Amores da minha vida
O Banquete de Olhares e a Emboscada do Desejo
O sol de Vila da Mata parecia mais impiedoso naquela manhã, como se a própria natureza estivesse sintonizada com a fervura dos ânimos na Fazenda de Boanerges. Luís Jerônimo, sentado à mesa do café, observava o vapor que subia de sua caneca de ágata. Ele se sentia como um maestro que, tendo regido as primeiras notas de uma sinfonia caótica, agora via os músicos perderem o compasso em favor de uma paixão cega. A notícia do "entrevero" silencioso entre Tobias e Neco no dia anterior já circulava pelas dependências da casa, levada pelo vento e pelos sussurros das empregadas.
— Luís, você parece distraído, rapaz — comentou o Coronel Boanerges, limpando o bigode sujo de gema de ovo. — Se a fraqueza voltou, chamo o Dr. Edmundo agora mesmo.
— Não é fraqueza, primo — Luís respondeu, esboçando um sorriso que não chegava a esconder a inquietação. — É apenas o excesso de vida deste lugar. Às vezes, o silêncio da mata grita mais alto que o barulho do Rio.
— Pois se prepare, que hoje o barulho vai ser de gente. O Vigário vem almoçar, e o Justino mandou dizer que o filho dele, o Neco, viria trazer uns papéis sobre a nova escola. Aquele rapaz não desiste, parece carrapato em couro de boi.
Luís sentiu um sobressalto. Neco viria à fazenda sob o pretexto da política, mas ele sabia que o verdadeiro objetivo eram os olhos castanhos que o esperavam. O que o Coronel não mencionara era que Tobias, como braço direito da fazenda, estaria presente, rondando a mesa como um cão de guarda que pressente a chegada do lobo.
O almoço foi servido sob o calor do meio-dia. A mesa estava farta: arroz carreteiro, feijão tropeiro, couve fininha e uma carne de sol que exalava um aroma irresistível. O Vigário falava sobre as reformas da igreja, mas Luís mal ouvia. Sua atenção estava dividida entre a porta, por onde Neco entraria a qualquer momento, e a janela, de onde ele podia ver Tobias no pátio, afiando uma faca com movimentos lentos e rítmicos, os olhos fixos na entrada da casa grande.
Quando Neco finalmente chegou, o ambiente mudou instantaneamente. Ele estava impecável em seu terno de linho claro, trazendo uma pasta de couro sob o braço.
— Com licença, Coronel. Peço desculpas pela interrupção no horário da refeição — disse Neco, com a voz aveludada que tanto irritava os homens rudes da região.
— Sente-se, Neco! Coma um bocado conosco — convidou Boanerges, mais por obrigação de anfitrião do que por carinho.
Neco sentou-se estrategicamente à frente de Luís. O toque de seus pés por baixo da mesa foi quase imediato, um roçar sutil que fez Luís perder o fôlego por um segundo.
— Como passou a noite, Luís? — perguntou Neco, ignorando a presença dos outros. — O livro que lhe deixei... conseguiu ler o poema sobre o encontro nas sombras?
— Li, Neco. É uma escrita muito... vívida — respondeu Luís, sentindo o rosto esquentar.
Nesse momento, Tobias entrou na sala. Ele não pediu licença. Trazia um par de esporas nas mãos e o cheiro de cavalo e suor que parecia ser sua marca registrada. Ele parou atrás da cadeira de Luís, colocando uma mão pesada sobre o ombro do rapaz da cidade. O gesto era de uma possessividade tão óbvia que o Vigário chegou a pigarrear, desconfortável.
— Coronel, o gado do pasto sul tá inquieto. Acho que tem onça rondando — disse Tobias, a voz saindo como um rosnado, mas seus olhos estavam cravados em Neco. — Ou talvez seja só bicho pequeno querendo se fingir de grande.
— Sente-se e coma, Tobias — ordenou Boanerges. — Deixe a onça para depois.
Tobias puxou um banco e sentou-se ao lado de Luís, tão perto que suas coxas se tocavam. Luís estava agora entre o fogo e o gelo. À sua frente, o intelecto e a sedução planejada de Neco; ao seu lado, a força bruta e o instinto animal de Tobias.
— O senhor Luís estava me contando que gostou das poesias — provocou Neco, servindo-se de um pouco de vinho. — É uma pena que alguns homens só entendam de laço e faca. Perdem a melhor parte da vida, que é a beleza das palavras.
Tobias largou o garfo com um estalo contra o prato de louça.
— Palavra não enche barriga e nem protege quem a gente gosta, Neco. Eu prefiro o que é real. O que eu posso pegar, o que eu posso sentir o calor.
Tobias deslizou a mão por baixo da mesa, encontrando a coxa de Luís. Diferente do toque leve de Neco, a mão de Tobias apertou o tecido da calça de Luís com uma firmeza que era quase um desafio. Luís sentiu uma onda de calor percorrer sua espinha. Ele estava sendo disputado ali, em plena luz do dia, sob o nariz do Coronel e do Vigário.
— A força sem inteligência é apenas brutalidade, Tobias — rebateu Neco, os olhos brilhando de fúria contida. — Luís é um homem de cultura. Ele precisa de alguém que acompanhe seu pensamento, não de alguém que o trate como uma rês.
— Pois essa "rês" aqui — Tobias inclinou-se para o lado, sussurrando perto do ouvido de Luís, mas alto o suficiente para Neco ouvir —, já sabe o gosto do meu beijo. E eu garanto que ele não estava pensando em livro nenhum naquela hora.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Boanerges, felizmente distraído por uma piada do Vigário, não percebeu a gravidade da declaração, mas Neco empalideceu. A mão de Neco, que segurava o copo de vinho, tremeu levemente.
— Isso é verdade, Luís? — perguntou Neco, a voz falhando por um breve instante.
Luís olhou de um para o outro. Ele via a dor e a fúria no olhar de Neco, e o triunfo selvagem no de Tobias. Ele sabia que qualquer resposta poderia desencadear uma tragédia.
— Verdades e mentiras se misturam muito nesse calor, Neco — disse Luís, tentando retomar o controle da situação. — O que importa é que eu sou dono de mim mesmo. E eu aprecio tanto a força quanto a inteligência.
— Pois eu não aceito ser metade de nada — declarou Tobias, levantando-se bruscamente. — Coronel, vou cuidar do gado. Seu Luís, espero o senhor mais tarde lá no curral. Tenho um cavalo novo pra lhe mostrar... um que só aceita um dono.
Tobias saiu pesadamente, deixando um rastro de tensão no ar. Neco levantou-se logo em seguida, a pasta de papéis esquecida sobre a mesa.
— Também já vou, Coronel. Luís... — Neco aproximou-se e pegou a mão de Luís, beijando-a com uma intensidade que beirava o desespero. — Não se deixe enganar pela força do momento. O que é bruto acaba quebrando. O que é verdadeiro, como o que eu sinto, permanece.
Quando ambos saíram, Luís deixou-se cair contra o encosto da cadeira, exausto.
— Esses rapazes estão muito nervosos hoje — comentou Boanerges, palitando os dentes. — Deve ser a lua que vai mudar.
Luís não respondeu. Ele saiu para a varanda, sentindo a necessidade de ar puro. O sol estava começando sua descida, e ele sabia que a noite traria novos desafios. Ele caminhou em direção ao pomar, buscando um pouco de sombra, quando foi interceptado por Tobias, que o esperava atrás de uma das grandes mangueiras.
— O senhor me fez passar vergonha na frente daquele almofadinha — disse Tobias, prensando Luís contra o tronco da árvore. Suas mãos calejadas seguraram os pulsos de Luís, mantendo-os acima de sua cabeça.
— Eu não fiz nada, Tobias. Vocês dois é que se comportam como galos de briga — retrucou Luís, embora seu corpo estivesse reagindo à proximidade esmagadora do peão.
— Eu não sou galo de briga, Luís. Eu sou homem que ama — a voz de Tobias amoleceu, tornando-se um sussurro rouco. — Quando eu vi ele tocando no senhor por baixo da mesa... eu tive vontade de lavar aquela sala com o sangue dele.
— Você é louco, Tobias.
— Sou. Por você.
Tobias atacou os lábios de Luís com uma fome desesperada. Não era um beijo de carinho, era um beijo de marcação. Suas línguas se encontraram em uma batalha de vontades, e Luís sentiu-se sucumbir àquela masculinidade indomável. Ele soltou os pulsos das mãos de Tobias e envolveu o pescoço do peão, puxando-o para mais perto, sentindo o volume do desejo de Tobias pressionar contra seu corpo.
— Me diga que você é meu — exigiu Tobias entre beijos, descendo o rosto para o pescoço de Luís, onde deixou uma marca avermelhada. — Diga!
— Eu... eu estou aqui, não estou? — ofegou Luís, a cabeça pendida para trás.
— Não basta estar aqui. Eu quero que você sinta que pertence a essa terra. A mim.
Tobias desceu a mão para a fivela do cinto de Luís, mas o som de passos nas folhas secas os fez separar-se bruscamente. Era Neco, que não havia ido embora, mas sim rodeado a propriedade para ter uma última palavra com Luís. Ele parou a poucos metros, os olhos cheios de lágrimas de raiva ao ver Luís com a roupa desalinhada e Tobias com o olhar de predador.
— Então é isso, Luís? — perguntou Neco, a voz carregada de mágoa. — Você prefere a lama do curral ao brilho do futuro?
— Neco, não é o que você pensa... — começou Luís, tentando ajeitar a camisa.
— É exatamente o que ele pensa, e é o que é! — gritou Tobias, dando um passo à frente. — Vá embora daqui, Neco! Antes que eu me esqueça que sou empregado do Coronel e te ensine a ser homem!
Neco não recuou. Pelo contrário, ele caminhou até ficar cara a cara com o peão.
— Você pode ter o corpo dele agora, Tobias. Pode usar sua força para prendê-lo. Mas a alma do Luís anseia por algo que você nunca vai entender. Ele é um pássaro, e você é apenas uma gaiola de espinhos.
— Pois esse pássaro gosta do meu ninho — rosnou Tobias.
— Chega! — gritou Luís, as lágrimas finalmente surgindo em seus olhos. — Eu não aguento mais isso! Vocês me tratam como se eu fosse um troféu, uma terra de fronteira que precisa ser conquistada! Eu vim para cá para me curar, e vocês estão me matando de outra forma!
Luís correu em direção à casa grande, deixando os dois homens sozinhos sob a sombra das mangueiras. O silêncio que se instalou entre Tobias e Neco era grávido de uma promessa de violência.
— Isso não acabou, Tobias — disse Neco, limpando uma lágrima solitária. — Eu vou lutar por ele. E eu tenho armas que você nem imagina.
— Pois traga suas armas, doutorzinho — respondeu Tobias, os olhos brilhando como os de uma onça na escuridão. — Porque eu já morri e nasci de novo por causa daquele rapaz. E eu não entrego o que é meu por nada desse mundo.
Naquela noite, a tempestade que se formava no horizonte finalmente desabou sobre Vila da Mata. Raios cortavam o céu, iluminando a silhueta da fazenda. Luís, em seu quarto, ouvia o barulho da chuva contra as telhas. Ele sabia que sua vida no Rio de Janeiro era uma pálida sombra comparada à intensidade do que vivia agora.
Ele se sentou à escrivaninha e abriu o livro de Neco. Entre as páginas, encontrou uma flor seca e um bilhete: "Onde houver escuridão, eu serei sua luz. Não desista de nós."
Luís suspirou, sentindo o peso do bilhete. Ao mesmo tempo, ele olhou para sua própria pele no espelho e viu a marca que Tobias deixara em seu pescoço. Era uma marca de posse, um estigma de paixão que ele não conseguia — e talvez não quisesse — apagar.
Ele estava dividido entre dois mundos. O mundo de Neco, feito de sonhos, progresso e um amor que buscava a elevação; e o mundo de Tobias, feito de carne, terra e uma paixão que o arrastava para as profundezas do instinto.
De repente, uma batida suave na sua janela o sobressaltou. Ao abrir, encontrou Tobias, encharcado pela chuva, os cabelos colados ao rosto, os olhos febris.
— Eu não conseguia dormir — disse o peão, a voz tremendo de frio ou de emoção. — Eu precisava ver se o senhor ainda estava aqui.
Luís não disse nada. Ele apenas estendeu a mão e puxou Tobias para dentro do quarto. O contato da pele gelada e molhada do peão com o calor do quarto criou um contraste eletrizante. Tobias envolveu Luís em um abraço desesperado, molhando seus lençóis e suas roupas, mas Luís não se importou.
— Por que você faz isso comigo, Tobias? — sussurrou Luís, escondendo o rosto no peito largo do homem.
— Porque eu não sei viver de outro jeito. Se o senhor me deixar, eu seco por dentro como árvore sem água.
Enquanto se beijavam sob o som do trovão, Luís sabia que Neco, em sua casa, provavelmente também estava acordado, pensando nele, planejando como resgatá-lo daquela "brutalidade".
A disputa por Luís Jerônimo subira de tom. Não era mais apenas um flerte de verão ou uma curiosidade da roça. Era uma guerra de desgaste onde o coração de Luís era o campo de batalha. E, conforme a chuva lavava a terra vermelha de Vila da Mata, Luís compreendia que, naquela novela de paixões caboclas, não haveria vencedores sem cicatrizes. Ele se entregou ao toque de Tobias, mas sua mente ainda ecoava as palavras de Neco. Ele era um homem amado por dois gigantes, e a queda, quando viesse, seria devastadora para todos.