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Amor sombrio

O Veneno da Serpente e o Grito da Herdeira

A mansão Malfoy estava mergulhada em um silêncio gélido, mas para Clara, o barulho vinha de dentro. O som das risadas estridentes de Bellatrix Lestrange ecoava pelos corredores de pedra, perfurando a pouca paz que Clara ainda tentava manter. Desde que retornara para os braços de Tom — ou do homem que ele se tornara —, a atmosfera mudara. Ele não era mais apenas o jovem sedutor do diário; ele era o Lorde das Trevas, e sua sede de poder parecia consumir até mesmo os momentos que antes pertenciam apenas aos dois.

Clara caminhava em direção aos aposentos privados, sentindo o peso incomum em seu corpo. Ela atribuía o cansaço à tensão constante, à aura de morte que impregnava a casa. Ao se aproximar da porta entreaberta do gabinete de Tom, ela parou.

— Oh, Milorde... — a voz de Bellatrix era um sussurro lascivo, carregado de uma intimidade que fez o sangue de Clara congelar. — Somente eu entendo a verdadeira natureza da sua glória. Aquela... garotinha de sangue traidor jamais poderá dar o que eu dou.

Clara espiou pela fresta. O que viu foi um golpe direto no coração. Bellatrix estava ajoelhada aos pés de Tom, as mãos subindo por suas vestes negras, enquanto ele mantinha a mão pousada sobre a cabeça da bruxa, os olhos fechados em uma expressão que Clara interpretou como deleite.

— Você é fiel, Bellatrix — a voz de Tom era um sussurro rouco. — Mais fiel do que qualquer um.

Clara não esperou para ouvir o resto. Ela recuou, tropeçando nos próprios pés. A insegurança que ela acreditava ter enterrado voltou com a força de um tsunami. Ela era apenas um brinquedo, uma distração passageira enquanto Bellatrix era a verdadeira companheira de sua alma sombria. O ar parecia ter acabado. Ela levou a mão ao ventre, sentindo uma pontada aguda, mas a dor emocional era tão vasta que abafou qualquer sinal físico.

Desta vez, não houve hesitação. Ela não pegou nada. Usando cada grama de desespero, ela aparatou para fora dos limites da mansão antes que as lágrimas embaçassem sua visão.

***

Semanas se passaram em um borrão de miséria. Clara se escondera em uma cabana abandonada nos arredores de Hogsmeade, um lugar caindo aos pedaços que cheirava a mofo e abandono. Ela mal comia. O enjoo era constante, e a tontura a fazia desabar no chão de madeira podre várias vezes ao dia.

Foi em uma manhã cinzenta que a realidade a atingiu. Ao tentar se levantar, ela sentiu um fluido quente escorrer por suas pernas e uma dor lancinante, como se uma faca estivesse sendo girada em seu baixo ventre. Ela caiu de joelhos, ofegante, as mãos espalmadas no chão sujo.

— Não... — sussurrou ela, a voz falhando. — Agora não.

De repente, a porta da cabana foi estourada. Três figuras de máscaras prateadas entraram, as varinhas em riste. Comensais da Morte.

— Achamos você, traidora — sibilou um deles, a voz distorcida pela máscara. — Milorde quer o que é dele de volta. Mas primeiro, vamos garantir que você não tenha forças para correr de novo.

— Afastem-se! — gritou Clara, tentando alcançar sua varinha, mas uma onda de dor a fez dobrar-se. — Por favor... eu não estou bem...

— Crucio! — o feitiço a atingiu como mil agulhas de fogo.

Clara gritou, mas o grito foi interrompido por um soluço de agonia. Ela sentiu algo se esvair de seu corpo. A vida que ela nem sabia que carregava estava sendo ameaçada pela crueldade dos próprios seguidores do pai da criança.

— Parem! — ela implorou, a voz sumindo. — Eu estou grávida! Parem!

Os Comensais hesitaram por um segundo, mas o líder riu.

— Milorde não mencionou herdeiros. Ele mencionou uma posse fugitiva.

Eles avançaram para agarrá-la, mas o ódio, um ódio mais puro e sombrio do que qualquer coisa que Tom já demonstrara, explodiu de dentro de Clara. Uma onda de magia bruta e não verbal lançou os três bruxos contra as paredes da cabana com tanta força que a estrutura estremeceu.

Ela se levantou, as vestes manchadas de sangue, a visão vermelha de fúria. A dor no ventre ainda estava lá, mas agora era um combustível. Ela não ia morrer ali. E ela não ia deixar que ele continuasse com seu jogo de deuses e monstros enquanto ela sangrava no chão.

Com um estalo que soou como um tiro de canhão, ela aparatou.

***

O Salão Principal da Mansão Malfoy estava lotado. Lorde Voldemort presidia a reunião mais importante do ano. Ele não tinha mais a aparência humana de Tom Riddle; sua pele era pálida como giz, o nariz inexistente, os olhos fendas vermelhas que brilhavam com uma malevolência absoluta. Ele era o pesadelo encarnado.

— Meus amigos — a voz dele era um silvo frio que percorria a espinha de todos os presentes —, a vitória está ao nosso alcance. O mundo bruxo cairá e...

As portas duplas do salão foram escancaradas com tamanha violência que as dobradiças de ferro se partiram.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

Clara Weasley entrou no salão. Ela era uma visão de horror e poder. Seus cabelos castanhos estavam emaranhados, seu rosto pálido estava sujo de terra e lágrimas secas, e suas vestes estavam ensopadas de sangue na altura das pernas. Ela caminhava com uma clareza assassina, ignorando as dezenas de varinhas que se levantaram em sua direção.

— Abaixem as varinhas — ordenou Voldemort, sua voz saindo baixa, quase inaudível. Ele se levantou do trono, seus olhos vermelhos fixos na figura trêmula, mas desafiadora, diante dele.

Clara parou a poucos metros da mesa longa, bem na frente dele. Bellatrix, sentada à direita de Voldemort, soltou uma risadinha nervosa.

— Olhem o que o rato trouxe de volta... — começou Bellatrix.

— CALE A BOCA! — gritou Clara, e a força de sua voz fez os candelabros de cristal acima deles tilintarem.

Ela olhou diretamente para as fendas vermelhas de Voldemort. Não havia medo. Havia apenas um desprezo infinito.

— Você se acha um deus, não é? — ela perguntou, a voz embargada pelo ódio. — O grande Lorde das Trevas. O mestre da morte.

— Clara... — Voldemort deu um passo à frente, sua mão pálida estendendo-se por instinto, mas ela recuou como se o toque dele fosse veneno.

— Seus cães me encontraram — ela continuou, apontando para os Comensais que observavam em choque. — Eles me torturaram. Eles usaram a maldição *Cruciatus* em mim enquanto eu implorava para que parassem.

Voldemort virou a cabeça lentamente para os Comensais no fundo do salão. A temperatura na sala pareceu cair dez graus.

— Eu disse para trazê-la ilesa — sibilou ele.

— VOCÊ NÃO ENTENDE, NÃO É? — Clara deu um passo à frente, batendo a mão na mesa de carvalho. — Você estava ocupado demais com sua glória, com suas mentiras e com essa... essa vadia! — ela apontou para Bellatrix, que empalideceu. — Eu vi vocês dois, Tom! Eu vi!

— Você viu o que eu permiti que visse, sua tola — Bellatrix começou a se levantar, mas Voldemort a silenciou com um gesto brusco.

— Eu fugi porque você me traiu — Clara soluçou, mas seus olhos permaneciam fixos nele. — E eu quase morri hoje. Seus homens quase mataram a única coisa que restava de humanidade em você.

Ela levou a mão ao ventre sangrento, e o silêncio no salão tornou-se absoluto. Voldemort estacou. Seus olhos vermelhos desceram para as manchas de sangue nas vestes dela, e pela primeira vez em décadas, o rosto inumano do Lorde das Trevas mostrou algo que se assemelhava ao choque.

— O que você disse? — a voz dele era um sussurro quebrado.

— Eu estou carregando um filho seu, seu monstro! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Um filho que quase foi arrancado de mim pelos seus próprios seguidores enquanto você se sentava aqui e planejava como dominar o mundo! Você fala de linhagem, fala de herança... e quase destruiu a sua própria!

Voldemort sentiu um impacto que nenhuma magia de Dumbledore jamais conseguira infligir. A conexão que ele tinha com Clara, aquela ligação que ele tentara transformar em posse, vibrou com uma agonia excruciante. Ele viu a dor dela, sentiu o terror da criança através do sangue que os unia.

Ele caminhou em direção a ela, ignorando os olhares atônitos de seus seguidores. Para os Comensais da Morte, ver o Lorde das Trevas hesitar era como ver o sol escurecer.

— Clara... — ele tentou tocar o rosto dela, sua forma monstruosa contrastando violentamente com a fragilidade dela.

— Não me toque! — ela gritou, empurrando o peito dele. — Eu odeio você! Eu odeio o que você se tornou! Eu odeio que eu ainda sinta esse... esse vazio quando você não está por perto! Você me quebrou, Tom. Você me transformou em algo que eu não reconheço, e depois me jogou aos lobos!

— Quem tocou nela? — a voz de Voldemort não era mais um silvo; era um rugido que fez as janelas do salão explodirem em mil pedaços.

Os três Comensais que haviam invadido a cabana caíram de joelhos, tremendo.

— Milorde... nós não sabíamos... a traidora...

— *Avada Kedavra!* — o clarão verde foi triplo, rápido e impiedoso. Os corpos caíram no chão antes mesmo que o eco do feitiço desaparecesse.

Voldemort voltou-se para Clara. Ele não pediu desculpas; ele não sabia como fazer isso. Mas ele se ajoelhou diante dela, ali, na frente de todo o seu exército, em um gesto que destruiu sua aura de invencibilidade para sempre aos olhos daqueles homens.

Ele colocou a mão pálida e de dedos longos sobre o ventre dela. Clara tentou recuar, mas a exaustão finalmente a venceu. Ela desabou para a frente, e ele a segurou, envolvendo-a em suas vestes negras.

— Ele vive — sussurrou Voldemort, sentindo a pulsação fraca, mas persistente, da magia dentro dela. — Ele vive, Clara.

— Eu quero ir embora — ela soluçou contra o peito frio dele. — Me deixe ir, Tom. Por favor.

Voldemort apertou-a com mais força. Seus olhos vermelhos brilharam com uma promessa sombria enquanto ele olhava para o salão, para Bellatrix, para todos os que testemunharam sua fraqueza.

— Nunca — disse ele, a voz carregada de uma possessão que agora tinha um novo e terrível propósito. — Você é minha. Ele é meu. O mundo pode queimar, mas vocês dois são o meu único legado.

Ele a levantou nos braços como se ela fosse feita de vidro soprado.

— A reunião acabou — declarou ele, sua voz ecoando com uma autoridade que não admitia perguntas. — Se alguém, em qualquer momento, ousar olhar para ela com qualquer coisa que não seja submissão absoluta... eu farei com que suas mortes sejam lendas de horror por mil gerações.

Ele saiu do salão carregando Clara. Bellatrix ficou para trás, o rosto retorcido em uma máscara de fúria e ciúme, mas ninguém se atreveu a dizer uma palavra.

Nos aposentos privados, Voldemort colocou Clara na cama. Ele usou sua própria magia para estancar o sangramento, movendo-se com uma precisão que beirava o desespero. Clara o observava, o ódio ainda brilhando em seus olhos, mas misturado com uma exaustão que a impedia de lutar.

— Você acha que isso muda as coisas? — perguntou ela, a voz fraca. — Você ainda é um monstro. Você ainda me traiu.

Voldemort parou, suas mãos pairando sobre o corpo dela. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho — a criatura que ele escolhera ser. Por um breve segundo, a imagem de Tom Riddle, o jovem de cabelos escuros que a amara na Câmara Secreta, pareceu sobrepor-se à monstruosidade.

— Bellatrix é uma ferramenta, Clara. Nada mais — disse ele, e pela primeira vez, havia uma nota de sinceridade em sua voz desumana. — Eu não sinto nada por ela além de utilidade. Mas você... você é a única coisa que me faz lembrar que eu já tive um coração para ser partido.

Ele se inclinou e beijou a testa dela. O toque era frio, mas havia uma reverência ali que ele jamais mostrara a ninguém.

— Durma agora — ordenou ele. — Eu estarei aqui. E quando você acordar, entenderá que este filho será o herdeiro de tudo o que eu conquistar. Ele será o sol que nascerá das nossas sombras.

Clara fechou os olhos, as lágrimas finais escorrendo. Ela sabia que estava presa. Sabia que o amor que sentia por aquele monstro era sua maior maldição. Mas enquanto sentia a mão dele protegendo seu ventre, ela percebeu que a guerra entre eles estava longe de terminar. Ela poderia ser sua prisioneira, sua rainha ou sua ruína, mas ela nunca mais seria a Weasley invisível.

E Tom Riddle, o Lorde das Trevas, sentou-se ao lado dela, vigiando o sono da única mulher que conseguira gritar com o diabo e sobreviver. Naquela noite, ele percebeu que o poder absoluto não era nada comparado ao medo de perder a única coisa que o mantinha ligado à existência. A herdeira das sombras estava a caminho, e Hogwarts, o Ministério e o mundo inteiro tremeriam diante do que estava por vir.

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