← Voltar ao resumo

Amorpio

Entre Suspiros e Pós Mágicos

Querido Diário,

A Poção Transcrevedora ainda está funcionando, mas as letras estão saindo um pouco trêmulas porque meus dedos não param de batucar no lençol de seda da cama do Scorpio. O coração? Ah, o coração parece um daqueles coelhinhos mágicos saltitantes que a Vovó Dulce cria no laboratório. Ele acabou de sair do quarto de novo — disse que ia buscar um suco de amora (a ironia, Diário, a ironia!) e alguns biscoitos amanteigados.

Eu estou aqui, sentada entre almofadas que cheiram a mistério e aventura, tentando processar aquele beijo. Foi... eletrizante. Se eu fechar os olhos, ainda consigo sentir o toque dele. Mas aí eu abro os olhos e lembro: ele beijou a Florentina. Ele gosta da menina de óculos falsos, cabelo castanho sem graça e roupas largas. Ele não tem ideia de que, por baixo desse disfarce, eu sou a Amora, com meus cabelos roxos e cílios que parecem borboletas.

Como eu fui me meter nessa confusão?

Enquanto ele não volta, eu fico imaginando o caos que deve estar a escola agora. A Lila deve estar a ponto de ter uma combustão espontânea de preocupação. E a Sadi? Se a Sadi descobrir que o primo dela me "sequestrou" (mesmo que tenha sido um sequestro com beijo e travesseiros macios), ela vai derrubar essa mansão tijolo por tijolo.

Ouço passos no corredor. Rápido, Diário, vou esconder você debaixo do travesseiro!

...

Voltei. Ele entrou com uma bandeja de prata. Ele parecia tão... normal. Como se não tivesse acabado de virar meu mundo de cabeça para baixo.

— Aqui está — disse ele, colocando a bandeja sobre o criado-mudo. — Você precisa recuperar as energias. Você estava pálida quando te trouxe.

— Scorpio, a gente precisa conversar sério — eu disse, tentando manter a voz firme, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina de uva. — Você não pode simplesmente sair carregando as pessoas por aí! Minha avó deve estar louca me procurando. A escola... a Lila...

Ele se sentou na beira da cama de novo, e aquele sorrisinho de lado voltou.

— Sua avó sabe que você está segura — mentiu ele, com uma confiança que quase me fez acreditar. — E quanto à escola, um dia de falta não vai matar ninguém. Eu só queria... passar um tempo com você. Sem a Sadi por perto, sem a sua amiga de cabelo azul nos vigiando.

— Mas por que aqui? — perguntei, pegando um biscoito só para ter o que fazer com as mãos. — Por que na Mansão Diabrotic?

— Porque aqui ninguém nos incomoda — respondeu ele, aproximando-se um pouco mais. — E porque eu queria que você visse que eu não sou só o "garoto problema" que todos dizem.

— Você me sequestrou, Scorpio — lembrei, dando uma mordida no biscoito. — Isso conta muito para a pontuação de "garoto problema".

Ele soltou uma risada curta e rouca.

— Talvez. Mas funcionou, não funcionou? Você está aqui. E você não parece estar tentando fugir pela janela.

Eu olhei para a janela. Estávamos no terceiro andar. Mesmo que eu quisesse, não era exatamente uma descida fácil sem uma vassoura ou um feitiço de levitação bem treinado. E, sendo sincera, Diário (só para você), eu não queria fugir.

— Eu não posso ficar muito tempo — suspirei. — O disfarce... quer dizer, eu tenho compromissos.

Ele franziu a testa, aquele vinco entre as sobrancelhas que o deixa tão charmoso.

— Que disfarce?

Meu coração parou. Eu quase entreguei tudo!

— O disfarce... de boa aluna! — improvisei, sentindo o suor frio descer pela nuca. — Se eu faltar muito, a senhorita Dulce vai me dar uma suspensão que vai durar até o próximo século.

— Ela não faria isso com a própria neta — ele disse, dando de ombros.

— Você não conhece a disciplina dela — menti. Na verdade, a vovó é um doce, mas ele não precisa saber disso agora.

O silêncio caiu sobre o quarto, mas não era um silêncio desconfortável. Era carregado. Scorpio esticou a mão e tocou uma mecha do meu cabelo (o cabelo falso, castanho e sem vida da Florentina).

— Você é diferente, Florentina. Tem algo em você... um brilho que você tenta esconder atrás desses óculos. Eu sinto que você guarda um segredo enorme.

Eu engoli em seco. Se ele soubesse...

— Todos temos segredos, Scorpio — respondi, tentando parecer misteriosa e não aterrorizada.

— O meu segredo é que eu não consigo parar de pensar em você — ele confessou, a voz caindo para um sussurro. — Desde o primeiro dia em que você apareceu na escola com esse jeito tímido.

— Mas eu sou só a Florentina — eu disse, e doeu um pouco dizer isso. — Uma menina comum. Por que não a Amora? Ela é... sabe, neta da Dulce também, tem cabelos roxos, é muito mais interessante.

Scorpio fez uma careta de desdém que me pegou de surpresa.

— A Amora? Aquela garota metida que vive se escondendo no castelo? Ela pode ter o cabelo da cor que for, mas não tem a sua doçura. A Amora é só uma lenda urbana da escola. Você, Florentina... você é real.

Diário, eu não sabia se ria ou se chorava. Ele gosta da minha versão "disfarçada" e acha a minha versão real "metida"! Isso é um desastre de proporções mágicas!

Enquanto eu tentava processar o fato de que meu crush me acha uma lenda urbana chata, ouvimos um barulho vindo do andar de baixo. A porta da frente da mansão foi escancarada com um estrondo que fez os quadros nas paredes tremerem.

— SCORPIO DIABROTIC! — a voz da Sadi ecoou pelas escadarias. — EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ! E É BOM A FLORENTINA ESTAR COM VOCÊ, OU EU VOU TRANSFORMAR SEUS CABELOS ESPETADOS EM MINHOCAS!

Scorpio arregalou os olhos.

— Droga. A Sadi chegou cedo.

— Ela vai me ver aqui! — entrei em pânico, pulando da cama. — Ela vai contar para todo mundo! E a Lila... a Lila vai ter um ataque!

— Calma — disse Scorpio, levantando-se e tentando me segurar pelos ombros. — Eu dou um jeito nela. Fica aqui, não sai desse quarto.

— Não sair? Scorpio, ela é sua prima! Ela vai revirar a casa toda!

— Confia em mim — ele pediu, e por um segundo, aquele olhar dele me desarmou completamente.

Ele saiu rápido, fechando a porta atrás de si. Eu encostei a orelha na madeira fria, tentando ouvir o que estava acontecendo lá embaixo.

— Onde ela está, Scorpio? — Sadi gritava. Eu conseguia imaginar ela com as mãos na cintura, soltando faíscas pelos olhos. — A Lila está surtando! Ela acha que a Florentina foi sequestrada por um trasgo ou coisa pior!

— Um trasgo? — Scorpio respondeu, fingindo ofensa. — Que falta de fé na segurança desta cidade.

— Não brinque comigo! — Sadi rebateu. — Eu vi você saindo do castelo ontem à noite carregando um embrulho grande. Eu achei que fosse algum artefato roubado, mas quando a Florentina não apareceu na aula... as peças se encaixaram. Onde você a meteu?

— Ela está descansando, Sadi. Ela não estava bem.

— Descansando? Na nossa casa? Sem avisar ninguém? Você perdeu o juízo de vez?

Eu precisava fazer alguma coisa. Se a Sadi subisse e me visse ali, o interrogatório seria eterno. E se a Lila chegasse junto... ah, a Lila! Ela ia acabar contando que eu sou a Amora só pelo estresse de me ver "sequestrada".

Olhei ao redor do quarto. Tinha um armário grande de carvalho escuro. Talvez eu pudesse me esconder lá? Não, óbvio demais. A janela? Não, altura demais.

Foi então que notei algo na bandeja que o Scorpio trouxe. Um pequeno frasco de vidro azul que ele deve ter deixado cair do bolso. Era um "Elixir de Invisibilidade Temporária" — um dos experimentos falhos da família Diabrotic que costumavam durar apenas alguns minutos.

"É agora ou nunca", pensei.

Bebi o conteúdo de um gole só. Tinha gosto de chiclete de menta com terra. Senti um formigamento subindo pelos meus pés até o topo da minha cabeça. Olhei para minhas mãos e elas começaram a desaparecer, tornando-se transparentes como vidro.

A porta do quarto se abriu num estrondo. Sadi entrou primeiro, seguida por um Scorpio que tentava, sem sucesso, barrar a entrada dela.

— Viu? — disse Scorpio, apontando para a cama vazia. — Não tem ninguém aqui.

Sadi olhou ao redor, desconfiada. Ela chegou a passar a mão pelo lençol onde eu estava sentada há poucos segundos. Eu estava parada no canto do quarto, prendendo a respiração, rezando para que ela não esbarrasse em mim.

— Estranho — murmurou Sadi. — Eu tinha certeza... o cheiro dela está aqui. Aquele perfume de flores silvestres que ela usa.

— Deve ser sua imaginação — disse Scorpio, mas eu vi o olhar confuso dele varrendo o quarto. Ele sabia que eu estava ali algum lugar.

— Se eu descobrir que você está escondendo ela, Scorpio, eu juro que conto para a tia Beatriz que você quebrou o vaso de cristal da dinastia Ming — ameaçou Sadi, saindo do quarto ainda resmungando.

Scorpio esperou ela descer as escadas antes de sussurrar para o ar:

— Florentina? Onde você foi?

Eu ainda estava invisível, mas o efeito estava começando a passar. Minhas mãos estavam voltando a aparecer, primeiro como sombras, depois ganhando cor.

— Estou aqui — sussurrei, aparecendo bem na frente dele.

Ele deu um passo para trás, surpreso, e depois sorriu.

— Invisibilidade? Nada mal para uma "menina comum".

— Eu aprendi uns truques com a minha avó — respondi, meu coração ainda acelerado. — Scorpio, eu preciso ir embora. Agora. A Sadi não vai desistir e a Lila deve estar chamando a guarda real a esta altura.

Ele suspirou, parecendo derrotado.

— Tudo bem. Eu te levo pelos fundos. Mas... isso não acabou, Florentina.

— Eu sei que não — respondi, e por um momento, a vontade de contar a verdade quase escapou pelos meus lábios. "Eu sou a Amora, Scorpio! A garota que você acha metida é a mesma que você acabou de beijar!"

Mas o medo foi maior. O medo de que ele não gostasse da Amora real. O medo de que tudo o que construímos como "Florentina e Scorpio" desaparecesse se a máscara caísse.

Ele me guiou silenciosamente pelos corredores sombrios da mansão até uma porta lateral que dava para o jardim de ervas venenosas. O ar fresco da tarde bateu no meu rosto e eu me senti um pouco mais centrada.

— Vá — disse ele. — A gente se vê amanhã na escola?

— Com certeza — eu disse, começando a correr em direção à trilha que levava ao castelo.

Parei por um segundo e olhei para trás. Ele ainda estava lá, parado na porta, o cabelo espetado brilhando sob o sol poente.

— Scorpio! — gritei.

— O quê?

— O beijo... não foi um truque de mágica, foi?

Ele sorriu, aquele sorriso que me faz esquecer até o próprio nome.

— Foi a melhor magia que eu já fiz.

Corri o resto do caminho como se tivesse asas nos pés. Quando cheguei perto do castelo, vi a Lila e a Sadi conversando perto do portão principal. A Lila parecia estar à beira de um colapso nervoso, gesticulando freneticamente com as mãos.

— ...e se ela foi levada por um dragão errante? — Lila dizia, as tranças azuis balançando. — Sadi, você tem que fazer alguma coisa!

— Eu já disse, Lila, eu vasculhei a casa! O Scorpio está agindo estranho, mas ela não está lá — Sadi respondia, parecendo igualmente frustrada.

Respirei fundo, ajeitei meus óculos falsos, conferi se meu cabelo castanho estava bem preso e saí de trás de uma árvore, fingindo estar ofegante.

— Meninas! — chamei.

As duas viraram ao mesmo tempo. A Lila correu na minha direção e me deu um abraço tão apertado que quase me deixou sem ar de verdade.

— FLORENTINA! Onde você estava? — gritou ela. — Eu achei que você tinha sido desintegrada!

— Eu... eu me perdi na floresta coletando ervas para a vovó! — menti descaradamente, olhando para a Sadi. — O tempo passou e eu acabei pegando um atalho errado.

Sadi me olhou de cima a baixo, os olhos estreitos.

— Um atalho errado que te deixou com cheiro de incenso de sândalo e biscoitos amanteigados? — perguntou ela, cruzando os braços.

Meu coração gelou. A Sadi é inteligente demais para o meu próprio bem.

— A vovó... ela queima incenso no laboratório — improvisei. — E eu comi uns biscoitos antes de sair.

Lila me deu um olhar que dizia claramente: "Nós vamos conversar sobre isso depois, e você vai me contar cada detalhe".

— O importante é que ela está bem — disse Lila, puxando-me para dentro do castelo. — Vamos, Sadi, o mistério acabou. A Florentina só é... desastrada.

— É — murmurou Sadi, ainda desconfiada. — Desastrada. Sei.

Elas se despediram e eu finalmente entrei no meu quarto. Tranquei a porta, me joguei na cama e deixei o disfarce cair. Meus cabelos roxos se espalharam pelo travesseiro como uma explosão de cor.

E agora estou aqui, Diário, escrevendo isso tudo enquanto a Poção Transcrevedora gasta seus últimos pingos de magia.

Eu estou em êxtase e em pânico. O garoto dos meus sonhos me beijou, mas ele beijou uma máscara. A minha melhor amiga quase teve um infarto. A prima dele suspeita de tudo. E eu? Eu sou a Amora, a princesa desastrada que está vivendo uma vida dupla digna de um livro de espionagem mágica.

O que vai acontecer amanhã na escola? Como vou olhar para o Scorpio sem lembrar do toque dele? E como vou esconder esse brilho nos meus olhos que nem os óculos da Florentina conseguem apagar?

Acho que a vovó Dulce vai notar que estou diferente. Ela sempre nota.

Preciso descansar. Amanhã o dia vai ser longo. E, Diário... acho que estou começando a gostar desse perigo. Só um pouquinho.

Boa noite, Diário. (E obrigada, Poção Transcrevedora, você foi uma salva-vidas hoje!).

— Amora (a garota que foi sequestrada e amou cada segundo).

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.