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Amor sombrio

O Crepúsculo da Devoção e a Jaula de Vidro

A mansão dos Riddle estava sempre mergulhada em uma penumbra elegante, um reflexo do homem que a governava. Para Clara, as paredes de pedra fria e as tapeçarias pesadas tornaram-se o cenário de uma lua de mel distorcida e eterna. Desde aquela noite no labirinto, o mundo exterior deixara de existir. Não havia mais Hogwarts, não havia mais o peso do sobrenome Weasley, e, acima de tudo, não havia mais a solidão.

Ou, pelo menos, era o que ela tentava repetir para si mesma enquanto observava os flocos de neve caírem do lado de fora da janela de seu quarto.

— Você está distante hoje, Clara.

A voz de Tom surgiu atrás dela, baixa e vibrante, fazendo os pelos de sua nuca se arrepiarem. Ela sentiu as mãos dele — mãos que agora eram perfeitamente sólidas e quentes — pousarem em seus ombros. Ele a puxou para trás, colando o peito dele em suas costas, e depositou um beijo demorado na curva de seu pescoço.

— Só estava pensando no tempo — mentiu ela, fechando os olhos e se entregando ao toque. — Parece que os dias aqui não seguem a mesma lógica do resto do mundo.

— O tempo é uma ferramenta dos fracos, minha querida — sussurrou Tom, virando-a para que ela o encarasse. — Para nós, ele é apenas o pano de fundo da nossa vontade.

Ele a beijou com uma fome que nunca parecia diminuir. Era assim todos os dias, todas as noites. O desejo de Tom por ela era algo voraz, quase violento em sua intensidade. Ele a possuía como se estivesse tentando marcar sua alma, como se cada toque pudesse garantir que ela jamais desapareceria. E Clara, em sua insegurança crônica que ainda latejava no fundo de sua mente, sentia-se validada por aquela obsessão. Se o homem mais poderoso e temido do mundo a queria com tanto desespero, como ela poderia ser a "Weasley errada"?

No entanto, conforme o sexto ano de seus antigos colegas avançava — o ano que todos chamavam de o tempo do Enigma do Príncipe —, algo começou a mudar. A névoa de paixão e proteção que Tom lançara sobre ela começou a dissipar-se, revelando as arestas cortantes da realidade.

A primeira rachadura ocorreu em uma noite de tempestade. Clara saiu de seus aposentos para procurar um livro na biblioteca e, ao passar pelo escritório de Tom, ouviu vozes. A porta estava entreaberta.

— O garoto Malfoy falhou novamente, Milorde — a voz de Bellatrix Lestrange era um misto de adoração e escárnio. — Ele é fraco. Deixe-me terminar o serviço. Deixe-me matar Dumbledore.

— Draco fará o que lhe foi ordenado, Bellatrix — a voz de Tom era fria, desprovida de qualquer traço da ternura que ele mostrava a Clara. — Ou ele terá sucesso, ou sua família pagará o preço em sangue. A falha não é tolerada. A misericórdia é um veneno que eu não pretendo ingerir.

Clara recuou, o coração batendo forte. Ela sabia quem Tom era, é claro. Ela vira as marcas de sangue nas paredes de Hogwarts anos antes. Mas ouvir a frieza com que ele planejava a destruição de um garoto que ela conhecera, a forma como ele falava de vidas humanas como se fossem peças de xadrez descartáveis, fez seu estômago revirar.

Nos dias seguintes, ela começou a observar mais atentamente. Ela viu os Comensais da Morte chegando feridos e saindo com ordens de massacre. Viu Tom torturar um de seus próprios servos por um erro trivial, os gritos de agonia ecoando pelos corredores da mansão enquanto Tom voltava para o quarto deles momentos depois, agindo como se nada tivesse acontecido, querendo o corpo dela com a mesma urgência de sempre.

— Por que você faz isso, Tom? — perguntou ela uma noite, após ele a ter amado com uma intensidade que a deixara exausta e trêmula.

— Faço o quê? — perguntou ele, os dedos traçando padrões preguiçosos no braço dela.

— A crueldade. O medo. Você já tem o poder. Por que precisa do sofrimento?

Tom sentou-se na cama, a expressão suavizando-se em uma máscara de paciência condescendente.

— O mundo é um lugar caótico, Clara. As pessoas precisam de um mestre para lhes dar ordem. O medo é a única linguagem que a massa entende. Eu estou limpando o caminho para o nosso futuro.

— Mas o preço é alto demais — sussurrou ela. — Eu vejo o que você se tornou quando não está comigo. Você é... você é um monstro, Tom.

O silêncio que se seguiu foi gélido. Tom segurou o queixo dela com uma força que quase machucava, forçando-a a olhar nos olhos dele, onde um brilho avermelhado lampejou.

— Eu sou o monstro que te salvou da sua própria insignificância — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Eu sou o monstro que te deu tudo o que você sempre quis. Não tente me julgar com a moralidade pequena dos seus irmãos. Você pertence a mim, Clara. E você aceitou isso no momento em que segurou minha mão na floresta.

Naquela noite, pela primeira vez, Clara não sentiu prazer quando ele a possuiu. Ela sentiu-se como uma prisioneira em uma jaula de ouro, uma distração para um tirano.

A decisão de fugir não veio de um plano elaborado, mas de um impulso de sobrevivência da alma. Clara percebeu que, se ficasse, a parte dela que ainda era humana — a parte que Tom dizia amar — seria devorada pela escuridão dele.

Ela esperou por uma noite em que Tom estivesse em uma reunião secreta no Ministério. Com apenas a roupa do corpo e sua varinha, ela atravessou os limites da mansão. Ela esperava resistência, esperava que os feitiços de proteção a impedissem, mas, para sua surpresa, ela passou sem problemas.

Ela correu pelas florestas de Wiltshire, o frio cortando sua pele, até chegar a uma pequena vila trouxa. De lá, usou o pouco que sabia de magia de camuflagem para se esconder em uma estalagem barata em Londres.

Por três dias, ela viveu no limite do pânico, esperando que a porta fosse derrubada a qualquer momento. Mas nada aconteceu. Ela caminhava pelas ruas movimentadas de Londres, misturando-se aos trouxas, sentindo o gosto amargo e doce da liberdade. Ela sentia falta dele — uma falta física, como uma droga retirada abruptamente —, mas a clareza de estar longe daquela aura de morte era revigorante.

No quarto dia, Clara estava sentada em um pequeno café, observando a chuva, quando um homem se sentou à mesa em frente à sua. Ele usava um sobretudo elegante e lia um jornal, mas havia algo na sua postura que fez o sangue de Clara congelar.

— O café aqui é deplorável, não acha? — perguntou o homem, sem baixar o jornal.

Era a voz dele. Mas não era Tom. Era um dos seus servos, um homem cujo rosto ela não reconhecia, mas cujos olhos carregavam o brilho da magia de Riddle.

— Como você me achou? — perguntou ela, a voz trêmula.

O homem finalmente baixou o jornal e sorriu. Era um sorriso vazio.

— Milorde nunca a perdeu de vista, Clara. Você está usando uma capa de invisibilidade emocional, mas para ele, você brilha como um farol na escuridão.

Clara levantou-se, pronta para correr, mas o homem continuou, calmo.

— Ele não mandou levá-la de volta. Pelo contrário. Ele disse que você precisava deste tempo. Ele quer que você sinta o que é o mundo sem ele. O frio, a sujeira, a mediocridade das pessoas comuns.

— Eu prefiro isso ao horror daquela casa! — cuspiu ela.

O homem deu de ombros.

— Milorde disse que você diria isso. Ele também me pediu para lhe entregar isto.

Ele deslizou um pequeno envelope de pergaminho pela mesa e saiu do café sem olhar para trás.

Com as mãos trêmulas, Clara abriu o envelope. Dentro, havia apenas uma frase escrita com a caligrafia elegante e perfeita que ela conhecia tão bem:

"Sinta o gosto da sua liberdade, Clara. Caminhe sob a chuva, durma em camas desconfortáveis e tente encontrar um propósito entre os mortais. Mas saiba que cada passo que você dá é em meu solo. Cada respiração que você toma é porque eu permito. Eu não preciso de correntes para prender você, pois o seu coração já conhece o caminho de volta para o meu. Quando o frio se tornar insuportável, eu estarei esperando."

Clara amassou o papel, uma mistura de fúria e desespero subindo por sua garganta. Ele estava brincando com ela. Ele a deixara fugir apenas para provar que ela não tinha para onde ir. Ela era um pássaro com a asa quebrada que ele soltara no jardim, apenas para observar suas tentativas inúteis de voo.

Ela passou as semanas seguintes tentando provar que ele estava errado. Ela conseguiu um emprego em uma livraria trouxa, tentou fazer amizades, tentou esquecer o mundo bruxo. Mas Tom estava em toda parte.

Às vezes, ela via um vulto negro no final da rua. Outras vezes, encontrava uma rosa negra deixada na soleira de sua porta. Uma noite, ao ser assaltada em um beco escuro, ela viu o assaltante ser lançado contra a parede por uma força invisível e ter o pescoço quebrado antes mesmo que ela pudesse puxar sua varinha.

— Pare com isso! — gritou ela para o vazio do beco, as lágrimas escorrendo. — Pare de me seguir! Me deixe em paz!

O silêncio foi a única resposta, mas ela sentiu o toque frio de um beijo fantasma em sua testa.

A realização final veio em uma noite de tempestade, muito parecida com a que ela fugira. Clara estava em seu pequeno quarto alugado, tremendo de frio porque o aquecedor quebrara. Ela olhou para suas mãos, agora calejadas pelo trabalho manual, e pensou em sua família. Eles provavelmente achavam que ela estava morta, ou pior, que ela se tornara uma das seguidoras dele. Ela não podia voltar para os Weasley; ela fora maculada pela sombra de Riddle de uma forma que nenhum feitiço de limpeza poderia remover.

Ela percebeu, com um horror paralisante, que Tom tinha razão. O mundo "normal" não tinha lugar para ela. Ela era uma criatura de penumbra, criada e moldada por ele. A liberdade que ela tanto buscara era apenas uma forma diferente de solidão.

Ela pegou sua varinha e, com um suspiro que era metade rendição e metade saudade, murmurou o feitiço de aparatação que conhecia de cor.

O salão da mansão dos Riddle estava silencioso quando ela apareceu. O fogo na lareira estava aceso, projetando sombras longas nas paredes. Tom estava sentado em sua poltrona de couro, um livro de magia antiga no colo e uma taça de vinho na mão. Ele não pareceu surpreso. Ele nem sequer levantou os olhos imediatamente.

— O café em Londres é realmente tão ruim quanto dizem? — perguntou ele, a voz suave e carregada de uma satisfação silenciosa.

Clara caminhou até ele, as pernas pesadas. Ela parou diante dele, desgrenhada, molhada da chuva e exausta.

— Você é um demônio, Tom — disse ela, a voz falhando.

Ele fechou o livro e levantou-se, aproximando-se dela com a elegância de quem venceu uma guerra sem disparar um único feitiço. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, e Clara, apesar de todo o seu ódio pela crueldade dele, inclinou-se para o toque.

— Eu sou o seu demônio, Clara — corrigiu ele. — E você tentou fugir do seu próprio reflexo. Você viu o mundo lá fora? Viu como eles são pequenos? Como as vidas deles são insignificantes e cheias de sofrimentos inúteis?

— Eles são reais — sussurrou ela. — Eles têm bondade.

— A bondade é uma mentira que os fracos contam para se sentirem seguros — disse Tom, puxando-a para um abraço apertado. — Aqui, você é poderosa. Aqui, você é amada de uma forma que nenhum daqueles trouxas ou dos seus irmãos jamais poderia compreender. Você voltou porque sabe que pertence à escuridão, tanto quanto eu.

Clara chorou em seu peito, um choro de derrota absoluta. Ela sabia que ele era ruim. Sabia que ele estava destruindo o mundo que ela um dia conhecera. Mas, naquele momento, sentindo o calor dele e o poder que emanava de sua pele, ela percebeu a verdade terrível: ela preferia ser a rainha de um monstro a ser um nada no mundo dos homens bons.

— Nunca mais me deixe ir — sussurrou ela, entregando-se ao beijo dele, que agora tinha o gosto de vitória e possessão.

Tom sorriu contra os lábios dela, um brilho de triunfo cruel em seus olhos escuros.

— Eu nunca deixei você ir, Clara. Eu apenas deixei você esticar a corda para que soubesse o quanto ela é forte.

Naquela noite, o amor deles foi mais intenso e desesperado do que nunca, uma celebração da captura definitiva. No enigma do príncipe, enquanto o mundo bruxo se preparava para a guerra final, Clara Weasley aceitou seu destino. Ela seria a sombra eterna de Lorde Voldemort, a mulher que amava o homem que não tinha alma, presa para sempre em uma jaula de vidro onde a única luz era o brilho dos olhos de seu captor.

E, enquanto Tom a observava dormir horas depois, ele sentiu uma satisfação que nenhum Horcrux jamais lhe dera. Ele a quebrara, e ao quebrá-la, garantira que ela seria sua para sempre. A liberdade dela fora o seu maior truque, e a volta dela, sua maior conquista. O herdeiro de Slytherin finalmente tinha tudo o que queria: o poder absoluto sobre o mundo e a alma absoluta da única mulher que ousara amá-lo.

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