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Amor real

Entre o Desejo e a Vigilância

O quarto de Tatsuyo era o único lugar do mundo onde o caos lá fora parecia perder a força. Era um refúgio de cores suaves, luzes quentes e o cheiro reconfortante de lavanda que ela usava para acalmar os sentidos. Naquela noite, o silêncio era preenchido apenas pelo som da respiração ritmada de Kuro e pelo roçar suave de tecidos.

Kuro estava sentado na beirada da cama, puxando Tatsuyo para entre suas pernas. Ele a olhava com uma intensidade que a fazia esquecer, por alguns instantes, a hipersensibilidade de sua pele. Para Tatsuyo, o toque de Kuro era diferente de qualquer outro; não era uma agressão sensorial, era um ancoramento.

— Você está tão linda hoje, Tatsu — sussurrou Kuro, afastando uma mecha de cabelo preto do rosto dela. — Gosto de como você fica relaxada quando estamos só nós dois.

Tatsuyo sorriu, sentindo o calor subir pelas bochechas. Ela deslizou as mãos pelos ombros largos dele, sentindo os músculos firmes sob a camiseta de algodão.

— É porque você me faz sentir segura — ela respondeu, a voz baixa. — Com você, o mundo não parece tão barulhento.

Kuro não resistiu. Ele inclinou o corpo e selou seus lábios nos dela. Começou como um beijo casto, mas logo a urgência tomou conta. A mão de Kuro desceu para a cintura de Tatsuyo, puxando-a para mais perto, enquanto ela entrelaçava os dedos nos cabelos brancos e arrepiados dele. O capitão do time de hóquei, geralmente tão cheio de piadinhas e energia explosiva, agora era pura ternura e desejo contido.

Eles se deitaram lentamente sobre a colcha macia. O coração de Tatsuyo batia forte, mas não era o pânico de uma crise; era a adrenalina do amor. Kuro começou a beijar o pescoço dela, descendo para a clavícula, as mãos subindo por baixo da blusa dela com uma hesitação respeitosa, esperando qualquer sinal de desconforto.

— Posso? — ele murmurou contra a pele dela.

Tatsuyo assentiu, fechando os olhos. Ela se sentia pronta. O desejo por Kuro era a única coisa que conseguia silenciar as vozes críticas em sua cabeça e a ansiedade constante de ser "perfeita" para o irmão e para o pai ausente.

No entanto, o destino — ou melhor, um irmão de onze anos — tinha outros planos.

Sem qualquer aviso ou batida prévia, a porta do quarto se escancarou.

— Tatsu! Onde você guardou o meu carregador de...

O estrondo da porta batendo contra a parede foi como um tiro de canhão para os ouvidos sensíveis de Tatsuyo. Em um reflexo puramente defensivo, ela e Kuro se afastaram como se tivessem levado um choque elétrico. Kuro rolou para o lado, caindo sentado no chão com uma agilidade impressionante, enquanto Tatsuyo se sentou rapidamente, puxando a barra da blusa e tentando alisar o cabelo bagunçado.

Nico parou no batente da porta, os olhos estreitos e a expressão carregada de desconfiança. Ele olhou para a irmã, que estava ofegante e com o rosto vermelho, e depois para Kuro, que tentava inutilmente fingir que estava apenas... examinando o tapete.

— O que vocês estavam fazendo? — Nico perguntou, cruzando os braços. A voz dele estava carregada daquele tom inquisidor que só os irmãos mais novos possuem.

— Nada! — responderam os dois em uníssono, o que só serviu para aumentar a suspeita do menino.

— Por que a luz está tão baixa? E por que o Kuro está no chão? — Nico deu um passo para dentro do quarto, farejando o ar como um detetive mirim.

— Eu... eu perdi uma moeda! — Kuro disparou, forçando um sorriso amarelo e começando a tatear o chão freneticamente. — Sabe como é, Nico, o dinheiro está curto e eu não posso perder nem um centavo. Achei que tinha caído debaixo da cama da sua irmã.

Nico arqueou uma sobrancelha, olhando para Kuro com um desprezo mal disfarçado.

— Você é muito estranho, Hatake. E Tatsu, por que você está tão vermelha? Está tendo uma crise?

Tatsuyo respirou fundo, tentando estabilizar o ritmo cardíaco. Ela odiava mentir para o "bebê" dela, mas não havia como explicar a situação.

— Não, Nico. Eu só... estava ajudando o Kuro a procurar a moeda. Estava calor aqui dentro. O que você queria?

— Meu carregador. Eu não acho em lugar nenhum e preciso carregar o tablet para terminar a fase do jogo — Nico resmungou, embora seus olhos ainda estivessem fixos nos lábios inchados da irmã.

— Está na gaveta da cozinha, Nico. Eu guardei lá para você não perder — disse Tatsuyo, tentando manter a voz firme.

Nico hesitou. Ele sentia que algo estava errado, um clima pesado e elétrico que ele não conseguia identificar totalmente. Sua vergonha pela irmã muitas vezes se transformava em um instinto superprotetor agressivo quando Kuro estava por perto.

— Sei... — Nico estreitou os olhos para Kuro mais uma vez. — Se eu descobrir que você estava incomodando ela, eu conto pro papai. E não importa que ele nunca saia do quarto, eu vou berrar na porta dele.

— Eu nunca incomodaria a Tatsu, pirralho. Você sabe disso — Kuro respondeu, levantando-se e limpando a poeira das calças, recuperando um pouco de sua postura de capitão.

Nico soltou um "tsc" sonoro e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si com força. O som fez Tatsuyo encolher os ombros e levar as mãos às orelhas por um segundo.

Kuro esperou alguns instantes, ouvindo os passos de Nico se afastarem pelo corredor até o som da porta da cozinha abrindo. Ele soltou um suspiro longo e pesado, passando a mão pelo rosto.

— Essa foi por pouco — comentou Kuro, soltando uma risada nervosa. — O seu irmão tem radar para momentos inadequados.

Tatsuyo soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ela olhou para as próprias mãos; as unhas estavam perigosamente perto da pele, prontas para cravar caso o estresse aumentasse, mas ela se forçou a relaxar.

— Ele é protetor — ela disse, com um meio sorriso. — E ele não gosta da ideia de eu estar crescendo.

Kuro caminhou até a porta. Com um movimento decidido, ele girou a chave na fechadura. O clique metálico ecoou no quarto, selando o mundo exterior do lado de fora. Ele se virou para ela, e a brincadeira havia sumido de seus olhos castanhos, substituída por algo muito mais profundo.

— Agora — disse ele, voltando para a cama —, sem interrupções.

Ele se aproximou de Tatsuyo novamente, mas desta vez foi mais lento. Ele pegou as mãos dela, beijando as palmas com delicadeza, garantindo que ela estivesse presente e confortável.

— Você ainda quer? — perguntou ele, a voz rouca. — Se o susto cortou o clima, a gente pode só ficar abraçado. Eu não me importo, Tatsu. Estar com você já é o suficiente.

Tatsuyo olhou para o ferrolho da porta e depois para o namorado. A segurança que ele proporcionava era o que permitia que ela explorasse seus próprios desejos sem medo de ser julgada ou de ter um colapso.

— Eu quero, Kuro. Eu quero muito.

Ela o puxou para baixo, e desta vez o beijo foi faminto. As mãos de Kuro encontraram novamente o caminho sob a blusa dela, mas agora não havia hesitação. Ele a despiu com uma reverência quase religiosa, admirando a pele parda sob a luz suave do abajur.

Quando as roupas foram deixadas de lado, Tatsuyo sentiu uma breve pontada de ansiedade pela exposição, mas Kuro foi rápido em dissipá-la. Ele cobriu o corpo dela com o dele, criando um casulo de calor.

— Você é perfeita — ele sussurrou no ouvido dela, arrepiando cada fibra de seu ser.

O ato em si foi uma dança de sensações que Tatsuyo nunca imaginou ser possível. Kuro era paciente, guiando-a através da sobrecarga sensorial que o prazer intenso poderia causar. Ele usava o peso do próprio corpo para mantê-la aterrada, uma pressão firme que ela sempre achou reconfortante em seus momentos de crise, mas que agora servia para intensificar o êxtase.

Tatsuyo se sentia flutuar. Não havia barulho de TV, não havia o medo do julgamento dos colegas de escola, não havia a sombra do pai negligente ou a responsabilidade de ser a mãe de Nico. Havia apenas Kuro. O ritmo dele era como o deslizar dos patins no gelo: fluido, poderoso e seguro.

Em certo momento, Tatsuyo sentiu as unhas querendo buscar sua própria pele, um hábito antigo de quando a intensidade — mesmo a boa — se tornava demais. Mas Kuro percebeu. Ele entrelaçou os dedos nos dela, prendendo suas mãos contra o colchão, impedindo que ela se machucasse.

— Comigo não, pequena — murmurou ele, beijando sua testa. — Use suas mãos em mim. Pode me apertar, pode me arranhar se precisar. Eu aguento.

Ela obedeceu, cravando as unhas nas costas largas e musculosas dele enquanto o prazer atingia o ápice. Foi uma libertação, uma explosão de cores e sons internos que, pela primeira vez, não a assustaram.

Depois, eles ficaram deitados em silêncio, envoltos nos lençóis, os corações voltando ao ritmo normal. Kuro acariciava o cabelo dela, depositando beijos ocasionais em seu ombro.

— Sabe — começou Kuro, com um tom brincalhão voltando à voz —, eu acho que realmente perdi aquela moeda.

Tatsuyo soltou uma risada baixa, escondendo o rosto no peito dele.

— Você é um idiota, Kuro Hatake.

— Sou o seu idiota — ele corrigiu, puxando o cobertor para cobri-los melhor. — E falando sério, Tatsu... eu sei que as coisas são difíceis. Com o Nico, com a escola. Mas eu nunca vou te deixar sozinha nessa.

Tatsuyo apertou o abraço. Ela sabia que, lá fora, Nico provavelmente ainda estava resmungando sobre o carregador e que, amanhã, ela teria que enfrentar o barulho ensurdecedor do corredor do colégio. Mas ali, naquele pequeno espaço trancado, ela era apenas uma garota amada.

— Eu sei que não vai — ela respondeu.

Eles ficaram ali por um longo tempo, aproveitando a paz que haviam construído um para o outro, enquanto o resto do mundo continuava a girar, barulhento e caótico, do outro lado da porta.