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Amor por acidente

Vestígios de Batom e Pó de Café

A quarta-feira amanheceu com aquele céu cinzento que prometia uma tempestade típica de final de tarde, mas para Rafaella, o clima dentro da sala de aula estava muito mais instável. Ela estava sentada em sua mesa habitual, na terceira fileira, com o estojo perfeitamente alinhado à borda do caderno. No entanto, sua caneta, em vez de anotar as propriedades dos compostos orgânicos que o professor explicava, girava incessantemente entre seus dedos.

O trabalho de História havia sido entregue no dia anterior. A "desculpa" oficial para passar horas com Augusto havia acabado. Agora, eles estavam naquele território estranho e perigoso onde não havia mais roteiros acadêmicos para seguir.

— Rafa, se você girar essa caneta mais uma vez, ela vai decolar e atingir a nuca do professor — sussurrou Sofia, inclinando-se para o lado. — O que foi? O Bad Boy não mandou mensagem de "bom dia"?

Rafaella suspirou, deixando a caneta cair sobre o papel.

— Ele mandou, Sofi. Às seis da manhã. Uma foto de uma caneca de café com a legenda "Tolstói é mais difícil que treino de perna".

Sofia abafou uma risadinha com a mão.

— Então qual é o problema? Você deveria estar radiante.

— O problema é que eu não sei o que somos agora — confessou Rafa, a voz baixa e carregada de uma vulnerabilidade que ela raramente mostrava. — Ontem, depois que entregamos o trabalho, ele me deu um beijo rápido no corredor e disse "a gente se fala". "A gente se fala", Sofia! Isso é o código universal para "foi legal enquanto durou o projeto".

— Ou é o código para "estou atrasado para o treino e não quero que o treinador me mate" — rebateu a amiga, sempre otimista. — Relaxa, perita. O crime ainda está sendo investigado. Não tire conclusões precipitadas sem provas concretas.

Rafa sorriu levemente, mas a dúvida continuava lá. Ela era uma menina que precisava de definições. Gostava de rótulos, de pastas com etiquetas e de saber exatamente onde pisava. E Augusto era como areia movediça: fascinante, mas impossível de prever.

Quando o sinal para o intervalo tocou, Rafa sentiu um frio na barriga. Ela caminhou em direção à cafeteria, mas seus olhos buscavam automaticamente a jaqueta de couro ou o uniforme do time. Nada. Ela se sentou em uma mesa afastada com Sofia, tentando se concentrar em sua maçã fatiada.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse Sofia, dando uma cotovelada nada sutil na amiga.

Rafa levantou o olhar e viu Augusto entrando no refeitório. Ele não estava sozinho. Estava cercado por dois outros jogadores e por um grupo de meninas que pareciam gravitar ao redor dele como se ele fosse o sol. Uma delas, uma garota loira chamada Bianca, que sempre fora abertamente interessada nele, ria de algo que ele dizia, tocando o braço dele com uma familiaridade que fez o estômago de Rafa afundar.

Augusto parecia distraído, mas quando seus olhos varreram o salão e encontraram os de Rafa, ele parou de rir instantaneamente. Ele disse algo para o grupo e começou a caminhar na direção dela.

— Ih, lá vem ele — murmurou Sofia, levantando-se. — Vou pegar um suco. Divirtam-se com a DR.

Augusto chegou à mesa e sentou-se na cadeira que Sofia acabara de vagar. Ele parecia cansado, com olheiras leves sob os olhos castanhos.

— Oi, capitã — disse ele, a voz um pouco mais rouca que o normal.

— Oi, Augusto — respondeu Rafa, mantendo a voz neutra, embora quisesse exigir explicações sobre quem era a loira do braço dele. — Achei que estivesse ocupado com seu fã-clube.

Augusto soltou um suspiro e passou a mão pelo cabelo bagunçado.

— Não começa, Rafa. A Bianca estava apenas perguntando sobre o jogo de amanhã. O pai dela é um dos patrocinadores do time, eu tenho que ser educado.

— Ah, claro. Educação é fundamental — ironizou ela, fechando sua lancheira com um estalo seco.

Augusto inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— Eu passei a noite inteira lendo aquela droga de livro que você me deu. "Guerra e Paz" tem mais páginas do que eu já li em toda a minha vida somada. Eu estou exausto, com dor de cabeça e a única coisa que eu queria era um pouco de paz com a garota que me faz ler clássicos russos. Por que você está armada?

Rafaella sentiu uma pontada de culpa. Ela olhou para ele e viu que ele realmente parecia exausto.

— Eu só... eu achei que, agora que o trabalho acabou, você voltaria para a sua vida normal. Aquela vida onde você é o centro das atenções e eu sou apenas a menina que te ajudou a não reprovar.

Augusto ficou em silêncio por um momento, observando-a. O barulho do refeitório parecia ter diminuído para os dois.

— Rafa, olha para mim — pediu ele, e ela obedeceu. — Você acha mesmo que eu sou tão superficial assim? Que eu passaria por tudo o que passamos nas últimas semanas só por uma nota?

— Eu não sei o que pensar, Augusto. Eu sou perita, lembra? Eu trabalho com evidências. E a evidência é que somos de mundos completamente diferentes.

— Então vamos criar um mundo novo — disse ele, segurando a mão dela sobre a mesa, sem se importar com os olhares curiosos ao redor. — Um mundo onde o capitão do time lê literatura russa e a menina mais inteligente da escola aceita que, às vezes, as coisas não precisam de um cronograma.

Rafa sentiu a tensão deixar seu corpo. Ela apertou a mão dele de volta.

— Tudo bem. Mas você ainda não terminou o livro.

— Eu sei, eu sei! — Ele riu, relaxando os ombros. — Mas eu tenho uma ideia melhor para hoje à tarde. O treino foi cancelado porque o campo vai passar por manutenção. O que você acha de irmos a um lugar que eu quero te mostrar?

— Outro lugar com milkshake? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Não. Um lugar onde você vai precisar usar suas habilidades de observação.

— Isso soa como um desafio.

— E é. Passo na sua casa às quatro. E Rafa? — Ele se levantou, mas antes de sair, inclinou-se e sussurrou perto do ouvido dela: — Você fica linda quando está com ciúmes, mas não precisa. Ninguém chega perto do que você é para mim.

Ele se afastou, deixando Rafaella sem palavras e com o coração batendo em um ritmo frenético. Sofia voltou para a mesa segundos depois, com um sorriso de orelha a orelha.

— Pela sua cara, a investigação teve uma reviravolta positiva — disse a amiga, roubando um pedaço da maçã de Rafa.

— Ele é impossível, Sofia. Completamente impossível.

Às quatro horas em ponto, o ronco da moto de Augusto ecoou na rua de Rafa. Ela saiu de casa usando um jeans confortável, uma blusa de seda branca e seu inseparável laço no cabelo, desta vez azul marinho. Augusto estava encostado na moto, usando uma camiseta branca simples que realçava seus braços e a jaqueta de couro por cima.

— Pronta para o mistério? — perguntou ele, entregando o capacete.

— Sempre — respondeu ela, subindo na garupa e abraçando a cintura dele.

Eles dirigiram por cerca de vinte minutos, saindo do centro da cidade e subindo em direção a uma área mais arborizada, onde ficava uma antiga estação de trem desativada que havia sido transformada em um centro cultural e parque. O lugar era lindo, com trilhos cobertos por trepadeiras e vagões antigos restaurados.

— Por que aqui? — perguntou Rafa, descendo da moto e olhando ao redor com curiosidade.

— Porque aqui é onde eu venho quando preciso de silêncio — explicou Augusto, guardando os capacetes. — E porque tem algo que eu quero que você veja.

Ele a conduziu por uma trilha lateral até chegarem a um vagão de carga que parecia abandonado, mas cujas paredes externas estavam cobertas por grafites impressionantes. Não eram apenas pichações; eram obras de arte reais, com cores vibrantes e formas complexas.

— Olha aquele ali — disse Augusto, apontando para um canto do vagão.

Rafaella se aproximou e sentiu o fôlego escapar. No meio de tantas cores, havia um desenho menor, mais delicado. Era a silhueta de uma menina sentada em uma pilha de livros, e no cabelo dela, um laço perfeitamente desenhado em tons de rosa.

— Você fez isso? — sussurrou ela, virando-se para ele.

Augusto coçou a nuca, parecendo subitamente tímido.

— Eu venho aqui às vezes para desenhar. É o meu segredo. Ninguém no time sabe, meu pai não sabe... eles acham que eu só sei chutar uma bola. Mas depois que te conheci, eu senti que precisava colocar isso para fora. Você é a minha inspiração, Rafa.

Rafa sentiu lágrimas de emoção arderem em seus olhos. Ela tocou o desenho com a ponta dos dedos, sentindo a textura da tinta seca.

— É a coisa mais linda que alguém já fez para mim, Augusto. Por que você esconde isso? É um talento incrível.

— Porque no meu mundo, ser um artista não combina com ser o "Bad Boy Capitão" — ele deu de ombros, aproximando-se dela. — Mas com você, eu sinto que posso ser os dois. Ou nenhum dos dois. Posso ser apenas o Augusto.

Rafaella se virou e envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para um beijo profundo. Ali, entre os trilhos antigos e a arte escondida, todas as dúvidas dela desapareceram. Não importavam as etiquetas, os mundos diferentes ou as expectativas dos outros.

— Eu adoro o Augusto artista — sussurrou ela contra os lábios dele. — Mas ainda vou te obrigar a terminar o Tolstói.

— Eu já imaginava — ele riu, abraçando-a com força.

Eles passaram o resto da tarde sentados nos trilhos, conversando sobre coisas que nunca tinham dito a ninguém. Augusto contou sobre como a pressão para ser o melhor no futebol às vezes o sufocava, e Rafa falou sobre seu medo de não ser boa o suficiente na carreira que escolheu, apesar de todo o seu esforço.

— Sabe o que eu acho? — disse Augusto, brincando com os dedos dela. — Acho que você vai ser a melhor perita que este país já viu. Você não deixa nenhum detalhe passar. Nem mesmo os detalhes do meu coração.

— E eu acho que você deveria mostrar sua arte para o mundo — rebateu ela. — Mas, por enquanto, gosto de saber que este é o nosso segredo.

O sol começou a se pôr, pintando o céu de tons de dourado e fogo. O silêncio da estação desativada era preenchido apenas pelo som do vento nas árvores e pela respiração compassada dos dois.

— Rafa? — chamou ele, depois de um tempo.

— Hum?

— Amanhã tem o jogo mais importante da temporada. É a semifinal.

— Eu estarei lá — prometeu ela, sem hesitar. — Na primeira fileira. Com o meu laço mais bonito.

— Eu não quero que você esteja lá apenas como "a menina que me ajudou no trabalho" — disse ele, levantando-se e puxando-a junto. — Eu quero que todos saibam.

— Saibam o quê? — perguntou ela, o coração acelerando.

— Que você é a razão pela qual eu estou jogando melhor. Que você é a dona da jaqueta que eu vou te dar depois do jogo.

Rafaella sorriu, sentindo uma felicidade pura transbordar.

— Isso soa como um compromisso oficial, capitão.

— E é. Se você aceitar um cara meio bagunçado, que se atrasa às vezes, mas que desenha laços cor-de-rosa em vagões de trem.

— Eu aceito — disse ela, ficando na ponta dos pés para beijá-lo novamente. — Contanto que você aceite uma menina mandona, que organiza sua vida em pastas e que não vai te deixar desistir de ser quem você realmente é.

— Fechado — ele selou o acordo com um beijo calmo e cheio de promessas.

No caminho de volta, o vento batia no rosto de Rafa, e ela se sentia mais viva do que nunca. Ela percebeu que a vida não era um crime a ser resolvido ou um caso a ser encerrado. Era uma sucessão de momentos imprevistos que, quando vividos com a pessoa certa, faziam todo o sentido, mesmo sem uma explicação lógica.

Ao chegar em casa, Augusto a acompanhou até a porta.

— Te vejo amanhã no campo?

— Com certeza. E Augusto?

— Sim?

— Estude o capítulo dois. Vou te fazer perguntas depois do jogo.

Augusto soltou uma gargalhada que ecoou pela rua silenciosa, subiu na moto e partiu, deixando para trás o cheiro de asfalto e adrenalina que agora era o perfume favorito de Rafa.

Ela entrou em casa, subiu para o quarto e abriu seu diário. Pela primeira vez, ela não escreveu uma lista de tarefas ou um cronograma de estudos. Ela apenas desenhou um pequeno laço azul e, ao lado dele, uma bola de futebol cercada por corações.

A lógica podia ser sua profissão, mas Augusto era sua paixão. E, para Rafaella, aquela era a conclusão mais perfeita que qualquer investigação poderia alcançar. O trabalho de História havia terminado, mas a história deles estava apenas começando a ser escrita, capítulo por capítulo, entre o suor do campo e a delicadeza de uma fita de seda.