Amor sombrio
O Altar da Carnificina e a Geometria do Sangue Negro
A neblina de Vermont não era apenas um fenômeno meteorológico; era um sudário que parecia brotar da própria terra, alimentado pela decomposição de segredos centenários. Dentro do Mustang, o ar estava saturado com o cheiro de ozônio e o calor febril que emanava de Tyler. Wandinha mantinha as mãos firmes no volante, mas seus olhos, rápidos e analíticos, não perdiam um único espasmo do homem ao seu lado. O veneno que ela injetara na cripta — uma mistura sacrílega de beladona, acônito e cinzas de um ancestral Addams que morrera de rir em um funeral — estava reagindo de forma imprevista com a fisiologia do Hyde.
— Wandinha... — a voz de Tyler era um chiado metálico, como se suas cordas vocais estivessem sendo substituídas por arame farpado. — O carro... está ficando pequeno demais.
— Respire, Tyler. A claustrofobia é apenas o Hyde tentando expandir sua massa muscular através de um espaço que ele não possui — respondeu ela, a voz mantendo a cadência de um metrônomo fúnebre. — Mantenha a consciência humana na superfície. Se você se perder no delírio agora, eu terei que usar o kit de emergência, e eu garanto que você não vai gostar da sensação de um escalpo de prata na base do seu crânio.
Tyler soltou um rugido abafado, as mãos cravando-se no painel de couro do carro. As veias em seu pescoço pulsavam em um roxo tão profundo que pareciam prestes a romper a pele.
— Pare... o carro — ele arfou, a íris âmbar consumindo o branco de seus olhos até que restasse apenas um brilho predatório e insano.
Wandinha não hesitou. Ela puxou o freio de mão com uma força violenta, fazendo o Mustang derrapar no cascalho úmido da estrada florestal. Antes que o carro parasse completamente, Tyler escancarou a porta e desabou no chão de terra, seu corpo contorcendo-se em espasmos que faziam seus ossos estalarem como galhos secos.
Ela saiu do carro com sua calma imperturbável, embora o brilho em seus olhos escuros denunciasse uma curiosidade científica que beirava a obsessão. Ela se ajoelhou ao lado dele, ignorando o fato de que seu vestido preto estava sendo manchado pela lama.
— Fascínio biológico — sussurrou ela, observando as linhas negras da toxina subirem pelo rosto de Tyler. — O Hyde não está apenas lutando contra o veneno; ele está tentando devorá-lo. Você é um espécime de resiliência notável, Tyler.
— Dói... — Tyler agarrou o ombro de Wandinha, suas unhas alongando-se em garras que perfuraram o tecido de seu casaco. — Parece que... meu sangue se transformou em vidro moído.
— A dor é a prova de que seu sistema nervoso ainda não foi completamente obliterado pela fera — disse ela, estendendo a mão para tocar a testa dele. Estava fervendo. — A toxina Addams foi projetada para paralisar a alma, mas o Hyde não tem uma alma convencional. Ele tem um abismo. E o meu veneno está tentando preencher esse abismo com agonia.
— Mate-me — ele rosnou, a voz agora uma mistura aterrorizante de humano e monstro. — Antes que eu perca... o que restou de mim.
Wandinha inclinou a cabeça levemente, observando o sofrimento dele com uma intensidade clínica. Ela pegou uma pequena adaga de obsidiana de sua manga.
— A morte seria uma solução preguiçosa, e eu detesto a preguiça intelectual. Você é meu projeto, Tyler. E eu não permito que meus projetos terminem em um acostamento obscuro de Vermont.
Ela pressionou a ponta da adaga contra a palma da própria mão, fazendo um corte limpo. O sangue Addams, escuro e frio, começou a brotar.
— O veneto precisa de um condutor — explicou ela, aproximando a mão ferida da boca de Tyler. — O sangue Addams carrega a linhagem da maldição. Se o Hyde quer devorar a toxina, ele terá que aceitar o dono da toxina como parte de si. Beba.
Tyler hesitou por um segundo, o instinto humano lutando contra a sede de sangue da fera. Mas a agonia era insuportável. Ele agarrou a mão dela e bebeu, o gosto metálico e antigo agindo como um choque elétrico em seu sistema.
O efeito foi instantâneo. As convulsões pararam. O brilho âmbar em seus olhos estabilizou-se, e as veias negras recuaram, deixando apenas cicatrizes pálidas sob a pele. Tyler desabou contra o peito de Wandinha, ofegante, o corpo tremendo não mais de dor, mas de exaustão absoluta.
Wandinha não o afastou. Ela permitiu que ele descansasse a cabeça em seu ombro, suas tranças roçando o rosto suado dele.
— O vínculo foi selado — disse ela, a voz baixa, quase um segredo. — O Hyde agora reconhece o meu sangue como o dele. Você não é mais apenas um monstro, Tyler. Você é a minha sombra manifesta.
— Você é... louca — ele sussurrou, a consciência humana retornando lentamente. — Você se ligou a um monstro de propósito.
— A normalidade é uma prisão para mentes pequenas — respondeu ela, ajudando-o a se levantar com uma força que sua estrutura pequena não sugeria. — Agora, volte para o carro. Temos um longo caminho até New Jersey, e eu prefiro não ser interrompida por patrulhas rodoviárias enquanto carrego um híbrido semi-consciente no banco do passageiro.
Eles voltaram para o Mustang. A tensão que antes era de puro perigo agora havia se transformado em algo mais denso, uma cumplicidade forjada no sangue e na dor. Tyler encostou a cabeça no vidro, observando Wandinha assumir o volante.
— Por que você fez isso? — perguntou ele, depois de alguns minutos de silêncio. — Você poderia ter me deixado lá. O Círculo de Sangue foi destruído. Você não precisava mais de mim.
Wandinha olhou para o retrovisor, seus olhos encontrando os dele por um breve segundo.
— Eu não descarto ferramentas que provaram ser capazes de suportar o meu veneno — disse ela. — E, além disso, Jericho tornou-se terrivelmente entediante sem o seu potencial para o caos.
— Você sentiu falta de ter alguém para torturar? — Tyler deu um sorriso fraco, a primeira centelha do garoto da cafeteria reaparecendo através das sombras.
— Eu senti falta de um desafio à altura da minha própria escuridão — corrigiu ela. — E você, Tyler, é o único que não desvia o olhar quando eu abro as portas do meu inferno particular.
— Talvez seja porque eu já moro nele — disse ele, fechando os olhos enquanto o Mustang avançava pela noite.
A viagem continuou sob o manto da madrugada. Quando cruzaram a fronteira de New Jersey, o sol começava a filtrar-se por entre as nuvens cinzentas, mas dentro do carro, o crepúsculo era eterno. Wandinha dirigia com uma precisão matemática, sua mente já catalogando as novas variáveis da transformação de Tyler. O sangue Addams no sistema dele criaria efeitos colaterais interessantes; ela estava ansiosa para documentá-los.
Chegaram à mansão da família Addams em New Jersey — uma construção gótica que parecia ter sido esculpida em pesadelos e granito — quando o relógio da torre marcou seis badaladas. O lugar estava coberto de hera negra e o ar cheirava a terra úmida e segredos guardados.
— Lar, doce e lúgubre lar — murmurou Wandinha, estacionando o carro.
Tyler saiu, sentindo a força retornar aos seus membros, mas o peso da conexão com Wandinha era constante, uma pulsação no fundo de sua mente que o lembrava de quem ele pertencia agora.
— O que acontece agora? — perguntou ele, observando a imensidão sombria da casa. — Vamos nos esconder aqui para sempre?
Wandinha caminhou até a porta maciça de carvalho, parando com a mão na maçaneta de ferro frio.
— Addams não se escondem, Tyler. Nós nos preparamos. O Círculo de Sangue era apenas um sintoma de uma doença maior. Há forças neste mundo que temem o que nós dois representamos: o controle absoluto sobre o caos.
Ela virou-se para ele, a luz pálida da manhã destacando a palidez de seu rosto e a determinação implacável em seus olhos.
— Você queria ser aceito como homem e monstro. Pois bem. Aqui, você será ambos. Mas entenda uma coisa, Tyler Galpin: a liberdade que eu te dei tem um preço. Você é a minha lâmina, o meu escudo e a minha sombra. E em troca, eu serei a única razão pela qual você não se perderá na própria fera.
Tyler deu um passo à frente, aproximando-se dela até que o aroma de ozônio e tinta de Wandinha o envolvesse completamente.
— Eu já aceitei o preço na cripta, Wandinha — disse ele, a voz firme. — Eu prefiro ser o seu monstro do que o herói de qualquer outra pessoa.
Wandinha assentiu, um gesto sutil de reconhecimento.
— Ótimo. Agora, temos trabalho a fazer. O laboratório no porão precisa ser higienizado, e eu tenho uma nova teoria sobre a condutividade elétrica do sangue de Hyde sob estresse emocional.
— Você nunca para, não é? — Tyler riu, seguindo-a para dentro da mansão.
— O descanso é para os mortos, e mesmo eles têm obrigações na minha família — respondeu ela, enquanto as portas se fechavam atrás deles com um estrondo final, selando o mundo exterior.
Dentro da mansão, o silêncio era absoluto, exceto pelo som dos passos de dois predadores que haviam encontrado, finalmente, o equilíbrio perfeito entre o gelo e o fogo. Wandinha Addams não tinha mais apenas um Hyde; ela tinha um companheiro de escuridão. E enquanto o mundo lá fora continuava sua marcha previsível e banal, dentro daquelas paredes, uma nova e terrível sinfonia estava prestes a começar.
Wandinha caminhou em direção às escadas, parando por um momento para olhar para Tyler, que observava os retratos ancestrais nas paredes com uma mistura de curiosidade e apreensão.
— Tyler? — chamou ela.
— Sim?
— Tente não quebrar as armaduras no corredor. Algumas delas ainda guardam rancores de batalhas passadas e têm o hábito de revidar.
Tyler sorriu, o brilho âmbar em seus olhos agora calmo, mas sempre presente.
— Eu acho que vou me sentir em casa aqui.
Wandinha não sorriu, mas o brilho em seus olhos era o mais próximo que ela chegava de uma satisfação genuína. A peça final do seu tabuleiro estava no lugar. O jogo, agora, era inteiramente dela. E ela não pretendia perder.