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Amor sombrio

O Colapso do Sangue Negro e a Anatomia da Agonia

A estrada que serpenteava para fora de Jericho era um espectro de sombras projetadas pelas árvores retorcidas sob a luz moribunda do crepúsculo. O Mustang avançava com uma determinação mecânica, o ronco do motor sendo o único som a preencher o vácuo entre os dois ocupantes. Wandinha mantinha o olhar fixo no asfalto à frente, sua mente já traçando as rotas menos vigiadas em direção a New Jersey, enquanto Tyler apertava o volante com uma força que fazia as juntas de seus dedos ficarem brancas.

O silêncio, no entanto, começou a ser quebrado por algo que não era o vento ou o motor. Era a respiração de Tyler. Estava ficando pesada, um som úmido e laborioso que parecia vir de pulmões cheios de chumbo.

Wandinha notou a mudança na cadência. Ela não se virou imediatamente, mas seus sentidos, aguçados para detectar a menor flutuação de dor, entraram em alerta máximo.

— Tyler — disse ela, a voz fria, mas com uma nota de atenção cortante. — Sua frequência respiratória aumentou em 40% nos últimos três minutos. Explique.

Tyler não respondeu de imediato. Ele tentou engolir em seco, mas sentiu como se tivesse cacos de vidro na garganta. Sua visão começou a nadar, as luzes do painel do carro se transformando em borrões de neon que pareciam flutuar para fora do plástico.

— Eu... eu estou bem — ele arfou, mas o volante deu um solavanco perigoso para a esquerda. — É só... o calor.

— O sistema de arrefecimento deste veículo está operando com eficiência máxima e a temperatura externa é de dez graus Celsius — rebateu Wandinha, agora virando o corpo para ele. — Suas pupilas estão dilatadas e há um tremor espasmódico no seu músculo masseter. Pare o carro.

— Eu consigo... eu consigo chegar até a próxima cidade — insistiu ele, mas sua voz falhou, transformando-se em um grunhido gutural que não pertencia inteiramente a um humano.

De repente, Tyler soltou um grito abafado, soltando o volante para pressionar as mãos contra o peito. O Mustang começou a ziguezaguear violentamente. Wandinha, com reflexos de uma cobra, esticou-se para o lado do motorista, agarrando o volante com uma mão e puxando o freio de mão com a outra. O carro derrapou, os pneus gritando no asfalto seco até parar bruscamente no acostamento, levantando uma cortina de poeira e folhas mortas.

Tyler desabou contra a porta do motorista, seu corpo sacudido por convulsões violentas. Veias negras, muito mais escuras e proeminentes do que as da cripta, começaram a subir por seu pescoço, ramificando-se como raios de uma tempestade sombria sob a pele de seu rosto.

— Tyler! — Wandinha soltou o cinto de segurança e inclinou-se sobre ele, as mãos segurando seu rosto com uma firmeza quase dolorosa. — Olhe para mim. Mantenha o foco.

— Está... queimando — ele gemeu, os olhos revirando para trás, mostrando apenas o branco injetado de sangue. — Wandinha... o veneno... ele não está saindo. Ele está... se alimentando.

Wandinha praguejou em latim, uma expressão que raramente escapava de seus lábios. Ela abriu a camisa dele com um puxão violento, revelando o peito onde a toxina Addams havia sido injetada. O local da picada não era mais uma ferida limpa; era um centro de necrose pulsante, de onde linhas pretas se espalhavam como uma teia de aranha maligna.

— Erro de cálculo — sussurrou ela para si mesma, os dedos tateando o pulso dele. — O metabolismo do Hyde não está processando a beladona; ele está fundindo a toxina com a própria química do monstro. Você está sofrendo um choque anafilático metafísico.

— Mate-me — Tyler rugiu, sua mão se transformando parcialmente, garras rasgando o estofamento do banco. — Antes que... antes que eu a rasgue ao meio. O Hyde... ele está furioso. Ele acha que você... tentou nos assassinar.

— O Hyde é um imbecil instintivo — disse Wandinha, pegando sua maleta no banco de trás com uma agilidade frenética. — E você é teimoso demais para morrer agora. Eu não dei permissão para o seu sistema biológico entrar em colapso.

Ela abriu a maleta, revelando uma série de frascos que ela havia preparado como contingência, mas a situação era pior do que ela previra. O veneno, misturado ao sangue de Hyde, criara uma substância nova, um ácido orgânico que estava dissolvendo Tyler por dentro.

Wandinha pegou um frasco de essência de mandrágora preta e uma adaga de obsidiana.

— Tyler, escute-me — disse ela, aproximando o rosto do dele, ignorando o rosnado que vibrava no peito dele. — Eu vou ter que fazer uma incisão direta no seu esterno para liberar a pressão dos gases tóxicos. Vai ser excruciante.

— Apenas... faça — ele arfou, o suor escorrendo por sua testa, misturado com um fluido escuro que saía de seus poros.

Sem hesitar, Wandinha posicionou a adaga. Com um movimento firme e cirúrgico, ela cortou a pele e o tecido muscular logo acima do coração de Tyler. Um vapor escuro, com cheiro de enxofre e decomposição, escapou da ferida, fazendo os olhos de Wandinha arderem. Tyler soltou um grito que não era humano, um som que ecoou pela floresta silenciosa, espantando os pássaros das árvores.

— Mantenha-se acordado — ordenou ela, despejando a essência de mandrágora diretamente na incisão. — Se você apagar agora, o Hyde assumirá o controle do cadáver e eu serei forçada a decapitar você. E eu realmente não quero ter que carregar sua cabeça em um frasco de formaldeído tão cedo.

Tyler agarrou os ombros de Wandinha, suas garras perfurando o casaco cinza dela e atingindo a carne. Wandinha não emitiu um som, embora a dor fosse aguda. Ela usou a proximidade para olhar profundamente nos olhos dele, buscando o homem através da névoa de agonia.

— Você disse... — Tyler tossiu, um líquido preto escorrendo pelo canto de sua boca — ...que o caos... era necessário.

— O caos é uma ferramenta, Tyler, não um destino — respondeu ela, suas mãos agora manchadas com o sangue negro dele. — Você é o único que pode conter essa reação. O veneno é a minha vontade; o sangue é a sua. Domine-o. Ordene que suas células parem de se autodestruir.

— Eu não... eu não consigo — ele soluçou, o corpo enfraquecendo. — É demais. A escuridão... ela está me chamando de volta para a caverna.

Wandinha sentiu algo que raramente experimentava: uma pontada de desespero. Ela não podia perdê-lo. Não porque ele fosse uma arma, mas porque ele era o espelho de sua própria alma distorcida.

— Tyler Galpin — disse ela, sua voz subindo de tom, tornando-se um comando que parecia vibrar com um poder ancestral. — Você não tem o direito de me deixar sozinha com a mediocridade deste mundo. Eu reivindiquei você. Você é meu. E eu proíbo que você morra!

Ela inclinou-se e pressionou seus lábios contra os dele. Não foi um beijo de afeto, mas uma transferência de vontade. Ela soprou o ar de seus próprios pulmões para os dele, uma tentativa desesperada de estabilizar o sistema dele com a sua própria energia fria e constante.

Por um momento, o tempo pareceu parar no acostamento daquela estrada deserta. O corpo de Tyler ficou rígido, as veias negras brilharam com uma luz violeta doentia e, então, com um espasmo final, ele relaxou. O vapor escuro parou de sair da ferida e a cor natural, embora pálida, começou a retornar às suas bochechas.

Tyler respirou fundo, um som limpo e profundo, e seus olhos voltaram ao azul humano, embora estivessem nublados pela exaustão.

— Wandinha... — ele sussurrou, a mão soltando o ombro dela, deixando marcas de sangue no tecido.

Wandinha afastou-se, limpando a boca com as costas da mão, seus olhos examinando-o com uma intensidade feroz.

— A crise passou — declarou ela, embora sua própria respiração estivesse ligeiramente acelerada. — A toxina foi neutralizada pelo seu sistema imunológico, mas o esforço causou danos teciduais significativos. Você não vai dirigir pelo resto da noite.

Tyler olhou para a ferida no peito, que já começava a se fechar com a velocidade sobrenatural do Hyde, embora deixasse uma cicatriz feia e irregular.

— Você me salvou — disse ele, olhando para ela com uma mistura de adoração e terror. — De novo.

— Eu apenas consertei o meu próprio erro — rebateu ela, voltando para o banco do passageiro e pegando um pano para limpar as mãos. — Eu subestimei a mutabilidade do seu DNA. Não acontecerá novamente.

— Você estava com medo — disse Tyler, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios, apesar da dor. — Eu senti. Você não estava apenas "consertando um erro". Você estava apavorada.

Wandinha parou de limpar as mãos e olhou para ele. O silêncio no carro era absoluto, quebrado apenas pelo estalar do motor esfriando.

— O medo é uma emoção inútil — disse ela finalmente. — Mas a perda de um companheiro de viagem com o seu potencial de destruição seria... lamentável. Agora, saia do banco do motorista. Eu vou dirigir.

— Você sabe dirigir? — Tyler perguntou, surpreso, enquanto se arrastava para o lado do passageiro com dificuldade.

— Eu aprendi a pilotar um carro fúnebre aos dez anos de idade — respondeu ela, assumindo o volante. — Um Mustang é apenas um caixão com um motor mais barulhento.

Ela engatou a marcha e o carro arrancou, voltando para a estrada com uma suavidade que Tyler não esperava. Ele encostou a cabeça no banco, fechando os olhos enquanto a adrenalina começava a baixar, deixando apenas uma fraqueza profunda em seus ossos.

— Wandinha? — chamou ele, sem abrir os olhos.

— O que é agora? Estou tentando calcular nossa chegada em New Jersey evitando patrulhas rodoviárias.

— Por que você me beijou? — perguntou ele. — Na cripta, você disse que arrancaria minha língua. Mas lá atrás... não parecia um castigo.

Wandinha apertou o volante, seus olhos fixos na estrada escura.

— Foi um procedimento de reanimação de emergência — respondeu ela, o tom de voz perfeitamente plano. — O oxigênio e a transferência de energia psíquica foram necessários para selar a ruptura no seu campo áurico. Qualquer outra interpretação é puramente fruto do seu delírio febril.

Tyler riu baixinho, um som que terminou em uma careta de dor.

— Claro. Procedimento de emergência. Vou tentar lembrar disso da próxima vez que eu estiver morrendo.

Eles continuaram a viagem sob o manto da noite. Wandinha dirigia com uma concentração absoluta, sua mente processando os eventos das últimas horas. Ela olhou de relance para Tyler, que agora dormia um sono pesado e curativo. As marcas de sangue no ombro dela eram um lembrete físico de que a conexão entre eles era muito mais perigosa e profunda do que qualquer veneno que ela pudesse destilar.

Ela percebeu que, ao tentar transformar Tyler na arma perfeita, ela havia criado algo que não podia ser meramente controlado ou descartado. Ele era uma parte dela agora, um eco de sua própria escuridão que se recusava a ser silenciado.

Wandinha Addams não acreditava em destino, mas enquanto o Mustang cortava a neblina, ela sentiu que a estrada à frente não levava apenas para New Jersey. Levava para um território onde as regras de sua família e as leis da ciência não se aplicavam. Um lugar onde o monstro e a mestre eram apenas duas faces da mesma moeda de sangue.

— Durma, Tyler — sussurrou ela, tão baixo que nem mesmo os ouvidos de um Hyde poderiam captar. — O mundo ainda não está pronto para o que nos tornamos. Mas ele não terá escolha a não ser assistir.

Ela acelerou, o Mustang rugindo como uma fera libertada, desaparecendo na escuridão da floresta, deixando para trás os fantasmas de Jericho e o cheiro de beladona e sangue que agora selava o destino de ambos. A viagem estava apenas começando, e Wandinha Addams nunca se sentira tão viva quanto naquele momento, cercada pela morte e pelo caos que ela mesma havia cultivado.