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Amor sombrio

O Labirinto das Cicatrizes e a Liturgia do Sangue

O retorno para a Academia Nunca Mais foi marcado por um silêncio que, ao contrário do anterior, não era carregado de hostilidade, mas de uma compreensão mútua de que ambos haviam cruzado um ponto de não retorno. O Mustang de Tyler cortava a neblina matinal que envolvia Jericho como um véu fúnebre. Wandinha, com as mãos cruzadas sobre o colo, observava as gotas de geada deslizarem pelo vidro, pensando na decisão irracional de Tyler. Ele havia destruído a própria cura. Ele havia escolhido o caos em nome de uma autonomia que ela, em sua lógica estrita, considerava um erro de cálculo monumental.

— Você está em silêncio há cento e quarenta quilômetros — observou Tyler, sua voz ainda arranhada pelo esforço da transformação. — Isso é um sinal de que está planejando meu assassinato ou apenas revisando os capítulos do seu livro?

Wandinha não desviou o olhar da janela.

— Estou catalogando as diferentes formas de estupidez humana — respondeu ela, o tom seco como pergaminho antigo. — Sua decisão em Vermont ocupa agora o topo da lista, superando até mesmo a inclinação de Enid para o otimismo tóxico. Você teve a chance de se tornar uma ferramenta de precisão, Tyler. Em vez disso, escolheu continuar sendo um explosivo instável com o pavio curto.

Tyler soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Wandinha, mesmo que ela se recusasse a admitir.

— Talvez eu goste do pavio curto — disse ele, lançando-lhe um olhar rápido. — E, no fundo, você também gosta. Uma ferramenta de precisão é previsível, Wandinha. E você odeia o previsível quase tanto quanto odeia o sol.

Eles estacionaram o carro em um recuo da floresta, a poucos metros dos portões dos fundos de Nunca Mais. O ar estava gélido, e o cheiro de terra úmida e folhas em decomposição era o perfume favorito de Wandinha. Antes que ela pudesse abrir a porta, Tyler segurou seu pulso. A pressão não era agressiva, mas havia uma urgência ali que a fez parar.

— O que foi agora? — perguntou ela, finalmente encarando os olhos dele, que ainda guardavam vestígios do brilho âmbar do Hyde.

— O que aconteceu lá... a forma como você lutou por mim... — Tyler hesitou, buscando as palavras certas, algo raro para alguém que costumava manipular conversas com tanta facilidade. — Você não fez isso apenas para garantir um "ativo". Você poderia ter me deixado lá e levado o cálice. Mas você me protegeu.

Wandinha inclinou a cabeça, as tranças repousando sobre os ombros.

— Proteger o investimento é uma regra básica de qualquer empreendimento bem-sucedido. Deixar você lá seria um desperdício de recursos e uma infração grave à minha própria ética de trabalho. Não confunda eficiência com sentimentalismo, Tyler. É um erro que pode ser fatal.

Tyler soltou o pulso dela, mas não se afastou. Ele se inclinou para o espaço dela, o calor de seu corpo contrastando com o frio que emanava da pele de Wandinha.

— Você pode continuar dizendo isso a si mesma até que se torne verdade na sua cabeça — sussurrou ele, a voz carregada de uma promessa perigosa. — Mas eu vi o seu rosto quando eu quebrei aquele frasco. Você não estava brava por causa do objeto. Você estava... aliviada. Porque agora você não tem a obrigação de me controlar. Agora, se eu ficar ao seu lado, é porque eu quero. E isso assusta você mais do que qualquer monstro.

Wandinha sentiu aquela pulsação incômoda na base da garganta novamente. Ela empurrou a porta do carro, saindo para o ar gelado da manhã.

— Seus delírios de grandeza são quase tão cansativos quanto sua necessidade de validação emocional — disse ela, ajustando o casaco cinza. — Encontre-me na oficina de ferramentas à meia-noite. Temos que tratar das feridas que você adquiriu. O sangue no banco do passageiro é um insulto à minha sensibilidade estética.

***

A Academia Nunca Mais parecia estranhamente comum após o banho de sangue em Vermont. Wandinha caminhou pelos corredores, ignorando o burburinho dos alunos que se preparavam para as aulas. No dormitório Opala, Enid estava ocupada decorando sua metade do quarto com o que pareciam ser guirlandas de flores de papel neon.

— Wandinha! — exclamou a lobisomem, pulando da cama. — Você sumiu por dois dias! Mãozinha disse que você estava em uma "expedição de coleta de espécimes", o que geralmente significa que alguém morreu ou vai morrer. Onde você estava? E por que você cheira a... ozônio e morte?

Wandinha caminhou até sua escrivaninha, colocando a maleta com cuidado.

— Vermont. E o cheiro é uma combinação de rituais de sangue fracassados e a incompetência gerencial do Círculo de Sangue.

Enid franziu o nariz, aproximando-se.

— E o Tyler? Ele estava com você? Wandinha, você sabe que o pessoal da escola ainda está tenso com ele por perto, mesmo que a diretora tenha permitido que ele ficasse sob sua custódia.

— Tyler é um problema meu, Enid — respondeu Wandinha, sentando-se diante de sua máquina de escrever. — E, como todos os meus problemas, ele é tratado com a devida severidade. Agora, se me der licença, preciso documentar os efeitos do veneno de cobra em tecidos necrosados. É uma pesquisa que exige silêncio absoluto.

Enid suspirou, sabendo que não conseguiria arrancar mais nada da colega de quarto.

— Tudo bem, mas se você precisar de alguém para... sei lá, conversar sobre como é ter um namorado monstro que ocasionalmente tenta destruir o mundo, eu estou aqui.

Wandinha parou os dedos sobre as teclas.

— Ele não é meu namorado, Enid. Ele é uma anomalia biológica que eu decidi não erradicar. Há uma diferença vasta e intransponível.

***

À meia-noite, a oficina de ferramentas estava mergulhada em uma penumbra cortada apenas pela luz de uma única lâmpada de óleo que Wandinha trouxera. O cheiro de metal e óleo de motor era reconfortante. Tyler já estava lá, sentado em uma mesa de madeira velha, sem camisa. As cicatrizes em suas costas e peito pareciam mais profundas sob a luz vacilante, marcas de uma vida dividida entre o homem e a besta.

Wandinha aproximou-se com uma bacia de água quente e um kit de primeiros socorros que continha ervas que fariam um médico convencional desmaiar de horror.

— Vire-se — ordenou ela.

Tyler obedeceu, sentindo os dedos frios de Wandinha tocarem a pele ao redor de um corte profundo em seu ombro, cortesia das garras do sacerdote em Vermont. Ele estremeceu, não de dor, mas pela eletricidade que o toque dela sempre disparava.

— Você é muito habilidosa com uma agulha — comentou Tyler, enquanto sentia a linha de sutura atravessar sua pele. — É um talento natural ou apenas anos de prática em bonecos de vudu?

— Pratiquei em porcos mortos e, ocasionalmente, em Pugsley quando ele era irritante o suficiente — respondeu ela, concentrada na tarefa. — A anatomia é uma linguagem, Tyler. Se você souber onde costurar, pode manter qualquer coisa unida. Mesmo algo tão fragmentado quanto você.

— E você? — perguntou ele, virando a cabeça ligeiramente para olhá-la. — Quem costura você quando você começa a se desfazer nas costuras?

Wandinha parou o movimento da agulha por um segundo, seus olhos escuros encontrando os dele.

— Eu não me desfaço. Sou feita de obsidiana e desprezo. Substâncias que não requerem manutenção externa.

Tyler soltou um suspiro pesado, o som ecoando na oficina vazia.

— Você é a mentirosa mais talentosa que eu já conheci. E eu sou um mestre na arte, então sei do que estou falando. Você se esforça tanto para ser esse vazio, essa ausência de tudo... mas na garagem, em Vermont, até mesmo agora... eu sinto. Você está viva, Wandinha. E isso aterroriza você porque, se você está viva, você pode ser ferida de uma forma que uma adaga não consegue alcançar.

Wandinha terminou o último ponto e cortou a linha com um movimento brusco.

— Terminei. Tente não rasgar os pontos com suas crises existenciais.

Ela começou a limpar os instrumentos, mas Tyler se levantou e parou à sua frente, bloqueando seu caminho. A diferença de altura obrigava-a a olhar para cima, algo que ele sabia que a irritava, mas que também criava uma intimidade inevitável.

— Por que você não me deixou ser curado? — perguntou ele, a voz agora baixa, quase um sussurro. — Você poderia ter me forçado a beber aquela poção. Você é mais rápida que eu quando estou na forma humana. Mas você hesitou. Você me deixou escolher. Por quê?

Wandinha apertou o cabo da pinça que segurava.

— Porque uma arma que escolhe ser uma arma é infinitamente mais letal do que uma que é forçada a ser. Eu queria ver se o monstro tinha a espinha dorsal necessária para aceitar sua própria natureza. Você provou que sim.

— Não — disse Tyler, dando um passo para mais perto, encurralando-a contra a bancada. — Você queria ver se eu escolheria você em vez da cura. E eu escolhi.

Ele estendeu a mão e tocou uma das tranças de Wandinha, um gesto de uma audácia que, em qualquer outra pessoa, resultaria em um braço quebrado. Wandinha não se moveu. Seus olhos estavam fixos nos dele, uma batalha silenciosa de vontades.

— Você é um viciado em perigo, Tyler Galpin — disse ela, sua voz mantendo a cadência monótona, embora seu coração estivesse traindo sua calma. — Você busca em mim uma punição que acha que merece pelos seus crimes.

— E você busca em mim a prova de que não é um robô — rebateu ele. — Somos o par perfeito, Wandinha. O monstro que quer ser homem e a garota que quer ser monstro.

Ele se inclinou, seus lábios a centímetros dos dela. O cheiro de sândalo e sangue que sempre parecia acompanhá-lo inundou os sentidos de Wandinha. Por um momento, a máscara de mármore rachou. Ela não o afastou. Ela não sacou a adaga. Ela apenas esperou, o ar entre eles vibrando com uma tensão que parecia prestes a incendiar a oficina.

— Se você me beijar — sussurrou ela —, eu vou ter que arrancar sua língua. É uma questão de protocolo.

Tyler sorriu, um brilho de diversão genuína em seus olhos.

— Vale a pena o risco.

O beijo foi como o encontro de duas tempestades. Não houve doçura, apenas uma fome desesperada e uma reivindicação mútua. Tyler a segurou pela cintura, puxando-a para cima da bancada de ferramentas, enquanto Wandinha enterrava as mãos em seus cabelos, puxando-o para mais perto com uma ferocidade que a surpreendeu. Era um beijo que sabia a metal, a segredos e a uma escuridão que ambos compartilhavam.

Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes. Wandinha ajustou sua gola, sua expressão voltando rapidamente à neutralidade, embora suas bochechas tivessem um leve traço de cor.

— Isso foi... aceitável — declarou ela, embora suas mãos estivessem levemente trêmulas.

Tyler riu, encostando a testa na dela.

— Aceitável? Você é impossível.

— E você é um inconveniente necessário — retrucou ela, empurrando-o levemente para recuperar seu espaço. — Agora, saia daqui. Tenho que limpar a bancada. O sangue de Hyde é notoriamente difícil de remover de superfícies de madeira.

Tyler pegou sua camisa e a vestiu, caminhando em direção à porta. Ele parou e olhou para trás.

— Você sabe que isso não muda nada sobre Vermont, certo? O Círculo de Sangue vai mandar outros. Eles não vão esquecer o que fizemos.

Wandinha voltou a organizar seu kit de primeiros socorros.

— Eu conto com isso. Seria uma decepção se a minha estadia em Nunca Mais se tornasse monótona. E Tyler?

— Sim?

— Se você contar a alguém sobre este interlúdio, eu vou garantir que sua próxima transformação seja a última.

Tyler sorriu, abrindo a porta para a noite escura.

— Seu segredo está seguro comigo, Wandinha. Afinal, eu também tenho uma reputação de monstro impiedoso a manter.

Ele saiu, deixando Wandinha sozinha na oficina. Ela olhou para a bacia de água, agora tingida de vermelho pelo sangue dele. Ela mergulhou as mãos na água fria, sentindo o arrepio percorrer sua espinha.

Ela pegou seu caderno de notas e, na última página, escreveu uma única frase:

*O espécime demonstrou uma resistência inesperada à domesticação, mas uma lealdade absoluta ao caos. A aliança permanece sólida, embora o custo biológico e emocional esteja aumentando. Nota: Monitorar a frequência cardíaca durante interações físicas. A traição da fisiologia é o único inimigo que ainda não derrotei.*

Wandinha apagou a lâmpada de óleo, mergulhando a oficina na escuridão total que ela tanto amava. No silêncio, ela ainda conseguia sentir o gosto de Tyler em seus lábios — um sabor de perigo, de ruína e, pela primeira vez em sua vida, de algo que ela não conseguia classificar apenas como química.

Era o som do vazio sendo preenchido. E, em algum lugar nas sombras de Jericho, o monstro e a mestre estavam, finalmente, em sintonia. A guerra estava apenas começando, mas Wandinha Addams nunca se sentiu tão preparada para o apocalipse. Afinal, o que era o fim do mundo comparado ao caos que ela carregava dentro de si?