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Amor louco

O Labirinto das Verdades Ocultas

O quinto mês de gestação trouxe consigo um peso que não era apenas físico. Clara sentia o volume de seu ventre sob o jaleco agora permanentemente aberto, uma curva que ela não conseguia mais esconder, nem queria. A insegurança que antes a fazia desejar ser invisível fora substituída por um instinto feroz de preservação. Cada chute suave que sentia ao amanhecer era um lembrete de que ela tinha um propósito maior do que ser a sombra de Aaron Warner.

Ao seu lado, James — um soldado da guarda intermediária, de sorriso gentil e olhos que não carregavam a frieza do Restabelecimento — tornou-se seu escudo. Ele sabia a verdade desde o início. Ele a vira chorando no refeitório quando os enjoos eram insuportáveis e, com uma nobreza rara naquele lugar desolado, ofereceu-lhe não apenas um nome para o bebê, mas um porto seguro.

— Você não precisa carregar o mundo nas costas, Clara — James dissera a ela meses atrás, enquanto caminhavam pelo pátio cinzento. — Eu amo você. Sei que seu coração pertence a outro, e não vou exigir que isso mude. Mas deixe-me cuidar de vocês. Deixe que todos pensem que é meu. O Comandante nunca deixaria você em paz se soubesse, e Anderson... bem, sabemos o que ele faria com um herdeiro indesejado.

Clara aceitara. Era um pacto de sobrevivência e uma amizade que floresceu no solo árido da guerra iminente. Para todos no Setor 45, Clara e James eram um casal sólido, à espera de uma menina.

Naquela manhã, porém, a atmosfera na enfermaria estava elétrica. Juliette havia retornado. Não como prisioneira, mas como algo muito mais perigoso: uma aliada relutante, uma arma que Warner agora exibia com um orgulho possessivo. Clara a vira passar pelos corredores, os olhos de Juliette agora mais confiantes, e Aaron... Aaron parecia orbitar ao redor dela como se o resto do universo tivesse perdido a cor.

Clara sentiu uma pontada de dor, mas não era ciúme. Era alívio. Se ele estava tão ocupado com sua pequena deusa de vidro, talvez não notasse que Clara estava prestes a pedir um afastamento. Ela precisava de paz. O estresse da enfermaria e a visão constante dos dois juntos estavam começando a afetar sua saúde.

Ela caminhou até o escritório de Warner. Suas mãos suavam. Ela ajustou a blusa larga, mas a silhueta da gravidez era inegável. Ao chegar à porta, respirou fundo e bateu.

— Entre — a voz dele veio fria, autoritária, mas com aquele tom levemente mais suave que ele reservava apenas para ela.

Clara entrou. Aaron estava de pé junto à janela, observando o treinamento dos soldados lá embaixo. Juliette estava sentada em uma das poltronas de couro, folheando um livro, parecendo uma pintura deslocada naquele ambiente militar. Quando Clara entrou, Juliette ergueu os olhos e sorriu de forma tímida.

— Olá, Clara — disse Juliette. — Faz tempo que não nos falamos.

— Olá, Juliette. É bom ver que você está... bem — Clara respondeu com sinceridade educada, antes de se voltar para Warner. — Aaron, eu preciso de um momento. É sobre o meu trabalho na enfermaria.

Warner se virou. Ele parecia exausto, com olheiras profundas, mas seus olhos verdes imediatamente percorreram a figura de Clara. Ele franziu o cenho, o olhar descendo para o ventre dela e parando ali, como se estivesse processando uma informação impossível.

— O que é isso? — perguntou ele, a voz subitamente baixa, perigosa.

Clara sentiu um calafrio. Ela esperava que ele já soubesse pelos boatos do quartel.

— Eu vim solicitar uma redução nas minhas horas de turno e, eventualmente, uma licença — disse ela, tentando manter a voz firme. — Como você pode ver, a gravidez está avançando e eu não consigo mais dar conta da demanda cirúrgica e dos plantões noturnos.

Houve um silêncio mortal na sala. Juliette fechou o livro, sentindo a mudança brusca na pressão atmosférica do ambiente.

— Gravidez? — Aaron repetiu a palavra como se fosse um insulto. Ele deu um passo à frente, ignorando completamente a presença de Juliette. — Você está grávida, Clara?

— Sim, Aaron. Estou no quinto mês. Achei que os relatórios já tivessem chegado até você.

Ele soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Era um som cortante, que fez os pelos do braço de Clara se arrepiarem.

— Relatórios? Eu estive ocupado tentando manter este setor de pé e lidando com o retorno de Juliette. Eu não li fofocas de soldados sobre quem está dormindo com quem na enfermaria.

Ele se aproximou mais, invadindo o espaço pessoal dela. Clara não recuou, embora seu coração batesse contra as costelas como um pássaro enjaulado.

— De quem é? — perguntou ele, os dentes cerrados.

— É do James. Do sargento James Miller — mentiu ela, sustentando o olhar dele. — Ele tem sido maravilhoso. Nós estamos muito felizes. É uma menina.

O rosto de Aaron se transformou em uma máscara de fúria cega. Ele socou a mesa de carvalho com tanta força que os papéis voaram pelo chão. Juliette deu um sobressalto, levantando-se da poltrona.

— Aaron, acalme-se! — exclamou Juliette, aproximando-se dele, tentando tocar seu braço.

— Saia! — ele rugiu para Juliette, sem desviar os olhos de Clara. — Saia agora, Juliette!

— Mas Aaron...

— AGORA!

Juliette olhou para Clara com uma mistura de medo e confusão, mas, percebendo que não havia espaço para diálogo, retirou-se da sala, fechando a porta atrás de si.

Sozinhos, a tensão entre Clara e Aaron tornou-se quase sólida. Ele caminhava de um lado para o outro como um predador encurralado.

— James Miller? — ele sibilou, parando diante dela. — Aquele soldado medíocre? Aquele... aquele ninguém? Você me diz que ele tocou em você? Que ele colocou uma criança dentro de você enquanto eu... enquanto eu confiava em você como a única coisa pura nesta droga de lugar?

— Aaron, pare com isso! — Clara sentiu as lágrimas pinicarem, mas a raiva também começou a florescer. — Você não tem o direito de falar dele assim. E você não tem o direito de agir como se eu tivesse te traído. Você tem a Juliette! Você passou meses obcecado por ela, arriscando tudo por ela! O que você esperava? Que eu ficasse sentada na enfermaria esperando por uma migalha da sua atenção para o resto da vida?

— Eu esperava lealdade! — ele gritou, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Eu contei tudo a você! Eu mostrei a você partes de mim que ninguém mais viu! Nós... aquela noite...

— Aquela noite foi um erro para você! — interrompeu ela, a voz embargada. — Na manhã seguinte, você nem conseguia me olhar nos olhos. Você me tratou como um móvel da enfermaria. E depois ela chegou, e eu deixei de existir. James me viu. Ele me viu quando eu era invisível para você.

Aaron avançou, segurando os ombros de Clara. Não era um toque agressivo, mas era desesperado. Ele a sacudiu levemente, como se quisesse acordá-la de um pesadelo.

— Você não entende — disse ele, a voz agora um sussurro rouco e quebrado. — Você era a minha constante. O meu chão. Eu suportava tudo lá fora porque sabia que você estaria aqui, intocada, sendo apenas a minha Clara. E agora você me diz que pertence a outro? Que vai ter o filho de outro homem?

— Eu não sou sua, Aaron. Eu nunca fui. Você nunca me pediu para ser.

— Porque eu achei que você soubesse! — ele soltou os ombros dela e chutou uma cadeira, jogando-a contra a parede. — Eu vou matá-lo. Eu vou mandar Miller para a frente de batalha mais perigosa que eu encontrar. Vou garantir que ele nunca veja essa criança.

— Se você tocar em um fio de cabelo do James — disse Clara, sua voz subitamente fria como gelo, uma força que ela não sabia que possuía —, eu juro por tudo o que é sagrado que você nunca mais verá o meu rosto. Eu sairei deste setor, me juntarei aos rebeldes, ou darei um fim a tudo. Você conhece a minha determinação, Aaron. Não me teste.

Ele parou, a respiração ofegante. O silêncio que se seguiu foi pesado com o peso de anos de palavras não ditas. Aaron olhou para o ventre de Clara novamente, e desta vez, não havia apenas raiva. Havia uma dor profunda, uma agonia que ele não conseguia esconder sob sua máscara de comandante.

— Cinco meses — murmurou ele, fazendo as contas mentalmente.

Clara sentiu o sangue gelar. Aaron era inteligente. Inteligente demais. Por um segundo, o tempo pareceu parar. Ela viu o momento exato em que a dúvida cruzou o olhar dele, seguida por uma compreensão aterradora.

— A data — disse ele, dando um passo cauteloso para trás, como se tivesse medo da resposta. — Clara... a data não bate com o tempo que Miller foi transferido para a sua guarda próxima.

— Bate sim — mentiu ela rapidamente, mas sua voz falhou. — Nós fomos discretos no início.

— Mentirosa — ele sussurrou. Ele se aproximou novamente, mas desta vez sua mão não foi para os ombros dela. Ele estendeu os dedos, trêmulos, e tocou levemente a curva do ventre dela por cima do tecido.

Clara prendeu a respiração. O toque dele era como fogo, despertando memórias que ela lutava para esquecer. O bebê, como se sentisse a presença do pai biológico, deu um chute vigoroso exatamente onde os dedos de Aaron estavam posicionados.

Aaron arregalou os olhos. O choque o paralisou.

— Ela se mexeu — disse ele, a voz falhando completamente. — Ela sentiu o meu toque.

— Foi apenas um reflexo — disse Clara, tentando se afastar, mas ele a segurou pela cintura, impedindo-a de sair.

— É minha, não é? — ele perguntou, os olhos verdes agora cheios de lágrimas que ele se recusava a deixar cair. — Não é do Miller. É minha. Aquela noite... você nunca tomou o preventivo. Você nunca me pediu nada.

— Aaron, por favor...

— RESPONDA-ME! — ele não gritou, mas a intensidade de sua voz foi mais forte que qualquer rugido. — É minha filha, Clara?

Clara fechou os olhos, as lágrimas finalmente rolando pelo rosto. O peso do segredo era grande demais para ser carregado sozinha por mais tempo.

— Sim — sussurrou ela. — É sua. Mas isso não muda nada. Você ama a Juliette. Você quer a Juliette. E eu não vou deixar minha filha crescer à sombra de uma obsessão que acabará por destruir você. James vai criá-la. Ele a quer. Ele me quer.

Aaron soltou um som que era metade risada, metade soluço. Ele encostou a testa na de Clara, fechando os olhos.

— Você achou que eu deixaria você criar meu filho com outro homem? Você achou que eu permitiria que aquele... aquele soldado tocasse no que é meu?

— Ela não é um objeto, Aaron! — Clara o empurrou com força, conseguindo finalmente se libertar. — E eu também não sou! Você não pode simplesmente me ignorar por meses e depois reivindicar a paternidade porque o seu ego foi ferido.

— Não é ego! — ele gritou de volta. — É que eu não sei como viver sem você! Sim, eu quero a Juliette, eu preciso dela, ela é... ela é o meu espelho. Mas você... você é a minha alma, Clara. Eu achei que podia ter as duas. Achei que você sempre estaria lá, me esperando, cuidando de mim, não importa o que eu fizesse.

— Que egoísmo monstruoso — disse ela, limpando o rosto com desdém. — Você queria a sua rainha de gelo no trono e a sua enfermeira gordinha e fiel nos bastidores para curar suas feridas. Pois bem, o jogo acabou. Eu não sou mais sua enfermeira.

Ela caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la.

— James é o pai oficial nos registros. Ele vai cuidar de nós. Se você tentar algo contra ele, eu contarei a todos, inclusive ao seu pai, o que aconteceu. E sabemos que Anderson adoraria saber que você "se distraiu" com uma enfermeira comum enquanto deveria estar caçando rebeldes.

— Clara, espere! — Aaron deu um passo, mas ela já havia aberto a porta.

Do lado de fora, Juliette estava encostada na parede, tendo ouvido o suficiente para entender a gravidade da situação. Seus olhos encontraram os de Clara, e houve uma faísca de empatia feminina que transcendeu a rivalidade que Aaron havia criado.

Clara passou por ela sem dizer uma palavra, a cabeça erguida, a mão protegendo o ventre.

Aaron ficou parado no meio do escritório destruído. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que agora sabiam que haviam criado vida. Ele sentia uma fúria assassina contra James Miller, uma possessividade doentia por Clara e uma confusão dilacerante sobre Juliette.

Ele sempre tivera o controle de tudo. O exército, o setor, suas próprias emoções. Mas agora, enquanto ouvia os passos de Clara desaparecendo pelo corredor, Aaron Warner percebeu que, ao tentar alcançar o sol em Juliette, ele havia deixado a única luz real de sua vida se apagar.

— Aaron? — Juliette entrou lentamente na sala, a voz cautelosa.

Ele não respondeu. Ele caminhou até a mesa, pegou o formulário de afastamento que Clara havia deixado e o rasgou em mil pedaços.

— Ela não vai a lugar nenhum — ele sussurrou para o vazio. — Miller não vai chegar perto dela novamente.

Naquela noite, o Setor 45 não dormiu. O Comandante Warner estava em um estado de fúria silenciosa que aterrorizava até os soldados mais veteranos. E Clara, deitada em sua cama pequena na enfermaria, sentia James segurar sua mão, prometendo proteção.

Mas ela conhecia Aaron. Ela sabia que o silêncio dele era apenas o prelúdio de uma tempestade. Ele sabia a verdade agora. E Aaron Warner nunca desistia do que considerava seu.

A guerra lá fora era iminente, mas a guerra dentro das paredes do Setor 45 estava apenas começando. E Clara, a enfermeira que só queria ser amada, era agora o prêmio central de um conflito que poderia reduzir todo o Restabelecimento a cinzas.