Voltar ao resumo

Amor louco

Sombras e Sedas de uma Traição Necessária

O silêncio que se seguiu à revelação de Clara foi, para Aaron Warner, mais ensurdecedor do que qualquer explosão que ele já ouvira no campo de batalha. Ele passou horas trancado em seu escritório, os punhos cerrados sobre a mesa de carvalho, enquanto a imagem de Clara — com aquela curva inegável sob o jaleco e o olhar de aço que ele nunca vira nela — se repetia em sua mente como um filme de terror.

A fúria que ele sentia não era apenas dirigida a James Miller. Era uma fúria contra si mesmo, contra a sua incapacidade de ter previsto que o seu porto seguro poderia encontrar outro cais. Mas, acima de tudo, era uma possessividade primitiva. Aquela criança era dele. O sangue que corria nas veias daquele pequeno ser era o sangue dos Warner, e a mulher que o carregava era a única pessoa que já havia tocado sua alma sem ser destruída por ela.

Ele não esperou o amanhecer para agir.

Às três da manhã, as ordens foram emitidas. James Miller foi arrancado de seu alojamento sob o pretexto de uma incursão de reconhecimento urgente na Zona Morta, uma área infestada de rebeldes e de terrenos instáveis onde a taxa de sobrevivência era mínima. Miller não teve tempo de se despedir. Sob o olhar gélido de Warner, o sargento foi escoltado para um transporte blindado.

— Você entende a importância desta missão, sargento? — perguntou Warner, sua voz soando como o deslizar de uma lâmina em seda.

— Sim, senhor — respondeu Miller, embora houvesse um brilho de desconfiança e medo em seus olhos. Ele não era estúpido; ele vira como Warner olhara para Clara naquela tarde.

— Ótimo. Tente não morrer. Seria uma inconveniência administrativa — concluiu Warner, dando as costas antes mesmo que o transporte desse a partida.

Agora, o caminho estava livre.

Clara estava em seu pequeno quarto anexo à enfermaria. Ela não conseguia dormir. O chute do bebê, que antes parecia uma carícia, agora parecia um aviso. Ela temia o que Aaron faria. Conhecia a sua mente estratégica e a sua falta de escrúpulos quando se tratava de conseguir o que queria. Ela se levantou para beber um copo de água, sentindo o peso da barriga e a exaustão nos ossos, quando ouviu o clique suave da porta sendo destrancada.

O coração dela saltou para a garganta. No Setor 45, apenas uma pessoa tinha a chave mestra e a audácia de entrar em seus aposentos sem permissão.

A silhueta de Aaron Warner se materializou na penumbra. Ele não usava a túnica militar, apenas uma camisa preta de botões levemente aberta no pescoço. Seus olhos, mesmo no escuro, pareciam brilhar com uma luz febril.

— O que você está fazendo aqui, Aaron? — Clara sussurrou, a voz trêmula. — Saia agora.

— Ele se foi, Clara — disse ele, dando um passo para dentro e fechando a porta silenciosamente atrás de si.

O pânico a atingiu como uma onda fria.

— O que você fez com o James? Se você o machucou...

— Eu não o machuquei — interrompeu ele, aproximando-se com a elegância de um predador. — Apenas o enviei para onde ele pode ser útil ao Restabelecimento. Ele está longe. Muito longe. E não vai voltar tão cedo.

— Você é um monstro — ela sibilou, as lágrimas de frustração começando a cair. — Você o mandou para a morte porque não suporta perder.

— Eu não suporto que toquem no que me pertence — ele rebateu, parando a poucos centímetros dela. O cheiro dele — sabonete caro, pólvora e algo puramente Aaron — invadiu os sentidos de Clara, enfraquecendo suas defesas. — E você sabe, no fundo da sua alma, que Miller nunca foi o pai. Você sabe que ele estava apenas ocupando um espaço que eu deixei vazio por pura negligência.

— Você não tem o direito de reclamar esse espaço agora! — Clara tentou empurrá-lo, mas ele segurou seus pulsos com firmeza, mas sem machucá-la.

— Eu tenho todo o direito — disse ele, a voz baixando para um tom perigosamente íntimo. — Eu sou o pai daquela criança. E eu sou o homem que você ama, Clara. Você pode mentir para o mundo, pode mentir para a Juliette, mas não pode mentir para mim quando estou assim, tão perto.

Ele soltou os pulsos dela e, em vez de se afastar, levou as mãos ao rosto dela, polegares enxugando as lágrimas que teimavam em descer. Clara quis gritar, quis lutar, mas o toque dele era a única coisa que ela desejara durante meses de solidão. Era a sua droga, o seu vício secreto.

— Por que agora? — ela perguntou, a voz quebrada. — Por que você não me quis quando eu era apenas a sua amiga? Por que precisou que outra pessoa me valorizasse para você perceber?

— Porque eu sou um homem quebrado, Clara — confessou ele, e a vulnerabilidade em sua voz foi o que finalmente destruiu a resistência dela. — Eu estava tão focado no que eu achava que precisava — em poder, em Juliette, em destruir meu pai — que não percebi que você era a única coisa que me mantinha humano. Quando te vi com aquele homem... quando percebi que você poderia ser de outro... senti como se o meu mundo estivesse sendo arrancado debaixo dos meus pés.

Ele se inclinou, encostando a testa na dela.

— Não me peça para ir embora. Eu não consigo mais respirar sem saber que você está aqui.

Clara soltou um suspiro trêmulo. Ela odiava a si mesma por ser tão fraca quando se tratava dele, mas o amor que sentia por Aaron não era algo que pudesse ser desligado. Era uma parte dela, tão intrínseca quanto o bebê em seu ventre.

— Aaron... isso não vai acabar bem.

— Nada neste lugar acaba bem — murmurou ele contra os lábios dela. — Mas, por esta noite, deixe o resto do mundo queimar.

Ele a beijou. Não foi o beijo desesperado e febril daquela noite de meses atrás, mas algo mais profundo, carregado de uma posse que não pedia permissão. Clara gemeu suavemente, suas mãos subindo para os ombros dele, agarrando-se à sua camisa como se ele fosse a única coisa sólida em um mar revolto.

Aaron a conduziu de volta para a cama pequena. Ele se moveu com uma delicadeza que Clara nunca imaginara que o Comandante do Setor 45 possuísse. Ele retirou o jaleco dela, depois a blusa, seus olhos nunca deixando os dela. Quando a luz fraca da lua que entrava pela fresta da cortina iluminou o ventre de Clara, Aaron parou.

Ele se ajoelhou diante dela, as mãos trêmulas enquanto tocavam a pele esticada e quente.

— É linda — ele sussurrou, a voz embargada. — Você é linda, Clara.

Ele inclinou a cabeça e pressionou um beijo suave sobre a barriga dela, exatamente onde o bebê se movia. Clara sentiu um soluço escapar de seus lábios. Ver aquele homem, tão temido por todos, ajoelhado diante de sua imperfeição, adorando o fruto de um erro que ele agora chamava de milagre, era demais para o seu coração suportar.

— Aaron, por favor — ela pediu, puxando-o para cima.

Eles se amaram naquela madrugada com uma intensidade que beirava o desespero. Não havia mais segredos entre eles, apenas o calor da pele, o ritmo das respirações sincronizadas e a promessa silenciosa de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Aaron a tocava como se ela fosse feita de vidro, explorando cada curva de seu corpo com uma reverência que fazia Clara se sentir, pela primeira vez na vida, a mulher mais desejada do mundo.

Não importava que ela fosse gordinha, que tivesse estrias da gravidez ou que não tivesse a beleza etérea de Juliette. Naquele quarto pequeno, sob o peso do corpo de Aaron, ela era absoluta.

— Você é minha — ele sussurrou em seu ouvido, enquanto a envolvia nos braços após o clímax, ambos suados e exaustos. — De hoje em diante, ninguém mais toca em você. Ninguém mais olha para você.

Clara encostou a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas aceleradas do coração de Aaron.

— E o James? — ela perguntou, a realidade começando a retornar com o frio da madrugada.

— James Miller é um problema que eu já resolvi — disse ele, a frieza retornando à sua voz por um breve momento. — Ele não vai voltar para reivindicar o que é meu.

— Você não pode simplesmente apagar as pessoas, Aaron.

— Eu posso fazer qualquer coisa para proteger o que amo — ele respondeu, apertando-a mais contra si. — Eu passei a vida inteira perdendo tudo o que era importante para mim. Minha mãe, minha sanidade, minha infância. Eu não vou perder você. E não vou perder minha filha.

Clara fechou os olhos, sentindo um misto de segurança e terror. Ela sabia que Aaron seria capaz de queimar o mundo inteiro para mantê-la ao seu lado, e isso era tão lisonjeiro quanto assustador. Ela sabia que, ao aceitá-lo em sua cama naquela noite, ela estava selando seu destino. Não haveria mais James, não haveria mais uma vida comum. Ela seria a mulher do monstro.

— O que vamos dizer à Juliette? — Clara perguntou, o nome da outra garota soando como uma nota desafinada.

Aaron ficou em silêncio por um longo tempo.

— Juliette é... uma necessidade diferente — disse ele, finalmente. — Mas ela nunca conheceu o garoto que chorava no escuro. Ela nunca curou minhas feridas quando eu não tinha mais forças para lutar. Ela ama o que eu represento, Clara. Você ama quem eu sou.

Ele a beijou na testa.

— Durma agora. Eu estarei aqui quando você acordar.

Clara adormeceu nos braços de Aaron Warner, sentindo-se protegida e, ao mesmo tempo, prisioneira de um amor que exigia tudo dela.

Horas depois, quando os primeiros raios de sol cinzento começaram a penetrar no quarto, Aaron ainda estava acordado, observando o rosto sereno de Clara enquanto ela dormia. Ele sabia que a guerra estava batendo à porta. Sabia que seu pai, Anderson, logo descobriria sobre a criança e que Juliette exigiria respostas.

Mas, enquanto olhava para a mulher ao seu lado, Aaron sentiu uma força que nunca experimentara antes. Ele não era mais apenas o Comandante do Setor 45. Ele era um pai. Ele era um homem que tinha algo real pelo qual lutar.

Ele se levantou silenciosamente, vestiu sua camisa e caminhou até a janela. Lá fora, os soldados já começavam a se movimentar para o treino matinal. James Miller estava a quilômetros de distância, e Aaron garantiria que ele permanecesse lá.

Ele voltou para a cama e tocou suavemente o rosto de Clara uma última vez antes de sair.

— Eu vou destruir qualquer um que tente nos separar — ele prometeu em um sussurro inaudível.

Clara despertou pouco depois, encontrando o lado da cama vazio, mas ainda quente. O cheiro dele estava em seus lençóis, em sua pele, em sua alma. Ela se sentou, levando a mão ao ventre, e sentiu uma calma estranha.

A insegurança que a acompanhara por toda a vida parecia ter evaporado. Ela não era mais a enfermeira invisível. Ela era a fraqueza e a força de Aaron Warner. E, embora soubesse que o caminho à frente seria pavimentado com sangue e traição, ela não tinha mais medo.

Porque agora, ela sabia que, no labirinto de sombras que era a vida de Aaron, ela era a única luz que ele jamais permitiria que se apagasse. Mas, ao longe, o som de um transporte chegando ao setor trouxe uma nova inquietação. A paz era uma ilusão no Restabelecimento, e Clara sabia que o preço daquela noite de amor ainda seria cobrado, e o valor seria alto demais para qualquer um deles imaginar.