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Amor real

O Santuário das Sombras e a Verdade Entre Homens

A sala do pequeno apartamento dos Nakamura estava mergulhada em uma penumbra acolhedora, quebrada apenas pelo brilho azulado e intermitente da televisão ligada no mudo e por um pequeno abajur de sal no canto da estante. O silêncio era uma raridade naquela casa, um tesouro que Kuro Hatake aprendera a proteger com unhas e dentes, especialmente quando Tatsuyo estava exausta.

Tatsuyo estava profundamente adormecida no sofá de veludo marrom. Sua respiração era leve, quase imperceptível, e seus traços, geralmente tensos pela vigilância constante contra o mundo sensorial, estavam suavizados. O corpo dela parecia pequeno e frágil sob a manta de lã. Kuro, por sua vez, estava em uma posição que qualquer um chamaria de privilegiada, mas que para ele era o ápice do conforto doméstico: ele estava esticado no tapete, com o tronco apoiado no sofá e a cabeça descansando pesadamente sobre os seios de Tatsuyo.

Para Kuro, aquele era o seu lugar favorito no mundo. O calor que emanava dela, o cheiro de sabonete neutro e a maciez do corpo da namorada eram o único antídoto para a adrenalina que ele carregava dos treinos de hóquei. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo-se em paz, enquanto uma das mãos de Tatsuyo, mesmo dormindo, repousava sobre o cabelo branco dele, como se o protegesse por instinto.

O silêncio foi brutalmente interrompido pelo som de passos rápidos e o clique da porta do corredor. Nico entrou na sala com o cabelo bagunçado e uma expressão irritada, provavelmente tendo desistido de algum jogo ou procurando por lanche. No entanto, assim que seus olhos focaram na cena no sofá, ele estancou.

O rosto de Nico passou do pálido para um vermelho vivo em questão de segundos. As veias em seu pescoço saltaram.

— MAS O QUE É ISSO?! — Nico gritou, embora sua voz tenha falhado um pouco pelo choque. — Sai daí agora, Hatake!

Kuro nem sequer se sobressaltou. Ele abriu um olho preguiçoso, mantendo a cabeça exatamente onde estava, sentindo o movimento do peito de Tatsuyo subir e descer. Ela deu um leve suspiro no sono, mas não acordou; o cansaço acumulado de uma semana de crises sensoriais na escola a deixara em um estado de letargia profunda.

— Fala baixo, pirralho — sussurrou Kuro, com um sorriso de canto que exalava provocação. — Não vê que a Tatsu está descansando?

— Descansando? Você está... você está com a cara nos peitos dela! — Nico gesticulava freneticamente, parecendo prestes a explodir. — Isso é nojento! Tira a cabeça daí agora, seu tarado! Ela é minha irmã!

Kuro soltou um riso abafado, aproveitando o momento para se aninhar ainda mais contra Tatsuyo, sentindo a maciez sob seu rosto. Ele olhou para Nico com um brilho malicioso nos olhos castanhos.

— Ah, Nico... você não entende nada de ergonomia — provocou Kuro, a voz carregada de duplo sentido. — Esse é o melhor travesseiro que eu já tive na vida. É macio, quente e tem o melhor suporte que um homem pode pedir. Eu poderia passar a noite inteira aqui... e acredite, a Tatsu não parece estar reclamando da "pressão".

Nico arregalou os olhos, o entendimento da piada atingindo-o como um disco de hóquei em plena velocidade. A insinuação de que Tatsuyo gostava daquilo ou de que havia algo mais íntimo acontecendo ali fez o menino perder as estribeiras.

— VOCÊ É UM PORCO! — Nico avançou dois passos, mas parou quando Kuro levantou a mão, sinalizando para que ele ficasse quieto.

— Shhh! — Kuro sussurrou com autoridade, sua expressão mudando instantaneamente de brincalhona para séria. — Se você acordar ela agora, Nico, ela vai entrar em pânico. Ela teve um dia horrível. Você sabe como ela fica quando as luzes do refeitório começam a piscar. Ela está exausta de tentar ser "normal" pra você e pro resto do mundo. Deixa ela dormir.

Nico parou no lugar, a respiração ainda ofegante, mas a raiva começando a ser substituída por uma culpa incômoda. Ele olhou para a irmã. As mãos dela, que Kuro havia cuidadosamente enfaixado mais cedo para cobrir os arranhões recentes, estavam relaxadas. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo zumbido baixo da geladeira.

Kuro, com um movimento fluido e silencioso, desceu a cabeça dos seios de Tatsuyo e sentou-se no chão, encostando as costas no sofá. Ele indicou a poltrona ao lado para Nico.

— Senta aí, pirralho. Vamos conversar.

Nico hesitou, mas acabou sentando-se na ponta da poltrona, os braços cruzados sobre o peito, ainda lançando olhares de adaga para Kuro.

— Eu odeio quando você fala essas coisas dela — resmungou Nico. — Ela cuida de tudo. Ela faz a janta, ela lava minha roupa, ela me ajuda com tudo. Ela não é... ela não é um brinquedo pra você.

— Eu sei que ela não é um brinquedo, Nico — disse Kuro, sua voz agora desprovida de qualquer malícia. — Eu amo a sua irmã mais do que qualquer coisa. E eu sei que ela é a "mãe" dessa casa. Mas ela também é uma mulher. E ela precisa de alguém que cuide dela também, porque você e seu pai só sabem pedir coisas.

Nico baixou o olhar para os próprios pés. O silêncio entre os dois homens — um adulto em formação e um menino tentando entender o mundo — tornou-se denso. Kuro observou o garoto por um momento. Ele via a semelhança entre os irmãos, mas via também a barreira que Nico construía ao redor de si mesmo.

— Por que você faz aquilo na escola, Nico? — perguntou Kuro, direto.

Nico franziu a testa, na defensiva.

— Aquilo o quê?

— Fingir que ela não existe. Ou pior, ficar com aquela cara de quem comeu limão quando alguém menciona que vocês são irmãos — Kuro disse, ajustando a posição das pernas. — Eu vejo você no corredor. Eu vejo seus amigos rindo quando ela usa os abafadores de ruído, e vejo você virando o rosto como se estivesse com vergonha.

Nico sentiu um nó na garganta. Ele queria negar, queria gritar que Kuro não sabia de nada, mas a verdade era um peso insuportável.

— Você não entende, Kuro — sussurrou Nico, a voz trêmula. — Eles são cruéis. Eles chamam ela de esquisita. Eles dizem que ela é... que ela é quebrada. Se eu defender ela, eles vão começar comigo também. E... às vezes, eu só queria que ela fosse normal. Que ela não gritasse por causa de um liquidificador ou que não ficasse se machucando toda vez que fica nervosa.

Kuro suspirou, sentindo uma pontada de compadecimento. Ele se lembrou de como era ter onze anos e querer desesperadamente pertencer a um grupo. Mas ele também olhou para Tatsuyo, dormindo o sono dos inocentes, e a proteção que sentia por ela falou mais alto.

— Escuta aqui, Nico — começou Kuro, inclinando-se para frente. — A Tatsuyo é a pessoa mais forte que eu conheço. Você acha que é difícil ser o irmão dela? Tenta ser ela por dez minutos. Tenta viver em um mundo onde cada som é um grito, onde cada luz é um flash e onde cada toque parece papel de lixa na pele. Ela enfrenta isso todo santo dia por você. Ela se machuca, ela arranca a própria pele com as unhas para não gritar na sua frente, porque ela não quer que você sofra com a crise dela.

Nico olhou para as mãos enfaixadas da irmã no sofá. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, mas ele a limpou rapidamente.

— Ela faz isso... por mim? — perguntou Nico, a voz pequena.

— Principalmente por você — afirmou Kuro. — Ela é o seu bebê, Nico, mas ela também te vê como o bebê dela. Ela te criou. Ela abriu mão da própria paz para garantir que você tivesse uma vida estável enquanto seu pai se tranca naquele quarto. Ter vergonha dela não é apenas uma covardia, é uma injustiça.

Nico ficou em silêncio por um longo tempo. O relógio na parede tiquetaqueava, marcando o ritmo daquela revelação. Ele olhou para Kuro, o cara que ele sempre tentava afastar com ciúmes e piadas, e percebeu que Kuro via em Tatsuyo algo que ele, na sua imaturidade, estava ignorando: a beleza da luta dela.

— Eu não quero ter vergonha dela — admitiu Nico, o choro agora mais evidente. — Mas eu tenho medo, Kuro. Medo de ser o "esquisito" também.

— O medo é normal, pirralho — disse Kuro, esticando o braço e bagunçando o cabelo de Nico, desta vez sem que o menino se esquivasse. — Mas a lealdade é o que define um homem. Aqueles idiotas da escola? Eles não valem um fio de cabelo da Tatsu. E se algum deles abrir a boca para falar dela de novo, você não precisa lutar sozinho. Eu sou o capitão do time de hóquei, lembra? Ninguém mexe com a família de um Hatake... ou com a namorada dele.

Nico soltou uma risada fungada, limpando o rosto com a manga da camiseta.

— Você é muito convencido.

— Eu sou incrível, você quer dizer — Kuro piscou para ele. — Agora, vai dormir. Eu vou ficar aqui com ela até ter certeza de que ela não vai ter nenhum pesadelo. E amanhã... amanhã você vai dar um abraço nela antes de ir pra escola. Sem reclamar.

Nico levantou-se, sentindo-se mais leve, embora ainda um pouco confuso com a torrente de emoções. Ele caminhou até o sofá e olhou para o rosto sereno de Tatsuyo. Ele estendeu a mão e tocou levemente o ombro dela, um gesto de carinho que raramente demonstrava diante de Kuro.

— Boa noite, Tatsu — sussurrou Nico. Ele olhou para Kuro. — E boa noite pra você também, poste de luz. Mas não pense que eu esqueci a palhaçada de deitar nos peitos dela. Se eu pegar você fazendo isso de novo, eu jogo seu videogame pela janela.

Kuro riu baixinho enquanto observava Nico caminhar até o quarto e fechar a porta com um cuidado incomum, tentando não fazer barulho.

Novamente sozinho com Tatsuyo, Kuro voltou a se acomodar no chão. Ele não voltou a deitar a cabeça nos seios dela, respeitando o momento de seriedade que acabara de passar, mas pegou a mão enfaixada dela e a beijou suavemente.

— Viu só, gatinha? — murmurou Kuro para a namorada adormecida. — O seu bebê está crescendo. E eu vou estar aqui para garantir que ele cresça do jeito certo.

Tatsuyo não respondeu, mas um pequeno sorriso pareceu curvar o canto de seus lábios no sono, como se, de alguma forma, ela soubesse que estava protegida pelos dois homens mais importantes de sua vida. Kuro fechou os olhos, finalmente permitindo-se descansar, enquanto a noite lá fora continuava seu curso, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, o mundo era finalmente silencioso o suficiente para se amar.