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Amor sombrio

O Sacrifício Rosa e a Redenção das Sombras

A Mansão Addams não era um lugar para os fracos de espírito, mas para Tyler Galpin, ela havia se tornado um estranho útero de pedra e hera. Nas duas semanas que se seguiram à sua chegada, ele não apenas sobreviveu aos "chás de arsênico" de Morticia e aos duelos de esgrima de olhos vendados com Gomez; ele floresceu. Sob a orientação impiedosa de Wandinha, o Hyde deixara de ser um parasita caótico para se tornar uma extensão de sua própria vontade. Ele não se transformava mais por dor ou raiva cega; ele se transformava porque decidia que era hora de soltar a fera.

No entanto, havia algo que ainda o incomodava. Wandinha o salvara da morte, da loucura e da solidão. Ela o trouxera para o centro de seu mundo distorcido e o aceitara como seu igual. E Tyler, em sua essência humana e manipuladora, sentia que precisava retribuir. Não com sangue ou lealdade — isso ele já dava diariamente —, mas com algo que tocasse a única parte dela que ele conhecia melhor do que ninguém: a sua capacidade de ser perturbada.

— Mão, você tem certeza de que conseguiu tudo? — sussurrou Tyler no porão da mansão, enquanto escondia um projetor antigo sob um lençol de veludo empoeirado.

O Mão fez um sinal de positivo vigoroso, batendo os dedos no chão para indicar que o suprimento de "combustível" estava garantido.

— Ótimo. Se ela descobrir antes da hora, ela vai me enterrar vivo. E desta vez, sem um tubo de respiração.

Tyler havia planejado cada detalhe. Ele sabia que Wandinha desprezava o comum, o brilhante e o excessivamente alegre. Por isso, para agradecer à garota que amava o macabro, ele decidiu submetê-la à maior tortura psicológica que conseguia conceber: uma reprise de seu primeiro encontro, mas elevada a um nível de saturação cromática insuportável.

Naquela noite, a mansão estava estranhamente silenciosa. Gomez e Morticia haviam saído para uma caminhada romântica pelo pântano sob uma chuva de granizo, e Pugsley estava ocupado tentando desarmar uma mina terrestre no sótão. Era o momento perfeito.

Tyler encontrou Wandinha em seu escritório, escrevendo furiosamente em sua máquina de escrever. O som metálico das teclas era o único ritmo do quarto.

— Wandinha — disse ele, encostado no batente da porta, usando seu sorriso mais sedutor e perigoso. — Preciso que você venha comigo ao mausoléu do jardim.

Wandinha parou de digitar, mas não desviou os olhos da folha de papel.

— Se for para me mostrar uma nova espécie de fungo necrótico, pode trazer em um frasco. Estou no meio de um capítulo onde a protagonista decapita seu interesse amoroso por tédio.

— Não é um fungo — Tyler aproximou-se, sentindo o magnetismo frio que ela exalava. — É uma questão de... pesquisa de campo. Sobre o limite da resistência humana ao horror absoluto.

Isso chamou a atenção dela. Wandinha levantou-se, ajeitando o colarinho branco de seu vestido preto.

— Se for uma armadilha, espero que seja letal.

— Você não tem ideia — murmurou ele, guiando-a pelos corredores sombrios.

Quando chegaram ao mausoléu, Wandinha parou bruscamente. O local, geralmente um santuário de mármore frio e cinzas ancestrais, fora transformado. Tyler havia montado uma tela de lençol branco entre duas estátuas de gárgulas chorosas. No chão, havia almofadas de veludo roxo e uma cesta que exalava um cheiro doce e enjoativo.

— O que é isso, Tyler? — perguntou ela, a voz carregada de uma suspeita gélida. — Parece um cenário de um filme de baixo orçamento sobre adolescentes condenados.

— É um agradecimento — disse ele, fazendo-a se sentar. — Você se lembra do nosso primeiro encontro em Jericho? O filme da Barbie?

Wandinha estremeceu visivelmente.

— Eu passo todas as noites tentando apagar aquela mancha rosa da minha memória retiniana.

— Pois hoje, vamos enfrentar seus medos — Tyler sorriu, acionando o projetor. — Eu consegui uma cópia restaurada. E trouxe pipoca com cobertura de caramelo extra. É tão doce que chega a doer os dentes.

— Você é um sádico, Tyler Galpin — disse ela, embora não fizesse menção de se levantar. — Eu deveria te entregar para o Tropeço para que ele te usasse como tapete.

— Assista, Wandinha. Pelo menos pela ironia.

O filme começou. A explosão de cores vibrantes, as músicas pop chiclete e o otimismo implacável da tela começaram a preencher o mausoléu. Wandinha assistia em um silêncio pétreo, as mãos cruzadas sobre o colo. Tyler observava o perfil dela, esperando a reação habitual de desdém ou tédio.

Mas algo estranho começou a acontecer. À medida que a trama avançava para os momentos de "lição de moral" e "amizade verdadeira", Wandinha começou a ficar tensa. Seus dedos enterraram-se no veludo da almofada.

— Wandinha? — chamou Tyler, divertido. — Está sentindo a náusea?

Ela não respondeu. Seus olhos estavam arregalados, fixos na tela onde uma boneca animada cantava sobre o brilho interior. De repente, um som escapou dela. Não era um riso, nem um suspiro de tédio. Era um soluço sufocado.

Tyler congelou. Ele se inclinou para frente, tentando ver o rosto dela sob a luz trêmula do projetor.

— Wandinha, você está... rindo?

— É... horrível — sussurrou ela, a voz falhando de uma maneira que ele nunca ouvira. — O vazio... a falta de conflito existencial... a pureza sem mácula...

Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha pálida dela. Wandinha Addams estava chorando. Não por tristeza, mas por um choque anafilático emocional causado pelo excesso de fofura. Para ela, aquilo era o verdadeiro abismo. A ausência de escuridão era o maior terror que ela já enfrentara.

— Tyler... desligue isso — pediu ela, e pela primeira vez, havia uma nota de súplica genuína.

Antes que ele pudesse reagir, Wandinha inclinou-se para o lado e afundou a cabeça no peito dele, escondendo o rosto em sua camisa. Seus ombros tremiam levemente.

— O brilho... ele queima — murmurou ela contra o tecido. — Proteja-me daquela alegria desprovida de propósito.

Tyler, inicialmente em choque, sentiu uma onda de ternura profunda e uma pontada de culpa. Ele envolveu-a com os braços, sentindo o corpo pequeno e rígido dela relaxar minimamente contra o seu. Ele usou o controle remoto improvisado para desligar o projetor, mergulhando o mausoléu de volta na escuridão abençoada.

— Já passou — sussurrou ele, acariciando o cabelo dela, desfazendo levemente uma das tranças com os dedos. — O mundo rosa sumiu. Estamos de volta às sombras.

Wandinha permaneceu ali por um longo tempo, buscando o calor dele como se ele fosse o único ponto fixo em um universo que ameaçava se tornar ensolarado.

— Eu odeio você — disse ela, a voz recuperando um pouco de sua força ácida, embora ela não se afastasse. — Esse foi o ataque mais eficaz que já sofri. Nem mesmo o Círculo de Sangue conseguiu me desestabilizar assim.

— Eu sei — Tyler sorriu contra o topo da cabeça dela. — Eu conheço seus pontos fracos, Wandinha. Mas você tem que admitir... foi uma surpresa.

— Foi uma abominação — ela levantou a cabeça, olhando para ele. Seus olhos ainda estavam levemente avermelhados, o que a tornava, aos olhos de Tyler, ainda mais perigosa e fascinante. — Nunca mais faça isso. Ou eu farei você assistir a musicais da Broadway por toda a eternidade.

— Justo — ele riu baixo, seus olhos descendo para os lábios dela. — Mas você se apoiou em mim. Você buscou conforto.

Wandinha estreitou os olhos, recuperando sua máscara de mármore, mas havia uma fenda nela que não podia mais ser fechada.

— Foi um movimento tático para evitar a cegueira temporária. Não tire conclusões românticas de um ato de sobrevivência.

— Tarde demais para isso — Tyler segurou o rosto dela com as duas mãos. — Você me salvou de mim mesmo em Vermont. Deixe-me salvar você da luz de vez em quando.

A tensão entre eles mudou. Não era mais sobre o filme ou a brincadeira; era sobre a gravidade que os puxava um para o outro desde o primeiro dia em que se viram no Cata-Vento. Wandinha estendeu a mão e tocou a cicatriz no braço dele, por cima da manga da camisa.

— O Hyde está calmo? — perguntou ela.

— Ele está fascinado por você — confessou Tyler. — Ele acha que você é a única coisa no mundo que é mais assustadora do que ele. E ele adora isso.

— Ele tem bom gosto — comentou ela.

Tyler inclinou-se e a beijou. Foi um beijo que começou com a suavidade da gratidão e rapidamente se transformou na intensidade de dois predadores que finalmente encontraram seu par. Wandinha respondeu com uma fome que raramente demonstrava, suas mãos puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir suas sombras.

Quando se separaram, o ar no mausoléu parecia mais pesado, carregado com a promessa de algo que nenhum deles conseguia definir totalmente.

— Você está melhor? — perguntou Tyler, limpando o rastro de uma lágrima remanescente com o polegar.

— Sinto que preciso queimar algo para restaurar meu equilíbrio espiritual — respondeu Wandinha, levantando-se e recuperando sua postura impecável. — E vou precisar de muito café preto. Sem açúcar. Jamais mencione o que aconteceu aqui para o Mão ou para meus pais. Se eu souber que essa informação vazou, você descobrirá que o Hyde não é o único que pode arrancar um coração.

— Meu segredo está guardado no túmulo — prometeu Tyler, levantando-se também e pegando a cesta de pipoca. — Mas confesse... o filme não era 𝘵ã𝘰 ruim assim.

Wandinha caminhou até a saída do mausoléu, parando sob o arco de pedra. Ela olhou para trás, a luz da lua destacando a silhueta de sua figura pequena e imponente.

— A boneca tinha um senso de moda deplorável, mas a crise existencial dela tinha um certo... potencial gótico. Se ela tivesse cometido suicídio ritual no final, eu teria dado cinco estrelas.

Tyler riu, seguindo-a pelos jardins enevoados. Ele sabia que, apesar das ameaças e da frieza, aquele momento no escuro, com ela escondida em seu peito, fora o verdadeiro batismo de seu relacionamento. Eles não eram apenas aliados; eram o refúgio um do outro contra o horror do mundo — fosse ele feito de monstros ou de bonecas cor-de-rosa.

Enquanto entravam na mansão, o Mão apareceu no topo da escada, fazendo sinais rápidos.

— O que ele está dizendo? — perguntou Tyler.

— Ele diz que meus pais voltaram e que meu pai quer testar uma nova guilhotina no café da manhã — traduziu Wandinha, um brilho de antecipação surgindo em seus olhos. — Excelente. Preciso de algo afiado para limpar minha mente.

Ela começou a subir as escadas, mas parou no meio do caminho e olhou para Tyler, que ainda estava no pé dos degraus.

— Tyler?

— Sim?

— Obrigada. Pela tortura. Foi... memorável.

Ela continuou subindo sem esperar resposta. Tyler ficou lá, observando-a desaparecer nas sombras do andar superior. Ele sentia o Hyde ronronar de satisfação dentro dele. Eles estavam em casa. E na Mansão Addams, o amor não era uma canção de ninar rosa; era um grito na noite, uma sutura bem feita e a certeza de que, não importa quão brilhante o mundo lá fora se tornasse, eles sempre teriam a escuridão um do outro para se esconder.