Amor sombrio
O Eco das Vísceras e o Gelo de Vermont
A estrada para Vermont estendia-se como uma fita de asfalto sujo sob o luar pálido, cortando florestas densas que pareciam sussurrar conspirações enquanto o Mustang avançava. Dentro do carro, o ar era tão denso que poderia ser cortado com uma das lâminas de Wandinha. O painel iluminava o rosto de Tyler com um brilho azulado, acentuando as olheiras e a tensão em sua mandíbula. Ele dirigia com uma agressividade contida, as mãos apertando o volante como se quisesse esmagar o couro.
Wandinha mantinha o olhar fixo no horizonte, mas seus sentidos estavam totalmente voltados para o homem ao seu lado. Ela conseguia ouvir a respiração dele, o ritmo ligeiramente errático que denunciava a luta interna contra o Hyde. O silêncio não era de paz; era o silêncio que antecede o impacto de um desastre ferroviário.
— Você está pensando em como vai me descartar se o artefato não funcionar — disse Tyler subitamente. Não era uma pergunta. A voz dele era um murmúrio áspero que vibrava contra o vidro das janelas.
Wandinha não se moveu.
— Estou ponderando variáveis, Tyler. A esperança é uma estratégia ineficiente. Prefiro trabalhar com planos de contingência. Se o Círculo de Sangue possuir o que os registros sugerem, sua biologia será estabilizada. Se não, terei que lidar com as consequências de ter um monstro sem coleira no meu banco de passageiro.
Tyler soltou uma risada curta e sem humor, um som que lembrava o estalar de ossos secos.
— Você adora essa palavra, não é? "Coleira". Como se tudo o que fizemos, como se aquela noite na garagem, tivesse sido apenas você apertando os nós.
— O controle é a única coisa que impede o mundo de se tornar um amálgama de vísceras e sentimentalismo barato — respondeu ela, finalmente virando a cabeça para observá-lo. — Você deveria me agradecer. Sem a minha direção, você seria apenas um animal sendo caçado por autoridades incompetentes. Comigo, você é uma força da natureza com um propósito.
Tyler freou bruscamente, fazendo os pneus gritarem no asfalto deserto. O carro parou no acostamento, cercado por árvores que pareciam se inclinar para observar. Ele se virou para ela, os olhos brilhando com uma intensidade que beirava o inumano.
— Eu não quero o seu propósito, Wandinha! — ele exclamou, a voz ecoando no espaço confinado. — Eu quero saber o que você sente quando as luzes se apagam e não há ninguém para impressionar com a sua máscara de mármore. Quando eu toquei você... quando você se entregou... você não era uma estrategista. Você era apenas uma garota que parecia ter encontrado algo que não conseguia explicar.
Wandinha sentiu a pontada familiar de irritação no estômago — aquela náusea que ela vinha tentando classificar como algo puramente digestivo.
— O que você chama de "encontrar algo", a ciência chama de dopamina e ocitocina. São reações químicas projetadas pela evolução para garantir a reprodução da espécie ou a formação de alianças tribais. Eu sou imune à ilusão de que isso signifique algo profundo.
Tyler inclinou-se para frente, invadindo o espaço dela. O cheiro de chuva e graxa que emanava dele era inebriante, um ataque direto ao sistema olfativo de Wandinha.
— Você mente para si mesma melhor do que mente para os outros — sussurrou ele. — Você diz que me possui, mas está apavorada com o fato de que eu posso possuir uma parte de você que você nem sabia que existia. Você me trouxe para esta viagem não apenas pelo Círculo de Sangue, mas porque não suporta a ideia de estar em Nunca Mais ouvindo o silêncio que eu deixaria para trás.
Wandinha levou a mão ao pescoço dele, os dedos frios pressionando a artéria carótida. Ela sentiu o pulso dele — forte, rápido, selvagem.
— Sua arrogância é quase tão grande quanto sua instabilidade — disse ela, a voz baixa e letal. — Eu trouxe você porque você é necessário. Se você confundir necessidade com afeto mais uma vez, eu vou garantir que o seu próximo despertar seja em uma mesa de necrotério, onde eu poderei estudar seu coração sem ter que ouvir as bobagens que saem da sua boca.
Tyler não recuou. Em vez disso, ele sorriu — um sorriso predatório que revelava um vislumbre do Hyde.
— Faça isso, então. Abra-me. Veja se encontra o seu nome escrito nas minhas cicatrizes. Porque eu garanto, Wandinha... se você me matar, você passará o resto da sua vida tentando encontrar outro monstro que a entenda tão bem quanto eu. E você vai falhar.
Eles ficaram assim por um longo minuto, dois predadores em um impasse, até que Wandinha retirou a mão e voltou a olhar para a estrada.
— Dirija — ordenou ela. — Estamos perdendo tempo. O ritual do Círculo de Sangue ocorre no ápice da lua, e eu não pretendo chegar atrasada para o derramamento de sangue.
Tyler voltou a engatar a marcha, o motor do Mustang rugindo em resposta. Eles seguiram viagem, cruzando a fronteira de Vermont enquanto a temperatura caía drasticamente. A neve começou a cair, flocos pesados e silenciosos que cobriam a paisagem como um sudário.
O destino deles era uma mansão em ruínas nos arredores de Montpelier, uma relíquia de uma família de excluídos que havia sido expulsa da sociedade séculos atrás. O Círculo de Sangue não era apenas um culto; era uma linhagem de Hydes e mestres que buscavam reverter a ordem natural, tornando o monstro a forma dominante.
Ao chegarem, o cenário era digno de um dos pesadelos mais vívidos de Wandinha. A mansão erguia-se como um esqueleto de pedra contra o céu escuro. Tochas queimavam no pátio, e figuras encapuzadas moviam-se com uma lentidão cerimonial.
— Eles estão esperando por nós — disse Tyler, estacionando o carro a uma distância segura sob as árvores. — Eu sinto o cheiro deles. Estão famintos.
Wandinha pegou sua maleta e verificou a adaga em sua bota.
— Deixe que sintam fome. Eles descobrirão que somos uma refeição indigesta.
Eles saíram do carro e caminharam em direção à mansão. O frio era cortante, mas nenhum dos dois parecia notar. Tyler caminhava ao lado dela, seu corpo irradiando um calor febril. Ele estava mudando; sua postura estava mais curvada, seus passos mais pesados. O Hyde estava vindo à tona, atraído pela energia sombria do lugar.
Uma figura alta, vestindo túnicas vermelhas tão escuras que pareciam pretas, saiu das sombras do pórtico.
— O filho de Franco Galpin e a herdeira Addams — disse o homem, sua voz soando como o arrastar de pedras. — Vocês vieram buscar o que não pode ser controlado. O Cálice de Aconitum.
— Viemos buscar o que nos pertence por direito de conquista — corrigiu Wandinha, parando a poucos metros do homem. — O artefato que estabiliza a psique do Hyde. Entregue-o, e talvez eu permita que vocês continuem suas orações patéticas em paz.
O homem riu, um som cavernoso.
— A menina acha que pode dar ordens. O artefato não é um presente, pequena Addams. É um teste. O Hyde deve provar que é digno de dominar o homem, ou o homem deve provar que pode conter a fera.
Tyler deu um passo à frente, um rosnado baixo escapando de sua garganta. Seus olhos agora eram completamente âmbar.
— Eu já provei o suficiente — rosnou ele.
— Ainda não — disse o sacerdote. — Para obter o cálice, o mestre deve sacrificar o que mais preza para libertar o monstro. E o monstro deve decidir se devora o mestre ou se curva a ele.
Wandinha sentiu um leve tremor de antecipação. O cenário estava se tornando interessante.
— E o que vocês sugerem como sacrifício? — perguntou ela, embora já soubesse a resposta.
— O sangue daquele que o reivindica — respondeu o homem, apontando para Wandinha. — Uma vida por uma eternidade de poder.
Tyler virou-se para Wandinha, a confusão lutando contra a sede de sangue em seu rosto.
— Wandinha, não...
— Silêncio, Tyler — interrompeu ela, seus olhos brilhando com uma curiosidade mórbida. — Eles acreditam em rituais arcaicos de troca equivalente. É uma matemática fascinante, embora primitiva.
Ela caminhou em direção ao sacerdote, tirando uma pequena faca de prata de sua maleta.
— Você quer sangue? — perguntou ela. — Eu tenho baldes dele. Mas não será o meu.
Em um movimento tão rápido que os olhos humanos mal conseguiram acompanhar, Wandinha lançou a faca. Ela não atingiu o sacerdote, mas sim uma corda escondida nas sombras do pórtico. Um pesado lustre de ferro, carregado de velas acesas, despencou do teto da entrada, esmagando dois guardas que estavam ocultos.
— Tyler! Agora! — gritou ela.
Foi o sinal de que o Hyde precisava. Com um grito que rasgou a noite, Tyler se transformou. Suas roupas se rasgaram, seus ossos se quebraram e se reformaram com estalos nauseantes, e em segundos, a fera imensa e de olhos esbugalhados estava de pé no pátio.
O caos explodiu. Os membros do Círculo de Sangue sacaram armas — adagas rituais e bestas carregadas com flechas de prata. Wandinha moveu-se com a graça de uma sombra, suas mãos uma borrão de aço enquanto ela despachava os atacantes. Ela não lutava com raiva; lutava com uma eficiência cirúrgica, encontrando artérias e nervos com uma precisão aterrorizante.
No centro do pátio, o Hyde era um redemoinho de destruição. Ele não apenas matava; ele desmantelava. Ele lançava corpos contra as paredes de pedra e rasgava membros com uma facilidade perturbadora. Mas, mesmo em meio à fúria, ele mantinha um olho em Wandinha. Ele era uma tempestade, e ela era o olho calmo no centro.
Wandinha abriu caminho até o interior da mansão, seguindo o rastro de energia que emanava do altar principal. Lá, em cima de um pedestal de obsidiana, estava o Cálice de Aconitum. Não era um cálice comum; era um frasco de cristal negro que parecia pulsar com uma luz interna.
Ela estendeu a mão para pegá-lo, mas uma mão pesada a segurou pelo ombro e a jogou contra a parede. Era o sacerdote. Ele era mais forte do que parecia, sua força aumentada por algum tipo de magia de sangue.
— Você não entende — sibilou ele, pressionando o antebraço contra a garganta de Wandinha. — O equilíbrio exige dor. Você quer curá-lo, mas o mundo precisa da destruição dele!
Wandinha sentiu o ar escassear, mas não entrou em pânico. Ela buscou a pequena agulha embebida em veneno de cobra que guardava na manga.
— O que o mundo precisa — disse ela, a voz sufocada — é de menos monólogos e mais competência.
Ela cravou a agulha no pescoço do homem. Ele recuou, os olhos revirando enquanto o veneno atingia seu sistema nervoso. Wandinha caiu de joelhos, tossindo, e rapidamente pegou o cálice.
Nesse momento, o Hyde irrompeu na sala, coberto de sangue e vísceras. Ele parou, observando Wandinha no chão e o sacerdote agonizante. Ele soltou um rugido que fez os vidros das janelas estilhaçarem.
Ele caminhou em direção a ela, sua respiração pesada e quente. Wandinha levantou-se, segurando o frasco negro.
— Aqui está, Tyler — disse ela, sua voz voltando à frieza habitual. — O fim da sua instabilidade. Beba, e a sua mente será sua novamente. O Hyde será apenas uma ferramenta sob seu comando total.
A fera parou diante dela. Seus olhos âmbar fixaram-se nos olhos pretos de Wandinha. Por um momento, o tempo parou. O monstro parecia hesitar. Ele olhou para o frasco e depois para as mãos de Wandinha, que estavam manchadas com o sangue dos seus inimigos.
Lentamente, as garras enormes do Hyde se fecharam em volta do frasco. Ele não o bebeu imediatamente. Ele olhou para Wandinha com uma tristeza profunda, uma inteligência humana brilhando através da máscara monstruosa.
— *Se eu fizer isso...* — a voz do Hyde era um som gutural, mas as palavras eram claras na mente de Wandinha — *...eu serei apenas o que você quer. Um soldado perfeito. Uma lâmina sem vontade.*
— Você será livre da dor — respondeu ela.
— *A dor é a única coisa que me lembra que eu ainda sou eu* — disse o Hyde.
Com um movimento brusco, a fera esmagou o frasco de cristal negro em sua palma. O líquido escuro escorreu por suas garras, evaporando em uma fumaça amarga assim que tocou o chão.
Wandinha ficou imóvel, os olhos arregalados em uma rara demonstração de choque.
— O que você fez? — sussurrou ela. — Aquela era a única amostra existente.
O Hyde começou a encolher, o processo de reversão começando antes mesmo que a adrenalina baixasse. Tyler caiu de joelhos, nu e tremendo no chão de pedra frio, cercado pelos restos do seu possível "conserto".
— Eu não quero ser estabilizado por um truque de mágica — disse ele, a voz fraca e rouca enquanto voltava à forma humana. — Eu prefiro ser um monstro que escolhe amar você do que uma máquina que é programada para segui-lo.
Wandinha caminhou até ele, retirando seu casaco e jogando-o sobre os ombros dele. Ela olhou para os cacos de cristal no chão e depois para o rosto exausto de Tyler.
— Você é um idiota incurável — disse ela. Mas não havia veneno na sua voz. Havia algo mais próximo de uma resignação sombria.
Tyler olhou para ela, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios pálidos.
— E você está furiosa porque eu estraguei o seu plano perfeito.
— Estou furiosa porque agora terei que encontrar outra forma de garantir que você não me devore durante o sono — corrigiu ela, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. — Sua sobrevivência acaba de se tornar um problema logístico muito mais complexo.
Tyler pegou a mão dela e se levantou, apoiando-se nela.
— Você vai dar um jeito — disse ele. — Você sempre dá.
Eles saíram da mansão em ruínas, deixando para trás os mortos e os destroços de um culto. A neve continuava a cair, cobrindo tudo com sua brancura indiferente. Enquanto caminhavam de volta para o carro, o silêncio entre eles não era mais o de antes. Era o silêncio de um pacto renovado, não por magia ou necessidade técnica, mas por uma escolha mútua e terrível.
Wandinha olhou para Tyler enquanto ele entrava no Mustang. Ele estava quebrado, instável e perigoso. Ele era tudo o que ela deveria desprezar. E, no entanto, enquanto o carro se afastava de Vermont, ela percebeu que o vazio em seu peito não parecia mais tão vasto. Estava sendo preenchido por algo escuro, denso e terrivelmente real.
— Para onde agora? — perguntou Tyler, olhando para ela pelo espelho.
Wandinha abriu seu caderno e começou a escrever, suas mãos finalmente recuperando a precisão habitual.
— Para casa — respondeu ela. — Temos um semestre para terminar em Nunca Mais. E eu tenho um romance para reescrever. Viper decidiu que a infecção cerebral não era o problema dela, afinal.
Tyler sorriu e acelerou. A estrada à frente estava escura, mas pela primeira vez, Wandinha Addams não estava apenas observando as sombras. Ela estava dirigindo direto para o coração delas, com o seu monstro ao seu lado. E em algum lugar, nas profundezas de sua alma Addams, ela sabia que essa era a sinfonia mais perfeita que ela já havia composto.