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Amor sombrio

O Batismo da Obsidiana e do Desejo

A Mansão Addams, em sua glória decrépita, parecia respirar em uníssono com os dois ocupantes do quarto principal da ala leste. O ar estava saturado com o aroma de incenso de ópio e o cheiro ozônico que Tyler exalava quando o Hyde estava à espreita, logo abaixo da superfície da pele. Wandinha estava de pé diante da janela, observando os relâmpagos silenciosos que cortavam o céu de Nova Jersey, mas sua atenção estava inteiramente voltada para o reflexo no vidro: Tyler estava sentado na borda da cama, observando-a com uma fome que não era apenas biológica.

— Você está inquieta — disse Tyler, a voz vibrando em um tom baixo que reverberava no peito de Wandinha como o som de um violoncelo mal ajustado.

Wandinha virou-se lentamente. Ela usava uma camisola de seda preta que chegava até os tornozelos, mas que deixava seus ombros pálidos expostos ao frio da noite.

— A paz é uma condição que me causa coceira, Tyler. Sinto que o mundo está calmo demais, como se estivesse prendendo o fôlego antes de ser estrangulado.

Tyler levantou-se. Seus movimentos agora possuíam uma fluidez predatória que ele não tinha antes do acidente. O trauma havia forjado uma simbiose perfeita entre o homem e a besta. Ele caminhou até ela, parando a uma distância mínima, onde o calor de seu corpo agia como um ímã irresistível.

— Talvez — murmurou ele, levando a mão ao rosto dela, os dedos calejados traçando a linha de sua mandíbula — você esteja procurando o conflito no lugar errado.

Wandinha inclinou a cabeça, fechando os olhos por um breve segundo sob o toque dele.

— E onde eu deveria procurar, Tyler Galpin?

— Aqui — respondeu ele, aproximando o rosto do pescoço dela, onde a pulsação de Wandinha estava visivelmente acelerada. — Você passou meses me estudando, me costurando, me salvando. Mas você ainda não me enfrentou. Não de verdade.

Wandinha sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura do quarto. Ela levou as mãos ao peito dele, sentindo as cicatrizes sob a camisa fina.

— Você acha que eu tenho medo de você?

— Eu acho que você tem medo do que sente quando não está no controle — Tyler sorriu, um sorriso que mostrava apenas um vislumbre de caninos excessivamente afiados. — E eu sou a única coisa neste mundo que você não pode controlar com uma lâmina ou um veneno.

Com um movimento rápido, Tyler a pegou pela cintura e a ergueu, sentando-a sobre a escrivaninha de carvalho pesado, espalhando papéis e penas de escrever pelo chão. Wandinha soltou um suspiro agudo, suas pernas se entrelaçando instintivamente na cintura dele.

— Isso é um desafio? — perguntou ela, suas mãos subindo para o cabelo dele, puxando-o com uma força que beirava a agressão.

— É uma rendição — disse ele, antes de esmagar seus lábios contra os dela.

O beijo foi uma colisão de dentes e urgência. Não havia a doçura dos amantes convencionais; havia a ferocidade de dois sobreviventes que haviam encontrado um no outro o único espelho de suas almas retorcidas. Tyler a beijava como se estivesse tentando reivindicar cada centímetro de sua existência, enquanto Wandinha respondia com uma agressividade que exigia mais.

Ela puxou a camisa dele, rasgando os botões sem cerimônia. Queria ver a pele, as marcas da guerra que haviam travado contra a morte. Tyler ajudou-a, livrando-se da peça de roupa e revelando o torso musculoso e marcado. Wandinha traçou a cicatriz que cruzava o peito dele, aquela que ela mesma havia suturado no hospital.

— Minha obra-prima — sussurrou ela contra a pele dele.

— Então tome posse dela — Tyler a puxou para mais perto, suas mãos descendo pela seda de sua camisola, sentindo as curvas firmes e frias de Wandinha.

Ele a carregou de volta para a cama de dossel, deitando-a sobre os lençóis de cetim negro. O quarto estava iluminado apenas pelas velas de sebo que projetavam sombras monstruosas nas paredes. Tyler posicionou-se sobre ela, seus olhos agora brilhando inteiramente em âmbar. O Hyde estava presente, mas não como um agressor; ele era o combustível para a paixão que Tyler sentia.

— Wandinha — disse ele, a respiração pesada —, se eu for longe demais... se eu te machucar...

Wandinha silenciou-o colocando um dedo sobre seus lábios. Seus olhos negros estavam dilatados, refletindo a chama das velas.

— Tyler, se você não for longe demais, eu ficarei profundamente decepcionada. Eu não quero um homem que me proteja de mim mesma. Eu quero um monstro que me destrua e me reconstrua todas as noites.

Tyler soltou um rosnado baixo, um som que não era humano, e mergulhou o rosto na curva do pescoço dela. Seus beijos tornaram-se mordidas leves, marcas de propriedade que Wandinha recebia com espasmos de prazer sombrio. Ela sentia o peso dele, a força bruta que ele continha para não esmagá-la, e essa tensão era o afrodisíaco mais potente que ela já provara.

Quando Tyler a despiu, a visão de Wandinha sob a luz da lua era algo que ele guardaria para a eternidade. Ela era perfeita em sua palidez, uma estátua de mármore que ganhava vida sob seu toque. Ele percorreu cada curva com as mãos e a língua, adorando-a como se ela fosse a divindade de um culto proibido.

— Você é... magnífica — murmurou ele, a voz rouca de desejo.

— Menos adjetivos, Tyler. Mais ação — ordenou ela, embora suas mãos estivessem tremendo levemente enquanto ela o puxava para si.

A união deles foi um batismo de fogo e sombra. No momento em que Tyler entrou nela, Wandinha sentiu aquela dor familiar e aguda, mas desta vez ela não recuou. Ela a abraçou, usando a dor como uma âncora para o prazer avassalador que se seguiu. Eles se moviam em um ritmo frenético, uma dança de sombras onde era impossível dizer onde terminava o homem e onde começava a mulher.

Tyler era uma força da natureza, cada estocada carregada com a energia acumulada de semanas de repressão. Wandinha cravava as unhas em suas costas, deixando sulcos vermelhos que cicatrizariam rapidamente, mas que serviam como prova de sua entrega. Ela gritou o nome dele, um som que ecoou pelas vigas da mansão, misturando-se aos uivos dos lobos no pântano lá fora.

O clímax os atingiu como uma tempestade elétrica. Tyler desabou sobre ela, o coração batendo contra o dela em um ritmo sincopado. Eles ficaram ali, ofegantes, o suor colando seus corpos, enquanto a adrenalina baixava lentamente.

— Isso... — começou Tyler, tentando recuperar o fôlego — foi definitivamente melhor do que o filme da Barbie.

Wandinha soltou uma risada rara, um som curto e melódico que aqueceu o peito de Tyler.

— Não compare este momento com aquela atrocidade cinematográfica, Tyler. Isso foi... aceitável. Talvez até instrutivo.

Tyler rolou para o lado, puxando-a para o seu peito. Ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de cedro e segredos que emanava de seus cabelos.

— Aceitável? — ele riu. — Você é impossível.

— E você é persistente — respondeu ela, traçando círculos no peito dele. — Mas temos um problema.

Tyler ficou tenso imediatamente.

— O Círculo de Sangue? O Hyde?

— Não — Wandinha levantou-se levemente, apoiando o queixo na mão. — Meus pais. Eles estão ouvindo atrás da porta há pelo menos dez minutos.

Tyler congelou. Ele olhou para a porta de carvalho maciço e, de fato, pôde ouvir o murmúrio abafado de Gomez e o riso discreto de Morticia.

— Eles são... peculiares — disse Tyler, sentindo o rosto esquentar.

— Eles são Addams — corrigiu Wandinha, levantando-se e vestindo seu robe com uma dignidade imperturbável. — Eles consideram a paixão avassaladora um esporte familiar.

Ela caminhou até a porta e a abriu abruptamente. Gomez e Morticia estavam lá, Gomez segurando um candelabro e Morticia um frasco de sais aromáticos.

— Wandinha, querida! — exclamou Gomez, com um brilho de orgulho nos olhos. — O som de móveis sendo deslocados e gritos de agonia... lembrou-me da nossa lua de mel em Alcatraz!

— Estamos tão felizes que Tyler tenha se recuperado plenamente — disse Morticia, lançando um olhar cúmplice para o jovem ainda na cama. — Ele parece ter uma resistência admirável.

— Se vocês terminaram a inspeção técnica — disse Wandinha, a voz gélida — gostaríamos de ter o resto da noite para planejar o assassinato de nossos inimigos. Ou para dormir. O que vier primeiro.

— Claro, claro! — Gomez deu um tapinha no ombro de Wandinha. — Não queremos interromper o fluxo criativo. Tyler, meu rapaz, o café da manhã será servido às seis. Teremos morcegos fritos e sangue de boi. Precisa recuperar o ferro.

Eles se retiraram pelo corredor, Gomez ainda comentando sobre a "acústica excelente" da ala leste. Wandinha fechou a porta com um estrondo e encostou-se nela, suspirando.

— Peço desculpas pela minha linhagem — disse ela para Tyler.

Tyler sentou-se na cama, passando a mão pelo cabelo bagunçado. Ele parecia radiante, a escuridão em seus olhos agora em equilíbrio com a paz em seu coração.

— Não peça. Eu prefiro o caos deles do que a normalidade de qualquer outro lugar.

Wandinha voltou para a cama, deslizando para baixo das cobertas e aninhando-se ao lado dele.

— Tyler?

— Sim?

— Se você contar a alguém que eu desfrutei deste momento de "conexão emocional", eu farei com que você se arrependa de ter um sistema nervoso.

Tyler a puxou para mais perto, beijando sua testa.

— Seu segredo está seguro comigo, Wandinha. Até que a morte nos separe.

— A morte não vai nos separar, Tyler — corrigiu ela, fechando os olhos enquanto o sono finalmente a vencia. — Ela apenas vai nos dar um lugar mais silencioso para continuarmos o que começamos hoje.

A noite na Mansão Addams continuou, envolta em mistério e no som da chuva que começava a cair. Tyler ficou acordado por mais algum tempo, vigiando o sono da garota que era seu pesadelo e sua salvação. Ele sabia que a guerra estava chegando, que o Círculo de Sangue não descansaria, mas enquanto Wandinha estivesse ao seu lado, ele não temia o inferno. Ele já estava lá, e descobriu que o inferno era, na verdade, um lugar muito aconchegante quando se estava com a pessoa certa.

Na manhã seguinte, o sol tentou penetrar as nuvens, mas a mansão permaneceu em sua penumbra protetora. Na mesa de café da manhã, o clima era de uma alegria macabra. Pugsley estava testando uma nova besta, e Tropeço servia o café com sua habitual melancolia eficiente.

— Então — disse Gomez, cortando um pedaço de carne sangrenta —, quais são os planos para hoje? Destruição total ou apenas uma pequena sabotagem?

Wandinha olhou para Tyler, que estava sentado ao seu lado, parecendo perfeitamente em casa entre as gárgulas e os instrumentos de tortura.

— Hoje — disse Wandinha — nós vamos encontrar o Círculo de Sangue. E vamos mostrar a eles o que acontece quando se tenta matar um monstro e se acaba criando algo muito pior.

Tyler sorriu, e desta vez, o Hyde e o homem sorriram juntos.

— Eu gosto desse plano — disse ele.

A jornada de vingança estava apenas começando, e Vermont parecia um passado distante. Agora, eles eram os caçadores, e o mundo logo descobriria que não havia nada mais perigoso do que um amor nascido nas cinzas e batizado no sangue. A aliança entre Wandinha Addams e Tyler Galpin era o eclipse final, a sombra que engoliria todos os seus inimigos, deixando para trás apenas o eco de sua lenda negra.