Amor na escola
O Despertar de um Novo Destino
O sol da manhã entrava com timidez pelas janelas do dormitório de Vinícius, mas o calor dentro do quarto não vinha da luz solar. Vinícius estava sentado na beira da cama, observando Stefany dormir. O moletom dele, que ela usava como pijama, ficava tão grande que praticamente a engolia, revelando apenas as pontas dos dedos e o rosto sereno. A marca no pescoço dela, agora cicatrizada e com um tom violáceo suave, brilhava como uma joia contra a pele negra.
Ele estendeu a mão e tocou a barriga dela por cima do tecido grosso. Era quase imperceptível para olhos comuns, mas para os sentidos aguçados de um alfa lúpus, a mudança era drástica. Havia uma nova pulsação, um redemoinho de energia que não pertencia a Stefany, mas que dependia inteiramente dela. O lobo de Vinícius ronronava no fundo de sua mente, um som de satisfação possessiva que ele nunca imaginou sentir.
— Eu sei que você está acordada, pequena — sussurrou ele, sentindo a mudança no ritmo da respiração dela.
Stefany abriu um olho, depois o outro, e sorriu ao ver o rosto bronzeado de Vinícius tão perto do seu. Ela se espreguiçou, sentindo o corpo ainda um pouco pesado, uma característica constante desde que a gravidez acelerada de lúpus começara a cobrar seu preço.
— Você não cansa de ficar me vigiando? — perguntou ela, a voz rouca de sono.
— Nunca — respondeu ele, inclinando-se para beijar a ponta do nariz dela. — Especialmente agora que tenho dois motivos para não tirar os olhos de você. Como está se sentindo? Algum enjoo?
Stefany sentou-se devagar, apoiando as costas na cabeceira da cama. Vinícius imediatamente colocou um travesseiro atrás dela para deixá-la mais confortável.
— Hoje parece um dia bom — disse ela, colocando a mão sobre a dele, que ainda repousava em seu ventre. — Acho que o nosso pequeno lúpus decidiu me dar uma trégua. Mas sinto uma fome que poderia devorar o refeitório inteiro.
Vinícius riu, levantando-se com a agilidade graciosa que seus 1,81 de altura permitiam. Ele vestiu uma camiseta preta que marcava seus ombros largos e se virou para ela.
— Vou buscar o café da manhã. Fique aqui, não faça esforço. Eu volto em dez minutos.
— Vini, eu só estou grávida, não estou doente — protestou ela, embora secretamente adorasse o cuidado excessivo dele. — Eu posso caminhar até o refeitório.
— Nem pensar — disse ele, o tom de voz assumindo aquela autoridade natural de alfa, embora seus olhos estivessem cheios de carinho. — O corredor está cheio de gente e o cheiro de fritura vai te fazer mal. Além disso, eu senti o Ricardo rondando o bloco de dormitórios mais cedo. Não quero você sozinha perto dele.
O semblante de Stefany escureceu um pouco. A hostilidade de alguns alfas da escola em relação ao relacionamento deles e à gravidez era um peso que ela tentava ignorar, mas que Vinícius carregava como uma armadura pronta para o combate.
— Ele não vai fazer nada, Vinícius. Ele tem medo de você.
— Ele tem medo do meu lobo — corrigiu Vinícius, pegando a chave do quarto. — Mas alfas como ele são covardes. Eles atacam onde dói mais. E você é o meu ponto fraco e a minha maior força ao mesmo tempo. Espere aqui.
Ele saiu, e o quarto pareceu subitamente grande demais sem a presença dele. Stefany levantou-se e foi até o espelho. Ela afastou o cabelo e olhou para a marca. Era incrível como a biologia dos lúpus funcionava. Ela, uma ômega comum, pequena e sem linhagem de poder, agora estava ligada ao alfa mais poderoso da instituição. Ela sentia as emoções dele através do vínculo: a determinação, o amor avassalador e, às vezes, uma pontada de ansiedade sobre o futuro.
Pouco tempo depois, a porta se abriu. Vinícius entrou carregando uma bandeja farta, mas seu rosto não estava tão relaxado quanto antes.
— O que aconteceu? — perguntou ela imediatamente, sentindo a tensão emanando dele.
Vinícius colocou a bandeja sobre a mesa e suspirou, passando a mão pelo cabelo curto.
— Meu pai ligou. Ele está vindo para a escola.
Stefany sentiu o coração falhar uma batida. O pai de Vinícius, o líder da Matilha do Sul, era uma lenda viva de rigor e poder.
— Ele sabe? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.
— Ele sabe que eu marquei uma ômega. Ele ainda não sabe sobre o filhote — Vinícius aproximou-se e segurou as mãos dela. — Ele quer uma reunião com o diretor e comigo. Ele acha que eu desperdicei o meu potencial.
— Vinícius, eu não quero ser o motivo de você brigar com a sua família — disse ela, as lágrimas começando a arder em seus olhos. — Talvez se eu falasse com ele...
— Não — interrompeu ele, firme. — Você não vai se expor a ele. Meu pai pode ser intimidador, e o seu estado agora exige paz. Eu vou lidar com ele. Eu só queria que você soubesse para não se assustar se vir os seguranças da matilha pelo campus.
Stefany assentiu, mas o apetite que sentia antes desapareceu. Ela sabia que a união de um lúpus com uma comum era vista por muitos como uma quebra de protocolo, quase um sacrilégio para as linhagens puras.
— Coma, Stef — pediu ele, empurrando um prato com frutas e pães frescos para ela. — Você precisa estar forte. Por você e por ele.
Eles comeram em silêncio, um silêncio carregado de pensamentos sobre o que estava por vir. Vinícius tentava projetar calma através do vínculo, mas Stefany podia sentir a tempestade se formando dentro dele. Para um alfa lúpus, a família era o centro de tudo, e a colisão entre a família em que ele nasceu e a família que ele estava criando seria inevitável.
No meio da tarde, o campus foi tomado por um silêncio incomum. Três SUVs pretos estacionaram em frente ao prédio administrativo. Deles, saíram homens altos, vestidos de forma impecável, mas com olhos que denunciavam a natureza selvagem. No centro deles estava um homem que era a imagem de Vinícius daqui a vinte anos: alto, com ombros maciços e um olhar que parecia capaz de perfurar aço.
Vinícius estava esperando na entrada. Ele não se encolheu diante da presença do pai. Pelo contrário, ele se endireitou, seus 1,81 de altura parecendo se expandir para igualar a autoridade do patriarca.
— Pai — cumprimentou Vinícius, inclinando a cabeça apenas o suficiente para mostrar respeito, mas não submissão.
— Vinícius — a voz do homem era um trovão contido. — O diretor me disse que você se recusa a participar dos treinos de elite ultimamente. E o cheiro de uma fêmea está impregnado em você de uma forma permanente. Você agiu por impulso.
— Eu agi por instinto e por amor — rebateu Vinícius, mantendo o contato visual. — A ômega que eu escolhi é a minha companheira. Não foi um erro.
O pai de Vinícius deu um passo à frente, e a pressão atmosférica ao redor deles pareceu mudar. Os outros alunos que observavam de longe recuaram.
— Uma ômega comum, Vinícius? Você é o futuro da nossa linhagem. Como espera liderar guerreiros lúpus tendo uma companheira que não pode nem suportar a pressão de um rosnado de guerra?
— Ela suportou o meu cio, pai — disse Vinícius, e sua voz subiu uma oitava, carregada de um aviso perigoso. — Ela suportou a força de um lúpus lúpus quando eu mesmo não conseguia me controlar. Ela é mais forte do que qualquer lúpus que o senhor tentou me empurrar. E há mais uma coisa que o senhor precisa saber.
O homem arqueou uma sobrancelha, o interesse surgindo por trás da máscara de severidade.
— Ela está carregando o meu herdeiro. Um herdeiro que já mostra sinais de ser um lúpus puro.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O pai de Vinícius pareceu processar a informação. Na biologia desse mundo, era extremamente raro que uma ômega comum concebesse de um lúpus na primeira tentativa, e mais raro ainda que o filhote herdasse o gene lúpus puro.
— Isso é impossível — murmurou o homem.
— Venha ver por si mesmo — disse Vinícius, embora seus músculos estivessem tensos, prontos para defender Stefany de qualquer julgamento.
Eles caminharam até o dormitório. Stefany estava sentada na pequena poltrona, lendo um livro para tentar acalmar os nervos. Quando a porta se abriu e ela viu o pai de Vinícius, seu primeiro instinto foi se encolher devido à diferença esmagadora de tamanho e poder. Mas então, ela sentiu a mão de Vinícius em seu ombro, e a força dele fluiu para ela.
Ela se levantou, mantendo a cabeça erguida, apesar de seus 1,52 de altura a fazerem parecer uma criança perto dos dois gigantes.
— Senhor — disse ela, a voz firme.
O pai de Vinícius não disse nada inicialmente. Ele se aproximou, e o cheiro dele — cinzas e tempestade — era sufocante. Ele parou a poucos centímetros dela e fechou os olhos, inspirando profundamente.
Para um alfa lúpus, o olfato não mentia. Ele sentiu o cheiro de baunilha de Stefany, mas, por baixo dele, sentiu a centelha vibrante e agressiva de uma nova vida lúpus. Era real. O sangue da sua linhagem estava ali, crescendo em um receptáculo que ele considerava frágil, mas que agora percebia ser resiliente.
— O cheiro não mente — disse o homem, abrindo os olhos. — O filhote é forte.
— Eu disse ao senhor — Vinícius interveio, colocando-se meio passo à frente de Stefany.
O pai de Vinícius olhou para o filho e depois para a pequena garota negra à sua frente. Havia um novo respeito em seu olhar, embora a frieza não tivesse desaparecido totalmente.
— Uma ômega comum que carrega um lúpus... você terá desafios físicos que nem imagina, garota. O peso dessa criança será demais para o seu corpo se não for cuidada com os nossos métodos.
— Eu vou cuidar dela — afirmou Vinícius.
— Você é um estudante — o pai bufou. — Você virá para a mansão da matilha nos fins de semana. Ela terá os melhores médicos e a dieta de uma rainha. Se esse filhote é o que eu sinto que é, ele é o futuro da nossa espécie.
Stefany olhou para Vinícius, buscando orientação. Ela sabia que isso significava entrar em um mundo de regras e tradições que ela não conhecia, mas também significava segurança para o seu bebê.
— Nós iremos — disse Stefany, surpreendendo os dois homens. — Mas Vinícius continua na escola. Ele vai terminar os estudos dele. Eu não vou ser o motivo para ele abandonar o futuro dele.
O pai de Vinícius soltou uma risada curta, algo que parecia um latido seco.
— Ela tem coragem, Vinícius. Eu lhe dou crédito por isso. Poucas pessoas teriam a audácia de ditar termos para mim.
— É por isso que eu a amo — disse Vinícius, sorrindo de lado.
Após a partida do pai, o quarto pareceu recuperar o oxigênio. Stefany sentou-se na cama, sentindo as pernas tremerem um pouco agora que a adrenalina estava baixando.
— Isso foi... intenso — comentou ela.
Vinícius ajoelhou-se à frente dela e pegou suas mãos.
— Você foi incrível. Eu sabia que ele veria a sua força. Agora, o caminho vai ser mais fácil. Ninguém na escola vai ousar tocar em você sabendo que meu pai deu o aval.
— Eu não fiz isso por ele, Vini. Fiz por nós.
— Eu sei — ele a puxou para um beijo longo e profundo, um beijo que selava não apenas o compromisso deles, mas o início de uma dinastia. — Você é pequena, Stefany, mas é a ômega mais poderosa que este mundo já viu.
A partir daquele dia, a vida na escola mudou. O respeito que Vinícius impunha agora se estendia a Stefany de uma forma quase reverencial. Eles não eram mais apenas o "casal estranho" de um lúpus e uma comum; eles eram o símbolo de que o amor e o instinto podiam quebrar as barreiras mais antigas da natureza.
Vinícius continuou sendo o protetor feroz, mas agora havia uma suavidade em seus gestos. Ele passava horas lendo sobre cuidados pré-natais para lúpus e garantia que Stefany tivesse tudo o que precisava. A diferença de 29 centímetros entre eles continuava sendo motivo de olhares curiosos, mas para eles, era apenas o encaixe necessário para que ela pudesse descansar a cabeça no peito dele e ouvir o coração que batia apenas por ela.
— Você acha que ele vai ser muito grande? — perguntou Stefany certa noite, enquanto observava Vinícius arrumar a bolsa dela para o dia seguinte.
— Provavelmente — brincou ele. — Mas não se preocupe. Eu vou estar lá para segurar a sua mão em cada passo. Se ele for metade do homem que eu pretendo ser para você, nós teremos um grande guerreiro ou uma grande líder em mãos.
— Eu só quero que ele seja feliz, Vini. Como nós somos.
Vinícius apagou a luz e deitou-se ao lado dela, puxando-a para o seu abraço protetor. O futuro estava cheio de incertezas, de reuniões de matilha e de desafios biológicos, mas ali, no silêncio do quarto, tudo o que importava era o calor da pele dela contra a dele e a promessa de uma vida que estava apenas começando. Eles haviam vencido o cio, vencido o preconceito e agora estavam prontos para vencer o mundo, um batimento cardíaco de cada vez.