Amor por acidente
O Brilho da Vitória e o Peso do Segredo
O sol da tarde de quinta-feira incidia sobre o gramado da escola com uma intensidade que parecia aumentar a pressão atmosférica. O estádio estava mais barulhento do que nunca. Bandeiras eram agitadas, a banda marcial ensaiava os últimos acordes e o cheiro de grama cortada misturava-se ao de pipoca. Para a maioria, era apenas a semifinal do campeonato regional. Para Rafaella, era o dia em que o mundo perfeitamente organizado que ela construíra colidiria, de uma vez por todas, com o caos barulhento de Augusto.
Ela estava sentada na primeira fileira da arquibancada, exatamente como prometera. Usava um vestido azul-claro, leve, e um laço de fita de gorgorão da mesma cor prendendo o cabelo. Ao seu lado, Sofia parecia ter tomado três doses de café puro, balançando as pernas freneticamente.
— Rafa, olha ali! — Sofia apontou para o campo. — Ele não para de olhar para cá. Se ele tropeçar na bola porque está te secando, o treinador vai ter um ataque cardíaco.
Rafaella olhou para baixo e viu Augusto. Ele estava no meio do aquecimento, mas sua cabeça estava virada para a arquibancada. Quando seus olhos encontraram os dela, ele abriu aquele sorriso de canto, o mesmo que costumava irritá-la e que agora fazia seu estômago dar piruetas. Ele levou dois dedos à testa, em uma saudação militar brincalhona, e voltou a focar no exercício.
— Ele parece focado — comentou Rafa, tentando manter a voz estável.
— Ele parece apaixonado, que é muito mais perigoso para a defesa adversária — brincou Sofia. — Mas sério, Rafa... você está pronta? Todo mundo está comentando. A Bianca e as amigas dela estão ali na esquerda olhando para você como se você fosse uma prova de cálculo surpresa.
Rafaella olhou de relance para o grupo das líderes de torcida. Bianca realmente não parecia feliz. A garota segurava os pompons com uma força que indicava que ela preferiria estar segurando o pescoço de alguém.
— Eu não me importo com a Bianca, Sofi. Eu sou perita, lembra? Eu foco nos fatos. E o fato é que eu estou aqui por ele.
O apito inicial ecoou, cortando o ar. O jogo começou com uma agressividade que Rafa nunca tinha presenciado. Augusto era um raio em campo. Ele não era apenas rápido; ele era estratégico. Ela conseguia ver o "Augusto artista" agindo ali, antecipando os movimentos dos adversários como se estivesse esboçando uma pintura antes mesmo de tocar o pincel na tela.
No entanto, o time adversário, o Colégio Saint Jude, era conhecido por jogar sujo. No segundo tempo, com o placar empatado em 1 a 1, a tensão atingiu o ápice. Durante uma disputa de bola perto da lateral, o capitão do Saint Jude deu um tranco desnecessário em Augusto, que caiu pesadamente sobre o ombro.
Rafaella levantou-se num salto, o coração na garganta.
— Ele se machucou! — exclamou ela, as mãos apertando a grade de metal.
— Calma, Rafa. Ele é durão — disse Sofia, embora também parecesse preocupada.
Augusto ficou no chão por alguns segundos, o rosto contraído em uma careta de dor. O juiz marcou a falta, mas não deu cartão. Augusto recusou a ajuda da equipe médica, levantando-se sozinho e girando o ombro com cautela. Ele olhou para a arquibancada, localizou Rafa e deu um aceno imperceptível, como se dissesse: "estou bem, não surte".
Ela respirou fundo, sentindo o ar voltar aos pulmões. O jogo continuou, e a agressividade só aumentou. Faltando apenas cinco minutos para o fim, Augusto recebeu um passe longo. Ele driblou dois defensores com uma agilidade impressionante e, mesmo com o ombro visivelmente dolorido, chutou de fora da área. A bola descreveu uma parábola perfeita, batendo no travessão antes de estufar a rede.
O estádio explodiu.
Rafaella não percebeu que estava gritando até que sua garganta começou a arder. Sofia a abraçava e pulava, enquanto os jogadores cercavam Augusto em uma pilha humana de comemoração.
Quando o apito final soou, consolidando a vitória de 2 a 1, a euforia tomou conta. Os alunos começaram a invadir o campo. Rafa hesitou por um momento, mas sentiu o empurrão de Sofia.
— Vai lá, capitã! O seu prêmio está te esperando.
Rafaella desceu as escadas e atravessou o gramado. O cheiro de suor e adrenalina era forte, mas ela não se importou. Augusto estava no centro do círculo central, ofegante, o cabelo ensopado e a camisa suja de terra. Quando ele a viu se aproximar, abriu caminho entre os colegas de time.
— Você veio — disse ele, a voz entrecortada pelo cansaço, mas cheia de satisfação.
— Eu disse que viria — respondeu ela, sorrindo. — Você foi incrível, Augusto. Aquele gol foi... uma obra de arte.
Augusto não disse nada. Ele simplesmente a segurou pela cintura e a levantou do chão, girando-a no ar. Quando a colocou de volta, ele não recuou. Sob o olhar de toda a escola, dos professores e das câmeras dos celulares, ele tirou a jaqueta do time — aquela que era o símbolo máximo de seu status — e a colocou sobre os ombros de Rafa.
— Agora é oficial — murmurou ele, a testa encostada na dela. — Você é a minha garota.
Rafaella sentiu o peso da jaqueta, que era grande demais para ela e cheirava a ele. Ela sabia que aquele gesto era uma declaração pública. Não havia mais segredos, não havia mais "trabalho de história".
— Eu espero que você esteja pronto para as consequências disso — brincou ela, embora seus olhos estivessem brilhando de emoção.
— Eu aguento qualquer consequência, contanto que você esteja na minha torcida.
Eles foram interrompidos pelos gritos dos jogadores que queriam levar Augusto para o vestiário para comemorar, mas ele segurou a mão de Rafa por mais um segundo.
— Me espera no estacionamento? Eu só preciso de um banho e de colocar esse ombro no gelo.
— Estarei lá. Dez minutos antes — ela piscou, usando a frase dele.
Augusto riu e correu em direção aos vestiários. Rafaella começou a caminhar para fora do campo, sentindo-se flutuar, mas a bolha de felicidade foi levemente cutucada quando ela cruzou o caminho de Bianca. A líder de torcida a encarou com um desprezo mal disfarçado.
— Aproveite enquanto dura, Rafaella — disse Bianca, cruzando os braços. — O Augusto gosta da novidade. Mas garotas como você não sobrevivem muito tempo no mundo dele.
Rafa parou. Ela ajustou a jaqueta de Augusto em seus ombros e olhou para Bianca com a calma de quem já resolveu um caso difícil.
— Engraçado você dizer isso, Bianca. Porque, de onde eu venho, o que importa não é "sobreviver" ao mundo de alguém, mas sim construir um mundo novo juntos. E, pelo que eu vi hoje, o Augusto está muito interessado na arquitetura do nosso mundo.
Ela não esperou resposta. Deixou Bianca para trás e foi encontrar Sofia, que a esperava com um sorriso vitorioso.
— Aquela foi a melhor resposta que eu já vi na vida! — exclamou Sofia. — Você deveria ser advogada, não perita.
— Às vezes, as duas coisas andam juntas — riu Rafa.
Cerca de quarenta minutos depois, o estacionamento estava começando a esvaziar. Rafaella estava encostada na moto de Augusto quando ele apareceu. Ele usava uma calça de moletom e uma camiseta preta, e seu braço direito estava imobilizado por uma tipoia improvisada.
— O ombro está tão ruim assim? — perguntou ela, aproximando-se com preocupação.
— O médico disse que é só uma luxação leve. Gelo e repouso por alguns dias. O problema é que eu não vou conseguir dirigir a moto.
— Bom, então é uma sorte que eu tenha vindo com o carro da minha mãe hoje — disse ela, tirando as chaves do bolso. — Eu te levo para casa, capitão.
— Você dirigindo para mim? Isso vai ferir o meu ego de bad boy — ele brincou, mas aceitou a ajuda.
O trajeto até a casa de Augusto foi tranquilo. A noite estava fresca e o rádio tocava uma música suave. Quando chegaram à frente da casa dele, uma construção moderna e imponente, Augusto não desceu imediatamente.
— Meus pais não estão em casa — disse ele, olhando para a janela escura. — Eles foram viajar a negócios. De novo.
Rafa notou a nota de tristeza na voz dele. Ela sabia que, apesar de toda a popularidade, Augusto se sentia sozinho naquela casa grande.
— Você quer que eu entre um pouco? Posso te ajudar com o gelo.
— Eu adoraria.
A casa de Augusto era exatamente como Rafa imaginara: elegante, mas fria. Havia troféus de futebol em várias prateleiras, mas poucas fotos de família. Eles foram para a cozinha, onde Rafaella, com sua eficiência habitual, preparou uma bolsa de gelo.
— Senta aí — ordenou ela, apontando para uma das banquetas da ilha da cozinha.
Augusto obedeceu, observando-a se movimentar.
— Você é muito boa nisso — comentou ele. — Cuidando das coisas.
— Eu gosto de consertar o que está quebrado — respondeu ela, colocando o gelo com cuidado sobre o ombro dele. — Seja um argumento de história ou um capitão de futebol teimoso.
Augusto soltou um gemido de alívio quando o frio atingiu o local inflamado.
— Rafa... sobre o que a Bianca disse no campo...
— Você ouviu? — perguntou ela, surpresa.
— Eu não precisei ouvir. Eu conheço a Bianca. Ela é previsível. Eu só queria que você soubesse que ela está errada. Você não é uma "novidade". Você é a primeira pessoa que me fez querer ser alguém melhor.
Rafaella parou o que estava fazendo e olhou para ele. A luz da cozinha refletia nos olhos castanhos de Augusto, tornando-os mais claros, quase cor de mel.
— Eu sei, Augusto. Eu não acreditaria nela, mesmo que você não dissesse nada. Eu confio no que eu vejo. E o que eu vi ontem na estação de trem... aquilo foi a prova real.
Augusto usou a mão boa para puxá-la para mais perto, fazendo-a ficar entre suas pernas.
— Eu terminei o primeiro capítulo de "Guerra e Paz" — sussurrou ele. — Quer que eu te conte o que eu achei?
— Agora? — ela riu. — Você acabou de ganhar uma semifinal e está com o ombro gelado. Tem certeza de que quer falar sobre literatura russa?
— Eu quero falar sobre qualquer coisa, contanto que seja com você. Mas, para ser sincero, eu achei que o conde Bezukhov é um cara meio perdido, tentando encontrar um propósito em um mundo que só se importa com títulos.
Rafaella arregalou os olhos, genuinamente impressionada.
— Augusto... essa é uma análise brilhante.
— Viu? Eu presto atenção quando a professora é exigente — ele piscou.
Eles ficaram ali por um longo tempo, conversando em voz baixa. Rafaella acabou preparando um sanduíche para ele, já que Augusto mal conseguia usar os talheres. Havia uma intimidade nova entre eles, algo que ia além da atração física. Era o conforto de serem eles mesmos, sem as máscaras que a escola exigia.
— Eu preciso ir — disse Rafa, finalmente, olhando para o relógio. — Minha mãe vai começar a achar que eu fui sequestrada pelo time adversário.
— Tudo bem. Eu te acompanho até a porta.
Eles caminharam até a entrada da casa. Antes de sair, Rafaella se virou para ele.
— Melhore logo desse ombro. Temos a final na semana que vem.
— Eu estarei lá. Com ou sem tipoia.
— E Augusto? — ela hesitou por um segundo. — Obrigada pela jaqueta. Eu vou guardá-la com muito cuidado.
— Não guarde — disse ele, aproximando-se para um beijo de despedida. — Use. Eu quero que todo mundo saiba de quem você é.
O beijo foi doce e demorado, com gosto de promessa e de vitória. Quando Rafaella entrou em seu carro e dirigiu para casa, ela sentiu que sua vida tinha mudado de uma forma irreversível. Ela ainda era a menina delicada que amava a ordem e sonhava em ser perita, mas agora havia um elemento novo em sua equação: um garoto de jaqueta de couro que pintava laços em vagões de trem e que a desafiava a ver a beleza no que não podia ser controlado.
Ao chegar em seu quarto, ela pendurou a jaqueta de Augusto no cabide principal de seu armário, bem ao lado de seus vestidos passados. O contraste era engraçado, quase ridículo, mas para Rafa, era perfeito.
Ela abriu seu caderno de anotações e, na última página, escreveu uma única frase:
"Evidência conclusiva: O amor não segue regras, mas é a única coisa que realmente coloca o mundo no lugar."
Ela adormeceu pouco depois, com um sorriso nos lábios, sonhando com campos de futebol, estações de trem e olhos cor de mel que prometiam que o melhor da história ainda estava por vir. Afinal, se a Revolução Industrial mudou o mundo, Augusto tinha acabado de mudar o dela. E aquela era uma análise que ela estava ansiosa para continuar desenvolvendo, capítulo por capítulo.