Amores da minha vida
O Batismo de Fogo e a Promessa de Sangue
A tempestade daquela noite não lavou apenas a poeira das estradas de Vila da Mata; ela infiltrou-se nas frestas das casas e nos poros dos homens, deixando tudo úmido, pesado e carregado de uma eletricidade latente. Dentro do quarto de Luís Jerônimo, o cheiro de terra molhada que emanava das roupas de Tobias misturava-se ao perfume de alfazema que o rapaz da cidade usava, criando uma fragrância inebriante e proibida.
Tobias estava ajoelhado à frente de Luís, que se sentara na beira da cama. O peão, sempre tão altivo e indomável no lombo de um cavalo, parecia agora um devoto diante de um altar. Suas mãos calejadas, que sabiam domar touros bravos e manejar o facão com precisão mortal, tremiam levemente ao tocarem os joelhos de Luís.
— O senhor me desculpe entrar assim, feito um bicho acuado pela chuva — sussurrou Tobias, a voz rouca falhando sob o som do trovão que sacudia as janelas. — Mas eu vi a luz do seu candeeiro e senti um aperto no peito que não me deixava respirar. Pensei que o senhor já estivesse arrumando as malas para fugir de mim... e dele.
Luís estendeu a mão e acariciou os cabelos negros e ensopados de Tobias. O contraste era gritante: a mão pálida e fina de quem nunca pegara em uma enxada contra a pele curtida pelo sol do caboclo.
— Eu não vou fugir, Tobias — disse Luís, sentindo uma onda de ternura que o assustava. — Mas você e o Neco estão transformando esta vila em um campo de batalha. Eu vim buscar saúde, não uma guerra.
— Pois para ter o senhor, eu enfrento o exército inteiro do governo, se for preciso — Tobias levantou o olhar, e Luís viu ali uma centelha de loucura e adoração. — Aquele Neco... ele tem o estudo, tem as palavras que brilham como ouro falso. Eu só tenho este braço e este coração que bate o seu nome como se fosse um berrante chamando o gado.
Tobias puxou Luís para um abraço impetuoso, enterrando o rosto em seu pescoço. Luís sentiu o frio da água da chuva e o calor febril da pele de Tobias. O desejo que emanava do peão era algo telúrico, uma força da natureza que não pedia licença. Luís fechou os olhos e deixou-se levar, suas mãos subindo pelas costas largas de Tobias, sentindo cada músculo tenso.
— Se o Coronel Boanerges sonha que você está aqui... — murmurou Luís, a respiração curta.
— O Coronel é meu padrinho, mas ele não manda no meu querer — Tobias separou-se o suficiente para olhar nos olhos de Luís. — Eu não tenho medo de rabo de saia, nem de farda, nem de Deus. Eu só tenho medo de acordar e ver que o senhor foi embora com as ideias daquele almofadinha.
Antes que Luís pudesse responder, os lábios de Tobias encontraram os seus em um beijo que sabia a chuva e desespero. Era uma entrega total, bruta, que fazia Luís esquecer sua educação refinada e seus modos de dândi. Naquele momento, ele não era o primo do Coronel; ele era apenas um homem desejando outro com uma fome que o Rio de Janeiro jamais lhe despertara.
Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, na fazenda de Justino, Neco não conseguia fechar os olhos. O som da chuva batendo nas telhas de zinco parecia uma contagem regressiva. Ele caminhava de um lado para o outro em seu escritório, cercado por livros de direito e sociologia que, naquela noite, pareciam ferramentas inúteis.
— Ele não entende — murmurou Neco para as paredes silenciosas. — Tobias vai sufocá-lo. Vai trancá-lo em uma redoma de ciúme e ignorância até que o brilho do Luís se apague.
Neco pegou uma caneta e um papel. Sua mente trabalhava rápido. Ele sabia que não venceria Tobias na força física, mas Vila da Mata estava mudando. O progresso chegava com o trem, e com ele, novas formas de poder. Se ele quereria Luís, precisaria oferecer algo que Tobias jamais poderia: um lugar ao seu lado na construção de um novo mundo, onde o amor entre dois homens não precisasse ser um segredo sussurrado entre mangueiras.
— Eu vou tirar você desse curral, Luís — prometeu Neco, selando um envelope com cera vermelha. — Nem que eu precise derrubar meu pai e o Boanerges juntos.
A manhã seguinte nasceu lavada e brilhante. O cheiro de café novo inundava a casa grande, mas o clima à mesa era de um silêncio cortante. Tobias já estava no curral desde o amanhecer, trabalhando com uma fúria renovada. Luís desceu para o desjejum com olheiras profundas, sentindo o corpo moído pela noite de emoções clandestinas.
— Luís, você está mais pálido que ontem — comentou Dona Generosa, preocupada, servindo-lhe uma tigela de coalhada. — Essa chuva da noite deve ter lhe feito mal aos pulmões.
— Foi apenas uma noite inquieta, Generosa — respondeu Luís, evitando o olhar inquisidor do Coronel Boanerges.
— Pois trate de se animar — disse o Coronel, batendo o jornal na mesa. — Hoje teremos um mutirão para consertar a ponte que a chuva levou. Todo mundo vai estar lá. Tobias, os peões e, infelizmente, o pessoal do Justino também vai dar as caras. É questão de honra da Vila.
Luís sentiu um aperto no estômago. Um mutirão significava que Tobias e Neco estariam no mesmo lugar, armados com ferramentas e com o ódio mútuo alimentado pelo desejo.
A ponte sobre o Rio das Almas era o ponto de encontro. Homens de todas as fazendas se reuniram com toras de madeira, cordas e enxadas. O sol começava a esquentar a terra úmida, criando uma névoa que subia do chão.
Tobias estava sem camisa, o corpo suado brilhando sob o sol enquanto carregava uma tora que exigiria dois homens comuns. Ele era a imagem da força cabocla, a personificação do trabalho braçal que construíra aquela terra. Luís, sentado em uma pedra próxima sob a sombra de um chorão, observava-o com uma mistura de admiração e temor.
De repente, o grupo de Neco chegou. O filho de Justino não vestia roupas de trabalho pesado, mas sim botas de couro fino e uma camisa de algodão resistente. Ele trazia mapas e ferramentas de medição.
— Bom dia, Coronel — disse Neco, ignorando as vaias silenciosas dos peões de Boanerges. — Se quisermos que essa ponte dure mais que a próxima enxurrada, precisamos reforçar os pilares centrais com um ângulo diferente.
Tobias largou a tora com um estrondo e caminhou até o centro da estrada, limpando o suor da testa com o braço.
— A gente constrói ponte aqui desde antes de você aprender a ler, Neco — rosnou Tobias. — Não precisamos de desenho de papel para saber onde a madeira finca.
— O mundo mudou, Tobias — rebateu Neco, aproximando-se e fixando os olhos nos do peão. — A força bruta não é mais a única resposta. Se você continuar teimando na ignorância, vai acabar soterrado pelo próprio peso.
— Pois venha me soterrar, então! — Tobias deu um passo à frente, a mão fechada em punho.
— Rapazes! — a voz de Luís ecoou, clara e autoritária, fazendo todos os homens pararem.
Luís caminhou até o centro da disputa. Ele parecia uma figura de outro mundo, tão delicado e elegante em meio àquela rusticidade. Ele olhou para Tobias, cujos olhos brilharam com o segredo da noite anterior, e depois para Neco, que lhe lançou um olhar de súplica e promessa.
— A ponte é para todos — disse Luís, dirigindo-se ao grupo. — Se vocês não conseguem trabalhar juntos por um dia, como esperam que esta Vila prospere? Neco tem a técnica, Tobias tem a força. Por que não usar as duas?
O Coronel Boanerges riu, quebrando o gelo.
— O primo tem razão! Deixe de ser bicho do mato, Tobias. Ouça o que o rapaz tem a dizer sobre os pilares. E você, Neco, trate de pegar numa pá se quiser que o projeto saia do papel.
O trabalho prosseguiu, mas a tensão não diminuiu; ela apenas mudou de forma. Era um balé perigoso de olhares. Sempre que Tobias passava por Luís, ele roçava seu ombro propositalmente, um toque de posse que não passava despercebido por Neco. Neco, por sua vez, aproveitava cada oportunidade para explicar a Luís os detalhes da construção, buscando sua aprovação intelectual, tentando mostrar que ele era o parceiro ideal para um homem de sua estirpe.
No meio da tarde, o calor tornou-se insuportável. Luís decidiu caminhar até a margem do rio para refrescar o rosto. Ele se afastou do barulho das marretas e das vozes grossas, buscando a paz do som da água batendo nas pedras.
— Você não pode continuar brincando com os dois, Luís — disse uma voz atrás dele.
Era Neco. Ele estava ofegante, o rosto sujo de poeira, mas seus olhos queimavam com uma intensidade febril.
— Eu não estou brincando, Neco — respondeu Luís, sem se virar. — Eu estou tentando sobreviver a vocês dois.
Neco aproximou-se e segurou o braço de Luís, virando-o para si.
— Sobreviver? Luís, eu te ofereço uma vida. Eu estou planejando minha candidatura à prefeitura. Eu quero você ao meu lado. Imagine... nós dois, mudando as leis, trazendo a luz para este lugar. Comigo, você não será uma "coisa" a ser guardada. Você será um homem livre.
— E o que é a liberdade, Neco? — perguntou Luís, sentindo a sinceridade nas palavras do jovem. — É viver em um palácio de ideias enquanto o coração pede o fogo da terra?
Neco não hesitou. Ele puxou Luís para um beijo urgente, um beijo que cheirava a suor e determinação. Diferente do beijo de Tobias, que era uma tempestade, o de Neco era como um incêndio controlado, que buscava consumir Luís lentamente, convencendo-o pela persistência.
O que nenhum dos dois percebeu foi a sombra que se projetava sobre eles a partir do barranco acima. Tobias estava parado lá, segurando uma corda grossa, observando a cena. Seu rosto estava transfigurado pela dor e pelo ódio. Ele não gritou. Ele não avançou. Ele apenas deu meia-volta e desapareceu na mata.
Quando o sol começou a se pôr, a ponte estava quase pronta. Os homens começaram a recolher as ferramentas. Luís sentia-se exausto, a mente um turbilhão. Ele queria apenas voltar para seu quarto e tentar entender o que sentia.
— Seu Luís — chamou Tobias, aparecendo de repente ao seu lado enquanto ele caminhava de volta para a fazenda. A voz do peão estava estranhamente calma, o que era mais assustador do que seus gritos.
— Tobias... você terminou o trabalho?
— Terminei o que tinha de terminar — Tobias parou no meio da trilha, bloqueando o caminho. — Eu vi, seu Luís. Vi o senhor com ele lá no rio.
Luís sentiu o sangue fugir do rosto.
— Tobias, me escute...
— Não tenho nada que escutar — cortou o peão, dando um passo à frente. — Eu disse que não dividia o que admirava. Eu dei meu sangue pelo senhor. Eu entrei no seu quarto como um bicho e o senhor me recebeu. Achei que tínhamos um pacto de alma.
— E temos, Tobias! Mas o Neco... ele me mostra coisas que eu nunca pensei...
— Ele lhe mostra palavras! — rugiu Tobias, a calma desaparecendo como palha no fogo. — Eu lhe mostro a vida!
Tobias segurou Luís pela cintura com uma força que quase o machucou e o beijou com uma ferocidade que beirava o desespero. Era como se ele estivesse tentando apagar o rastro de Neco da pele de Luís.
— Se o senhor for dele, Luís Jerônimo — sussurrou Tobias contra seus lábios —, eu juro pelo meu padrinho e por tudo que é sagrado: eu mato o Neco. E depois eu me mato. Porque eu não vou viver neste mundo vendo o senhor nos braços de outro.
Luís estremeceu. Ele conhecia a têmpera dos homens daquela terra. Tobias não estava fazendo uma ameaça vazia; ele estava fazendo um juramento de sangue.
— Você não faria isso — disse Luís, a voz trêmula.
— Tente para ver — respondeu Tobias, soltando-o e desaparecendo na penumbra da tarde.
Luís ficou parado na trilha, o coração batendo descompassado. Ele percebeu que a novela que começara como um idílio de saúde na roça se transformara em uma tragédia grega em solo mineiro. Ele era o centro de um triângulo onde cada vértice estava disposto a sangrar.
Ao chegar à casa grande, encontrou um envelope sobre sua cama. Era o bilhete de Neco que ele vira no escritório.
"Luís, amanhã à noite haverá o baile no armazém da Vila. É a nossa chance de mostrar que as coisas estão mudando. Dance comigo na frente de todos. Reivindique sua liberdade. Eu estarei esperando, e meu coração não aceitará um não como resposta."
Luís sentou-se na cama, o bilhete em uma mão e a lembrança do beijo feroz de Tobias na outra. O baile da Vila seria o cenário do confronto final. De um lado, o convite para a luz e a liberdade de Neco; do outro, o juramento de morte e a paixão possessiva de Tobias.
Ele olhou para a janela. A lua nascia, grande e prateada, iluminando os cafezais. Vila da Mata parecia tão pacífica vista de longe, mas Luís sabia que, sob aquela superfície, o fogo já estava alto demais para ser apagado. Ele teria que escolher. E sabia que, qualquer que fosse sua escolha, o sangue daquela terra cabocla seria derramado.
— Que Deus me ajude — sussurrou Luís para a escuridão do quarto. — Porque eu amo os dois. E esse amor vai acabar destruindo todos nós.
A noite caiu sobre a fazenda, mas o silêncio era apenas aparente. No curral, Tobias afiava sua faca sob a luz da lua. Na vila, Neco ensaiava seu discurso de progresso. E no centro de tudo, Luís Jerônimo, o rapaz da cidade que viera buscar a vida, descobria que a paixão, quando é verdadeira e proibida, é o mais doce e perigoso dos venenos. O baile estava marcado. O destino estava selado. E Vila da Mata nunca mais seria a mesma.