Amor por acidente
Fitas Cor-de-Rosa e Grama Suja
A segunda-feira de manhã na escola sempre tinha um gosto de café forte e pressa, mas para Rafaella, aquela segunda tinha um brilho diferente. Ela caminhava pelo corredor principal com sua postura impecável, os livros pressionados contra o peito e um laço de fita cor-de-rosa prendendo metade do seu cabelo. No entanto, seus pensamentos não estavam na aula de Biologia que começaria em cinco minutos. Ela ainda conseguia sentir o formigamento nos lábios do beijo de sexta-feira e o calor das mãos de Augusto em sua cintura.
— Alerta de paixão! Alerta de paixão! — Uma voz estridente e animada ecoou atrás dela antes que um par de braços a envolvesse em um abraço apertado.
— Sofia! — Rafa riu, tentando se equilibrar. — Você vai me fazer derrubar meus resumos de anatomia.
Sofia, a personificação da energia caótica, soltou a amiga, mas continuou andando ao lado dela aos saltos. Seus olhos brilhavam com a curiosidade de quem vive para filmes de romance de Hollywood.
— Não tente mudar de assunto, Rafaella! Eu vi você chegando no estacionamento. Você estava sorrindo para o nada. E eu sei que não era para uma equação de segundo grau. Desembucha! Como foi o encontro com o Bad Boy Capitão?
Rafa sentiu as bochechas corarem instantaneamente. Ela olhou para os lados, verificando se ninguém estava ouvindo.
— Foi... diferente — admitiu Rafa, tentando manter a voz calma, embora seu coração estivesse acelerando. — Ele me levou naquela lanchonete retrô. Ele usou um terno, Sofia. Um terno!
Sofia parou no meio do corredor, levando as mãos ao rosto e soltando um grito abafado que atraiu olhares de vários alunos.
— Um terno? O Augusto? O cara que vive de regata e calça de moletom? — Sofia agarrou o braço de Rafa e a puxou para um canto perto dos armários. — Isso não é um encontro, Rafa. Isso é uma cena de "O Diário da Princesa". Ele está caidinho por você!
— Não exagera, Sofi. Nós só conversamos. E... bem, nós dançamos.
— Vocês dançaram? Sem música? No meio da lanchonete? — Sofia parecia prestes a desmaiar de emoção. — Isso é tão "A Barraca do Beijo"! Só falta você dizer que ele te defendeu de um valentão e te levou para ver o pôr do sol em uma moto.
Rafaella revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Ele me levou de moto para casa, sim. Mas não teve valentão nenhum. Ele foi um cavalheiro. O que é estranho, considerando que todo mundo diz que ele é um destruidor de corações.
— Talvez ele só estivesse esperando a garota certa para baixar a guarda — disse Sofia, subitamente séria, antes de voltar ao seu estado normal de euforia. — Ou talvez você tenha enfeitiçado ele com seus cronogramas e canetas coloridas!
As duas riram, mas o clima mudou quando um grupo de jogadores de futebol dobrou o corredor. No centro deles, como sempre, estava Augusto. Ele usava a jaqueta do time, caminhando com aquela confiança que irritava e atraía Rafa ao mesmo tempo. Quando seus olhos encontraram os dela, o sorriso de lado que ele exibia para os amigos vacilou e se transformou em algo mais suave, mais privado.
Ele parou de falar com os colegas e caminhou em direção às meninas. Os outros jogadores trocaram olhares e risadinhas, mas Augusto nem pareceu notar.
— Bom dia, Sofia — disse ele, educado, antes de focar totalmente em Rafa. — Bom dia, capitã. Dormiu bem?
Rafaella sentiu o peso do olhar dele. Era como se o corredor inteiro tivesse desaparecido.
— Bom dia, Augusto. Dormi bem, obrigada. E você? O "treinamento" de sexta não te deixou muito cansado?
Augusto soltou uma risada baixa, um som que pareceu vibrar no peito de Rafa.
— Digamos que eu tive ótimos sonhos que compensaram o cansaço.
Sofia soltou um suspiro audível ao lado delas, fazendo Rafa recuperar a compostura rapidamente.
— Bem, nós temos aula agora — disse Rafa, ajeitando a mochila. — E você também deveria estar indo. Não queremos que o capitão do time ganhe uma advertência por atraso logo na segunda-feira.
Augusto se inclinou um pouco, diminuindo a distância entre eles.
— Você não desliga nunca, não é? — Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho, tocou a ponta da fita no cabelo dela. — Te vejo no intervalo? No nosso lugar na biblioteca?
— Se você chegar no horário — desafiou ela, embora seus olhos estivessem brilhando.
— Dez minutos antes. Promessa de capitão — ele piscou, deu um aceno para Sofia e voltou para o seu grupo.
Assim que ele se afastou, Sofia começou a ventilar o rosto com as mãos.
— Meu Deus, Rafa! O ar ficou até pesado aqui. "Nosso lugar na biblioteca"? Vocês já têm um lugar? Eu vou ser a madrinha desse casamento, já estou avisando!
— Menos, Sofia. Muito menos — disse Rafa, embora estivesse lutando contra a vontade de sair pulando pelo corredor.
No entanto, o dia não seria apenas feito de sorrisos e fitas cor-de-rosa. Rafaella tinha um objetivo de vida muito claro: ser perita criminal. Ela amava a lógica, a justiça e a ordem. E, para isso, ela precisava de notas impecáveis e de uma reputação inabalável. No intervalo, enquanto caminhava para a biblioteca, ela ouviu seu nome ser mencionado em uma conversa atrás de uma das pilastras do pátio.
— ...sério, o Augusto está mesmo saindo com a Rafaella? Aquela menina que parece que saiu de um comercial de sabonete? — Era a voz de uma das líderes de torcida.
— Deve ser alguma aposta — respondeu outra voz, rindo. — Você conhece o Augusto. Ele gosta de desafios. Ganhar a "certinha" da escola deve ser o novo troféu dele. Logo ele cansa e volta para alguém que saiba se divertir.
Rafa parou. O sangue pareceu gelar em suas veias. Ela era uma menina de personalidade forte, não se deixava abalar por fofocas baratas, mas aquela palavra — "troféu" — ecoou em sua mente. Foi exatamente como ele a chamou na sexta-feira à noite. "O melhor troféu que eu poderia desejar".
Naquele momento, a dúvida, aquela semente venenosa, começou a brotar. Será que tudo o que aconteceu na lanchonete, o terno, as conversas profundas, tinha sido apenas uma estratégia de jogo?
Ela entrou na biblioteca com passos pesados. Augusto já estava lá, sentado na mesa de sempre, com dois cafés e um pacote de biscoitos que ela adorava. Ele sorriu ao vê-la, mas o sorriso dela não foi correspondido.
— Ei, você chegou bem na hora — disse ele, empurrando um dos cafés para ela. — Eu estava começando a achar que você ia me dar um bolo para eu aprender a ser mais pontual.
Rafaella se sentou, mas não tocou no café. Ela abriu o livro de História com uma força desnecessária.
— Vamos terminar a conclusão do trabalho, Augusto. Não temos muito tempo.
Augusto franziu a testa, percebendo a mudança brusca de temperatura no ambiente.
— Rafa? O que aconteceu? Dez minutos atrás você estava... bem, você estava normal. Agora parece que quer me prender em uma cela de isolamento.
— Eu só quero focar no que importa — disse ela, sem olhar para ele. — O trabalho. Nossa parceria é acadêmica, lembra?
Augusto fechou o livro que ela tinha acabado de abrir.
— Não, não é só acadêmica. Pelo menos não para mim depois de sexta à noite. O que houve? Alguém disse alguma coisa?
Rafaella finalmente o encarou. Seus olhos, geralmente doces, estavam afiados como navalhas.
— Eu ouvi as pessoas falando, Augusto. Sobre apostas. Sobre como eu sou o seu "novo desafio". E eu me lembrei de como você me chamou na sexta. De troféu.
Augusto estancou. O brilho de diversão em seus olhos desapareceu, substituído por uma expressão de choque e, logo em seguida, de uma irritação genuína.
— Você realmente acha que eu faria isso? — A voz dele era um sussurro rouco, mas carregado de mágoa. — Você acha que eu me daria ao trabalho de usar um terno, de te levar no lugar que eu mais gosto no mundo, de te contar coisas sobre o meu pai que eu não conto nem para os meus melhores amigos... por causa de uma aposta?
— Eu não sei o que pensar, Augusto! — Rafa exclamou, esquecendo por um segundo que estava em uma biblioteca. — Eu vivo em um mundo de fatos e evidências. E o fato é que você é o garoto mais popular da escola e eu sou... eu.
Augusto se levantou, mas não para ir embora. Ele deu a volta na mesa e se agachou ao lado da cadeira dela, ficando na altura dos seus olhos.
— Então olha para as evidências, perita — disse ele, segurando as mãos dela com firmeza. — A evidência número um: eu odeio usar terno, mas usei porque queria te impressionar. Evidência número dois: eu não deixo ninguém tocar na minha moto, mas eu te entreguei o capacete sem hesitar. E evidência número três...
Ele fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos dela.
— Eu chamei você de troféu porque, no meu mundo, um troféu é algo que você conquista com esforço, algo que você valoriza e protege. Foi uma escolha de palavras idiota de um cara que passa tempo demais em campos de futebol, eu admito. Mas nunca, em um milhão de anos, foi sobre uma aposta.
Rafaella sentiu a armadura que tinha construído ao redor do coração começar a rachar. A lógica dela dizia para ser cautelosa, mas a intuição — aquela voz baixinha que ela raramente ouvia — dizia que ele estava sendo sincero.
— As pessoas são malvadas, Rafa — continuou ele, sua voz suavizando. — Elas não entendem como a menina mais inteligente da escola pode estar com o bad boy que elas acham que conhecem. Elas querem criar drama onde só existe... bem, onde só existe a gente.
Rafa soltou um suspiro longo, sentindo o peso sair de seus ombros.
— Desculpa — murmurou ela, baixando a cabeça. — Eu odeio não ter o controle das situações. E o que eu sinto quando estou com você... eu não consigo organizar em pastas.
Augusto sorriu, aquele sorriso que fazia o estômago dela dar voltas, e usou o polegar para levantar o queixo dela.
— Bom saber que eu causo esse efeito na perita criminal. Significa que eu estou ganhando o jogo.
— Não comece com as metáforas de novo — ela riu, sentindo-se leve outra vez.
— Prometo tentar — ele disse, voltando para o seu lugar. — Agora, podemos terminar essa Revolução Industrial? Eu quero ter tempo de te levar para ver o treino hoje à tarde. Prometo que não vai ser chato.
— Só se você prometer que, se eu for, você vai ler o primeiro capítulo de "Guerra e Paz" comigo hoje à noite.
Augusto fez uma careta de dor, mas seus olhos brilhavam.
— Você é implacável, Rafaella.
— Eu avisei que não facilitava as coisas.
O restante do intervalo passou entre risadas e anotações rápidas. Eles terminaram o trabalho, mas nenhum dos dois parecia querer sair dali. Quando o sinal tocou, indicando o fim do intervalo, eles caminharam juntos até a porta da biblioteca.
Do lado de fora, Sofia estava esperando, roendo as unhas de ansiedade. Ao ver os dois saindo juntos e sorrindo, ela soltou um suspiro de alívio tão alto que Augusto riu.
— Ela está bem? — perguntou ele a Rafa.
— Ela só assiste a filmes de romance demais — explicou Rafa, dando um tchauzinho para ele.
Augusto se inclinou e deu um beijo rápido na bochecha de Rafa, perto do canto da boca, um gesto que fez o corredor inteiro parar por um segundo.
— Até mais tarde, capitã.
Rafa ficou ali, parada, observando-o se afastar. Sofia correu para o seu lado, agarrando seu braço.
— O que foi aquilo? Teve drama? Teve reconciliação? Eu vi as caras feias no começo!
— Teve realidade, Sofi — disse Rafa, começando a caminhar. — E a realidade é muito melhor do que os seus filmes.
À tarde, Rafaella cumpriu sua promessa. Ela se sentou na arquibancada, mas desta vez não trouxe livros. Ela observou Augusto liderar o time, ouviu os gritos do treinador e o som das chuteiras batendo na grama. Ela começou a entender a "estratégia e paixão" que ele mencionara. No final do treino, ele correu até ela, suado, ofegante e com um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira.
— E então? — perguntou ele, pegando a garrafa de água que ela estendia. — Ainda acha que é só um bando de garotos correndo atrás de uma bola?
— Eu acho que é um bando de garotos correndo atrás de uma bola... mas com uma coordenação motora impressionante — ela brincou, limpando uma mancha de grama do rosto dele com o polegar.
Augusto segurou a mão dela ali, no meio do campo, com todos os seus colegas de time olhando. Ele não se importava.
— Vamos? Temos um encontro com a literatura russa, infelizmente.
— Não seja dramático, Augusto. Você vai adorar o Tolstói.
— Se você ler para mim, eu leio até o dicionário — ele confessou, passando o braço pelos ombros dela enquanto caminhavam para o estacionamento.
Naquela noite, sentados na varanda da casa de Rafa, com o livro aberto entre eles e o som dos grilos ao fundo, o contraste entre a menina delicada e o bad boy parecia não existir mais. Eles eram apenas dois jovens descobrindo que, às vezes, o trabalho mais difícil e importante não é o de História ou o de Biologia, mas o de permitir que outra pessoa entre no seu mundo e mude todas as suas certezas.
— Rafa? — chamou Augusto, interrompendo a leitura dela.
— Sim?
— Obrigado por me fazer fazer aquele trabalho com você. Foi a melhor punição que eu já recebi.
Rafaella sorriu, encostando a cabeça no ombro dele.
— Não foi uma punição, Augusto. Foi um experimento. E, como perita, eu diria que os resultados são altamente positivos.
Ele a beijou no topo da cabeça, e ali, sob a luz da lua, Rafa percebeu que, embora amasse a ordem, havia uma beleza indescritível no caos de se apaixonar por alguém que era o seu exato oposto. O laço cor-de-rosa em seu cabelo podia ser delicado, mas o que ela sentia por Augusto era forte o suficiente para enfrentar qualquer fofoca, qualquer aposta e qualquer desafio que a vida escolar pudesse lançar em seu caminho. Afinal, as melhores histórias de amor não seguem um roteiro; elas são escritas no improviso de um riso compartilhado e na coragem de ser exatamente quem se é.