Amor sombrio
O Alvorecer das Cinzas e o Despertar da Besta
A Mansão Addams estava envolta em uma névoa que parecia feita de veludo e estática. No quarto de hóspedes da ala leste, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Tyler, que agora não dependia mais de máquinas, mas ainda carregava o peso de um sono profundo e antinatural. Wandinha estava sentada em sua poltrona de carvalho escuro, observando-o com a paciência de uma gárgula.
Fazia três dias que eles haviam retornado do hospital. Gomez e Lurch haviam transformado a limusine da família em uma ambulância macabra para garantir que Tyler fosse tratado sob o teto dos Addams, longe de enfermeiros curiosos e da luz fluorescente que Wandinha tanto detestava.
— Ele está mudando, Wandinha — sussurrou Morticia, surgindo das sombras do corredor como um espectro elegante. Ela carregava uma bandeja com um bule de chá de erva-moura fumegante. — A essência do Hyde está se fundindo com a carne ferida. Ele não será o mesmo homem que partiu para aquela estrada.
Wandinha não desviou o olhar de Tyler.
— Ele nunca foi um homem comum, mãe. E eu não espero que ele retorne como um. Eu espero que ele retorne como algo mais forte, ou que apodreça de vez para que eu possa dar a ele o funeral que ele merece.
Morticia colocou a mão no ombro da filha, sentindo a rigidez do corpo de Wandinha.
— Você fala com a boca, mas seus olhos guardam o luto de quem quase perdeu a própria sombra. Beba o chá. Você precisa de forças para o que vem a seguir. O Círculo de Sangue não vai esperar que seu animal de estimação se recupere.
Wandinha aceitou a xícara, o calor do líquido negro aquecendo seus dedos pálidos.
— Eles que venham. Eu transformarei este jardim em um ossário se eles ousarem cruzar o portão.
Morticia sorriu, um gesto de aprovação maternal, e deslizou para fora do quarto, deixando a filha novamente em sua vigília.
Horas se passaram. A lua atingiu o ápice, filtrando uma luz prateada pelas janelas altas. Foi então que o som mudou. A respiração de Tyler, antes lenta, tornou-se um rosnado baixo e gutural. Seus dedos, ainda marcados pelas cicatrizes do acidente, começaram a se curvar, as unhas crescendo e escurecendo até parecerem garras de obsidiana.
Wandinha levantou-se lentamente, deixando a xícara de lado. Ela não sentia medo; sentia uma antecipação elétrica que fazia seu sangue pulsar.
— Tyler — chamou ela, sua voz firme como uma lâmina.
Os olhos de Tyler se abriram. Não eram os olhos castanhos e vulneráveis do barista de Jericho, nem apenas o âmbar selvagem do Hyde. Eram uma mistura turbulenta de ambos, como ouro derretido em um mar de sombras. Ele se sentou na cama com um movimento brusco, as costas estalando audivelmente.
— Wandinha... — O nome saiu como um rasgo de papel, uma voz que parecia vir de duas gargantas diferentes ao mesmo tempo.
— Você demorou a acordar — disse ela, aproximando-se da cama. — Eu estava começando a considerar a hipótese de que você tinha se tornado um vegetal. E eu detesto jardinagem.
Tyler olhou para as próprias mãos, vendo as garras recuarem lentamente para dentro da pele, deixando apenas pontas afiadas. Ele levou a mão ao peito, onde as cicatrizes do atropelamento ainda estavam rosadas e salientes.
— Eu ouvi você — sussurrou ele, olhando para ela com uma intensidade que a fez recuar meio passo, um movimento que ela imediatamente mascarou como um ajuste de postura. — No hospital. Eu ouvi tudo o que você disse sobre o experimento... e sobre o vácuo.
Wandinha sentiu um calor incômodo subir pelo pescoço. Ela odiava ser confrontada com suas próprias confissões de fraqueza.
— Delírios de um cérebro traumatizado — respondeu ela, recuperando sua máscara de mármore. — Você estava sob o efeito de analgésicos pesados.
Tyler soltou uma risada rascante e levantou-se da cama. Ele estava instável, mas a força que emanava dele era opressora. Ele caminhou até ela, ignorando a nudez parcial e as bandagens que ainda cobriam seu torso.
— Não tente mentir para mim agora, Wandinha. Eu senti suas lágrimas. Elas queimaram minha pele mais do que o impacto daquele caminhão.
Ele parou a centímetros dela, sua altura agora parecendo ainda mais imponente. O cheiro de pinheiro e sangue seco que o acompanhava era inebriante para ela.
— Você disse que eu era a batida do seu coração — disse ele, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — Você disse que preferia ser destruída por mim do que ser preservada pela solidão.
— Eu disse muitas coisas naquele quarto — rebateu ela, os olhos fixos nos dele. — O desespero é um poeta medíocre.
Tyler estendeu a mão e tocou o rosto dela. Seus dedos eram ásperos, mas o toque era carregado de uma ternura que beirava a adoração.
— Então prove que foi apenas desespero — desafiou ele. — Diga agora que você não me quer aqui. Diga que sou apenas uma arma que você quer consertar para usar contra seus inimigos. Se você disser isso, eu saio por aquela porta e nunca mais volto.
Wandinha sentiu o peso do ultimato. Ela olhou para o homem à sua frente — um híbrido de trauma, monstruosidade e uma lealdade que ela não merecia. Ela lembrou-se da carta rasgada, do sangue no asfalto e da agonia de ver a linha reta no monitor cardíaco.
— Eu não permito que você vá embora — disse ela, sua voz vibrando com uma honestidade brutal. — Não porque você é uma arma. Mas porque a Mansão Addams parece vazia demais sem o som dos seus passos. E porque eu descobri que odeio o silêncio quando ele não é compartilhado com você.
Tyler fechou os olhos por um momento, encostando a testa na dela. O Hyde dentro dele, antes uma fera furiosa, parecia agora um cão de guarda satisfeito, deitado aos pés de sua mestre.
— Isso é o mais perto de um "eu te amo" que eu vou conseguir de você, não é? — perguntou ele, um sorriso pálido surgindo em seus lábios.
— É mais do que qualquer outro ser vivo jamais recebeu — respondeu ela.
Eles ficaram ali, no centro do quarto, enquanto a noite de Nova Jersey rugia lá fora. A paz era frágil, um intervalo entre batalhas, mas era real.
— O que fazemos agora? — perguntou Tyler, afastando-se o suficiente para olhar ao redor. — Eu sinto que as paredes desta casa estão me observando.
— Elas estão — confirmou Wandinha. — Meus antepassados são muito intrometidos. Mas agora, você precisa recuperar suas forças. O Círculo de Sangue sabe que falhou em te matar. Eles virão atrás de nós com tudo o que têm.
— Que venham — disse Tyler, e por um breve segundo, seu rosto se transformou, as feições do Hyde sobrepondo-se às humanas em um eclipse de fúria controlada. — Eu tenho uma dívida de sangue com o mundo, e pretendo pagá-la ao seu lado.
Wandinha assentiu, pegando um canivete de prata que estava sobre a mesa de cabeceira. Ela fez um pequeno corte na palma da própria mão e estendeu-a para ele.
— Um pacto, Tyler Galpin. Não mais como mestre e monstro. Mas como iguais na escuridão.
Tyler não hesitou. Ele usou uma de suas garras para marcar a própria palma, unindo sua mão à dela. O sangue se misturou, quente e escuro, selando uma promessa que nem a morte teria coragem de quebrar.
— Até que as sombras nos consumam — jurou ele.
— E além — completou ela.
Naquela noite, a Mansão Addams não apenas abrigou um fugitivo; ela batizou um novo senhor das sombras. Enquanto Tyler voltava para a cama para um descanso finalmente reparador, Wandinha sentou-se à sua escrivaninha. Ela pegou sua máquina de escrever e, com uma energia renovada, começou a digitar.
As teclas batiam como tiros no silêncio do quarto. Ela não estava mais escrevendo sobre mistérios de ficção. Ela estava escrevendo o manifesto de sua própria guerra.
Pela manhã, o Mão entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã que incluía torradas queimadas e um frasco de veneno de naja (um tônico para os nervos de Wandinha). Ele parou ao ver Tyler dormindo tranquilamente e Wandinha, exausta mas alerta, vigiando-o. O Mão fez um sinal de positivo, batendo os dedos no balcão de madeira.
— Sim, Mão — disse Wandinha, sem desviar os olhos de Tyler. — Ele está de volta. E o mundo não faz ideia do que o aguarda.
Gomez e Morticia observavam da porta entreaberta, trocando um olhar de profundo orgulho.
— Veja, 𝘘𝘶𝘦𝘳𝘪𝘥𝘢 — sussurrou Gomez. — Ela encontrou alguém que pode dançar com ela na beira do abismo sem cair.
— Ou melhor, Gomez — respondeu Morticia, encostando a cabeça no ombro do marido. — Ela encontrou alguém que saltaria no abismo apenas para garantir que ela tenha onde pousar.
A luz do sol começou a penetrar as cortinas pesadas, mas no quarto de Wandinha e Tyler, a escuridão permanecia intacta, soberana e eterna. O acidente fora o fim de uma era de dúvidas; o despertar fora o início de um reinado de terror compartilhado. Eles eram o eclipse, e a partir daquele dia, o sol nunca mais brilharia da mesma forma para seus inimigos.