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Amor sombrio

O Banquete das Sombras e o Peso da Ausência

O Salão Principal de Hogwarts nunca pareceu tão opressor. Para Clara Weasley, o teto encantado, que naquela manhã exibia nuvens cinzentas e pesadas, era um reflexo exato de seu estado de espírito. Enquanto o restante da escola fervilhava com boatos sobre o monstro da Câmara Secreta e o desaparecimento iminente de alunos, Clara estava submersa em seu próprio abismo particular.

Desde que Tom a expulsara da Câmara, a vida de Clara havia se tornado um ciclo monótono de dor e silêncio. Sem o diário, sem a voz de Tom em sua mente, ela se sentia como se tivessem arrancado seus pulmões e esperado que ela continuasse respirando.

Ela puxou a travessa de pudim de rim para mais perto, enchendo o prato pela terceira vez. A comida era a única coisa que preenchia o vazio. Cada garfada era uma tentativa desesperada de calar o grito que ecoava em seu peito. Se ela estivesse mastigando, não precisava falar. Se estivesse cheia, talvez não sentisse tanto a falta daquele calor frio que Tom emanava.

— Olhe para ela — sussurrou Pansy Parkinson, a poucos metros de distância, na mesa da Sonserina. — A Weasley traidora já era enorme, agora parece que quer comer o castelo inteiro. Deve ser o estresse de saber que o Herdeiro de Slytherin logo vai limpar o sangue dela daqui.

Clara não levantou os olhos. Ela apenas empurrou uma batata assada para a boca, sentindo o gosto de cinzas, apesar do tempero. Ela não se importava com Pansy. Ela não se importava com ninguém. A única pessoa que a vira de verdade a tinha descartado como lixo.

Na mesa da Grifinória, o clima era de pânico absoluto. Harry Potter, Ron e Hermione conversavam em sussurros urgentes. Clara os observava de longe, sentindo uma pontada de inveja. Ron, seu irmão, nem sequer olhava em sua direção. Para ele, Clara era apenas a irmã "esquisita" que dera o azar de cair na Sonserina. Ele estava ocupado demais se preocupando com Gina, a caçula ruiva e perfeita que, segundo os boatos, andava agindo de forma estranha.

Clara sentiu uma pontada de culpa, mas a enterrou sob outra camada de purê de batatas. Ela sabia o que estava acontecendo. Ela sabia quem estava por trás dos ataques. Mas quem acreditaria nela? Ela era a Weasley defeituosa.

De repente, a Professora McGonagall entrou no Salão Principal, seu rosto mais pálido do que o habitual, a expressão rígida de puro terror.

— Todos os alunos devem retornar aos seus dormitórios imediatamente! — gritou ela, sua voz falhando levemente. — Professores, para o corredor do segundo andar. Agora!

O pânico se instalou. Clara levantou-se lentamente, sentindo o peso de seu corpo e o peso de seus segredos. Enquanto a multidão de alunos corria, ela viu Harry e Ron se esgueirarem por trás de uma tapeçaria. Eles não iam para o dormitório. Eles iam para a Câmara.

— Harry! Ron! — A voz de Clara saiu fraca, sufocada pela angústia.

Eles não a ouviram. Ninguém nunca ouvia.

***

Horas depois, o silêncio no dormitório feminino da Sonserina era insuportável. Clara não conseguia dormir. Ela sentia uma pressão no peito, uma conexão fantasma que ainda a ligava ao diário, embora ele não estivesse mais em suas mãos. Ela sabia que algo terrível estava acontecendo abaixo de seus pés.

Lá embaixo, na escuridão úmida da Câmara Secreta, o cenário era de pesadelo. Gina Weasley estava estendida no chão frio, sua vida se esvaindo para alimentar a forma cada vez mais sólida de Tom Riddle.

Harry Potter estava parado diante do jovem lorde, a varinha trêmula na mão.

— Solte ela, Riddle! — Harry gritou, a voz ecoando pelas paredes de pedra.

Tom sorriu, um sorriso que não carregava a mesma hesitação que ele sentira com Clara. Com Gina, era puramente funcional. Ela era o combustível. Mas, ao olhar para Harry, algo no fundo de sua memória fragmentada trouxe o rosto de Clara à tona. A dor da despedida, o calor do corpo dela... ele sacudiu a cabeça para afastar a fraqueza.

— Ela não vai acordar, Potter — disse Tom, sua voz suave e cruel. — Quanto mais fraca ela fica, mais forte eu me torno. É uma troca justa, você não acha? Uma vida pequena por uma grandeza eterna.

Harry olhou para a garota ruiva no chão.

— Você está usando a Clara! — gritou Harry, num lampejo de dedução equivocada. — Eu vi como ela estava agindo! Eu vi como ela estava definhando! Você a usou para chegar na irmã dela, não foi? Você usou a Clara Weasley como um degrau!

Tom estacou. O nome dela, pronunciado com tanto desprezo e piedade por Harry, foi como um golpe físico.

— Não fale o nome dela — sibilou Tom, seus olhos brilhando com um vermelho perigoso. — Você não sabe nada sobre Clara.

— Eu sei que ela é uma Weasley! — Harry continuou, tentando ganhar tempo, sem perceber que estava cutucando uma ferida aberta na alma do monstro. — Eu sei que ela é a excluída, a gordinha que ninguém nota. Você escolheu a pessoa mais vulnerável da escola para manipular, porque sabia que ela era patética o suficiente para acreditar em você!

O ar na Câmara pareceu congelar. Tom Riddle, o homem que não conhecia o amor, sentiu uma fúria protetora que desafiava sua própria natureza.

— Ela não é patética! — rugiu Tom, e a força de sua voz fez a água nos canais da câmara vibrar. — Ela é dez vezes o que você ou qualquer um daqueles ruivos jamais serão!

Harry recuou, surpreso com a reação explosiva.

— Então por que ela está morrendo por dentro lá em cima? — desafiou Harry. — Ron disse que ela não para de comer, que ela mal consegue caminhar sem chorar. Você a destruiu, Riddle. Você pegou a única coisa que ela tinha, a esperança, e transformou em veneno.

Tom apertou os punhos. A imagem de Clara descontando sua dor na comida, escondendo-se atrás de camadas de gordura e tristeza porque ele a fizera acreditar que era indesejada, rasgou o que restava de sua sanidade. Ele queria subir lá. Ele queria segurá-la. Ele queria dizer que cada palavra cruel que dissera na câmara fora uma mentira para salvá-la de si mesmo.

Mas ele era uma memória. E ele tinha um destino.

— O que eu fiz foi necessário — disse Tom, embora sua voz tivesse perdido parte daquela frieza absoluta. — E agora, Potter, você vai se juntar à linhagem dos Weasley no esquecimento. *Fawkes!*

A batalha que se seguiu foi um borrão de magia e sangue. Enquanto Harry lutava contra o Basilisco, Tom observava, mas sua mente estava longe. Ele pensava em Clara. Ele pensava em como o mundo bruxo a trataria depois que tudo isso acabasse. Se ele vencesse, ela seria sua rainha, mas seria uma rainha reinando sobre cinzas. Se ele perdesse...

Quando o dente do Basilisco perfurou o diário nas mãos de Harry, Tom sentiu a agonia final. Mas não foi a dor da destruição que o consumiu. Foi a visão do rosto de Clara, chorando no banheiro, pedindo para que ele não a deixasse.

— Clara... — sussurrou a projeção de Tom, enquanto seu corpo começava a se desintegrar em luz dourada e tinta preta.

Naquele exato momento, no dormitório da Sonserina, Clara Weasley sentou-se na cama com um sobressalto. Um grito silencioso morreu em sua garganta. Ela sentiu algo se quebrar dentro de si, uma corda que a mantinha ligada a algo maior. O vazio que antes era preenchido pela presença de Tom agora era apenas... vácuo.

Ela se levantou e caminhou até o espelho. O rosto que a olhava de volta estava inchado pelo choro e pela alimentação compulsiva das últimas semanas.

— Ele se foi — sussurrou ela para o quarto vazio. — Ele realmente se foi.

***

Dias depois, o castelo estava em festa. Gina fora salva, o monstro fora derrotado e Harry Potter era, mais uma vez, o herói.

Clara estava sentada no fundo do Salão Principal durante o banquete de encerramento. Ela observava a família Weasley reunida, todos abraçando Gina, chorando de alegria. Harry e Ron eram o centro das atenções. Ninguém olhou para o canto da mesa da Sonserina. Ninguém perguntou como Clara estava se sentindo.

Ela olhou para o prato cheio à sua frente. Coxas de frango, batatas, tortas. A comida estava lá, oferecendo o conforto de sempre.

— Não — disse ela baixinho.

Ela empurrou o prato para longe. A náusea a atingiu, não pelo excesso, mas pela percepção. Tom a deixara viva. Ele a expulsara para que ela não morresse. Harry Potter pudera chamá-la de patética, seus irmãos puderam ignorá-la, mas o ser mais sombrio que Hogwarts já conhecera a escolhera.

Ela se lembrou do toque dele na Câmara. Do beijo que provara a eternidade.

— Você disse que eu não precisava me esconder — murmurou Clara, fechando os olhos por um segundo e sentindo o fantasma de Tom ao seu lado. — Você disse que eu era sua.

Ela se levantou. Não com a pressa de quem quer fugir, mas com a dignidade de quem finalmente entendeu seu valor. Ela caminhou pelo corredor central do Salão Principal. Desta vez, ela não olhou para o chão. Ela manteve a cabeça erguida, os cabelos castanhos caindo sobre os ombros.

Ao passar pela mesa da Grifinória, Ron a viu.

— Ei, Clara! — gritou ele, com a boca cheia de bolo. — Onde você vai? A festa está só começando!

Clara parou e olhou para o irmão. Pela primeira vez, ela não viu um ídolo ou um juiz. Viu apenas um garoto imaturo que nunca entenderia a profundidade do que ela vivera.

— Eu já tive o suficiente de migalhas, Ronald — respondeu ela, sua voz soando clara e firme, silenciando os alunos ao redor.

Ela continuou caminhando, saindo pelas portas duplas do Salão. Ela sabia que o caminho à frente seria difícil. Ela ainda era a Weasley da Sonserina, ainda tinha as cicatrizes da manipulação de Tom e o trauma da perda. Mas ela não ia mais se afogar em comida ou em autodepreciação.

Tom Riddle a transformara em algo novo. Ele a despertara. E, embora ele fosse um monstro, ele fora o monstro que a ensinara a amar a própria escuridão.

Enquanto caminhava em direção ao lago, onde o sol começava a se pôr, Clara sentiu o vento frio no rosto. Ela colocou a mão no bolso das vestes e encontrou um pequeno pedaço de pergaminho, o único que conseguira arrancar do diário antes de Tom a expulsar.

Não havia nada escrito nele. A tinta desaparecera com a destruição do caderno. Mas Clara pegou uma pena que carregava consigo e, com a mão firme, escreveu uma única palavra no papel em branco:

*Sempre.*

Ela não precisava de um diário mágico para falar com ele. Tom estava gravado em sua pele, em sua alma e na força que ela agora carregava. A garota excluída morrera naquela câmara. O que restava era uma mulher que o mundo bruxo ainda aprenderia a temer — ou a respeitar.

Clara olhou para a superfície espelhada do Lago Negro.

— Eu vou te encontrar de novo, Tom — prometeu ela ao vento. — De um jeito ou de outro.

E, nas sombras profundas do castelo, um eco de riso aristocrático pareceu responder, vindo de um lugar que a morte não podia tocar completamente.

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