. O ar, saturado pelo cheiro de iodo e metal, parecia pesar nos pulmões de Clara, tornando cada respiração um esforço consciente. Ela ajustou o jaleco, sentindo o tecido apertar não apenas nos braços, mas agora, de forma sutil e aterrorizante, na cintura.

Três meses.

Cento e doze dias desde a noite em que as barreiras de Aaron Warner ruíram de uma forma que ela nunca previra. Foi uma noite de tempestade, física e emocional, logo após uma das brigas mais violentas dele com o pai. Ele estava em frangalhos, a armadura de gelo derretida em pura angústia. Clara, como sempre, fora seu porto seguro. Mas o conforto se transformou em algo febril, um erro desesperado movido por anos de desejo reprimido de um lado e uma necessidade avassaladora de anestesia do outro.

Clara acreditou, por um momento tolo e fugaz, que aquilo mudaria tudo. Que ele finalmente a veria. Mas, na manhã seguinte, o gelo retornara mais espesso do que nunca. E então veio Juliette. E agora, Aaron pertencia a uma obsessão que Clara jamais conseguiria competir.

Ela colocou a mão sobre o ventre, ainda plano para olhos desatentos, mas que ela sentia mudar a cada segundo. Aaron não sabia. Aaron nunca saberia. Ela não seria o motivo de ele ficar por obrigação, nem permitiria que Anderson usasse uma criança como arma contra o próprio filho.

O som das portas automáticas se abrindo com violência a tirou de seus devaneios.

— Abram caminho! — gritou um dos soldados da guarda de elite. — O Comandante está ferido!

O coração de Clara parou por um segundo antes de disparar. Ela correu em direção à maca que entrava às pressas. O uniforme cinza de Aaron, sempre impecável, estava encharcado de sangue no ombro e no peito. O rosto dele estava pálido, os lábios comprimidos em uma linha de agonia, mas os olhos... os olhos ainda guardavam aquele brilho febril de quem acabara de ver um milagre, mesmo que esse milagre tivesse tentado matá-lo.

— Aaron! — O grito escapou dela antes que pudesse conter o tom de intimidade. Ela se recompôs imediatamente. — Coloquem-no na mesa quatro. Agora!

Os soldados obedeceram. Clara começou a cortar o tecido do uniforme com mãos trêmulas, mas precisas. O ferimento de bala era feio, estraçalhado, perto demais da clavícula.

— Foi ela... — sussurrou Aaron, a voz falhando, mas carregada de uma admiração doentia. — Ela atirou em mim, Clara. Ela realmente tentou... ela é perfeita.

Clara sentiu uma náusea que não tinha nada a ver com a gravidez. Ela limpava o sangue dele enquanto ele glorificava a mulher que o havia ferido. Cada palavra dele era um prego no caixão das esperanças que ela ainda tentava enterrar.

— Cale a boca, Aaron — disse ela, a voz mais ríspida do que o normal. — Você está perdendo muito sangue. Preciso suturar isso agora.

— Ela tem tanto poder... — ele continuou, ignorando o aviso, os olhos fixos no teto fluorescente. — Você devia ter visto, Clara. A força... a resistência...

— Eu estou vendo o resultado dessa força — retrucou ela, pressionando uma gaze com força excessiva para estancar o sangramento.

Ele soltou um gemido de dor, e por um breve instante, seus olhos verdes encontraram os dela. Houve um lampejo de reconhecimento, uma sombra daquela noite compartilhada, mas foi rapidamente substituído pela névoa da dor e da exaustão.

— Cuide de mim — ele pediu, quase como uma criança. — Você é a única em quem confio.

— Eu sempre cuido — sussurrou ela, as lágrimas pinicando seus olhos.

As horas seguintes foram um borrão de agonia física para ele e exaustão emocional para ela. Clara não permitiu que nenhuma outra enfermeira se aproximasse. Ela mesma limpou o ferimento, removeu os estilhaços da bala e deu os pontos com uma delicadeza que beirava a adoração. Ela monitorou sua febre, trocou seus curativos e permaneceu sentada ao lado de sua cama, mesmo quando suas próprias costas clamavam por descanso e suas pernas inchavam.

Ela esqueceu de comer. Esqueceu de beber água. Esqueceu que não estava mais sozinha em seu próprio corpo.

No segundo dia de vigília, o cansaço começou a cobrar seu preço. Aaron dormia sob o efeito de sedativos pesados. Clara se levantou para buscar uma nova bolsa de soro, mas uma pontada aguda e súbita em seu baixo ventre a fez perder o fôlego.

Ela se segurou na borda da mesa de metal, as unhas raspando a superfície fria.

— Não... agora não — ela murmurou, a voz embargada pelo pânico.

Ela sentiu uma umidade quente e aterradora. Caminhando com dificuldade até o banheiro privativo da enfermaria, ela trancou a porta. Ao baixar a roupa, o vislumbre do sangue — um vermelho vivo e ameaçador — fez seu mundo girar. O sangramento não era intenso, mas era um aviso. Um grito de socorro do ser que ela carregava, negligenciado em favor do homem que nunca a amaria de volta.

Clara sentou-se no chão frio, abraçando os joelhos, e chorou. Chorou pela solidão, pela criança que corria perigo e pela ironia cruel de sua vida: ela estava morrendo por dentro para manter Aaron vivo, enquanto ele só tinha olhos para a garota que o queria morto.

— Me desculpa — ela soluçou, a mão sobre o ventre. — Me desculpa, pequeno. Eu vou cuidar de você. Eu prometo.

Ela ficou ali por quase vinte minutos, forçando-se a respirar, a acalmar os batimentos cardíacos. Ela sabia o que precisava fazer. Medicou-se em silêncio, buscando nos estoques da enfermaria o que era necessário para conter a ameaça de aborto, escondendo os registros sob nomes de soldados fictícios. Ela precisava de repouso, precisava de comida, precisava parar de se anular.

Quando voltou para o quarto de Aaron, ele estava começando a despertar.

— Clara? — a voz dele estava rouca.

— Estou aqui — disse ela, mantendo a distância necessária, sentando-se em uma cadeira mais afastada em vez de se inclinar sobre ele como vinha fazendo.

— Você sumiu. Por que as luzes estão tão baixas?

— Você precisa descansar, Aaron. E eu também.

Ele tentou se sentar, mas soltou um ganido de dor, levando a mão ao ombro enfaixado.

— Ela fugiu com o grupo de rebeldes, não foi? O Ômega Point.

Clara suspirou, sentindo uma exaustão que ultrapassava o físico.

— Sim. Eles a levaram. E você quase morreu tentando impedi-los... ou tentando ajudá-la. Eu já nem sei mais.

Aaron soltou uma risada seca que terminou em uma careta.

— Eu vou buscá-la. Assim que eu conseguir ficar de pé.

— Você não vai a lugar nenhum nesse estado — disse ela, a voz firme. — Seu pai está furioso, Aaron. Ele acha que você foi fraco. Se você sair atrás dela agora, ele vai considerar traição.

— Eu não me importo com o que ele pensa! — Aaron tentou elevar a voz, mas a fraqueza o abateu, fazendo-o recostar-se nos travesseiros. Ele olhou para Clara, estreitando os olhos. — Você está diferente.

O coração de Clara deu um solavanco.

— Diferente como?

— Está pálida. E seus olhos... você esteve chorando?

— É o cansaço, Aaron. Eu disse que os turnos estão dobrados. Cuidar de você exige mais do que eu tenho para oferecer às vezes.

Ele pareceu suavizar por um segundo. A mão dele, pálida e longa, estendeu-se sobre o lençol na direção dela.

— Venha aqui.

Clara hesitou. Cada fibra de seu ser queria segurar aquela mão, sentir o calor da pele dele e contar tudo. Contar que havia uma parte dele crescendo dentro dela. Que ela estava com medo. Que ela não sabia como ser mãe em um mundo tão cruel quanto o Restabelecimento.

Mas ela olhou para o ferimento no ombro dele. O ferimento causado pela mulher que ele amava.

Se ela contasse, ele ficaria. Ele a protegeria, talvez até se casasse com ela por uma questão de honra e dever. Mas ele nunca a amaria. Ele olharia para ela e para a criança e veria as correntes que o impediam de voar atrás de Juliette. E Clara preferia o silêncio à piedade.

— Eu preciso verificar os outros pacientes — mentiu ela, levantando-se com esforço. — Descanse. Vou pedir para trazerem sua refeição.

— Clara, espere — ele chamou, mas ela já estava na porta.

Ela parou, mas não se virou.

— Você é a única coisa real que eu tenho neste lugar — disse ele, a voz baixa e vulnerável. — Não se afaste de mim.

As palavras dele, que em outro momento seriam um bálsamo, agora soavam como uma sentença. Ele a queria ali como sua âncora, como sua base, enquanto ele buscava as estrelas em outro lugar.

— Eu não vou a lugar nenhum, Aaron — disse ela, e era a mais pura verdade. — Eu sempre estarei aqui.

Ela saiu do quarto e caminhou até a pequena copa da enfermaria. Pegou uma maçã e um copo de água, forçando-se a ingerir cada pedaço, mesmo que seu estômago protestasse. Ela precisava ser forte. Por ela e pelo segredo que agora carregava.

Enquanto comia, ela observava os soldados no corredor. O mundo de Estilhaça-me estava desmoronando lá fora. A guerra estava chegando, Juliette era a faísca e Aaron era o combustível. E no meio do incêndio, Clara seria a sombra que ninguém notaria, guardando dentro de si o único fruto de uma noite que, para ele, foi um lapso, mas para ela, seria uma vida inteira.

Ela passou a mão novamente pela barriga, sentindo o sangramento parar, sentindo a vida persistir com a mesma teimosia que ela mesma possuía.

— Nós vamos ficar bem — sussurrou ela para o vazio da sala. — Ele nunca vai descobrir.

Naquela noite, Aaron sonhou com olhos azuis e um toque letal. Clara, no quarto ao lado, dormiu um sono sem sonhos, protegendo com os braços o segredo que a ligaria eternamente ao homem que ela estava aprendendo a deixar partir, mesmo que ele nunca saísse de seu coração.

O silêncio era seu único aliado. E, no Setor 45, o silêncio era a única coisa que o Restabelecimento não podia tirar dela.