Amor sombrio
O Eco do Abismo e a Promessa de Sangue
O ar na Câmara Secreta era pesado, carregado com o cheiro de milênios de umidade e o odor metálico de magia antiga. Clara caminhava com passos incertos, o som de suas botas ecoando contra o chão de pedra lisa, enquanto as estátuas de serpentes gigantes pareciam segui-la com olhos de pedra. À sua frente, a figura de Tom Riddle era mais nítida do que nunca. Ele não era mais apenas uma projeção pálida; a energia que ele havia drenado dela nos últimos meses — apenas o suficiente para mantê-lo tangível, mas não o bastante para matá-la — permitia que ele caminhasse ali como um deus entre ruínas.
Clara apertou as mãos contra o corpo, sentindo o frio do ambiente penetrar em suas vestes de Sonserina. Ela ainda se sentia a mesma garota que se escondia nos cantos da biblioteca, mas, sob o olhar de Tom, algo nela florescia.
— É aqui, Clara — disse Tom, sua voz ressoando pelas abóbadas de pedra com uma autoridade arrepiadora. — O verdadeiro coração de Hogwarts. O lugar onde a linhagem pura se encontra com o destino.
Clara olhou para a gigantesca face esculpida de Salazar Slytherin.
— É assustador, Tom. Mas... com você aqui, sinto que finalmente pertenço a algum lugar. — Ela desviou o olhar para os próprios pés, a insegurança de sempre retornando. — Mesmo que eu seja apenas uma Weasley.
Tom se aproximou dela com a elegância de um predador. Ele parou a poucos centímetros, e Clara sentiu o calor frio que emanava de sua forma semissólida. Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com a escuridão que ele carregava.
— Você não é "apenas" nada, Clara. Você é a única que teve a coragem de me ouvir. A única que não me olhou com medo ou desprezo, mas com compreensão. — Ele deslizou os dedos pelos cabelos castanhos dela, prendendo uma mecha atrás da orelha. — Eles a chamam de traidora do sangue, mas eu vejo em você uma nobreza que seus irmãos ruivos jamais sonhariam em possuir.
— Ninguém nunca disse coisas assim para mim — sussurrou Clara, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. — Em casa, eu sou o erro. Na escola, sou a piada. Mas aqui...
— Aqui você é minha — interrompeu Tom, sua voz descendo para um tom perigosamente doce.
Ele a puxou para perto, e Clara não resistiu. Pela primeira vez, ela não se sentiu pesada ou desajeitada. Nos braços dele, ela se sentia essencial. Tom a beijou, um beijo que começou frio como o mármore e logo se tornou um incêndio de sensações que Clara nunca experimentara. Era uma magia que não vinha de varinhas, mas de uma conexão visceral e proibida.
Ali, no chão frio da Câmara Secreta, sob a sombra do Rei das Serpentes, o tempo pareceu parar. Tom a despiu com uma reverência quase ritualística, seus olhos escuros devorando cada curva do corpo dela que ela tanto tentara esconder. Ele não via imperfeições; ele via o receptáculo de sua própria salvação e, estranhamente, algo mais. Enquanto suas peles se tocavam, Tom sentiu um estremecimento que não era parte de seus planos. Ele queria usá-la, mas o calor do corpo de Clara, a forma como ela se entregava a ele com uma confiança absoluta, estava criando rachaduras em sua armadura de gelo.
O ato foi uma mistura de desespero e descoberta. Para Clara, era a validação de sua existência. Para Tom, era uma âncora que o prendia a uma humanidade que ele jurara destruir. Quando o silêncio retornou à câmara, apenas com a respiração ofegante dos dois preenchendo o espaço, Tom olhou para a garota deitada ao seu lado sobre sua capa de estudante. Ela parecia radiante, mesmo na penumbra.
Foi nesse momento que ele percebeu.
Se ele continuasse, se ele a forçasse a abrir a câmara completamente e a usasse para o ritual final de ressurreição, Clara morreria. A vida dela seria o preço para que ele se tornasse carne e osso novamente. E, pela primeira vez em seus cinquenta anos de existência consciente como memória, Tom Marvolo Riddle sentiu o gosto amargo da hesitação.
Ele se levantou, sua forma tremeluzindo levemente. Clara o observou, os olhos brilhando com uma devoção que o incomodava profundamente.
— Tom? O que foi? — perguntou ela, sentindo uma mudança súbita no ar.
Tom não respondeu imediatamente. Ele caminhou até onde o diário estava caído no chão de pedra. O pequeno caderno preto, a fonte de todo o seu poder e da conexão entre eles.
— Você confia em mim, Clara? — perguntou ele, de costas para ela.
— Com a minha vida — respondeu ela, sem hesitar, enquanto se vestia apressadamente, pressentindo algo errado.
Tom virou-se, o rosto endurecido em uma máscara de determinação que ela nunca vira.
— Então você precisa ir embora. Agora. E você não vai levar isto com você.
Ele apontou para o diário. Clara franziu a testa, a confusão tomando conta de seu rosto.
— Mas... Tom, eu não posso deixar você. Você disse que estaríamos juntos. Que você me ensinaria a ser forte.
— E eu ensinei — disse ele, sua voz subindo de tom, tornando-se fria e cortante como uma lâmina. — Mas o tempo de brincar de confidências acabou. Você é fraca, Clara. Uma Weasley sentimental. Eu não posso ter você por perto quando o verdadeiro trabalho começar.
As palavras foram como chicotadas. Clara recuou, o coração se despedaçando no peito. A segurança que ela sentira momentos antes evaporou, substituída por uma dor familiar, mas mil vezes mais intensa.
— Você está mentindo — soluçou ela. — Depois de tudo o que aconteceu... você não pode estar falando sério.
— Eu sou o Herdeiro de Slytherin! — rugiu Tom, e a câmara pareceu tremer com sua fúria, embora fosse em parte uma encenação para afastá-la. — Eu não preciso de uma garota carente que chora por causa dos comentários de um irmão idiota. Eu usei você para chegar aqui. E agora que recuperei parte da minha força, você é apenas um estorvo.
Clara tentou avançar, tentou pegar o diário, mas Tom acenou com a mão e uma força invisível a empurrou para trás.
— Saia daqui, Clara Weasley. Volte para sua torre, para sua mediocridade. Esqueça que este lugar existe. Se eu vir você novamente, não serei tão misericordioso.
— Tom, por favor! — ela gritou, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu amo você!
Tom sentiu um solavanco em seu âmago, uma dor física que ele não deveria ser capaz de sentir. Ele apertou o diário com força. Ele sabia que, se ela ficasse, ele a consumiria. E, por um motivo que ele se recusava a nomear como amor, ele não podia permitir que ela desaparecesse.
— Vá! — ordenou ele, sua imagem começando a se tornar esfumaçada enquanto ele se recolhia para dentro das páginas para evitar que ela visse a dor em seus próprios olhos.
Clara correu. Ela correu pelos túneis úmidos, subiu os canos e atravessou o banheiro de Murta-Que-Geme, o choro soluçado ecoando pelas paredes de pedra. Ela se sentia mais vazia do que nunca, mais invisível do que antes de encontrar o diário.
Enquanto isso, nas profundezas da câmara, a projeção de Tom Riddle se ajoelhou no chão. Ele olhou para o diário em suas mãos. Ele havia salvado a vida dela, mas ao custo da única coisa que o mantinha ligado a algo que não fosse ódio.
— Você vai me odiar, Clara — sussurrou ele para o vazio, a voz carregada de uma melancolia que Lorde Voldemort jamais admitiria ter. — Mas você vai viver.
Ele sabia que logo alguém encontraria o diário. Talvez o Potter, ou o velho Dumbledore. Ele seria levado, trancado ou destruído. Mas Clara estaria segura. Ela voltaria a ser a Weasley excluída, mas estaria viva. E, em algum lugar profundo de sua mente, ele esperava que o toque deles na escuridão da câmara fosse a única coisa que ela nunca conseguisse esquecer, assim como ele, em toda a sua eternidade de sombras, jamais esqueceria o calor da garota que o fez hesitar.
Clara chegou ao Salão Comunal da Sonserina, exausta e com a alma em frangalhos. Ela se atirou na mesma poltrona onde tudo começara. Ela não tinha mais o diário. Não tinha mais Tom. Mas, ao olhar para o próprio reflexo no vidro escuro da janela que dava para o fundo do lago, ela notou algo diferente.
Seus olhos não tinham mais o brilho da derrota. Havia uma faísca de fúria, uma centelha do poder que Tom havia despertado nela. Ele a abandonara, ou assim ela acreditava, mas ele a deixara com algo que ninguém mais poderia tirar: a certeza de que ela era capaz de ser vista por um monstro e, ainda assim, ser desejada.
— Eu não sou invisível — sussurrou ela para a própria imagem, limpando as lágrimas com as costas da mão. — E eu nunca mais vou deixar que ninguém me faça sentir assim.
Longe dali, no silêncio da Câmara Secreta, o diário de Tom Riddle brilhou com uma luz fraca e dourada antes de se apagar completamente, guardando o segredo de que até o coração mais sombrio de Hogwarts fora capaz de um sacrifício silencioso.