Amores da minha vida
O Despertar dos Sentidos e a Sombra do Ciúme
A manhã em Vila da Mata nasceu tingida por um dourado pálido, com a neblina rastejando sobre os cafezais como um véu de mistério. Luís Jerônimo acordou com o canto metálico do galo e o aroma de café fresco que subia da cozinha de Dona Generosa. Ele se espreguiçou na cama de ferro, sentindo o corpo menos pesado do que nos dias no Rio de Janeiro. A "fraqueza" que o trouxera até ali parecia dissipar-se diante da adrenalina que os encontros do dia anterior haviam provocado.
Enquanto se vestia, Luís olhou-se no espelho de moldura desgastada. Seus olhos tinham um brilho novo. A lembrança do toque rude, porém devoto, de Tobias em sua mandíbula ainda fazia sua pele formigar; ao mesmo tempo, a suavidade das palavras de Neco e o beijo em sua mão deixavam um rastro de curiosidade intelectual e física. Ele nunca fora disputado daquela maneira — não por homens que exalavam tanta verdade, tanta força bruta e honestidade. No Rio, tudo era jogo, máscara e perfume francês. Aqui, o desejo tinha cheiro de terra e gosto de perigo.
— Bom dia, primo! — exclamou o Coronel Boanerges, batendo com força na mesa de madeira maciça quando Luís entrou na sala de jantar. — Dormiu bem ou os grilos fizeram muita serenata?
— Dormi como há muito não dormia, Coronel — respondeu Luís, sentando-se e aceitando uma generosa fatia de queijo minas. — O ar daqui realmente tem propriedades mágicas.
— O ar e a hospitalidade, não é? — Boanerges riu, mas seus olhos pequenos e astutos observaram o primo com atenção. — Soube que já conheceu o Neco, o filho do Justino. Aquele rapaz é cheio de ideias de girico, quer mudar o mundo com livros. Tome cuidado, Luís. Política e amizade não se misturam bem nessas bandas, ainda mais com a raça daquele velho Justino.
— Ele me pareceu um jovem muito educado, primo. Apenas isso — desconversou Luís, sentindo o peso da rivalidade local.
— Educado ele é. Mas é filho de quem é. Agora, se precisar de companhia de confiança, chame o Tobias. Aquele ali é pau para toda obra. É o melhor sujeito que tenho nessas terras.
Luís apenas assentiu, sentindo o coração acelerar à menção do nome do peão. Mal terminou o café, sentiu uma necessidade quase física de sair, de sentir o sol. Ele não queria apenas respirar o ar puro; queria ver se a intensidade da noite anterior fora real ou apenas um delírio febril.
Ao sair para o pátio, encontrou Tobias encostado em uma cerca, mascando um pedaço de capim enquanto observava o horizonte. O sol da manhã destacava os músculos de seus braços e a postura de quem era dono do chão que pisava. Quando Tobias viu Luís, ele se endireitou imediatamente, e o olhar sombrio que carregava se transformou em algo que beirava a adoração.
— O senhor demorou a acordar — disse Tobias, caminhando em direção a ele com passos pesados e decididos. — Pensei que a friagem da noite tivesse lhe feito mal.
— Pelo contrário, Tobias. Sinto-me revigorado — Luís sorriu, aproximando-se mais do que a etiqueta rural exigiria. — Estava pensando em dar um passeio até a mata. Você me acompanha?
Tobias estreitou os olhos, um lampejo de possessividade cruzando suas pupilas escuras.
— Acompanho. E não deixo ninguém chegar perto. Ontem o senhor foi muito dado com aquele Neco. Ele não é flor que se cheire para um homem como o senhor.
— Um homem como eu? — Luís arqueou uma sobrancelha, divertido. — E que tipo de homem você acha que eu sou, Tobias?
Tobias parou a poucos centímetros de Luís. O calor que emanava do corpo do peão era quase palpável.
— O senhor é um cristal, seu Luís. Coisa fina que a gente tem medo de quebrar só de olhar. Mas eu... eu tenho mãos grossas, mas sei cuidar do que é valioso.
— Você fala como se eu fosse sua propriedade — comentou Luís, a voz baixando de tom, desafiadora e convidativa.
— E se eu quisesse que fosse? — Tobias deu um passo à frente, forçando Luís a recuar levemente até que suas costas encontrassem o tronco de uma mangueira frondosa. — O senhor chegou aqui e virou minha cabeça do avesso. Eu não sou de falar bonito como o filho do Justino, mas eu sinto as coisas com uma força que ele nunca vai conhecer.
Tobias apoiou a mão no tronco da árvore, acima do ombro de Luís, cercando-o. O cheiro de couro e mato era inebriante. Luís sentia a respiração de Tobias em seu rosto. O desejo ali era cru, sem adornos. Antes que qualquer um dos dois pudesse agir, o som de um galope rápido interrompeu o momento.
Era Neco, montado em seu cavalo alazão, parando bruscamente a poucos metros dali. Seu rosto, geralmente sereno, estava marcado por uma expressão de desagrado ao ver a proximidade entre o peão e o rapaz da cidade.
— Vejo que o Tobias continua confundindo proteção com cerco — disse Neco, descendo do cavalo com elegância. — Bom dia, Luís. Espero não estar interrompendo nenhuma... aula de montaria.
Tobias se afastou de Luís lentamente, mas sua mão desceu para o cabo da faca na cintura, um gesto instintivo de defesa de território.
— Você sempre aparece onde não é chamado, Neco — rosnou Tobias. — O seu Luís e eu estávamos de saída para a mata.
— Que coincidência — Neco sorriu, embora o sorriso não chegasse aos olhos. — Eu vim justamente convidar o Luís para conhecer o novo projeto da escola que quero abrir na Vila. Acho que um homem com a instrução dele teria muito a contribuir.
Luís olhou de um para o outro. A tensão era quase elétrica, um duelo silencioso onde ele era o prêmio. Ele sentia uma vaidade deliciosa em ser o motivo da discórdia entre os dois homens mais interessantes da região, mas também percebia que estava brincando com fogo.
— Rapazes — interveio Luís, saindo da sombra da mangueira —, não há necessidade de disputa. Eu tenho o dia todo. Tobias pode me mostrar a mata agora de manhã, e à tarde, Neco, poderei ver seus projetos.
— Eu não gosto de partilhar o meu tempo, seu Luís — disse Tobias, a voz rouca de ciúme.
— E eu não gosto de ver o Luís sendo tratado como se não tivesse vontade própria — rebateu Neco, aproximando-se e colocando-se ao lado de Luís, desafiando a presença física de Tobias. — Você o trata como se ele fosse um bezerro que precisa de cabresto.
— Repete isso, seu almofadinha! — Tobias deu um passo à frente, o peito estufado, a raiva fervendo no sangue caboclo.
— Parem! — Luís se colocou entre os dois, as mãos espalmadas no peito de cada um.
O contato físico foi um choque para ambos. Luís sentiu a firmeza dos músculos de Tobias sob a camisa de algodão e a batida acelerada do coração de Neco através do linho fino. Por um momento, o tempo parou. Os dois homens olharam para Luís, e a raiva em seus olhos foi substituída por uma fome diferente, uma necessidade de aprovação que só ele poderia dar.
— Eu não sou objeto de ninguém — declarou Luís, mantendo o tom de voz firme, embora por dentro estivesse vibrando com a situação. — Se vocês querem minha companhia, terão que aprender a respeitar meu espaço. Tobias, vamos para a mata. Neco, espero você na varanda às quatro da tarde.
Tobias lançou um olhar triunfante para Neco, que apenas apertou os lábios, contendo a frustração.
— Estarei lá, Luís — disse Neco, montando novamente em seu cavalo. — E trarei algo para você ler. Algo que fale sobre a liberdade que você tanto preza.
Neco partiu em um galope, deixando uma nuvem de poeira para trás. Tobias bufou, mas logo se voltou para Luís, seu olhar suavizando.
— O senhor não devia dar corda para ele. Aquele ali só quer lhe confundir a cabeça.
— E você, Tobias? O que você quer? — perguntou Luís, começando a caminhar pela trilha que levava à floresta.
Tobias caminhou ao lado dele, os ombros roçando ocasionalmente.
— Eu quero que o senhor olhe para mim e não veja só um peão de fazenda. Eu quero que o senhor sinta o que eu sinto quando chego perto. É como se a terra tremesse debaixo dos meus pés.
Eles entraram na mata fechada, onde o som dos pássaros e o sussurro das folhas criavam um santuário de privacidade. O ar ali era mais fresco, mas a conversa entre os dois carregava um calor crescente. Tobias guiava Luís por caminhos estreitos, às vezes segurando seu braço para que ele não tropeçasse em raízes expostas. Cada toque era carregado de uma intenção silenciosa.
Em um determinado ponto, onde um pequeno riacho formava uma piscina natural sob a sombra de uma gameleira, Tobias parou.
— Aqui é o lugar mais bonito da fazenda — disse ele, a voz baixa. — Ninguém vem aqui.
Luís aproximou-se da água, observando seu reflexo. Ele sentiu a presença de Tobias logo atrás dele. O peão não hesitou desta vez; colocou as mãos nos ombros de Luís, virando-o lentamente para si.
— Seu Luís... eu nunca vi um homem com a sua pele, com o seu cheiro — sussurrou Tobias, os olhos fixos nos lábios de Luís. — Eu passo as noites em claro pensando no senhor. Isso é doença? Ou é feitiço?
— Pode ser os dois, Tobias — respondeu Luís, sentindo-se desarmado pela vulnerabilidade daquele homem tão bruto.
Tobias inclinou a cabeça, aproximando seu rosto do de Luís. O beijo não aconteceu imediatamente; eles permaneceram naquele espaço liminar onde o desejo se torna quase insuportável. Quando finalmente os lábios se tocaram, foi como uma explosão. O beijo de Tobias era como ele: forte, urgente, com gosto de vida e de posse. Luís correspondeu com uma intensidade que o surpreendeu, suas mãos subindo para a nuca de Tobias, puxando-o para mais perto, sentindo a barba rala arranhar sua pele delicada.
Era um beijo que desafiava as convenções daquela terra, um beijo que selava um pacto perigoso. Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes.
— O senhor é meu — disse Tobias, a voz trêmula de emoção. — Eu não vou deixar aquele filho do Justino chegar perto do que é meu.
Luís sorriu, um sorriso enigmático.
— O dia ainda não acabou, Tobias. E o coração de um homem da cidade é mais difícil de domar do que um cavalo bravo.
A volta para a fazenda foi silenciosa, mas carregada de significados. Tobias caminhava com um novo vigor, como se tivesse conquistado uma batalha. Luís, no entanto, sentia que a guerra estava apenas começando.
À tarde, como prometido, Neco chegou à fazenda. Ele trazia um volume de poesias e uma determinação renovada. Eles se sentaram na varanda, longe dos olhos de Boanerges, mas sob a vigilância constante de Tobias, que fingia limpar uns arreios de couro no galpão próximo, sem nunca tirar os olhos da dupla.
— Eu trouxe isto para você — disse Neco, entregando o livro a Luís. — Fala sobre o amor que não ousa dizer o nome, mas que é o mais forte de todos.
— Você é um homem corajoso, Neco — comentou Luís, folheando as páginas. — Falar dessas coisas aqui, em Vila da Mata...
— A coragem vem da necessidade, Luís. Eu olho para este lugar e vejo tanta beleza desperdiçada pelo preconceito, pela ignorância. E quando eu olho para você, vejo a possibilidade de algo novo. Algo que vai além de cercas e propriedades.
Neco inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre eles na varanda.
— Tobias é um homem da terra, Luís. Ele quer te guardar como se você fosse ouro enterrado. Eu quero que você seja como a luz do sol, que ilumina tudo e a todos. Eu quero caminhar ao seu lado, não na sua frente.
— Você fala com a alma, Neco — disse Luís, sentindo-se tocado pela sinceridade do rapaz. — É difícil não se deixar levar pelas suas palavras.
— Então deixe-se levar — sussurrou Neco, estendendo a mão e acariciando o rosto de Luís com uma delicadeza infinita. — Eu não tenho a força física do Tobias, mas eu tenho uma devoção que não conhece limites.
Neco aproximou-se e, aproveitando um momento em que Tobias estava de costas, depositou um beijo suave e demorado no canto dos lábios de Luís. Foi um contraste absoluto com o beijo de Tobias — era doce, prometia futuro e compreensão.
Luís fechou os olhos, sentindo a dualidade de sua situação. Ele era o centro gravitacional de duas forças opostas e igualmente poderosas. Tobias era o instinto, a paixão avassaladora que o prendia ao presente; Neco era a esperança, o intelecto e o sonho de uma liberdade que ele nunca julgara possível naquele sertão.
— Você vai me causar problemas, Neco — disse Luís, abrindo os olhos e encontrando o olhar apaixonado do jovem político.
— Os melhores problemas são aqueles que valem a pena ser vividos — respondeu Neco com um sorriso.
Ao longe, o sol começava a se pôr, pintando o céu de vermelho e roxo. Luís Jerônimo sabia que as noites em Vila da Mata seriam longas e cheias de sombras. Ele estava no meio de uma disputa que transcendia o afeto; era uma luta por sua alma e por seu corpo.
Tobias, do galpão, viu o movimento de Neco e sentiu o sangue ferver. Ele sabia que não poderia lutar contra as palavras bonitas do rival com a mesma moeda, mas sabia que, no final das contas, naquela terra, o que valia era quem aguentava mais o tranco.
A novela de Luís Jerônimo estava apenas em seus primeiros acordes. Entre o peão valente e o idealista corajoso, o rapaz do Rio de Janeiro descobria que sua saúde não estava voltando por causa do ar puro, mas por causa do fogo que aqueles dois homens haviam acendido em seu peito. Um fogo que ameaçava queimar toda a Vila da Mata se ele não soubesse como conduzir aquela dança perigosa.
Naquela noite, deitado em seu quarto, Luís olhou para o livro de Neco em sua mesa de cabeceira e sentiu o gosto do beijo de Tobias ainda em seus lábios. Ele sorriu para a escuridão. O jogo estava apenas começando, e ele, o protagonista de sua própria história, estava pronto para cada capítulo de paixão e conflito que o destino lhe reservava.