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Amor sombrio

O Eclipse das Sombras Ancestrais

A estrada para Nova Jersey era uma cicatriz de asfalto que cortava a floresta densa, e o carro roubado deslizava por ela como um espectro. O silêncio dentro do veículo era denso, interrompido apenas pelo som rítmico dos pneus contra o chão e o estalar ocasional das articulações do Mão, que estava ocupado no banco de trás tentando dobrar um mapa com uma precisão maníaca.

Wandinha mantinha o olhar fixo na paisagem que passava. Ela não era dada a sentimentalismos geográficos, mas havia algo na transição do cenário urbano para a desolação gótica das propriedades rurais que acalmava seus nervos. Tyler, ao volante, parecia mais estável, embora a palidez sob seus olhos denunciasse o preço que seu corpo pagara pela quase morte da noite anterior.

— Você está muito quieta — observou Tyler, quebrando o silêncio. Sua voz ainda tinha aquela textura áspera, um eco do grito contido que ele carregava na garganta. — Mais do que o normal. Está se arrependendo de não ter me deixado sangrar naquele assoalho?

Wandinha virou a cabeça lentamente, seus olhos negros encontrando o perfil dele.

— Arrependimento é uma emoção fútil, reservada para aqueles que não têm a capacidade de prever as consequências de seus atos — respondeu ela com sua monotonia característica. — Estou apenas calculando a probabilidade de meu pai tentar te empalhar antes do jantar. Ele tem uma coleção de troféus, e sua condição de Hyde o torna uma peça de taxidermia extremamente rara.

Tyler soltou uma risada curta, mas não havia humor real nela.

— Um Hyde na parede. Seria um destino mais digno do que o que a xerife de Jericho tinha planejado para mim. — Ele apertou o volante, a mão enfaixada protestando com uma pontada de dor. — Wandinha, por que a Mansão Addams? Você sempre falou da sua família como se eles fossem uma punição da qual você fugiu.

— E eles são — afirmou ela. — Mas a Mansão Addams não é apenas uma casa. É um santuário de energias atávicas. As paredes são impregnadas com o sangue de gerações que abraçaram a escuridão sem pedir desculpas. Para você controlar o que há em seu interior, você precisa parar de se ver como um monstro em uma gaiola e começar a se ver como o mestre da fera. Minha família... eles não julgam o caos. Eles o convidam para o chá.

Tyler engoliu em seco. Ele se sentia como um náufrago sendo levado para uma ilha de canibais, mas a alternativa — a solidão e a descida inevitável à loucura do Hyde — era infinitamente pior.

— E se eu não conseguir? — perguntou ele, a vulnerabilidade rastejando de volta para sua voz. — Se o Hyde decidir que a Mansão Addams é um buffet e não um campo de treinamento?

Wandinha inclinou-se um pouco mais perto, o cheiro de ozônio e pó de cemitério que parecia acompanhá-la preenchendo o espaço entre eles.

— Então eu mesma executarei o ritual de contenção. E garanto que será muito mais doloroso do que qualquer coisa que você já experimentou.

— Promessas, promessas — murmurou Tyler, um lampejo do sedutor perigoso brilhando em seus olhos castanhos.

O Mão saltou para o ombro de Wandinha, apontando freneticamente para a frente. Uma névoa sobrenatural, espessa e cinzenta, começou a engolir a estrada. Não era uma névoa climática comum; ela parecia ter vontade própria, enrolando-se nos galhos das árvores retorcidas como dedos esqueléticos.

— Estamos chegando — anunciou Wandinha. — Tyler, mantenha as mãos visíveis e não faça movimentos bruscos. Os portões têm o hábito de morder estranhos que não demonstram a devida reverência.

À medida que avançavam, a silhueta da mansão surgiu como um gigante adormecido contra o céu escurecido. Era uma estrutura vitoriana imensa, com torres que pareciam garras arranhando as nuvens e janelas que brilhavam com uma luz bruxuleante e sinistra. O portão de ferro forjado, adornado com o brasão da família Addams, abriu-se com um rangido que soou como um grito de boas-vindas.

Tyler estacionou o carro no cascalho úmido. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com o frio de Nova Jersey. O Hyde dentro dele agitou-se, mas não com raiva; era um reconhecimento. Aquele lugar cheirava a morte antiga e segredos bem guardados.

A porta principal da mansão abriu-se antes mesmo que eles chegassem aos degraus de pedra. No portal, emoldurados pela luz quente dos candelabros de ossos, estavam Gomez e Morticia Addams.

— Wandinha! Minha pequena nuvem de tempestade! — exclamou Gomez, abrindo os braços com um entusiasmo que faria qualquer pessoa normal recuar. — Você voltou para casa! E trouxe... um sobrevivente!

Morticia, elegante em seu vestido preto que parecia fundir-se com as sombras, deslizou para a frente. Seus olhos, tão intensos quanto os da filha, fixaram-se imediatamente em Tyler. Ela não olhou para o rosto dele primeiro, mas para a bandagem em seu braço, onde o sangue seco ainda manchava o tecido.

— Uma ferida feita por mãos próprias — comentou Morticia, sua voz como veludo sobre navalhas. — Que trágico e delicioso. O desespero sempre foi um tempero excelente para a alma.

— Mãe, Pai — disse Wandinha, sua voz desprovida de qualquer emoção calorosa. — Este é Tyler Galpin. Ele é um Hyde, um pária e, no momento, um fugitivo. Eu o trouxe aqui porque Vermont se tornou... limitante.

Gomez aproximou-se de Tyler, circulando-o como um esgrimista avaliando um oponente.

— Um Hyde! — Gomez estalou os dedos, e o Mão, que já havia descido do ombro de Wandinha, correu para cumprimentá-lo com um aperto de mãos vigoroso. — Faz décadas que um espécime desses não cruza nosso limiar. A última vez foi um primo distante que tentou comer o mordomo. Uma noite inesquecível!

Tyler olhou para Wandinha, buscando algum sinal de como proceder. Ela apenas assentiu levemente.

— É um prazer conhecê-los — disse Tyler, forçando a voz a permanecer estável. — Wandinha me disse que vocês poderiam... me ajudar.

— Ajudar? — Morticia sorriu, um gesto que era ao mesmo tempo acolhedor e profundamente perturbador. — Nós não ajudamos as pessoas, Sr. Galpin. Nós as encorajamos a abraçar sua verdadeira natureza. Mas venha, você cheira a trauma e uísque barato. Precisa de um banho de sais minerais e uma refeição que não consista em arrependimentos.

Eles entraram na mansão. O interior era um museu do macabro. Tapetes feitos de peles de criaturas extintas, armaduras que pareciam seguir os movimentos dos visitantes com os olhos e um silêncio que parecia respirar.

Enquanto caminhavam pelo corredor principal, Gomez colocou a mão no ombro de Tyler.

— Wandinha nos contou sobre suas... inclinações — sussurrou Gomez. — Não se preocupe. Temos um calabouço reforçado com prata e obsidiana para as noites em que a fera quiser uivar. É muito mais confortável do que parece.

— Obrigada, pai — interrompeu Wandinha. — Mas Tyler não vai ficar no calabouço. Ele vai ficar no quarto de hóspedes da ala leste. Perto do meu.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Morticia ergueu uma sobrancelha, trocando um olhar cúmplice e carregado de significado com Gomez.

— Perto do seu quarto, querida? — perguntou Morticia. — Achei que você valorizasse sua solidão acima de tudo, inclusive da própria sanidade.

— As circunstâncias mudaram — respondeu Wandinha, sustentando o olhar da mãe sem piscar. — Tyler é um investimento que requer vigilância constante.

— Um investimento — repetiu Gomez, começando a rir. — Ah, Morticia, veja como ela cresceu! Já está fazendo seus próprios pactos faustianos. Isso me lembra o nosso primeiro encontro no necrotério, 𝘘𝘶𝘦𝘳𝘪𝘥𝘢.

— Oh, Gomez, não na frente dos convidados — disse Morticia, embora seus olhos brilhassem com adoração.

Tyler sentia-se como se estivesse em um sonho febril. A estranheza daquela família era tão absoluta que, de certa forma, fazia o fato de ele se transformar em um monstro assassino parecer algo banal.

— Vou mostrar o quarto a ele — disse Wandinha, pegando o braço de Tyler. — Ele precisa descansar antes que comecemos o treinamento.

— Treinamento? — perguntou Tyler enquanto subiam a escadaria de carvalho escuro.

— Sim. Você vai aprender a meditar sob a influência de venenos alucinógenos e a lutar contra os fantasmas dos meus antepassados. Se você conseguir sobreviver a uma semana nesta casa, o Hyde não terá mais segredos para você.

Eles chegaram ao quarto. Era vasto, com uma cama de dossel que parecia um altar fúnebre e janelas que davam para o cemitério particular da família. O Mão já estava lá, desfazendo a pequena mala de Tyler com uma eficiência assustadora.

Wandinha fechou a porta e virou-se para ele. A luz da lua, filtrada pelas nuvens pesadas, banhava o quarto em tons de prata e chumbo.

— Você está seguro aqui, Tyler — disse ela. — Pela primeira vez na sua vida, você está em um lugar onde ninguém quer que você seja "normal".

Tyler sentou-se na beirada da cama, sentindo o peso do cansaço finalmente cobrá-lo. Ele olhou para as mãos de Wandinha, que agora estavam limpas do sangue dele, mas que ele ainda conseguia sentir contra sua pele.

— Por que você está fazendo tudo isso? — ele perguntou em um sussurro. — Você poderia ter me deixado em Vermont. Poderia ter seguido sua vida, escrito seu romance, resolvido seus mistérios. Por que me trazer para o centro do seu mundo?

Wandinha caminhou até ele, parando entre suas pernas. Ela não o tocou, mas a proximidade era elétrica.

— Porque você é o meu mistério mais insolúvel, Tyler. E eu nunca deixo um caso sem solução. Além disso... — Ela hesitou por uma fração de segundo, uma falha quase imperceptível em sua armadura. — O silêncio sem a sua presença tornou-se... barulhento demais.

Tyler estendeu a mão e tocou a cintura dela, puxando-a levemente para mais perto. Wandinha não resistiu.

— Você disse que me amava — lembrou ele. — Daquela forma Addams. Isso significa que eu nunca vou me livrar de você?

— Nem na morte — afirmou ela, seus olhos brilhando com uma promessa sombria. — Se você morrer, eu encontrarei uma maneira de reanimar seu cadáver. Se você fugir, eu caçarei você até os confins do inferno. Você é meu, Tyler Galpin. E os Addams nunca abrem mão de suas posses mais preciosas.

Tyler sorriu, e desta vez, o sorriso alcançou seus olhos. Ele sentia o perigo emanando dela, a promessa de uma vida cheia de dor, sombra e caos. E, para sua própria surpresa, ele percebeu que não queria mais nada além disso.

— Então eu acho que estou em casa — disse ele.

Wandinha inclinou-se e pressionou os lábios contra a testa dele, um gesto de posse e proteção que selava o destino de ambos.

— Descanse agora, monstro — ordenou ela. — Amanhã, começamos a ensinar o mundo a ter medo de nós.

Ela saiu do quarto com passos silenciosos, deixando Tyler na penumbra. Enquanto ele fechava os olhos, o som do vento uivando nas torres da mansão soava como uma canção de ninar. Lá fora, o Eclipse das Sombras Ancestrais estava apenas começando, e a Mansão Addams, com todos os seus segredos e horrores, acabara de ganhar um novo e terrível guardião.

Wandinha parou no corredor, encostando-se na parede fria. Seu coração batia em um ritmo que ela ainda não compreendia totalmente, mas ela não tentou mais suprimi-lo. Ela era uma Addams, e se o destino lhe dera um monstro para amar, ela faria desse amor uma obra-prima de destruição.

Lá embaixo, ela ouviu o som de Gomez e Morticia rindo, possivelmente planejando algum duelo noturno. O caos estava em perfeita ordem. E, pela primeira vez, Wandinha sentiu que o vácuo em seu peito estava preenchido por algo muito mais escuro e satisfatório do que o vazio: a certeza de que ela e Tyler eram, enfim, a tempestade que o mundo tanto temia.